Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 30 de agosto de 2014

Macau está entre nós e pouco sabemos dela. Dei-me conta disto quando procurei a origem dos Cristos “chineses” de Cachoeira, na Bahia e voltei os olhos para esta porção oriental de Portugal. Encontrei macaenses no Brasil, soube do poeta Camilo Pessanha, do colecionador José Vicente Jorge e do Sr. Neco. LEONEL Zilhão Ayres da Silva BARROS (1924-2011), o Neco, não conheceu limites em sua ação. A descrição de suas atividades nos dá uma ideia disto: empregado numa empresa de eletricidade; foi soldado; veterinário, tinha onze cães e deixou 2 mil conchas para o museu de Macau; esportista (karatê); pintor e desenhista; músico que dominava a viola, a flauta e bateria (tocava num conjunto de rock and roll); e a partir dos oitenta anos, um prolífico autor sobre o passado da ilha. Cumprimentos pelo aniversário (30/08), Sr. Neco.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Caminhe pelas cidades americanas e veja a arquitetura contemporânea; se você procura beleza, esqueça. Cada nova construção é mais um monstrengo sobre a terra inocente, porém o arquiteto não é o único culpado disto, pois a construção só reflete o desejo da sociedade (ou seja quem tem o dinheiro para subir o tijolo). Mas isto já foi melhor, pelo menos quando o mestre de obras Manuel Francisco trocou sua Odivelas pelo Brasil em 1724. Manuel Francisco criou beleza em construções e também um filho nas cidades do Ouro em Minas Gerais. O filho ANTONIO FRANCISCO (1730-1814) tido com uma escrava seguiu o seu caminho. Confirmou o Bloom na tese de “angústia da influência”, pois, foi mais longe que ele, mesmo tolhido pelos problemas de saúde. “Ouviu” o Povo e tirou da cabeça o que eles procuravam. Hoje é o seu aniversário (29/08), cumprimentos, Sr. ANTONIO FRANCISCO (não tenho intimidade para chamar-lhe Aleijadinho). IMAGEM – P. V. a frente do profeta Daniel “decapita” fotograficamente os nabiim restantes...

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sabe aqueles mortos de Natal e Ano Novo? Gente que não aguenta a obrigação de estar alegre como os outros? Pois ele foi um destes. Suicidou-se num final de Christmas. HERMES Floro Bartolomeu Martins de Araújo FONTES (1888-1930) foi pobre; mas, vinha dos Martins Fontes da família do Capitão-mór de Lagarto, e assim em deferência a sua inteligência e origem, teve o curso de Direito pago pelo governador sergipano Garcez. Formado não montou banca de advogado; mas arranjou, como Bukowski, um buraco nos Correios, onde podia brunir sossegado os versos que saiam de sua tristeza congênita. Teve sucesso nisto, o que significa que sofria bastante. É o custo da poesia. Para quem não conhece a sua obra, lembre-se da canção famosa “Luar de Paquetá”... Ele nasceu num dias destes (28/08).

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O que será mais rendoso: apontar lápis ou publicar um livro? Talvez publicar um livro. Mas que assunto? Por que não algo entranhado no Homem, pegar uma imagem arquetípica e transformá-la em estórias contemporâneas. Que tal mitos de homens criados por animais: Rômulo e Remo sustentaram um império; Hayy ibn Yaqzan, de Abentofail, trouxe uma pulga a orelha de gente como Defoe e Espinoza; Mowgli, de Rudyard Kipling, deixou milhares de escoteiros insones (…). Foi com estas ideias que EDGAR RICE BURROUGHS (1875-1950) demitiu-se da fábrica de lápis (ele não parava em nenhum emprego), comprou uma resma de papel e meteu-se a criar o seu personagem. A estória chegou fácil: um casal de nobres ingleses (os Greystokes) são abandonados na costa da África. Sobrevive apenas o filho, John Clayton, III, que será criado por macacos e recebe o nome de Tarzan. A partir daí escreveu 24 livros, virou personagem cinematográfico, ganhou muito dinheiro, foi plagiado, etc, etc. Num dia como hoje (27/08) foi publicado a primeira estória de Tarzan. Era 1912.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Menino ou adulto. Ele se movimentava numa carrinho de madeira com rolimãs servindo de rodinhas, pois as pernas estavam atrofiadas. Eram muitos assim no interior paulista onde vivi, no final dos anos Sessenta, entre Tupã a Marília. Para mim aquilo era uma novidade, tanto quanto o papo (bócio) comuns por ali, pois o único aleijado que eu conhecia era Mefibosete e o seu pé torto. A poliomielite atingia principalmente pobres e mesmo sendo um ignorante, eu percebia que aquela doença condenava as pessoas a miséria, pois lhes tirava a capacidade do trabalho. Mas, surgiu a VACINA ORAL (“Gotinha”) e a polimielite desapareceu do cenário. ALBERT BRUCE SABIN (1906-1993) foi o seu criador. Ele pesquisou também a pneumonia, encefalite, câncer e dengue. Se eu fosse católico, batalharia para fazer dele um “santo”; como não sou, farei a lembrança dele sempre que puder... Happy Birthday (26/08), Dr. Sabin.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Como encontrar informações sobre o banqueiro Aguado? E sobre o PM (primeiro-ministro) Mendizabal? E Cansinos-Asséns? Na era pré-WEB era difícil encontrar dados vitais de pessoas não-dicionarizadas. Minha solução para o problema foi mandar cartas a cidades onde estas pessoas viveram e depois aguardar o resultado. Com Cansinos-Asséns também foi assim, procurei, procurei e só tive como saída mandar uma carta. Não imaginava encontrar ninguém; mas, troquei linhas com o seu filho temporão, Rafael Manuel, nascido quando o pai tinha 76 anos. O sevilhano Rafael María Juan de la Cruz Manuel José Antonio de la Santísima Trinidad Cansino y Asséns, aliás, RAFAEL CANSINOS-ASSÉNS (1882-1964) foi um tradutor de mão cheia. Verteu, dentre outras línguas, diretamente do russo, do hebraico, do árabe (…). Conhecia profundamente o cante jondo e ensinou ao Duque de Hornachuelos. Criou uma escola literária: o Ultraísmo. Foi condenado ao ostracismo durante o franquismo. Era um homem bonito, basta dizer, que a sua prima mais famosa foi Rita Hayworth. Já que lembrei Jorge Luis Borges ontem (a quem ele iniciou na cultura judaica), é dever lembrá-lo hoje. IMAGEM – Rafael Cansinos-Asséns (com o chapéu nas mãos). O gordinho de má catadura atrás do barbudo é J. L. B.;

sábado, 23 de agosto de 2014

Enquanto muitos procuram reis godos na ascendência, ele buscava um judeu anônimo para justificar a sua proximidade com a cultura judaica. O aleph, a expulsão da Península, a Inquisição, Espinoza (“...labra um árduo cristal: el infinito / mapa de Aquél que es todas sus estrellas...”) e Israel (“...hermoso como un león al mediodía...”) foram cantados por ele. JORGE Francisco Isidoro LUIS BORGES Acevedo (1899-1986) foi este personagem. O bisavô, coronel Francisco Borges, natural de Torre de Moncorvo, filho de Manuel Antonio e Maria Antonia Cardoso, era desta parentela “circuncisa”. Alguns deles aderiram a “Obra do Resgate” (movimento de reinserção dos descendentes de cristãos-novos ao Judaísmo em Portugal, anos Trinta em diante). Feliz aniversário (24/08), Sr. Borges. IMAGEM – J. L. B. e a irmã Norah (Leonor Fanny B., 1901-1998);
Se você olhar bem a fotografia abaixo e um pastel que ela conservava no seu escritório verá a diferença de como ela era e como era vista. No primeiro ela é uma mulata e no segundo uma loura (veja no google: “Belle da Costa Greene by Paul-Cesar Helleu”. Vale a pena). Esta dicotomia vinha do expediente que a bibliotecária BELLE DA COSTA GREENE (1883-1950) usara para sobreviver numa sociedade racista. Abandonar o passado afroamericano, para inserir-se com sucesso na vida americana. Adotar uma origem “exótica” como judeu, português ou francês, para explicar a pele escura. É o que se chama em linguagem local, passing. Foi o que fez a “portuguesa”, o “da Costa” adotado foi para a construção desta nova identidade. Um dia em 1906, John Pierpoint Morgan, o homem mais rico do mundo, perguntou ao sobrinho, se ele conhecia uma bibliotecária, pois pretendia formar a melhor biblioteca particular do mundo. O sobrinho conhecia a bibliotecária de Princeton, uma moça estranha, mas muito viva e sofisticada, uma tal Senhorita Greene. Foi assim que o Sr. Morgan a contratou para ir a Europa comprar incunábulos, manuscritos e livros raros e construir esta biblioteca ideal. Ela ficou quarenta e três anos na função. Ele gostou tanto da personagem que lhe deu o salário vitalicio de 50 mil dólares mensais. Suficiente para que ela tivesse uma vida de luxo. Ela viajava nos navios levando o seu próprio cavalo e hospedava-se nos melhores hotéis. “Just because I am a librarian, doesn´t mean I have to dress like one”. Ela viveu solteira e um dos seus namorados foi o crítico de arte Bernard Berenson (1865-1959), tio-avô de Marisa Berenson. Hoje (13/12) é seu aniversário. Happy Birthday, Miss Greene.
“Wahlverwandtschaften” (afinidades eletivas), escreveu Goethe. “Lé com lé, cré com cré”, traduzia nossa Mãe na vida diária. Sem ouvir; nenhum, nem outra, JUDAH TOURO (1775-1854) procurou outro “português” “Sir” MOSES MONTEFIORE (1784-1885), oriundo de gentes do Lamego, para executar parte do seu Testamento. Dirigir uma grande obra no sertão de Israel que pudesse aumentar a capacidade de autossustentação dos judeus locais. A primeira ideia foi empregar o legado num hospital, mas, que evoluiu para a construção de um moinho de vento e residências para pobres fora dos muros de Jerusalém. Em 1857 começaram as obras. Nasceu assim o bairro Mishkenot Sha´ananim (Morada de paz, nome tirado de Isaías 32:18).

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Chuva é o que precisamos aqui em Campinas; mas, como já ouvimos JOHN LEE HOOKER (1917-2001), em “Tupelo Blues (Black Water Blues)”, estamos receosos em fazer o pedido. Em abril de 1936 aconteceu um daqueles tornados que se abatem por lá. Matou 216 (o número deve ser maior pois não se contabilizavam todos os blacks) e feriu quase mil pessoas. Hooker que era de Coahoma na região fez da canção uma reportagem, narrada numa linguagem bíblica (atente para a percussão feita com os pés). Deixe que ele cante (e veja as imagens da fúria da natureza): Você leu sobre o dilúvio? / Foi o que aconteceu há muito tempo atrás, numa pequena cidade do interior, no caminho de / Mississippi / Choveu e choveu, choveu noite e dia / O povo ficou preocupado, começaram a chorar, / "Senhor, tem piedade, onde vamos agora? "/ Havia mulheres e crianças, gritando e chorando, / Senhor, tem piedade, é um grande desastre, voltamos agora, e Você ?"/ A grande enchente de / Tupelo, Mississippi / Aconteceu numa sexta-feira, há muito tempo, / choveu e choveu / o povo de Tupelo, na fazenda reunia a colheita, / quando uma nuvem escura surgiu, no caminho de volta para Tupelo, Mississippi, humm, / humm / não era que um poderoso temporal, / choveu, noite e dia / As pessoas pobres que não tinham lugar para ir, humm, humm / A pequena cidade, chamada Tupelo, Mississippi / Eu nunca esquecerei e eu sei que você não vai querer (“traição”, pv) https://www.youtube.com/watch?v=Qzouiea0x5g Hoje é o aniversário (22/08). Happy birthday, inhô John Hooker.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Alexandre & Nora. Os nomes parecem destinar-se a um casal destes que vivem nos proclamas dos cartórios. Só parece, pois esta é uma história com final infeliz. Em 1950 a socióloga e poeta francesa Nora Mitrani (1921-1961) fez conferência sobre o Surrealismo em Lisboa. Na plateia, ALEXANDRE Manuel Vahia de Castro O´NEILL de Bulhões (1924-1986), da família de Santo Antonio, apaixonou-se pela oradora sefaradi. Estado e Família especaram no contra. Ela foi malvista & ele foi preso. Alguém da família aproveitou a oportunidade e pediu para cassar o passaporte do apaixonado evitando a fuga. Nora suicidou-se anos depois (por outra desgraça, presumo) e Alexandre amadureceu como poeta: “(...) Não tu não podias ficar presa comigo / à roda em que apodreço / apodrecemos (…) Não podias ficar nesta cadeira / onde passo o dia burocrático / o dia-a-dia da miséria / que sobe aos olhos vem às mãos / aos sorrisos / ao amor mal soletrado / à estupidez ao desespero sem boca / ao medo perfilado / à alegria sonâmbula à vírgula maníaca / do modo funcionário de viver (...)”. Alexandre morreu num 21 de agosto como hoje.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

COMO ERA CELEBRADO O YOM KIPPUR (“DIA GRANDE”) ENTRE OS DESCENDENTES DE CRISTÃOS-NOVOS DO NORTE/NORDESTE PORTUGUÊS NO SÉCULO PASSADO (CIRCA 1920) “Festeja-se no dia 11 da Lua de Setembro. É jejum absoluto de vinte e quatro horas. Durante quarenta dias antes não se come carne de porco, e de nenhuma espécie pelo tempo de onze dias anteriores ao de Kippur. A Exmª Srª D. HERMÍNIA BASTO, em informação... que se reporta, como dissemos, a 1910, escreve que são trinta dias (e não quarenta) e que era permitido comer ave de pena. E acrescenta os seguintes e curiosos pormenores: “Na véspera do dia dão as suas esmolas, preferindo sempre da-las a sua gente (cristãos novos). Essas esmolas, que constam principalmente de azeite, são mais avultadas se é a primeira vez que se faz o DIA e, nesse caso, se é homem tem de vestir e calçar um homem por completo, se é mulher faz o mesmo a uma mulher. Fazem também nesse dia as torcidas de linho, tantas quantas as suas devoções, isto é, por alma de parentes, etc., havendo até quem ponha já torcida por sua alma e por alma de pessoas ainda vivas, com medo de que a sua morte não fique quem lhe faça o seu BEM DE ALMA. Antes de começarem o jejum tomam banho, vestem-se com as melhores roupas, tendo sempre alguma coisa para estrear. O jejum vai desde o por do Sol de um dia até a aparição da primeira estrela no outro dia. Antes de entrarem no jejum ceiam muito bem, depois nem água se pode beber até o fim; acabado o jejum ceiam ainda melhor que na véspera e nessa ceia, que consta principalmente de fritos e doce de calda, há sempre um prato de galinha, porque antes de se comer ave de pena não podem começar a comer da outra carne. Durante o dia do Senhor, ardem as torcidas, que foram acesas com a competente reza, depois de postas em pires com azeite. Essas luzes (uma em cada pires) são para salvação das almas dos que morreram e para alumiar o ALTISSIMO SENHOR QUE NOS CRIOU. Não é permitido a estranhos a entrada na sala em que estão os que jejuam, porque decerto vão TRÊFOS; não se querem lá cheiros de homem e ainda menos de mulher que pode estar menstruada. Não estou bem certa, mas creio que mulher menstruada não pode fazer o jejum. Fora da hora das rezas podem conversar, o que não podem é comer, nem beber, nem dormir de dia. O livro das rezas é a Bíblia de onde leem principalmente os Salmos de David” Os Cristãos, em outros tempos, iam as portas dos Judeus e gritavam: “Ó Judeu, já nasceu a Lua, Dá cá batata crua (...)” VASCONCELOS, J. Leite de. Etnografia Portuguesa, IV, pp. 210-1. FOTO: DONA OLIVIA TABACO, Mogadouro
COMO ERA CELEBRADO O YOM KIPPUR (“DIA GRANDE”) ENTRE OS DESCENDENTES DE CRISTÃOS-NOVOS DO NORTE/NORDESTE PORTUGUÊS NO SÉCULO PASSADO (CIRCA 1920) – II PARTE “(...) No fim do dia, a aparição das primeiras estrelas, quebram o jejum com uma cerimônia curiosa, que consiste em mastigar sucessivamente três bocados de pão, sem o engolir, deitando-os em seguida no fogo e recitando as orações: 49 ‘Bendita a estrela de Adonai, Tudo o que peço, Senhor, me dais, Bendita a estrela, bendita a companhia, Bendito o Senhor que a guia, Já é hora, já passa de hora”. 50 “Louvado seja o Senhor que te criou, Do centro da terra te deitou, O Senhor me faça a minha alma Tão limpa e tão clara como tu és. (Um a um mastigam-se os três pedaços de pão que se deitam depois no fogo dizendo) Deixa-me fazer, como fizeram os nossos irmãos Na Terra Santa da Promissão Louvado seja o Senhor que da erva fez pão, Deita-me o Senhor a sua santa e divina benção. (Quando deitam os três bocados de pão no fogo dizem assim) Fogo de Samuá, tome-o lá!” Com esta cerimônia acaba o jejum, comendo-se depois a refeição preparada de véspera, que não deve comer carne alguma, pela razão já explicada (...) Actualmente, porém, embora continuem a exercer as suas práticas religiosas judaicas em segredo, já os vizinhos conhecem perfeitamente o dia em que os seus concidadãos “judeus” fazem o jejum e, em certas localidades, espreitam-nos nesse dia e fazem troça deles. Contam os cristãos-novos que, na Covilhã, nos bairros populares, o populacho costuma ir no dia de “Kipur” gritar, nas casas dos “judeus” para fazer troça do jejum: - Ó minha mãe, já nasceu a lua dá cá batata crua (...)”. SCHWARZ, Samuel. Os Cristãos-novos em Portugal no século XX, pp. 32, 71 e 72
15 de outubro foi escolhido Dia do Professor, no Brasil, por D. Pedro I em 1827, como homenagem a santa Tereza de Ávila, mas caiu em esquecimento, somente nos anos quarenta ela foi recuperada pelo professor Salomão Becker (1922-2006) e oficializada pelo Decreto Federal nº 52.682 (14/10/193). Isto me permite algumas linhas sobre a educação formal. Até os quinze anos, quando param...os em Valinhos, interior de S. Paulo, vivemos como nômades. Troquei de cenários geográficos muitas vezes no mesmo mês. Nesta condição não tive oportunidade de frequentar as aulas diariamente. Aprendi a ler sozinho aos três ou quatro anos apenas para entender que figura era aquela na caixa amarela de Maisena. Minha família para remediar este problema utilizava a legislação educacional dos nômades (circenses e ciganos) que me dava o direito de prestar exames na escola mais próxima e assim prosseguir os estudos que fazia sozinho sob a orientação de minha Mãe. Tenho ainda um caderno que sobrou destas andanças. Por exemplo: em 15 de março de 1968 eu estava na Escola Mista (neste tempo homens não se misturavam com mulheres comumente) Joaquim Carvalho Barros (não tenho a menor ideia em que cidade ela ficava) e o maior problema daquele dia eu acertei: “Uma operária tece 39 metros de fio num dia i (sic) a sua irmã 47 m. No fim de 10 dias quanto deveram receber ambas, se ganham NCR$ 0,40 por metro?” E um dia chegamos a Valinhos. Ali fiz o curso de Admissão com o professor Jonas e entrei no Colégio Estadual Cyro de Barros Rezende e depois no José Leme do Prado, onde encontrei um mundo novo, tanto social, quanto histórico. Sinto ainda nas narinas o cheiro de naftalina da modesta Enciclopédia Barsa que li maravilhado na biblioteca da escola. Foi no José Leme do Prado que encontrei o professor que lembro até hoje, Edgar Rizzo, diretor de teatro e professor de matemática. Amoroso, paciente com os nossos erros e incompreensões, e a quem devo não apenas o aprendizado da regra de três, que garantiu minha sobrevivência no comércio e no banco durante anos, mas, principalmente alguém que me ouviu como gente pela primeira vez. Obrigado, professor Edgar, sou grato a você e a todos os outros que encontrei pela vida, mesmo que não me lembre os nomes. FOTO: EDGAR RIZZO
Conheci o Sr. Luis [de Oliveira Dias, 1918-2011], alfarrabista da ORNABI, comprando livros no seu estabelecimento. Ele contou-me como chegou ao Brasil, em 14 de agosto de 1939. Depois de quatro horas pela Estrada Velha... de Santos encontrou-se na Praça da Sé, procurando um patrício livreiro que conhecia o seu pai. Procurou e achou uma LIVRARIA LUSITANA e apresentou-se ao proprietário. Disse que era de Alburitel, concelho de Santarém ou Tomar. “Mas lá conheço o Sr. José Dias”. “Mas, Excelência, ele é meu pai”. Contratado, trabalhou a partir daquele momento, até três anos, depois, comprar a empresa, com a volta do patrão a Portugal. https://www.youtube.com/watch?v=Vtb0Hjsu2dE
Hoje (26/10) é aniversário do antropólogo DARCY RIBEIRO, nascido em Montes Claros (1922-1997), neto do major SIMEÃO RIBEIRO DOS SANTOS (1847-1901), de uns R. S. que vieram de uma aldeia atrás do mar para viver naquele...s ermos (Nas suas palavras). “Os R. S., ao contrário dos Silveira, NÃO SÃO GENTE DE IGREJA (meus grifos), enricam fácil e gostam de odiar-se uns aos outros. Têm orgulho de si mesmos como antigos garimpeiros e contrabandistas de diamantes”. A sua educação foi sertaneja (sempre nas suas palavras): “Minha avó... não era de doçuras, mas tinha muitas amigas, era cordial e gostava de ouvir velhas contadeiras de histórias em relatos longuíssimos. (...) RECORDO-ME DE UM LONGO CONTO SOBRE O REI D. SEBASTIÃO, MORTO PELOS MOUROS, MAS ENCANTADO.... A principal dessas contadeiras, SINHÁ SARA (meus grifos), tinha noite e hora marcadas para atender a sua clientela”. Tive muitos problemas para reconhecer a importância de Darcy na cultura nacional. O seu comportamento flamboyant, a preocupação com temas que não levo a sério (pedagogices e latinices), deixava-me extremamente desconfiado de sua honestidade intelectual. Duas coisas fizeram que eu quebrasse esta resistência ao seu trabalho, o livro de memórias, e principalmente o discurso (ele não era um bom orador) no sepultamento de Glauber Rocha em 23 de agosto de 1981. Passei a gostar do personagem. Ouça Darcy e conclua per si. https://www.youtube.com/watch?v=aKjAovc7YC4
Morreu hoje (31/10) uma de minhas admirações no rádio: ALFREDO BORBA (S. Paulo, 1926). É possível que muita gente não saiba quem ele foi. Conto. Minha paixão pelo veículo levou-me na época a comprar um rádio de cinco faixas de ondas para ou...vir emissoras distantes e um destes locutores foi o Borba. Borba era delegado de polícia na vida civil e tinha um programa onde avaliava os discos de MPB. Ele dizia umas brefaias engraçadíssimas e terminava “quebrando” os discos reprovados. Ele tinha espasmos de ódio quando ouvia Odair José. Ridicularizava a canção “volta do boêmio” do tripeiro Adelino Moreira (onde já se viu um boêmio “rever os teus rios, teus montes, cascatas...”). Com ele aprendi o significado da palavra jabá no contexto musical. Borba também era cronista esportivo. Ele não era um mero recitador de estatísticas como são os comentaristas de hoje. Ele tinha opinião. Era corintianíssimo, tanto que compôs várias marchinhas de carnaval para o seu time. Ele também pertenceu a melhor equipe esportiva que existiu no rádio brasileiro: Milton Peruzzi (o chefe), Peirão de Castro, Barbosa Filho (torcedor do Sampaio Moreira, alguém sabe onde fica?), Geraldo Blota (o repórter que entrevistou Pelé no milésimo gol), Zé Italiano (que imitava o Vicente Mateus e começava todo campeonato com a expressão, “O Corinthians é líder, invicto e isolado”) e uma série de coadjuvantes que iam sendo trocados todos os anos. Eu gostava da Mesa Redonda destes caras, porém na hora das narrações dos jogos e lutas de boxe ouvia a Equipe 1040 da Tupi, que era mais sóbria. Na época eu podia organizar o dia em volta dos programas. Começava pela manhã com Fausto Canova no Show da Manhã (Jovem Pan), onde o principal eram as trocas entre ouvintes – era possível oferecer um papagaio por um sofá. Depois girava o dial para a Tupi onde estava Barros de Alencar (“Feliz natal e uma bacia d´água para você” era a sua saudação aos ouvintes que telefonavam a ele), Miguel Vaccaro Neto (“Não diga não, nem né”), ao meio dia fugia para a Bandeirantes onde estava o Helio Ribeiro.... Nos domingos tinha o programa da pesada: Projeto Minerva, que funcionava como um curso superior de MPB. Ali era possível saber até quem fora o parteiro de Noel Rosa: Dr. Graça Melo, lembro até hoje. Na época o amigo Manuel Vicente (já falecido) reprovava o meu gosto: “---Você não ouve o Big Boy na Radio Mundial?” Perguntava furioso e já sabendo da resposta comentava pesaroso. “Uma pessoa que não conhece o Big Boy não irá longe na vida...” Era algo para me preocupar, pois o Manél já estava bem encaminhado, nascera na família Veríssimo, donos do supermercado Eldorado. Hoje quando sintonizo o rádio e ouço algumas destas vozes imortais, tenho a sensação que meu pai voltou e minha mãe ainda está ralhando comigo: “Você está todo sujo. Estava fazendo o quê?”. No vídeo, Borba é o sétimo jurado a se manifestar entre Adelino Moreira e Lupicínio Rodrigues, começa na minutagem 2:28 http://www.youtube.com/watch?v=dCpkxyL7QdI
“(....) Both read the Bible day and night, / But thou read´st black where I read white (...)”, escreveu Blake. Isto também acontece na música. O compositor pensa uma coisa e o público pode entender de outra forma e até lhe dar novo uso. ...Duas canções populares são exemplos disto. “Sabiá” (1968), letra de Chico Buarque, era uma canção vista como de esquerda, porém nas reuniões fechadas da TFP até os anos Noventa os seus versos “(...) Sei que ainda vou voltar / para o meu lugar (...)” eram cantados como se fosse um desejo e o destino do antigo militante – que fora recrutado criança pelo professor C. S. M. para o grupo que deu origem ao núcleo místico da sociedade (Sempreviva), mas que Chico por interferência paterna o deixara. Na Guerra do Ultramar (1961-74) movida por Portugal um roquinho francês sobre desencontro amoroso cantado por Richard Anthony (ne Btesh) que tinha sido adotado pela Legião Estrangeira, foi adotado pela FT portuguesa e tornou-se um hino dos Comandos portugueses. No video há o uso da canção francesa. http://www.youtube.com/watch?v=OjezhsXDw2U
O compositor e cantor canadense LEONARD NORMAN COHEN (1934), neto do erudito rabino Shlomo Zalman Klonitsky, é autor da canção WHO BY FIRE. Ela foi composta com as suas experiências de soldado na Guerra do Yom Kippur. A sua inspiração é o piut (poema litúrgico) UNETANEH TOKEF, usado nas liturgias do Rosh Hashaná (Ano Novo) e do Yom Kippur (Dia do Perdão). Esta milenar peça litúrgica teria sido composta numa situação trágica. O rabino AMNON DE MAINZ, forçado a converter ao Cristianismo, teve a língua cortada e os braços e pernas amputados como argumentação, porém ele resistiu e próximo a morrer, disse este texto na véspera do Rosh Hashaná (Ano Novo) e depois ele teria aparecido em sonhos ao rabino KALONIMOS III de Luca (falecido em1096) que teria completado a peça. Pois baseado nela NORMAN COHEN, compôs e cantou a canção secular WHO BY FIRE (abaixo uma pálida tradução): “And who by fire, who by water,/ E quem pelo fogo, quem pela água, /who in the sunshine, who in the night time,/ quem à luz do sol, quem à noite, / who by high ordeal, who by common trial, / quem por alta provação, quem por julgamento, / who in your merry month of may, / quem no seu feliz mês de maio, / who by very slow decay,/ quem por decadência muito lenta, / and who shall I say is calling? / e quem eu devo dizer que está chamando? / And who in her lonely slip, who by barbiturate, / E quem no solitário no solitário descuido, quem por barbitúricos, / who in these realms of love, who by something blunt, / quem naqueles campos do amor, quem por algo direto, / and who by avalanche, who by powder, / e quem pela avalanche, quem pela pólvora, /who for his greed, who for his hunger, / quem por sua ambição, quem por sua fome, / and who shall I say is calling? / e quem eu devo dizer que está chamando? / And who by brave assent, who by accident, / E quem vem por bruto consentimento, quem vem por acidente,/ who in solitude, who in this mirror, / quem em solidão, quem neste espelho,/ who by his lady's command, who by his own hand, / quem por ordem da mulher, quem por sua própria conta,/ who in mortal chains, who in power, / quem em correntes mortais, quem no poder, / and who shall I say is calling? / e quem eu devo dizer que está chamando?”
Valinhos, interior de S. Paulo, 7 de setembro de 1972, desfilei com uma fita preta no bolso da camisa branca do uniforme do Colégio Cyro de Barros Rezende. Se perguntavam quem tinha morrido, respondia, uns primos na Alemanha. Na abertura de mais uma Olimpíada, minha homenagem a eles. Berger, David Mark. Halterofilista israelense, n. em Shaker Heights, EUA e m. em Fürstenfelbruck, Munique (24/06.../1944 - 06/09/1972). Friedman, Zeev. Levantador israelense de pesos, n. na Siberia e m. em Flugplatz Fürstenfelbruck (10/06/1944 - 06/09/1972). Gutfreud, Yosef. Árbitro israelense de lutas greco-romanas, n. na Romênia e m. em Munique (01/11/1931-06/09/1972). Halfin, Eliezer. Lutador israelense, n. em Riga e m. em Munique (18/06/1948 - 06/09/1972). Romano, Joseph. Halterofilista israelense, n. em Bengazi, Libia e m. em Munique (30/12/1940 - 05/09/1972). Shapira, Amitsur. Treinador israelense de atletismo, n. em Tel Aviv (09/07/1932 - 06/09/1972). Shorr, Kehat. Treinador israelense de tiro, n. na Romênia e m. em Munique (21/02/1919 - 06/09/1972). Slavin (Meir Yacobovitch Slavin, Mark). Lutador israelense, n. em Minsk e m. em Fürstenfelbruck, Munique (31/01/1954 - 06/09/1972). Spitzer, André. Treinador israelense de esgrima, n. na Bélgica e m. em Fürstenfelbruck, Munique (04/07/1945 - 06/09/1972). Springer, Yaacov. Árbitro israelense de halterofilismo, n. na Polônia e m. em Munique (1942 – 06/09/1972). Weinberg, Moshe. Treinador israelense de lutas greco-romanas, n. em Israel e m. em Munique (1939- 05/09/1972).
Navegou os Sete Mares. Girou pela Terra. Esteve várias vezes no Brasil. O marinheiro Corto Maltese começou nas mãos do italiano HUGO PRATT (1927-1995) que já vivera parte destas aventuras e transferiu ao personagem do fumetto (história em quadrinhos, em italiano). Pai vindo da aristocracia anglo-francesa e mãe de judeus toledanos. Endereço incerto e muitas vezes não-sabido. Um lugar entre a Etiópia e a Patagônia. Ele partiu num dias destes (20/08).

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Nos anos Quarenta deu-se uma campanha para que pessoas abastadas e sociedades doassem aviões para aeroclubes de sua região. Ela foi criada pelo empresário ASSIS CHATEAUBRIAND (1892-1968), talvez o maior empreendedor que o Brasil já produziu, que, percebendo o avanço da Grande Guerra, criou a Campanha Nacional da Aviação (CNA) para formar pilotos e tornar natural a presença do avião. Os aeroclubes que eram 40, tornaram-se 400. Foram adquiridos mil aviões, um deles em Recife doado pela comunidade judaica. A comunidade local arrecadou o dinheiro suficiente e comprou um deles. Mas que nome dar a aeronave? Tinha que ser um personagem que fosse lembrado por seus valores morais, pernambucano e que tivesse identidade com ela. Não foi preciso procurar muito: JOAQUIM NABUCO (1849-1910), o Abolicionista (por razões morais) e descendente do minhoto Shemtov b. Abraham (na época não se sabia disto) foi o escolhido. Hoje é o seu aniversário (19/08), cumprimentos, Sr. NABUCO.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

“Please, you have phosphorus?” Perguntou o estranho ao maquinista Lousada que apeara do trem (comboio) noite adentro. Amedrontado ele virou-se e viu apenas uma caveira vestida formalmente, como descreveu mais tarde. Minha porção Ashaverus, quando criança, viveu alguns meses em Botujuru. Algumas vezes subi a montanha próximo ao túnel com o nosso Pai, durante o turno do Sol, o que nos afastava do fantasma inglês. Mas, ouvíamos a mesma história: o chefe da conserva era o engenheiro inglês H. J. BEEG, seco e intolerante com os empregados. Em 23 de abril de 1898 ele passou do tom e o carpinteiro Madaloni. o matou ali na beira do túnel. Argumento suficiente para a empresa desistir de contratar novos funcionários nativos, espanhóis e italianos, optando pelos portugueses; mas, o fantasma não foi avisado e ficou naquela parvoice de espantar a quem passa pela boca do túnel. Há pouco tempo estive com minha irmã Sara em Botujuru. Parece que o fantasma deixou de fumar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Amalita não é muito conhecida por aqui, apesar de ter contemplado o Cristo Redentor carioca por várias vezes. Nascida numa família de médicos ela teve uma vida confortável. Casou-se com alguém de sua igualha (o advogado Lafuente), porém ficou na cabeça a frase de uma cigana, “que iria se casar com um marajá” e a recusa de um amigo milionário de ir a festa, pois não se sentiria bem. Ela resolveu apostar na profecia de “madame Sosostris”, abandonou o marido e uniu-se ao “príncipe”. Foram alguns anos de conto de fadas. Mas, Alfredo Fortabat morreu em 1976. MARIA AMALIA SARA LACROZE DE FORTABAT (1921-2012) não se intimidou, assumiu a direção dos negócios e em algum tempo multiplicou a fortuna herdada por três. Ao lado das atividades empresariais, trabalhou com filantropia e ajuntou uma bela coleção de artes. Comprou Velázquez, Turner, Dali, etc. Posou para Warhol... Hoje (15/08) é aniversario de Amalita. IMAGEM – A. de F. no Brasil, preste atenção na assinatura: ela repete “de de”, duvidando (de forma inconsciente) se continuaria com Lafuente;

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

“Abelhas constroem ao redor do fígado vermelho, / Formigas constroem ao redor do osso preto. / Começou: o rasgar, o pisar as sedas, / Começou: o quebrar de vidros, madeira, cobre, níquel, prata, / espuma (…)” [trad. Nelson Ascher]. O advogado CZESLAW MILOSZ escreveu o poema chamado “um cristão pobre olha o gueto”, repleto de culpa diante da tragédia que se desenrolava a sua frente – Varsóvia, 1943, como datou no manuscrito. CZESLAW MILOSZ h. LUBICZ (1911-2004), aristocrata de origem lituana, perdeu a Pátria e sua classe social acabou-se. Fugiu em 1951 para a França, onde também foi malvisto, como se fosse um emigré qualquer. A sua exposição ao Mal, como o bíblico Job, fizeram-no poeta e ele ganhou o Nobel de Literatura em 1980. C. M. morreu num 14 de agosto como hoje.
Faleceu hoje (13/08) em desastre de aviação o nosso primo Pedrinho, PEDRO ALMEIDA VALADARES NETO (1965-2014), advogado, duas vezes deputado federal e assessor pessoal do candidato presidencial Eduardo Henrique Accioly Campos.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Não adianta olhar para o chão, pois há estradas invisíveis que nos conduzem, não, para onde queremos ir; mas, por onde chegaremos ao Jardim. Pense no caso do capitão CÂNDIDO MANOEL QUINTANA, que, nascido no Rio de Janeiro, estudou medicina; cuja parte mais importante de sua existência foi vivida na Guerra do Paraguai. Durante a “retirada de Laguna” é o médico que diminuiu as mortes dos soldados em retirada, onde numa coluna de três mil, restaram 700. Dos doze médicos da Coluna sobreviveram, o capitão Gesteira e ele. No final da guerra é incorporado a uma unidade militar em Alegrete; onde casou-se, teve filhos e pode gozar um pouco de sossego na fronteira, enquanto esperava os bárbaros. MARIO (1906-1994), neto do Capitão sonhou viver o heroísmo do Avô. Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre, onde foi contemporâneo de três futuros Generais-de-Exército (Geisel, Médici e Santos), porém é forçado a dar baixa da escola. Ele não se conformou, apresentou-se como voluntário no 7º de Batalhão de Caçadores, e em 1930, foi um dos cavaleiros que amarraram os cavalos no Obelisco carioca. A carreira não pode prosseguir por problemas de saúde. Só restou-lhe escrever poemas por décadas: “E eu que desejava tanto que minha biografia / terminasse de súbito / simplesmente: / “Desaparecido na Batalha de Itororó!” (...)” IMAGEM: Mario Quintana, poeta.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A Igreja tem regras. Prenomes para batizados são os dos santos celebrados no hagiológio. Gláuber Rocha ao converteu-se ao Catolicismo para casar-se com Helena Ignês, teve que receber no batismo o prenome “Pedro”, pois o Padre celebrante não reconhecia G. como nome cristão. Durante o período inquisitorial prenomes vetero-testamentários (Abraão, Jacó, Sara, Moisés, etc) foram abandonados pelos descendentes de judeus, convertidos no séc. XV, pois denunciava a origem e só retornaram no final do XIX, com frequência maior nas mesmas famílias. Porém nem sempre os nomes VT são estas marcas étnicas. Personagens negativos na cosmovisão cristã foram usados, até inconscientemente pelo grupo – a observação só vale até os anos Cinquenta do século passado. Hoje vivemos outra lógica onomástica. A princesa HERODIAS (15 aC – 39 dC) é um destes personagens. Neta de Herodes, o Grande, vista como transgressora, pois abandonou o marido para viver com o tio HERODES ANTIPAS e que irritada ao ser advertida por S. João Batista, pediu ao amante sua cabeça, no que foi atendida. Mitema eternizado na literatura (é a companheira de Ashaverus, o Judeu Errante), na pintura, no teatro e cinema (Charlotte Rampling em O porteiro da noite). No Sertão encontrei HERODIAS e ANTIPAS, entre descendentes deste Povo e aceitos como prenomes por padres distraídos. É o mesmo que algum bilionário listado na revista Forbes ter um filho chamado Vladimir. IMAGEM - Herodias (Erodias), nossa prima sertaneja, que casou-se com um... João Batista.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O documento era quente. Dados vitais verdadeiros. Nada despertava suspeita quando se apresentou a aduana brasileira. O comerciante NAUM EITINGON (1877-1981) vinha de Nova York, e tinha nacionalidade americana, porém, ele era um dos mais eficientes agentes soviéticos. Não se sabe o que ele fez por aqui, crê-se que a passagem pelo Brasil, era apenas uma manobra diversionista, uma forma de despistar quem estava no seu encalço. Ele era tão bom na atividade que até os anos 70 ninguém conhecia a sua identidade verdadeira – em alguns momentos foi confundido com o Dr. Max Eitingon, auxiliar de Freud, seu primo. Dependia de onde estivesse: Era Naumov em Xangai, Pekim e Istambul; general Kotov na Guerra Civil Espanhola; Grozowski na Bélgica; usava também o Leonid Alexandrovich...Foi ele quem recrutou Mercader para assassinar Trotsky (era o motorista no atentado), infiltrou agentes na Projeto Manhattan (bomba atômica americana), etc. Nos anos 50 voltou a URSS, para receber as divisas de major-general e assumir a chefia das atividades secretas. A fuxicaria fez efeito e logo estava preso. Não “cantou” e terminou a vida como um aposentado qualquer. Lembrei-me de sua história, pois a agência EFE, tocou superficialmente neste assunto, sábado passado.

domingo, 10 de agosto de 2014

Passei uma tarde inteira no cemitério de Itapira procurando a sepultura do Francisco. Não achei; mas, não foi inútil a busca, pois, encontrei ali a pista que me levou ao lugar certo e confirmar algumas intuições. O Francisco é o ádvena de todos os Ferreiras-de-Mesquita, inclusive dos que controlaram o jornal O Estado de S. Paulo (Estadão). As primeiras gerações nasciam em Campinas e se criavam em Parada de Cunhos, ao pé de Vila Real. Algumas vezes os F. de M. fizeram o trajeto dos “torna-viagens”. Numa delas naufragaram próximo a Salvador e por milagre se salvaram. O primeiro (são 4 do mesmo nome e profissão) JULIO CÉSAR (1862-1927), filho de Francisco, foi advogado, vereador em Campinas, deputado e Diretor do jornal O Estado de S. Paulo. Casou-se com “quatrocentona” (aristocrata paulista) e tiveram os filhos: Ester, Rachel, Maria, Júlio César (II), Francisco, Sara, Ruth, Judite, Lia, José, Suzana e Alfredo. Foi um homem reto no velho estilo português e trouxe esta medida para o seu jornal, comportamento que durou até quando o filho e netos dirigiram o Estadão. Ele nasceu num dia como hoje (10/08). Cumprimentos, Dr. Júlio de Mesquita.

sábado, 9 de agosto de 2014

Nossa Mãe pegava minha mão direita e fazia cócegas na palma procurando: “cadê o toucinho que estava aqui? O gato comeu. Cadê o gato? Foi pro mato (...)”. É uma parlenda que se perde na infância dos Homens. Há também modernas e com autor conhecido: “(...) Era uma vez dez meninas / de uma aldeia muito probe. / Deu o tranglomango nelas / não ficaram senão nove (...)”. O poema segue assim até desapareceram as dez meninas por razões diferentes e reaparecerem no final. É o Surrealismo com toda a força em Portugal, mas, construido com elementos da tradição popular, inclusive na linguagem. O autor destas linhas deliciosas é MARIO CESARINY (1923-2006), também pintor, que deve ter se inspirado nas brincadeiras infantis com a Mãe; pois, Viriato, o pai, fugiu para o Brasil. Feliz aniversário (09/08), Sr. Mário Cesariny. O poema inteiro: http://www.youtube.com/watch?v=jphI_hHqs7U

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O B. é um bom sujeito. Foi nosso vizinho. Entre quarenta a cinquenta anos, branco, de imensos bigodões. Ele se metia a dar conselhos matrimoniais a casais em crise. Normalmente ficava com a mulher do casal e amigo do ex-marido. Mas isto não era o seu maior problema. Ele tocava o negócio, um bar no Guará, frequentado por todos os alcoólicos da região e mesmo nesta condição era o presidente do ALCOÓLICOS ANONIMOS locais. O conflito de interesses me deixava curioso... Soube depois que a sociedade foi criada em 1935 por dois alcoólicos: o corretor da Bolsa BILL W. - William Griffith Wilson (1895-1971) e o médico DR. BOB S. – Robert Hoolbrock Smith (1879-1950) para livrar-se do vício. Uma comunidade auto-sustentada e de ajuda mútua, que se desenvolve partir de um método (os “12 passos”) com o objetivo da abstinência total de bebidas alcoólicas. Happy Birthday (08/08), Dr. BOB S.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O que há de comum entre os BRAGANÇAS, dinastia real e imperial luso-brasileira (católica romana) e os FREUDS, judeus germânicos? Uma situação menos observada, porque íntima – a angeolatria (culto aos anjos). Como se sabe disto? Vejam os nomes: Os descendentes de D. Pedro III (1717-1786) e D. Maria I (1734-1816) enfileiram aos seus nomes a locução onomástica “MIGUEL GABRIEL RAFAEL de...”, comum a maioria deles (como exemplo: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio MIGUEL GABRIEL RAFAEL Gonzaga, Pedro II); algo que também aconteceu aos netos de Sigmund Freud (filhos de Ernst): Stephan GABRIEL (1921-), o pintor Lucian MICHAEL (1922-2011) e o político Clement RAPHAEL (1924-2009), a tríade angelical.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Coleciono dedicatórias publicadas por autores nos seus livros. Ela é a moeda do escritor. Uma delas: “Para a escrava sem nome do HMS Doddington, e sua filha Lucy, sua neta Peggy, sua bisneta Peggy, e seu trineto Hammett, todos nasceram, viveram e morreram como escravos”, escreveu o tenista ARTHUR ASHE (1943-1993), sobre os seus ancestrais, em “Off the Court”, 1982. Ele seguia o caminho aberto por Alex Haley (1921-1992) com “Roots: the saga of an American Family” em 1976, quando este transformou a sua genealogia em material ficcional, incentivando que outros afrodescendentes fizessem também a sua. No Brasil, Luís Gonzaga Piratininga Junior, em 1991, publicou “Dietário dos Escravos de S. Bento”, sobre uma parentela formada por escravos e funcionários do Mosteiro S. Bento em S. Paulo, da qual é parte. É bom ler.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O que é patrimônio imaterial? Posso responder com o que me aconteceu em março deste ano (2014). Do alto de Cachoeira, Bahia, vi e ouvi na manhã fria e úmida, surgir inesperadamente, numa rua estreitinha em forma de ladeira, que morre ou nasce na área rural, da margem do rio Paraguaçu, uma bandinha de meninos e meninas tocando o “Batista de Melo” (a nossa Marcha de Radetszky), uniformizados e alinhados em colunas, que marcharam até o prédio da Câmara e Cadeia. Não fotografei, não gravei, mas, aquele som e aquela visão me acompanharão enquanto viver. O dobrado “Batista de Melo” foi composto pelo músico baiano Matias de Almeida, para o senador mineiro Joaquim Batista de Melo, a ser tocado na posse do marechal Hermes da Fonseca em 1910.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Não. Maria Helena e Emerson Fittipaldi não são atores deste post. O personagem central é DONAR NORDWAL, pastor alemão, campeão mundial ou brasileiro, não me lembro a categoria que venceu, que está a frente deles. Era o pai do THOR NORDWAL, sua cara e focinho, que viveu com nossa família nos anos Setenta. Convivemos bem, alegre e disposto, ele se dispunha jogar bola comigo, mesmo sabendo que seria driblado todas as vezes que viesse tentar tomá-la. Ficava indócil quando eu ia colher chuchu num muro e ele não podia subir, coisa que o gato Juca fazia com requintes de bajulação. Mas o THOR era um cão tão “boa gente”, que um dia, a caminhonete parou perto dele, o ladrão sedutor bateu o dedo e ele subiu no carro. Deixou a casa, comida e também amigos. Nunca mais o vimos...

domingo, 3 de agosto de 2014

“Dê-me papel e lápis ou uma máquina de datilografar”. Parece pedir a todo momento os descendentes de BARNABÉ FRANCISCO AMADO (circa 1830), criador de gado nas franjas de Nossa Senhora Imperatriz dos Campos do Rio Real (hoje Tobias Barreto, Sergipe). Desde que entraram no séc. XX eles preenchem linhas após linhas interminavelmente. É possível montar uma biblioteca somente com os seus livros. Sem repetir assunto, indo do romance, passando por poesia, até chegar ao ensaio histórico. São tantos e de qualidade: Gilberto (Academia Brasileira de Letras, cadeira 26), Gildásio, Gileno, Gilson, Genolino (ABL, cadeira 32), James, Janaína, Jorge (ABL, cadeira 23) e Paloma. GENOLINO AMADO (1902-1989) é um deles. Foi jornalista, tradutor, teatrólogo e radialista. Criou expressões que caíram no gosto do povo. É dele, “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro (a canção de André Filho veio depois). Cumprimentos pelo aniversário (03/08), Dr. GENOLINO. IMAGEM - G.A., a atriz Dulcina de Moraes e o marido Odilon Azevedo.

sábado, 2 de agosto de 2014

O hai-kai é uma forma sucinta de poesia e o epitáfio, uma biografia condensada em duas linhas no máximo. Quando ELIEZER BEN ABA BEN TZVI HaLEVI (Eliezer, filho de Aba, filho de Tzvi, o Levita, 1891-1957), judeu de Vilna, morreu em S. Paulo, o encarregado de escrevê-lo tinha alguns elementos. Para as informações biográficas bastava copiá-las dos documentos pessoais; mas, como representá-lo diante da cultura judaica, já que o extinto fora um pintor célebre, filho de um sofer (escriba) e pertencia a casta dos Levyim (descendentes dos auxiliares dos sacerdotes no Templo)? Como colocar todas estas informações, sem ocupar espaço demais. Não foi preciso gravar o vaso que tradicionalmente identifica os levitas em suas lápides, pois ele encontrou uma situação vivida pelo extinto nos textos bíblicos. Pintor (uma ocupação nova para os judeus, dada a proibição de “não farás imagens”) e levita: “E de Levi disse: abençoa o seu poder e aceita a obra de suas mãos (Dt. 33-11)”, que foi escrito na pedra. Estava pronto o epitáfio do morto daquele 2 de agosto: LASAR SEGALL.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

“Uma terra sem povo, para um povo sem terra”. A frase não é dele; mas, o inglês ISRAEL ZANGWILL (1864-1926), filho de sobreviventes dos pogroms russos, passou a vida procurando solução para a questão judaica usando este brocado. Ele admitia até recriar a pátria em qualquer território vazio. Preocupava-se também com o sufrágio feminino, a assimilação, o pacifismo, dentre outras coisas. Defendia as suas ideias através da literatura. Era muito engraçado e uma de suas maiores criações, é o orgulhoso schnorrer (mendigo) sefaradi Manasseh Bueno Barzilai Azevedo da Costa. Como medir o seu prestígio entre os judeus do Brasil? Simples, basta entrar no Cemitério Israelita do Butantã, e verificar que entre os inumeráveis utentes de nomes veterotestamentários (Abraão, Jacó, Isaac, Moisés, etc) que ali estão; há também os ZANGWILLS (o apelido familiar usado como prenome em sua homenagem) nas famílias Chasin, Cuperman, Gendel, Gherson, Glinoe, Grinberg, Grunberg, Koutchouk, Lewenthal, Pelcerman, Raskin, Scharff, Wajsfeld e Zatz. Mr. Zangwill morreu num dia como hoje (01/08).