Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Morreu hoje (31/10) uma de minhas admirações no rádio: ALFREDO BORBA (S. Paulo, 1926). É possível que muita gente não saiba quem ele foi. Conto. Minha paixão pelo veículo levou-me na época a comprar um rádio de cinco faixas de ondas para ou...vir emissoras distantes e um destes locutores foi o Borba. Borba era delegado de polícia na vida civil e tinha um programa onde avaliava os discos de MPB. Ele dizia umas brefaias engraçadíssimas e terminava “quebrando” os discos reprovados. Ele tinha espasmos de ódio quando ouvia Odair José. Ridicularizava a canção “volta do boêmio” do tripeiro Adelino Moreira (onde já se viu um boêmio “rever os teus rios, teus montes, cascatas...”). Com ele aprendi o significado da palavra jabá no contexto musical. Borba também era cronista esportivo. Ele não era um mero recitador de estatísticas como são os comentaristas de hoje. Ele tinha opinião. Era corintianíssimo, tanto que compôs várias marchinhas de carnaval para o seu time. Ele também pertenceu a melhor equipe esportiva que existiu no rádio brasileiro: Milton Peruzzi (o chefe), Peirão de Castro, Barbosa Filho (torcedor do Sampaio Moreira, alguém sabe onde fica?), Geraldo Blota (o repórter que entrevistou Pelé no milésimo gol), Zé Italiano (que imitava o Vicente Mateus e começava todo campeonato com a expressão, “O Corinthians é líder, invicto e isolado”) e uma série de coadjuvantes que iam sendo trocados todos os anos. Eu gostava da Mesa Redonda destes caras, porém na hora das narrações dos jogos e lutas de boxe ouvia a Equipe 1040 da Tupi, que era mais sóbria. Na época eu podia organizar o dia em volta dos programas. Começava pela manhã com Fausto Canova no Show da Manhã (Jovem Pan), onde o principal eram as trocas entre ouvintes – era possível oferecer um papagaio por um sofá. Depois girava o dial para a Tupi onde estava Barros de Alencar (“Feliz natal e uma bacia d´água para você” era a sua saudação aos ouvintes que telefonavam a ele), Miguel Vaccaro Neto (“Não diga não, nem né”), ao meio dia fugia para a Bandeirantes onde estava o Helio Ribeiro.... Nos domingos tinha o programa da pesada: Projeto Minerva, que funcionava como um curso superior de MPB. Ali era possível saber até quem fora o parteiro de Noel Rosa: Dr. Graça Melo, lembro até hoje. Na época o amigo Manuel Vicente (já falecido) reprovava o meu gosto: “---Você não ouve o Big Boy na Radio Mundial?” Perguntava furioso e já sabendo da resposta comentava pesaroso. “Uma pessoa que não conhece o Big Boy não irá longe na vida...” Era algo para me preocupar, pois o Manél já estava bem encaminhado, nascera na família Veríssimo, donos do supermercado Eldorado. Hoje quando sintonizo o rádio e ouço algumas destas vozes imortais, tenho a sensação que meu pai voltou e minha mãe ainda está ralhando comigo: “Você está todo sujo. Estava fazendo o quê?”. No vídeo, Borba é o sétimo jurado a se manifestar entre Adelino Moreira e Lupicínio Rodrigues, começa na minutagem 2:28 http://www.youtube.com/watch?v=dCpkxyL7QdI

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