Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

terça-feira, 4 de março de 2014

Num campeonato mundial de desgraças, o calón (cigano de origem ibérica) carioca LAGARTIXA ganharia fácil. Se não, vejamos: o irmão foi assassinado num caso de pedofilia; a irmã morreu dias antes de casar-se com um primo; o pai foi assassinado numa briga de rua, isto num curto espaço de tempo...além disto tudo, ele não era pobre, mas, miserável, tanto que teve dias que não podia sair de casa, pois não tinha sapatos e naquele momento só os escravos andavam descalços em público. Excluindo isto, era um poeta de primeira, compunha, cantava e tocava os seus lundus, apenas não tinha hierarquia poética, fazia versos obscenos ou líricos ao mesmo tempo, sem perceber o rubor da plateia. Um benfeitor, conselheiro Souto, levou-o para sua casa em Salvador, para que ele tirasse o curso de médico. Conseguiu, mas, teve problemas em manter-se empregado, pois esculhambava os seus chefes, mesmo que estes fossem militares de alta patente ou senadores... LAURINDO José da Silva RABELO (1826-1864), o calón LAGARTIXA, submeteu a poesia tudo, inclusive a sua morte, que seria precoce: “Quando eu morrer, não chorem minha morte / entreguem o meu corpo à sepultura, / Pobre, sem pompas; sejam-lhe a mortalha / os andrajos que deu-me a desventura. / Não mintam ao sepulcro apresentando / um rico funeral de aspecto nobre: / Como agora a zombar me dizem vivo / Digam, também morto – aí vai um pobre”1.
A Maior Rodrigues não teve problemas na “apanha” (casamentos arranjados entre cristãos-novos). O seu pai, Gabriel, um escrivão na Vidigueira, ficara preso três anos por judaizante (o que dava credibilidade no seu meio), e era bonitinha: “comprida, alva de rosto, bem estreada e delgada de corpo”; assim ela casou-se com o alfacinha Pedro (“Isaac”) Rodrigues Espinosa, um comerciante em ascensão. Tiveram filhos, um deles, mesmo nome do avô (mas que mudou para Miguel), fugiu já velho para Nantes e dali para Amsterdã, onde juntou-se a comunidade e casou-se pela segunda vez com uma Ana, descendente dos Bentalhados do Porto. Foram abençoados com o filho, BARUCH ou BENEDITO DE SPINOZA (1632-1677). Daqui em diante quase todos conhecem a sua história. Por isto passo a palavra ao moncorvense Borges - “(...) Alguien construye a Dios en la penumbra. / Un hombre engendra Dios. Es un judío / de tristes ojos y de piel cetrina; / lo lleva el tiempo como lleva el río / una hoja en el agua que declina. / No importa. El hechicero insiste y labra / a Dios con geometría delicada, / desde su enfermedad, desde su nada, / sigue erigiendo a Dios con la palabra. / El más pródigo amor le fue otorgado, / el amor que no espera ser amado.”  Ele e meu pai voltaram ao Jardim num 21 de fevereiro.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Depois de mil dias juntos sob o teto da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, o grupo de estudantes de História, que autodenominou-se “Turma Caio Prado Jr.”, conseguiu obter a sua Licenciatura em 1991. A trajetória foi semelhante: entramos para Rede Pública paulista (ensino médio e fundamental) por concurso público – classificados entre os melhores; depois, alguns foram para Rede Municipal, também pelo mesmo processo e mais tarde para os grandes Sistemas de Ensino (Anglo e Objetivo) e escolas católicas. Nenhum tinha expectativas exageradas para o exercício da profissão, apenas esperávamos exercê-la com dignidade. Depois de três governadores e vários secretários de Educação, alguns perceberam que eles não tinham o menor interesse no tema – ele é apenas um anzol para capturar os incautos eleitorais. Isto explica nossas migrações dentro dos sistemas e nos casos especiais, do MARCONDES, que tornou-se um criativo executivo da FRANCE PRESS e o CONCHAL (Adílson Martins), de uma empresa de distribuidora de eletricidade. Ontem na casa de RENATO, o altruísta de sempre, lembramos de nossos colegas: desde o decano (segundo ele, era sobrevivente do desabamento do Cine Rink em 1951) O*, que acordava nas madrugadas para soltar balões e cujo filho aparecia na classe para exortar o pai a não colar (cábula) nas provas; MÁRIO e uma exótica teoria de Avilús (nem Harvard sabe disto); sentimos falta da boníssima MANUELA, que via o mundo pelas lentes do Dr. Pangloss, o que fez Marcondes e Eu criarmos um esporte, “sujar os carneiros brancos da M.” - quando no começo e intervalos das aulas contávamos didaticamente a ela as descobertas negativas da Humanidade. Da turma só um morreu, contraditoriamente, ANTONIO CARLOS GOMES, o “Vivo” (para diferenciá-lo do músico campineiro). O A*, encontra-se em lugar incerto e não sabido, pois, ao vencer um prêmio da TV Globo como o melhor professor, teve que mudar a identidade, para que bandidos-espectadores não o sequestrassem em busca do botim bonsai... Mas foi engraçado (e até comovente) ouvir no final o Conchal dizer que sairia mais cedo, pois precisava buscar a filha Marina, que trabalha com gastronomia em S. Paulo...É, como dizia o locutor Fiori Gigliotti, “o tempo passa, torcida brasileira”. Passa mesmo, mas, em muitos casos, nos fez melhores, até na hora da fotografia. FOTO: Parte de nossa turma. Susi Furlan, Conchal e Marcondes. Na segunda fileira: P. V., Marli e Renato. Fotógrafo: Edson Joaquim (de uma turma anterior a nossa e casado com a Marli).
Meu carinho pelo romancista carioca JOSÉ MAURO DE VASCONCELOS (1920-1984) é por razões afetivas. Ele foi o segundo autor brasileiro a usar um Valadares como personagem que migrou do mundo real para o ficcional (o primeiro foi Machado de Assis, com o “Jacob Valadares”, o personagem mais honesto que ele conhecia; e depois de Vasconcelos, o romance “O segredo do Oratório” de Luize Valente, P. V.). Em Portugal o Camilo Castelo Branco retratou nossa prima Maria Angélica Valadares no romance “Maria Moisés” (tenho partes do processo original que deu origem ao romance). Pois o Zé Mauro trouxe as páginas do seu roman a clef “Meu pé de laranja lima” (1968) o imigrante solitário de Folhadela, MANUEL VALADARES, o “Portuga”, vizinho do menino Zezé (o autor quando criança) no subúrbio carioca. O menino é muito pobre, não tem o carinho dos pais, pois estes só desejam ficar livre dele, nem que fosse a bordoadas. Neste espaço de descarinho ele encontrou o solteirão M. V., que é uma alma serena e trata o menino com bondade e ternura... O Zé Mauro nasceu num dia como hoje (26/02). Feliz aniversário. Os seus leitores ainda se lembram de você.

domingo, 2 de março de 2014

Se vivera o Cardeal Mezzofanti (1774-1849) ou o padre Joaquim Guerra na noite babilônica, é possível que não teria existido a Torre do Babel. O eminente Cardeal falava e escrevia em 38 línguas. Ele costumava cumprimentar as pessoas no seu idioma de origem e modestamente corrigia os defeitos de linguagem do locutor estrangeiro. É bom, a bem da verdade, lembrar que o Cardeal infelizmente falava o guzerate com sotaque. Já o padre, tradutor e poeta Joaquim Guerra também tinha os seus talentos, inclusive, fez Confucio falar português e aproximá-lo das raízes do Cristianismo. O padre JOAQUIM Angélico de Jesus GUERRA, S. J. (1908-1993) nasceu em Lavacolhos, Fundão, numa família de camponeses. Para o menino pobre de aldeia, que pretendia fugir do castigo dado aos descendentes de Adão, ele fez o sensato, aderiu a uma grande corporação das que estavam disponíveis: tornou-se Jesuíta e em 1933 foi mandado para a China, onde tornou-se conhecido como KVAO TJYNTOQ. Aprendeu todas as nuances do mandarim, construiu um dicionário sino-português, traduziu os grandes textos confucianos, isto num intervalo entre as três penas de morte a que foi condenado. Morreu num lugar onde era bem-vindo, vítima de atropelamento, mas, antes passara pelo Brasil.