Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O que se ouve de um homem que vai ser queimado vivo no final da tarde? O sapateiro Diogo Dias Fernandes, de 53 anos, natural de Serpa, deixou trôpego a sua cela, com outros infelizes para o mesmo destino. Sujo, doente e “sozinho”, sairia anonimamente deste mundo, como se fosse uma acha de lenha. Dele não se sabe mais nada a não ser o que o processo inquisitorial registrou. Muitas gerações adiante o assunto continuava na família, pois o seu sétimo neto, FERNANDO PESSOA (1888-1935), incorporara silenciosamente ao seu repertório poético as preocupações e imagens ancestrais. Perguntou das crianças cristãs-novas desterradas para a Ilha dos Lagartos (ou de S. Tomé) em 1493: “(...) Enterrar vivas nas ilhas desertas as crianças de quatro anos (...)”. Trouxe a Inquisição para o seu cotidiano: “(...) Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos (...)”. E interpretou como se a Akedá (o “sacrifício” de Isaac) tivesse realmente acontecido: “(...) tenho a impressão de ter em casa a faca / com que foi degolado o Precursor (...)”. Hoje (13/06) é o aniversário de FERNANDO PESSOA.

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