Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Ele veio da terra de Pã. Enrico Balbino Caimmi, filho de ebreos (é assim mesmo que se escreve), chegou a Salvador para cuidar do Elevador Lacerda em 1872. Os seus irmãos, primos, sobrinhos ficaram por lá: Fulano pintando quadros, Sicrano editando jornais e até os Beltranos que pereceram no Shoah (Holocausto). Aqui ele ajudou a fazer a ligação da Cidade Baixa com a Alta e deixou nos ouvidos dos descendentes, o som do Mediterrâneo que acalentara os ancestrais. O bisneto, DORIVAL CAYMMI (1914- 2008) somou a eles, o som do Atlântico, que foi o seu jardim, onde ele recolheu tanta beleza. “Minha jangada vai sair pro mar / Vou trabalhar, meu bem-querer / Se Deus quiser quando eu voltar do mar / Um peixe bom eu vou trazer (...)” Feliz centenário, Sr. Dorival! IMAGEM 1 – E. B. C.; IMAGEM 2 – Dorival Caymmi.

terça-feira, 29 de abril de 2014

O Historiador vê o mundo a partir do escritório, enquanto o Genealogista, da camarinha. Com todo cuidado possível para não ferir ninguém, o Genealogista conta o que pode, mas, não o que sabe. Veja este caso, o ISAAC NUNEZ CARDOZO (1792-1855) foi um homem comum, casado, mas, teve descendentes importantes – um deles foi B. N. Cardozo, segundo judeu a alcançar a Suprema Corte. Fora do casamento, ele teve de Lydia Weston, negra e solteira, o filho Francis Lewis Cardozo. Este foi pastor protestante, deputado e alto funcionário do Tesouro. A neta de Francis, a antropóloga Eslanda Cardozo Goode (1895-1965) casou-se com o cantor Paul Robeson, de origem Igbo e viveram expatriados pelo Mundo, pois o casal, que era militante dos Direitos Civis, foi acusado de “Comunista”. Ainda era o tempo da “Guerra Fria”. No último 27 de abril, faleceu em Nova Jersey, o historiador PAUL ROBESON JR. (1927-2014), filho do casal.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

“Não sabe escrever, Turco burro?”. É verdade, ele não sabia escrever em letras latinas (basta olhar como ele assinou a entrada no Brasil), mas, sabia reconhecer a ofensa. Imagine, na hora de fechar as portas de sua loja, o Bazar Centenário, um cliente pedir a nota fiscal de um pente (15 cruzeiros), quando o limite mínimo era 50. AHMAD NAJJAR parou de escrever e partiu para cima do cliente incômodo, os empregados, também....o cliente, tenente Tavares, saiu de perna quebrada. O grito de guerra despertou a turba: “vamos pegar os turcos”. Durante seis horas desta noite (09/12/1959) e nos dois dias seguintes as lojas pertencentes aos árabes em Curitiba foram atacadas, algumas destruídas e até a casa do jesuíta Kaluf foi apedrejada. A Repressão disse stop e a “Guerra do pente” acabou. É assim, desde a revolta da “Carne sem osso, farinha sem caroço” em Salvador (1858), ou mesmo antes; o monstro da insatisfação com os preços só espera a oportunidade...

domingo, 27 de abril de 2014

JOÃO CRUZ COSTA (1904-1978) era gordo e baixinho, contava piadas e não se dava muita importância. Mesmo assim, quase esquecido, é um dos pais-fundadores da Filosofia/USP. A sua didática, segundo ele, era “chamar a atenção dos moços para (...)”. Esta expressão é recorrente nas suas entrevistas, depoimentos, etc. Um dia ele chamou a atenção da aluna Anita Novinsky: “Eu estava na sala de aula e ele me perguntou se eu conhecia Alexandre Herculano, Joaquim Mendes dos Remédios e Lúcio de Azevedo. Eu nunca tinha ouvido falar deles. Então, ele me sugeriu uma bibliografia e me transmitiu uma missão: estudar história dos cristãos-novos no Brasil, que era praticamente desconhecida até então (...)”. O resto, sabemos nós.

sábado, 26 de abril de 2014

O Professor Beppino reviveu uma particularidade do parente Moisés – os Levyim descendem da mesma tribu de M. Ele ensinou o caminho, mas, não entrou na sua Terra Prometida, como o ilustre parente; porém, três de seus alunos receberam o Prêmio Nobel de Medicina: primeiro foi Salvatore Edoardo Luria, em 1969, depois, Renato Dulbecco em 1975 e finalmente Rita Levi-Montalcini em 1986. GIUSEPPE LEVI (1874-1965), ensinou biologia e histologia durante anos na Universidade de Turim, o que lhe deu estes três alunos premiados. O seu neto, o historiador CARLO GUINZBURG tinha dez anos quando ele e a esposa passaram pelo Brasil, buscando criar um laboratório de biologia celular em S. Paulo.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Durante quatro dias a espanholinha Carlota, de dez anos, foi perguntada sobre religião, geografia, gramática portuguesa, espanhola e francêsa, boas maneiras, dança, canto, pintura e equitação. Ela foi aprovada nos exames. E qual era o objetivo da avaliação? Encontrar uma noiva para o herdeiro do trono português. A casa real portuguesa tinha dificuldades para encontrar noivas, pois eram Católicos Romanos e só podiam se casar dentro da religião. Poucas casas reais professavam este rito, dai a escassez de princesas, restavam os Borbóns. Assim quando se identificava a noiva potencial, ela era submetida aos exames, aprovada, lavrava-se o contrato dos dotes, corria-se os Banhos (dispensa do parentesco), etc. Foi assim que a princesa Carlota Joaquina casou-se com o príncipe João. Feliz aniversário (25/04), D. CARLOTA JOAQUINA.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Dr. Mindlin disse que “A cinza das horas” (1917) do Manuel Bandeira era singular pela raridade. É impossível encontrar a edição princeps, se não entre os grandes bibliófilos. A poesia é sensível, mas, há outra singularidade, o ex-libris egípcio desenhado por um amigo do pai de M. B., para o livro: o ALBERTO CHILDE (1870 - 1950). Quem? Alberto Childe... O egiptólogo A. C. escondia o tenente russo Vanítsin, que depois de uns charivaris habituais na Rússia procurou o Egito como terra de refúgio, onde aprendeu o ofício e dali veio para o Brasil, com o novo nome. Além de cuidar das múmias do Museu Nacional ele desenhava ex-libris para os amigos. Sempre com motivos egípcios... “(...) Em 1, estão as 2 iniciaes M. B. E depois o determinativo sesh = escribo (sic), composto da palheta e do cálamo. Em 2 vem: ordem ger urt, isto é = docemente e fortemente – que é a tradução mais correcto (sic) do seu thema – Isto tudo se lê da direita para a esquerda (...)”.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O licenciado (depois de quatro anos numa universidade) JORGE DE VALADARES (+1557), cristão-novo vimaranense, desde que saíra do Minho, rodara o mundo, curara gentes na Índia e terminou a vida em Salvador. Veio com o governador-geral Tomé de Sousa, para compor a infraestrutura da cidade a ser fundada. Entre 1549 a 1553 ele foi o “physico-mor” da cidade, aliás, o primeiro. Cabia a si o controle sanitário da cidade, dos profissionais de saúde (físicos, barbeiros, sangradores e parteiras), fiscalizar os preços e a conservação das boticas. Como a cidade nascente não tinha nada disto, ele dedicava-se aos raros pacientes e aos seus negócios, até sumir na obscuridade e depois na poeira. A sua parentela, alguns primos e sobrinhos que vieram depois, ficou por ai: funcionários públicos, pequenos fazendeiros no Sertão, comerciantes, advogados, professores, engenheiros, médicos ... Parabéns Salvador, 465 anos (29/03).
O sol estaciona na sua jornada pelo éter. Ele esconde a sua face (hester panim) enquanto a Criatura toma para si o ofício de tirar a vida, que é prerrogativa divina, pois, a guerra só tem um crime: perdê-la. É a descrição comum a quase todas elas. Foi assim na Guerra do Paraguai (1864-1870), quando reaprendemos a falar línguas nativas e descobrimos que o escravo africano era brasileiro: Avaí, Cerro Corá, Curupaiti, Itororó, Jataí, Piquissiri, Humaitá e Tuiuti – esta, uma da mais sangrentas batalhas das Américas, depois de cinco horas de combate, de treze a quinze mil soldados – todos “meninos de suas mães” tinham perdido as vidas. Era o caminho para a vitória em AQUIDABÃ, onde o insano López pagou o seu atrevimento. AQUIDABÃ tornou-se então nome de cidade em Sergipe, navios de guerra e centenas de ruas e avenidas por todo o país (ou 1º de Março, data do episódio). Moro numa delas, em Campinas, cercada por outros nomes de batalhas e dos generais que ganharam a Guerra: Caxias e Câmara. É pacífica, mas, quando saio na madrugada, ainda encontro alguns zumbis dopados pelo crack, com que atravessaram a noite na sua aflição pessoal. Daqui a dez minutos a pé estou no campo da Ponte Preta (Estádio Moisés Lucarelli) ou no Bosque dos Jequitibás, onde vivem as tartarugas (Genoveva e Timóteo) do Pai. Mas isto é outra história …
O príncipe tártaro Nabok Mirza tinha uma limitação vocabular e o verbo que ele conjugava com mais frequência era “saquear”. A descrição de Moscou que os viajantes faziam da cidade e do seu entorno deram-lhe ânimo para a empreitada. Ele reuniu os soldados para a tarefa, porém no império russo ofertaram-lhe os mesmos privilégios principescos se deixasse o Islamismo e ficasse – ele deixou. Os seus filhos, os netos, casaram-se com filhos e netos de cavaleiros bálticos ou alemães. Seis séculos mais tarde o epicanto dos seus descendentes já não era notado nos salões de nobreza russa. Mesmo apeados dos cavalos, os descendentes de Nabok Mirza continuavam com as rédeas do poder. V. D. Nabokov, Ministro da Justiça da Criméia, morreu num atentado, onde não era o alvo. O filho VLADIMIR NABOKOV (1899-1977) abandonou tudo na Rússia e chegou ao EUA, depois de uma longa deambulação. Lá esperava ganhar o pão de cada dia como lepidopterologista ou enxadrista, mas, não conseguiu. No intervalo destas buscas escreveu alguns livrinhos. Nenhum deles banal. Feliz aniversário (23/04), Sr. Nabokov.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Caminhemos (sic) e andemos (sic) / Louvaremos a Israel? Que nos livrou do Egipto, / Daquele rei tão cruel (...)”. Este é o início da “Oração da Água”, uma das centenas de orações que foram preservadas pelos descendentes de cristãos-novos, rezada ainda hoje por algum velhinho português, no 14º da lua nova de março (ou abril), quando se comemora a PÁSCOA – um mês depois do “jejum da rainha Ester”. Durante uma semana se abstêm do trabalho, reúnem-se as famílias e comemoram a sua maior festa. Alimentam-se de peixe (a carne é excluída), ovo cozido, arroz e pão ázimo, acompanhado pelo vinho. Simbolicamente engolem três folhas de língua de pássaro, de alface e de salsa. Em algum momento atravessam a pé um ribeiro ou riacho, e em Bragança, Paulino de Sá Pereira, o Veneza, encenava a peça musical “Páscoa das Flores” de sua autoria, no quintal de casa, para lembrar-se da travessia (pessach). Tudo feito em “segredo” (como se isto fosse possível) ...
Quando o Arlindo Silva (1924-2011) começou a escrever a biografia do empresário e apresentador de TV SILVIO SANTOS (Senor Abravanel), “A fantástica história de Silvio Santos” (2000), perguntou ao biografado, dados de sua família na Europa. Silvio respondeu: “tem um maluco aí que sabe mais de minha família que Eu. Procure-o (...)”. O meshíguine era eu. Foi assim que nos encontramos na casa de Guilherme Faiguenboim, presidente da Sociedade Genealógica Judaica do Brasil, para falarmos dos Abravanéis. Parentela salonicense que viveu na Espanha e Portugal e com a expulsão dos judeus da Península Ibérica, alguns deles foram para a Salônica; cuja personagem mais importante foi o lisboeta ISAAC ABRAVANEL (1437-1508), comentarista bíblico e financista bem-sucedido. Foi ele quem assessorou ao português D. Afonso V e aos Reis Católicos espanhóis. Silvio é o seu 15º neto por varonia. Fiquei muito feliz em conhecer o repórter A. S., jornalista de longa carreira, basta dizer que ele estava no Catete quando o Dr. Getúlio suicidou-se. Troquei figurinhas com ele e aprendi mais algumas coisas. Contei esta historinha, pois, ela também adequa-se ao ciclo da Páscoa (Pessach). Os Abravanéis que descendem do rei David, descendem também de um personagem obscuro, mas, extremamente importante: Naason (a sua irmã Elisheba foi casada com o sumo-sacerdote Aarão), quando todos temiam entrar na água, ele tomou a frente e foi o primeiro homem a entrar no Mar Vermelho …
Os VON SIDOWS e os RAPPES acostumaram-se a driblar a morte por mais um minuto. Uma e outra linhagem desde o imperador Carlos Magno, de quem descendem em 39 gerações, usam armas e comandam exércitos ininterruptamente, notadamente na Prússia, Finlândia e Suécia. No começo do século XX dois suecos pertencentes a elas, deixaram a guerra como meio de vida e tornaram-se professores: Karl Vilhelm v. Sidow (1878-1952) e a baronesa Maria Margareta Rappe (1892-1984) e se casaram. O filho do casal, o ator MAX VON SIDOW (1929) num dos filmes em que atuou, “O sétimo selo” (1957), é o cruzado Antonius Block, em um desafio a Morte. Ele nasceu num 10 de abril como hoje. Até o 120.
O encontro do português DIOGO PIRES com aquele estranho homem mudou a sua vida e da parentela. Primeiro ele acompanhou o misterioso David Reubeni a Roma, depois esteve em Salônica estudando com sábios, declarou-se o Messias sob o nome de SCHLOMO MOLCHO e terminou queimado como herege em Mântua. Logo surgiram outros Molchos (ou Molhos, de melech, rei) no Império Otomano, muitos dedicados as atividades intelectuais (professores, donos de livraria e rabinos), mesmo assim subsistiu o preconceito contra o seu passado messiânico (no contexto judaico). Há um registro em processo, onde alguém lhes censura: “dinsis, imansis [sem lei, nem fé, em turco]...ya se sabe la mispaha [parentela, em hebraico] de los Molhos lo que es; y Simón Molho es de mispaha de cristianos yaurdan dönme [cristãos-novos renegados, em turco]”. Para entender o percurso de ancestrais, o rabino MICHAEL MOLHO (1890-1964), Grão-rabino de Salônica, dedicou-se a estudá-los como historiador. Ele publicou vários trabalhos sobre o tema e um dia passou pelo Brasil...
O professor (mualim) turco SEMSI EFENDI (Shimon Zvi, 1852-1917) não frequenta dicionários, porém volta e meia reaparece em “Tições” (livro que “denuncia” descendentes de judeus para inabilitá-los socialmente), apesar de sua obra extraordinária, que de uma escolinha de fundo de quintal, cresceu até formar um Sistema de Ensino e chegou a uma universidade contemporânea (Feyziye Mektepleri Vakfi) com 4600 alunos. SEMSI EFENDI era oriundo de família pobre e discriminada (donmé e descendente de um irmão de Shabetai Tzvi), ele começou a vida como balconista de loja, mas, como possuía capacidade lógica e de explicação, passou a ensinar particularmente, fundou depois uma escolinha em 1885. Ela tinha valores definidos, era laica, republicana e ensinava uma língua europeia, etc. O seu sucesso didático trouxe o foco para si. Todos jogam que ele é culpado por Kemal Atatürk (1881-1938), o reformador que transformou um antigo sultanato islâmico numa republica laica, ter aprendido estes valores com ele.
Quando falaram ao senador e coronel WILLIAM HUTCHINSON N0RRIS (1800-1893) que tinha que tocar a sua fazenda sem escravos, ele fez o que vizinhos também fizeram, reuniu os seus filhos (Robert, Frank, Reece e Clay) e levantou-se em armas contra a União. A guerra durou alguns anos e teve 750 mil mortos, entre eles, o presidente Lincoln. Quando terminou a guerra, o coronel Norris não se conformou, descobriu um país semelhante ao Sul para acomodar-se. Em 1866 com o filho Robert, esteve em S. Paulo, onde recusou as terras oferecidas (era brejo). Rumaram então para Campinas, trecho que fizeram em quinze dias num carro de boi (hoje é feito em uma hora e meia). No lugar chamado de Ribeirão Quilombo (esta palavra lembra alguma coisa?) ele estabeleceu com sucesso a sua fazenda, onde hoje é a cidade de Americana. No plano familiar, previsível quando há distancia entre a população autóctone e a que chegou, deu-se a endogamia. Dois netos do Coronel Norris se casaram: Yancey Jones (filho de Julia Norris) e Martha Norris (filha do capitão Robert Norris) e tiveram um filho o dentista Charles Fenley Jones. Este é o pai da cantora RITA LEE JONES – o middle name Lee não indica parentesco com o general sulista Robert Edward Lee (1807-1870), mas, uma homenagem constante que os descendentes dos Confederados fazem-no ao chefe (marca cultural).
Foi a palavra mais difícil que aprendi na infância: esquistossomose. É o nome da segunda doença mais difundida no mundo, que afeta 200 milhões de pessoas em 74 países. Conhecida também como “bilharzíase” (em homenagem o seu primeiro estudioso, o alemão T. M. Bilharz). Ela é tão antiga que foi encontrada entre múmias egípcias e no Brasil, na população ribeirinha, tanto que o nosso primo o médico Clarival do Prado Valadares, escreveu que a “xistosa” devia constar do brasão de Santo Amaro da Purificação. Mas o que fazer com ela? Nos anos Cinquenta passou pelo Brasil o então estudante etíope de medicina AKLILU LEMMA (1934-1997) em busca de uma solução para o problema. Descoberto o ciclo da doença, se percebia onde ele devia ser interrompido com mais eficiência. Olhando as lavadeiras de sua terra, Aklilu Lemma viu que na jusante do rio, havia caracóis mortos, ao pé de uma árvore chamada Endod. Baseado nisto criou um extrato desta árvore para ser o moluscicida destes caracóis. Estava inventado um remédio barato: “Criamos um medicamento pobre para uma doença de pobres”. AKLILU LEMMA ganhou o Nobel Alternativo (1989) e morreu num 5 de ABRIL como hoje.
Onde foi parar o general romano MARCUS LICINIUS CRASSUS (115-53)? Ele era o homem mais rico do Império Romano e ainda hoje pode entrar numa lista de bilionários da revista Forbes, se vivo estivesse. Para ele só faltava a imortalidade, tanto, que ao ser convidado a comandar uma invasão a Síria, aceitou prontamente, sem considerar uma possível derrota. Sem planejamento estratégico o seu exército foi derrotado facilmente, ele, morto e desfeiteado. A sua campanha mostrou-se que ele cometeu um erro crasso. Crasso? Sim, o seu nome ganhou imortalidade pelo avesso... Porém esta não é a história mais interessante da campanha. Uma companhia da Legião percebeu a derrota antes de todos e deu no pé mundo afora. Sem orientação, apenas seguiram em frente por horas e dias, depois meses e anos, enfrentando a poeira, até chegar um ponto onde bivaquearam, Liqian, China. Estão ali até hoje, onde casaram-se com mulheres locais e os seus descendentes procuram mostrar naturalidade quando as pessoas se espantam em ver chineses ruivos, de olhos verdes ou azuis.
Na segunda metade do século XVI, o castelhano de Albuquerque, Baltasar de Godoy, casou-se com a filha do Capitão-mór de S. Vicente, Jorge Moreira, natural de Rio Tinto, Portugal. O primeiro filho já nasceu no Planalto paulistano. Os netos seguindo o impulso desbravador foram caminhando para o interior, até que Simão da Rocha Godoy, descendente do Baltasar, chegasse a região campineira. O seu filho o capitão José Américo de Godoy também foi fazendeiro, mas teve um filho SILVINO DE GODOY (1890-1970), homem de intensas atividades urbanas, advogado e industrial (fábrica de elásticos), que comprou em 1938 o jornal CORREIO POPULAR, fundado em 1927. Atualmente é o único jornal diário de Campinas (Tiragem: entre 40 a 60 mil exemplares). Silvino de Godoy teve quatro filhos: o engenheiro Edward, Cecília, Carmén e Celínia. EDWARD DE VITA GODOY (1916-1976) possuiu uma construtora importante: erigiu alguns prédios da PUC-Campinas e o Aeroporto Internacional de Viracopos, mas, com a morte do pai, assumiu a Presidência do jornal repassada posteriormente pelo mesmo motivo ao filho SILVINO DE GODOY NETO, atual presidente. SILVINO DE GODOY (I) faleceu num 3 de abril...
A velhinha paquistanesa não consegue compreender a movimentação em sua casa, pois, volta e meia aparece uma ruma de gente, com um ataude fechado para sepultar no quintal da propriedade, ao mesmo em que se sabe que alguém da família desapareceu. A última desaparecida foi a neta Benazir, outro neto e antes deles o seu filho Zulfikar. Muitos anos depois alguém encontrou nas tralhas do presidente francês Valery Giscard d´Estaing uma carta que explica o mistério: “(...) Desde a idade de 15 anos, eu venho travando uma batalha cruel e ininterrupta pela liberdade. Trabalhei lado a lado com Nehru e Jinnah. Vi De Gaulle em seu esplendor real. Mao Tsé-tung deu-me a honra de seu respeito. Para mim, política, poesia, romanesco, se misturam. O mais brilhante de meus idílios foi o que tive com o povo (…) Existe tanta beleza na beleza do mundo que ela (a espécie humana) não poderá extinguir-se totalmente na vitória dos moribundos sobre os mortos. Alguma coisa ficará. O suficiente para que ela floresça novamente, um dia (...)” ZULFIKAR ALI BHUTTO, político paquistanês foi enforcado num 4 de ABRIL... A carta foi escrita a G. d´E. dias antes.
O menino Cosme, filho de um mulato vendedor de lenha, quando soube da notícia que chegara a Abolição, não teve dúvidas, pegou um caixote e numa rua importante do subúrbio soteropolitano, fez o seu primeiro discurso. Como os baianos em geral pode-se dizer que ele estreou naquele momento e já aos quatorze anos começou uma campanha contra o analfabetismo, que ele considerava a origem dos males sociais, depois, fundou a Liga Baiana contra o Analfabetismo, que construiu duas centenas de escolas e fornecia material de ensino para os alunos. Mesmo com todo este empenho educacional, ele não conseguiu concluir o primário, pois estava envolvido em tantos ações, uma delas, defender como rábula provisionado os miseráveis de injustiças. Em 73 anos de carreira defendeu 30 mil clientes nos tribunais, que não lhe pagavam honorários, o seu escritório era uma mesinha desconjuntada no corretor da Igreja de S. Domingos Gusmão (no Terreiro de Jesus), onde recebia de vinte a trinta pessoas por dia. Como advogado de defesa (nunca acusou alguém), o major COSME DE FARIAS (1875-1972), que não conhecia o cipoal jurídico, criava um clima sentimental, buscava assim desconcertar e irritar os promotores. A um deles, a quem trocava o nome propositadamente. “Major, eu já lhe disse que meu nome é Joaquim José, como o Alferes”. A resposta foi seca e certeira: “Que ironia do destino! Tiradentes morreu na forca lutando pela liberdade, e Vossa Excelência continua vivo, lutando contra ela”. Cem mil pessoas levaram o corpo do Major Cosme, do Terreiro de Jesus até a Quinta dos Lázaros, por duas horas a pé, dispensando o uso do carro oficial. Meus cumprimentos, Sr. Major no seu aniversário (02/04).
Faleceu no último 28 de março, no Rio de Janeiro, o médico pediatra e homeopata carioca RONI FONTOURA DE VASCONCELOS SANTOS (1956-2014), filho do médico Nílton Victor dos Santos e Leda Fontoura de Vasconcelos. Foi um genealogista que pesquisou as ligações genealógicas açorianas com Rio Grande do Sul. Minha aproximação a ele, deve-se a nossa origem comum, os NUNES RIBEIRO SANCHES (a quem nomeio como R.S.) beirões, pois era o sétimo neto do casal Gaspar Rodrigues de Paiva (1675-1747) e Maria Nunes Aires (nascida em Monforte da Beira, 1688). Ele foi citado por mim em dois trabalhos sobre esta parentela: na “Presença Oculta” (“Título nº 8 – Antonio Rodrigues”) e no ensaio “O Dr. Ribeiro Sanches (1699-1783) e a sua consanguinidade próxima”, como uma de minhas fontes. Roni era uma pessoa gentil e também generosa. Ele pertenceu ao Conselho Fiscal do COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA. Descanse em Paz e que sua Memória seja lembrada. IMAGEM: Roni, P.V. e Gilson Caldwell do Couto Nazareth.
Você abre a porta do seu apartamento no Chelsea Hotel, cruzamento da Sétima com a Oitava Avenida em New York, e vê passar correndo alegremente no corredor uma jaguatirica...uma onça? Isto mesmo, a sua vizinha de apartamento com quem você disse apenas hello no elevador, é a dona do felídeo. Mais tarde se soube por um funcionário da portaria que ela é filha de um político importante. Não há muito que se fazer se não buscar conhecer quem é ela. THEODORA KEOGH (1919-2008) saiu ao avô, o presidente Theodore Roosevelt, colega de aventuras do marechal Rondon pela Amazônia; e também dedicou-se também a reconhecer o mundo sem intermediários. Durante a Guerra ela fugiu para o Brasil, a viver como bailarina no Rio de Janeiro, mas, logo a família a trouxe para a América. Durante algum tempo ilustrou a revista Vogue, desenhou figurinos para o cinema; mas, influenciada por um dos seus maridos (ela teve três), o marinheiro O´Toole, compraram um rebocador e navegaram pelo Atlântico. Cansada das aventuras voltou a terra firme e escreveu nove romances noir... E a jaguatirica? Comeu a sua orelha esquerda.
Num bailinho de trabalhadores, a parteira VICTORIA DENISOVA (1907-1995), conheceu o engenheiro LEONID BREZHNEV (1906-1982), casaram-se e tiveram filhos, netos, etc. Enquanto ela ficou na vida doméstica, ele dedicou-se a política em tempo integral, esteve longos dias fora de casa, buscando livrar-se das puxadas de tapetes e passando rasteiras nos outros. Em 1977 ele dedicou-se a construir uma constituição para a URSS. Neste período ele ficava em Zidovo, residência de verão, sabe-se lá fazendo o que. O seu Diário dá uma pista: “4 DE JUNHO DE 1977: Não fui a nenhum lugar, não telefonei a ninguém e ninguém me telefonou. Lavaram-me a cabeça e me fizeram a barba”. Entendem a necessidade do historiador?

domingo, 20 de abril de 2014

Se me perguntarem qual a paisagem natural mais bonita que já vi, não tenho dúvidas, é a freguesia de Mazouco, no concelho (é com “c” mesmo) de Freixo de Espada a Cinta. Por vários motivos, principalmente os de ordem econômica, ela é uma área de emigração. Há no Brasil mais gente de Freixo no que no próprio concelho. Lá no final do século XVIII mourejaram por ali os SANCHES-MASSA, de vaga origem cristã-nova, que compravam mercadorias no lado espanhol e revendiam no português, ou vice-versa. Destes, uma casou-se com um Guerra, enriquecido no Maranhão e deles nasceu o poeta GUERRA JUNQUEIRO (1850-1923). Outro Sanches Massa migrou para a Paraíba e deu o poeta AUGUSTO DOS ANJOS (1884-1914). AUGUSTO DOS ANJOS é uma espécie de Raul Seixas na literatura. A sua poesia foi consumida em todas as classes sociais. Quem não se lembra de anotar no caderninho: “Sou uma Sombra! Venho de outras eras, / Do cosmopolitismo das moneras... / Polipo de recônditas reentrâncias, / Larva do caos telúrico, procedo / Da escuridão do cósmico segredo, / Da substância de todas as substâncias (...)”. Feliz aniversário (20/04), professor Augusto.

sábado, 19 de abril de 2014

Uma cidade medieval cercada por aldeias africanas”, disse o sociólogo Robert E. Park (1864-1944), depois de subir e descer as ladeiras de Salvador. Compreendi a frase depois de ler os Livros de Registros de Batismos, Crismas, Matrimônios e Óbitos de Cachoeira, Inhambupe, Itapicuru e principalmente Riachão do Dantas, que tomo como exemplo. Em 1836 o papa-jacas (natural de Lagarto) JOÃO MARTINS FONTES (1762-1848), constrói um engenho no meio da mata e uma capelinha dedicada a Srª do Amparo. Uma dúzia de famílias minhotas, centenas de escravos de origem africana, afluem para lá, juntando-se aos índios que moram por ali desde os tempos imemoriais e assim vão construindo o futuro município. Enquanto isto, o padre capa-bodes (natural de Simão Dias) JOÃO BATISTA DE CARVALHO DALTRO (1828-1910), que será o seu pároco por muitos anos, difundirá naquela “fronteira”, a mentalidade lusitana. Primeiro dando o sentido do Tempo, através dos sinos, marcando as Matinas (Meia noite), as Laudes (3h), as Primas (6h), as Terças (9h), a Sexta (meio dia), as Nonas (15h), as Vésperas (18h) e as Completas (21h); depois registrando no livro competente os batismos das indiazinhas, a quem ele coloca um nome poético: Marcionila Professora da Igreja, Isabel Rainha da Hungria, etc., dando-lhes ingresso na civilização luso-brasileira. … E assim por longos anos ele escriturará os nascimentos, matrimônios e mortes daquela comunidade, produzindo centenas de páginas biográficas, dando ao genealogista do futuro, a possibilidade de conviver com este passado que desapareceria, se ele não fizesse o seu trabalho.