Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

COMO ERA CELEBRADO O YOM KIPPUR (“DIA GRANDE”) ENTRE OS DESCENDENTES DE CRISTÃOS-NOVOS DO NORTE/NORDESTE PORTUGUÊS NO SÉCULO PASSADO (CIRCA 1920) “Festeja-se no dia 11 da Lua de Setembro. É jejum absoluto de vinte e quatro horas. Durante quarenta dias antes não se come carne de porco, e de nenhuma espécie pelo tempo de onze dias anteriores ao de Kippur. A Exmª Srª D. HERMÍNIA BASTO, em informação... que se reporta, como dissemos, a 1910, escreve que são trinta dias (e não quarenta) e que era permitido comer ave de pena. E acrescenta os seguintes e curiosos pormenores: “Na véspera do dia dão as suas esmolas, preferindo sempre da-las a sua gente (cristãos novos). Essas esmolas, que constam principalmente de azeite, são mais avultadas se é a primeira vez que se faz o DIA e, nesse caso, se é homem tem de vestir e calçar um homem por completo, se é mulher faz o mesmo a uma mulher. Fazem também nesse dia as torcidas de linho, tantas quantas as suas devoções, isto é, por alma de parentes, etc., havendo até quem ponha já torcida por sua alma e por alma de pessoas ainda vivas, com medo de que a sua morte não fique quem lhe faça o seu BEM DE ALMA. Antes de começarem o jejum tomam banho, vestem-se com as melhores roupas, tendo sempre alguma coisa para estrear. O jejum vai desde o por do Sol de um dia até a aparição da primeira estrela no outro dia. Antes de entrarem no jejum ceiam muito bem, depois nem água se pode beber até o fim; acabado o jejum ceiam ainda melhor que na véspera e nessa ceia, que consta principalmente de fritos e doce de calda, há sempre um prato de galinha, porque antes de se comer ave de pena não podem começar a comer da outra carne. Durante o dia do Senhor, ardem as torcidas, que foram acesas com a competente reza, depois de postas em pires com azeite. Essas luzes (uma em cada pires) são para salvação das almas dos que morreram e para alumiar o ALTISSIMO SENHOR QUE NOS CRIOU. Não é permitido a estranhos a entrada na sala em que estão os que jejuam, porque decerto vão TRÊFOS; não se querem lá cheiros de homem e ainda menos de mulher que pode estar menstruada. Não estou bem certa, mas creio que mulher menstruada não pode fazer o jejum. Fora da hora das rezas podem conversar, o que não podem é comer, nem beber, nem dormir de dia. O livro das rezas é a Bíblia de onde leem principalmente os Salmos de David” Os Cristãos, em outros tempos, iam as portas dos Judeus e gritavam: “Ó Judeu, já nasceu a Lua, Dá cá batata crua (...)” VASCONCELOS, J. Leite de. Etnografia Portuguesa, IV, pp. 210-1. FOTO: DONA OLIVIA TABACO, Mogadouro

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