Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

No primeiro de semestre de 1963, eu já usava caneta Bic, mas lia a noite sob a luz da lamparina cuja torcida era alimentada pelo querosene Jacaré e não tinha a menor noção do que fosse o Catolicismo. Era criança e minhas relações com Estranhos eram mediadas através dos meus pais. Não brincava com eles e só visitava as suas casas acompanhando a Mãe, já advertido para não comer ou beber nada dos anfitriões. Foi numa destas visitas que soube da agonia do PAPA JOÃO XXIII causada por câncer no esôfago – cultivávamos também tabus linguísticos, não pronunciávamos a palavra câncer, usávamos o eufemismo “doença brava”. A família que visitávamos era muito católica e o sofrimento físico do Papa era o sofrimento espiritual de todos eles. Os espelhos da casa foram virados para as paredes e quando finalmente Sua Santidade morreu em 3 de junho de 1963, a casa foi adornada de papéis roxos. Foram quatro dias de angustia daquela família no ermo paulista que me emociona até hoje. Perguntei a minha mãe quem tinha morrido. Ela foi breve, o deus deles. Aos poucos o Mundo ia entrando na minha cabeça.

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