Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A ponte sobre o rio das Almas une dois municípios no ermo goiano: Rialma e Ceres. O fazendeiro que vinha por ela foi tocaiado pelo pistoleiro que o esperava e morto com cinco tiros. São cenas de uma guerra de famílias (vingança privada) do Sertão? Sim e não, pois tanto o morto, quanto o assassino, apenas colocavam o desfecho no cenário brasileiro de uma questão de parentelas gerada no Oriente. O fazendeiro goiano revelou-se na investigação policial o general curdo MOHAMED ADIB CHICHAKLI (1910-1964), ex-presidente da Síria entre 1953 a 1954, o “César árabe”. Ele no governo dissolvera os partidos, proibira os jornais de oposição e bombardeara o enclave druso de Jabal al-Arab, causando uma enorme matança. Militantes drusos juraram não deixar nenhum Chichakli macho vivo assim que tivessem oportunidade de chegar perto de um deles. Apeado do poder por outros motivos ele começou a procurar um lugar onde a vingança drusa não o alcançasse. Comprou uma enorme fazenda em Pequizeiros para o cultivo do arroz... … até que o pistoleiro NAWAF lhe encontrasse. Ponto final.
“Aunque sea reciente mi carné / yo nací hace milenios / Cuando despacio al paso de la besta / El horizonte se horadaba (...)”, escreveu o poeta gitano JOSÉ HEREDIA MAYA (1947-2010). Neste intervalo entre os primeiros ciganos que arribaram a Espanha e até Pepe, como ele é conhecido, um imenso espaço de opressão para os seus. PEPE HEREDIA, o filho do comerciante de tecidos José, em Granada – dos mesmos Heredias que aparecem na obra de Garcia Llorca, como aquele Antoñito, “moreno de verde luna”, que foi para Sevilha jogando limões nas ribeiras; pegou o touro a unha, enfrentou a exclusão, estudando. Completou o curso de Filologia Românica e ao fim dele, tornou-se professor da Universidad de Granada. Criou poesia e peças teatrais. Amou e engendrou novos Heredias para o futuro. Fez uma doença degenerativa, que enfrentou estoicamente até deixar de ser, mas chegou ao topo da sociedade espanhola, levando um pouco do seu Povo até ali.
O comerciante judeu-francês David hoje repousa obscuro no canto de uma igreja de Salvador, porém os seus descendentes na Bahia são conhecidos como gente generosa e altruísta. O médico Dr. Júlio David (1857-1921), o “medico dos pobres” é o mais visível deles. David, além do esculápio renomado, deixou também a neta Ana Vitória, cuja filha, Lúcia, casou-se com o neto de um negociante sertanejo de animais, de origem cristã-nova, o Plácido Gusmão, que aderira ao Presbiterianismo, como marca da oposição ao Catolicismo. Eles são os avós de LUCIA MENDES DE ANDRADE ROCHA (1919-2014). Foi assim que Dona Lúcia, mãe da atriz Anecy Rocha e do cineasta Gláuber Rocha contou a mim nos anos Noventa a sua genealogia, confirmando a frase de Gláuber cunhada para explicar esta identidade híbrida: os seus maiores tinham feito a caminhada de “Jerusalém para Lisboa, de Lisboa para o Sertão”. Dona Lúcia faleceu no último dia 3.
- Hey, guy, o que você está fazendo com esta mulher na cama? - Mildred é minha esposa ... - Isto é mal! Vocês estão presos de acordo com as leis de Virgínia, disse o xerife Brooks. O diálogo entre o xerife de Central Point, Virgínia, deu-se numa madrugada de 1958, depois de arrombar com os seus bate-paus a casa do pedreiro branco RICHARD LOVING (1933-1975) e de sua esposa cafusa (mistura de cherokee e afrodescendentes) MILDRED (1939-2008). Ele fazia uso da lei que proibia o casamento interétnico na Virgínia. Os LOVING eram casados em outro estado. Considerados culpados, eles se propuseram a mudar-se para Washington, onde tocaram a vida, porém um dia sentiram falta do convívio com suas famílias e buscaram a justiça para resolver o problema. O procurador Bernie Cohen levou o caso a Suprema Corte, onde ela derrubou a lei segregacionista em 1967, permitindo legalmente o casamento interétnico, o que já acontecia na prática. Nestes anos de turbulência o casal LOVING comprou três bercinhos, afinal, chegaram os filhos Peggy, Donald e Sidney.
Imagine a situação: ARYSTARCH KASZKUREWICZ (1912-1989) é um advogado conhecido, fala nove idiomas e vem a Guerra, onde uma granada lhe arranca as duas mãos e lhe cega o olho esquerdo. Neste momento ele toma uma decisão bem difícil, abandona o Direito e resolve estudar arte na Alemanha e dedicar-se a arte sacra, mesmo sabendo que não há mercado para o gênero naquela Europa. Mas o Brasil (como qualquer outro país) não aceita imigrantes mutilados. O que fazer? Ele sabe da existência de uma dinastia renana de vitralistas em S. Paulo, Brasil, os Sorgenicht – donos da Casa Conrado. Oferece os seus serviços e conta-lhes a dificuldade. Imediatamente os círculos católicos se movimentam e o Dr. Getúlio autoriza a sua entrada no Brasil. Como desenhista de vitrais no Brasil, ele usou um maquinário para substituir as suas mãos e semeou beleza nas igrejas católicas de Campinas, Americana, Jundiaí, Santo André, Itatiba, Itatiaia, Cuiabá, Passo Fundo, Erechim, Fortaleza, S. Paulo e o Rio de Janeiro. Em Campinas ele criou os vitrais das igrejas de Santa Rita de Cássia (Nova Campinas), de S. Antonio (Ponte Preta) e o mural da paróquia da N. S. Auxiliadora. O futuro do Homem é insondável.
Ele foi o quarto “peixe voador”. Nadadores japoneses que eram liderados por Furuhashi Hironoshin (1928-2009) e tinham batido o recorde mundial dos 4 x 200 nos Anos Cinquenta. Era o primeiro feito positivo do Japão pós-Guerra, tanto que o governo usou os “peixes voadores” como o seu cartão de apresentação dos novos tempos. Levou-os a visitarem as comunidades japonesas na diáspora para levantar a autoestima dos makegumis (que aceitaram a ideia da derrota japonesa). O coronel Padilha sabendo disto, fez contato com os japoneses e conseguiu trazê-lo para o clube carioca Icaraí. SAKAE MAKI, o quarto “peixe voador” era formado em agronomia e pertencia a uma longa linhagem de acupunturistas (oitava geração). No Brasil ele foi um bem-sucedido técnico de natação em clubes como o Botafogo, Vasco da Gama, Paulistano e clubes paranaenses. Introduziu a comida macrobiótica e o shiatsu (massagem) entre os seus comandados...porém quando passou a usar a acupuntura (Garrincha foi tratado por ele), foi perseguido por “exercício ilegal” da medicina, surrado, preso e só não foi pior, pois, atendia oficiais do Exército e estes interferiram por ele. MAKI-SAN foi assassinado em Curitiba.
Ele entrou para a língua falada no Brasil sem que fizesse nenhum esforço para tal, pois, viera ao Rio de Janeiro apenas para jogar futebol no Vasco da Gama. O argentino BERNARDO JOSÉ GANDULLA MARIAGETTI (1916-1999), o GANDULA era um armador que fizera nome no campeonato argentino e fora contratado por seus méritos. No Rio de Janeiro não teve muita sorte, já que a sua posse não foi liberada pelo clube detentor do seu passe, assim ele entrou poucas vezes na equipe, porém não conseguiu firmar-se, relegado a reserva na maioria do tempo – naquela época não havia substituições durante a partida. Sem atividades ele ficava a beira do campo e quando a bola saia pela lateral, a devolvia ao jogo. Foram tantas vezes que fez isto, que os catadores de bola posteriores, ironicamente – todo mundo que jogar, foram apelidados de “gandulas”. E gandulas são até hoje.
Quem você pensa encontrar numa pensão? A resposta baseada no senso comum, é gente de classe média para baixo. Claro. Mas existiu em S. Paulo a “PENSÃO HUMAITÁ”, na Brigadeiro Luis Antonio nº 966, esquina com a Humaitá, cujo perfil não se encaixava na descrição, pois era frequentada pela elite paulista ou de passagem pela cidade. Também não era uma pensão, mas, uma blague dos seus frequentadores, pois ali era a residência do historiador JOÃO FERNANDO DE ALMEIDA PRADO (1898-1987), o “Yan”, onde ele recebia as terças, quintas e sábados para o almoço gente como: Assis Chateaubriand, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Jaime Cortesão, Marcelino de Carvalho, Tavares de Miranda, Alexandre Marcondes Filho, Joaquim Augusto Bravo Caldeira, João de Scantimburgo e alguns nobres europeus radicados na cidade, como o príncipe Sanguszko, latifundiário urbano em Higienópolis, dentre tantos outros. YAN DE ALMEIDA PRADO nasceu em Rio Claro, descendente paterno de um clã de fazendeiros, ricos pelo cultivo do café, o suficiente para que ele pudesse educar-se em Viena e Paris e manter hábitos sofisticados. Rentista, ele dedicou-se ao cultivo de rosas no jardim da casa, receber os amigos e a construir uma coleção de edições princeps de viajantes, códices de manuscritos e raridades, reunindo assim uma “brasiliana” de milhares de volumes, que vendida a USP, deu origem ao IEB. Foi autor de livros originais, como, Primeiros povoadores do Brasil (1935), D.João VI e o início da classe dirigente no Brasil (1968), A grande Semana de Arte Moderna (1976) e Entradas e bandeiras (1986).
Dentro do navio N. S. de la Coronada, angústia, depois de alguns dias de viagem, no abril de 1699. Parecia ser o ponto final da jornada dos que iriam até Livorno. Entre crianças e adultos, cinquenta passageiros vindos de Trás-os-Montes, que formavam uma grande parentela. Os agentes da Inquisição de Sevilha entraram no barco e prenderam a todos. Um dos chefes dos fugitivos era JOÃO LOPES DIAS (1675-1735), natural de Mirandela, que fugia com a mãe, filhos e a esposa Leonor Henriques Pereira, grávida (o filho Paulino nasceu na prisão). Depois de alguns anos o grupo conseguiu alcançar Bordeaux, onde retomaram o Judaísmo familiar. É descendente do grupo, Jacob Rodrigues Pereira, inventor da linguagem de surdos-mudos e ESTHER SARA LOPES-DIAS (1840-1912), que nasceu no Rio de Janeiro. A Esther Sara casou-se com o negociante Aaron Jules Vidal-Naquet e tiveram a Edmond, este a Lucien, que por sua vez casou-se com MARGUERITE VALÉRIE VALABRÈGUE e tiveram ao historiador francês PIERRE VIDAL-NAQUET (1930-2006). Que escreveu muito e sobre vários temas, mas que eu não consigo tirar da minha cabeça é sua dedicatória amarga em “Os Assassinos da Memória: um Eichmann de papel e outros ensaios sobre o revisionismo” (1988). “A memória de minha mãe, / Marguerite Valabrègue. / Marselha, 20 de maio de 1907. / Auschwitz, 2 de junho (?) de 1944. / Eternamente jovem”.
O inglês vinha afobado subindo a Avenida da Consolação, isto em S. Paulo, 1902, quando deparou com a Polícia, que vendo-o naquele estado, não teve jeito, fizeram-lhe algumas perguntas e ele não soube respondê-las. Não sabia português suficiente para isto, afinal trabalhava na ferrovia. Os policiais o prenderam-no e lavraram o ato: “(...) circular em trajes carnavalescos, fora de época, ofensivos ao pudor por deixarem a mostra as pernas em público, no centro da cidade (...)”. Algum tempo depois receberam a ordem vinda de cima, soltem o homem, ele estava indo para o Velódromo, onde se disputaria uma partida de futebol entre o S. Paulo Athletic e o Paulistano. Meia hora atrasado ou um pouco, o time pode entrar em campo com: Holland; Jeffery e Hodgkins; Biddel, Robinson e Duff; Montandon, Boyes, Miller, King e Poole. Lembrei desta historinha acontecida no primeiro campeonato paulista por domingo passado ter começado o campeonato deste ano.
Pela alfândega não só passa gente, mas, as histórias que elas trazem em si. Mesmo as pessoas mais simples, se não veja o caso do torneiro espanhol JOSÉ JAPÓN BENÍTEZ, de 28 anos, filho de Rafael Japón e Angeles Benítez, que chegou ao Brasil em 1958, depois de autorizado pelo cônsul Paranaguá. O sobrenome incomum e os olhos meio puxadinhos, ensejam a pergunta, qual a sua história familiar? Lembrando que a Espanha não recebeu imigrantes japoneses ou chineses. Ei-la aqui: Em 1614 o daimio (senhor feudal) de Tohoku, enviou o samurai HASEKURA TSUNENAGA (1571-1622) numa embaixada a Europa com alguns objetivos: visitar o Papa, obter apoio para os católicos japoneses e estabelecer contatos comerciais. Quando ele já estava na Espanha, em Coria del Rio soube das perseguições aos católicos japoneses, assim resolveu voltar a pátria, porém um grupo de trinta pessoas do seu séquito, com medo da repressão, resolveu ficar por ali mesmo e ficaram. Os seus filhos, netos e descendentes receberam o apelido de “Japón”. Quatro séculos depois: 645 pessoas (num universo de 29.284 habitantes) em Coria del Rio chamam-se Japón... Já HASEKURA TSUNENAGA tornou-se um kakure kirishtan (criptocatólico) e está sepultado no templo budista de Enfukuji.
“Chame um TAXI para mim (...)”. Provavelmente quem fez associar a palavra com o veículo de aluguel nunca ouviu isto. Os lombardos Tassos eram chamados assim, pois, viviam da cobrança de impostos ou taxa. Um deles ganhou a “concorrência” no séc. XIII para fazer o serviço postal entre Milão, Veneza e Roma – o que significava levar correspondência, pacotes, pessoas, fazer e receber pagamentos entre estes lugares. A empresa trouxe várias novidades para o setor, como postos pré-determinados onde se trocavam os cavalos, horários fixos, e claro carros e cavaleiros fardados. Em alguns lugares tomavam conta da estrada e eram remunerados com o pedágio. A eficiência da empresa chamou atenção e assim foram convidados para fazer o mesmo serviço para o Sacro Império Romano, sob o nome de THURN und TAXIS. O que fizeram entre 1512 e 1867. Enriqueceram tanto que em 1624 o chefe da família recebeu o título de “príncipe”. O que lhes permitiu o casamento dentro de famílias da mesma igualha. O penúltimo deles, Sua Alteza Sereníssima, JOHANNES (em homenagem ao trisavô português D. João VI) BAPTISTA DE JESUS MARIA LOUIS MIGUEL FRIEDRICH BONIFAZIUS LAMORAL, o 11º Príncipe de THURN und TAXIS (1926-1990) viveu como solteiro até os 54 anos, administrando os bilionários ativos familiares, inclusive um grande latifúndio no Brasil, mas, percebendo a necessidade de herdeiros, casou-se com uma condessa alemã de vinte anos. Tiveram filhos e ao que parece nenhum deles andou de táxi.
O menino africano DEVODÊ (1856-1924) chegou a Bahia aos oito anos como escravo. Foi comprado pela família Branco e renomeado JOAQUIM FRANCISCO BRANCO. Aqui ele trabalhou bastante, até ser alforriado e assim pode voltar para Lagos, Nigéria. Não desligou-se totalmente do Brasil, tornou-se exportador das frutas obí e orobô para a Bahia e importador de carne seca, fumo e cachaça. Chegou a ser um homem muito rico, tanto que em 1919, redigiu o seu Testamento e deixou um fundo para a educação dos netos, bens para os filhos, sobrinhos, afilhados e sobrinhos. Fez grandes doações para a Igreja Católica e as várias denominações Protestantes. E a surpresa: “(...) a Belmira da Conceição Branco, filha de meu falecido amo [proprietário] U. Joas Francisco Branco, de Figueira da Foz em Portugal, na Europa, 500 libras (...)”. A filha do seu dono que empobrecera e voltara para a Pátria. Nos confins da África ele soube disto. “O mundo gira e a Lusitana roda”
Loteria é um imposto que se cobra aos tolos. O sapateiro e shames (bedel) da sinagoga de Amsterdã, COENRAAD, talvez não soubesse disto e foi acusado de roubar bilhetes de loteria. O preço cobrado a ele não foi em dinheiro, mas, a fuga para Londres, onde ele reconstruiu a vida. A sua filha HANNAH casou-se com o judeu prussiano SAMUEL GLUCKSTEIN (1821-1873) e tiveram muitos descendentes. HELEN, filha do casal, casou-se com BARNETT SALMON, o maior vendedor de tabacos no UK, e a sua empresa trocou de atividades e tornou-se empresa na área da alimentação em 1894: a J. LYONS and Co., onde se podia tomar uma xícara de chá, comer um lanche ou flertar com as nippies (garçonetes). A empresa foi gerida pelos descendentes de SAMUEL GLUCKSTEIN, uma multidão de primos, que se casavam entre si. ALFRED SALMON (1869-1928), filho de Barnett e neto de Samuel, foi o seu grande dirigente, que chegou a ter 30 mil empregados e frequentá-la diariamente tornou-se um hábito britânico. Eles nunca se descuidaram da gestão empresarial, que caminhou paralela a política. Elegeram-se deputados ou incentivaram empregados como a química Thatcher, que desenvolvia sorvetes para empresa, fazer o mesmo – eleita ela levou um deles para tomar conta das finanças estatais (o que lhe valeu um baronato, Barão de Blaby). Nos anos Cinquenta NEIL LAWSON SALMON (1921-1989) veio ao Brasil procurando a expansão além-mar, tentar vender chá na terra do café, o que não deu certo, tanto que a empresa terminou suas atividades em 1981. NIGELLA LUCY LAWSON, bisneta de Alfred Salmon, entrou no ramo alimentício, mas de forma virtual, ela é apresentadora de um programa de gastronomia veiculado na TV e distribuído pelo mundo.
O que é ser “brasileiro”? Depende de onde você esteja. Se for em Portugal do século XIX ele é um retornado da ex-colônia que voltou depois de tentar ou obter fortuna. Se for no Togo, é o descendente de um ex-escravo que viveu no Brasil e voltou a África como “católico”. De qualquer forma é alguém que fez o caminho inverso das grandes migrações. O Dr. BERNARDINO LUÍS MACHADO GUIMARÃES (1851-1944) nasceu no Rio de Janeiro, neto de ricos comerciantes portugueses e retornou a Metrópole, onde casou-se com a carioca Elzira Dantas (para ser franco era ela que merecia o post) e tiveram 18 filhos. Bernardino Machado era filho de Barão (de Joane), mas, fez a sua caminha nas hostes republicanas, até ser eleito Presidente da Republica Portuguesa por dois curtos períodos, entre 1915 e 1917, 1925 e 1926. Já o Dr. SYLVANUS OLYMPIO (1902-1963) também nasceu numa riquíssima família togolesa, que lhe pode dar uma educação primorosa: estudou Economia em Londres e falava seis idiomas. O seu avô fora o mulato Francisco Olympio da Silva que nascera na Bahia e migrara para a África junto com tantos outros ex-escravos em busca de Liberdade. Pois, o Dr. Sylvanus, dirigiu a Unilever africana e foi o primeiro Presidente da República do Togo entre 1960 a 1963. Nenhum dos dois Presidentes brasileiros tiveram êxito na vida pública: BERNARDINO MACHADO comeu o pão do exilado, enquanto SYLVANUS OLYMPIO, foi assassinado numa madrugada de janeiro por um destes sargentões com vocação de office-boy.
Os BERNALS por suas convicções, parecem sempre estar subindo indignados uma escada rolante, que desce trazendo a multidão conformista. Eram judaizantes em pais católico e com fogueiras da Inquisição; comunista no Ocidente durante a Guerra Fria. Porém não esmoreciam nas suas crenças. Se não vejam: MANUEL NÚÑEZ BERNAL foi queimado como judaizante em 1655. A sua morte agitou os parentes que viviam em Cachoeira (Bahia) e na Holanda, onde eles publicaram. “Elogios que zelozos dedicaron a la felice memoria de Abraham Núñez Bernal, que fue quemado vivo santificando el Nombre de su criador em Cordova a 3 de mayo de 5414”. O predicador foi o rabino Aboab. Poucos anos depois, em 1670, eles se mudaram da Holanda para a Inglaterra, onde negociavam tabaco como outros judeus ibéricos. Em 1840, JACOB DE ISAAC HAIM GENESE BERNAL, converteu-se a Igreja da Irlanda e mudou-se para a Irlanda, para administrar uma ferrovia. O seu neto, JOHN DESMOND BERNAL (1901-1971), foi um grande cientista, pioneiro na cristalografia em raios-X e biologia molecular, mas, que aderiu ao Comunismo. Durante a Guerra, trabalhou com Lord Mountbatten no Projeto Habacuc e como tenente das forças britânicas foi ele quem levantou todos os dados para que acontecesse a DIA D, o desembarque na Normandia. Mesmo assim, por razões ideológicas, ele não ganhou o Premio Nobel, que foi dado a alguns de seus alunos. Um dia ele passou pelo Brasil...
Era uma estranha mulher no Rio Vístula. Em Salem seria uma witch incandescente, no Brasil, apenas uma benzedeira. AGNIESZKA PILCH (1888-1945), filha de camponeses poloneses católicos, começou na juventude a sua estranha jornada. Desmaiava e entrava em estado alterado de consciência, aprendeu o poder curativo das plantas, características que lhe fez se aproximar de grupos teosóficos e espíritas. A sua atividade de cura e vidência chamou a atenção dos grandes, e em alguns momentos foi protegida pelo presidente Masaryk. As suas previsões eram lidas com perplexidade. Dentre elas destaca-se a “profecia de Tegoborge”, no final do século XIX, quando em versos cifrados com metáforas onde aparecem águias, leões, martelo, dragão, ursos e cavalos, ela augura as guerras que se aproximam...mas, continua “vendo” o futuro, até o dia em que presa no Konzentratioslager Ravensbrück, um SS-Hauptsturmführer, ao ouvi-la prever sua própria morte, não teve dúvidas, sacou a pistola e a matou ali mesmo. A história terminaria com mais esta banal violação do 5º mandamento, porém, sua filha JANINA PILCH-CWIKLA (1921-2009), que era poeta, sem lugar nesta Europa bárbara, aceitou o pedido de casamento de um paranaense e veio para Curitiba, onde silenciosamente escreveu os seus versos até morrer velhinha.
O cozinheiro chinês LI PO apavorou-se quando viu a patroa Clarice dirigir-se a dispensa da casa, onde encontrou em meio a verduras, legumes e grãos, uma caixa com uma menininha viva dentro. No começo do século os “amarelos” eram vistos no Brasil como antropófagos, viciados em jogo e cocainômanos. Numa mistura de mímica, português e algum dialeto chinês o cozinheiro buscou explicar: A criança era sua filha. Naquele dia sua esposa (Joaquina Angélica) saíra de casa para fazer algum serviço e sem ninguém para cuidá-la, ele trouxera para o serviço, mas o fato não se repetiria... A dona Clarice Lage Índio do Brasil (1869-1919) era a esposa de Artur Índio do Brasil (1855-1933), Oficial de Marinha e Senador e um dos membros da comissão que construiu o Cristo Redentor no Rio (recebeu o título de marchese por isto). O casal que não tinha filhos, afeiçoou-se a chinesinha Ruth, deram-lhe uma educação refinada e o nome de família – Índio do Brasil. Passou-se o tempo. Dona Clarice foi assassinada (outra história complicada) e o marchese Índio do Brasil deixou a Ruth o grosso de sua imensa fortuna: “prédios (só no centro do RJ eram oito), terrenos, títulos de sociedades anonymas, etc”.
Sempre me interessei por linguagem não-verbal. Ao perceber a importância dos gestos, comecei a registrar num caderno os que percebi para uma possível antropologia dos gestos. Eis uma das anotações. Nos anos Oitenta os motoristas da Viação X. desenvolveram um sistema de gestos para avisarem uns aos outros a presença de fiscais, conhecidos no jargão profissional, como “cachorros”, na pista. Cujo trabalho era fiscalizar se havia evasão de rendas no ônibus, conferindo a concordância entre o número de passageiros e passagens. Isto era necessário, pois alguns motoristas tinham o descuido de transportar “cabritos” - passageiros que tomavam o ônibus no meio do caminho, pagavam a passagem, mas não recebiam o ticket (o dinheiro ia para o motorista). O sistema gestual permitia numa linha de grande distância manter o controle da presença de fiscais. GESTO 1 – O motorista ao cruzar com outro ônibus em sentido contrário, acenava com o braço direito e a mão espalmada, como se fosse um para-brisa. Tudo limpo. Não há fiscal na pista e nem no carro. GESTO 2 – Havia um fiscal dentro do carro. Acendia e apagava o farol alto, sem que ele desse conta. GESTO 3 – O motorista puxava a sua gravata duas vezes para baixo. Gesto de puxar um cachorro. Significava que ele tinha passado por um fiscal logo atrás.
O santista Zé – JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA (1763-1838) foi um homem muito inteligente. Talvez fosse o brasileiro mais culto do seu tempo. Deu aulas de mineralogia na Europa, enquanto S. Paulo substituía lentamente o nhengatu. Usou pela primeira vez em português a palavra “tecnologia” (1815). Viveu muito tempo na Europa, mas, mesmo assim, ele estava sempre de olho no Brasil. Foi tutor de nosso segundo Imperador e afastado do poder por um grupo mais competente politicamente. Exilou-se em Paquetá [Estive nos anos 90 por uma tarde toda na Ilha só para ver o lugar onde ele repousou da luta política] ... A sua filha CARLOTA EMILIA casou-se com o filho do cientista Vandelli e tiveram a NARCISA EMÍLIA, que se casou com o Visconde de Sepetiba. Este casal teve o filho AURELIANO, desembargador em S. Paulo, que casou-se com a Joana e tiveram ao ALBERTO (1880-1944), deputado, que se casou com a prima VALENTINA DE ANDRADA DE SOUZA QUEIRÓZ, do mesmo sangue do Zé e tiveram a: EDUARDO de Oliveira COUTINHO (1933-2014), cineasta, que viveu de olho no Brasil.
O zeide (avô em ídiche) Elbein e o zeide Feffer, que vieram do Império Czarista para a Argentina, provavelmente não entendiam o caminho da neta JUANA no Brasil. No começo dos anos Sessenta ela veio estudar a população de origem nagô em Salvador. Por lá encontrou e casou-se com sacerdote, escritor e artista plástico MESTRE DIDI (Deoscóredes Maximiliano dos Santos, 1917-2013), trineto em linha matrilinear de Marcelina da Silva, Oba Tossi, fundadora da primeira casa de candomblé no Brasil, o Ilê Axé Airá Intilé por volta de 1837, da nobre parentela Asipá, do reino de Oyó e Ketu em Benin. Juana foi iniciada depois nos segredos desta casa, construiu uma tese na Sorbonne, que deu origem ao livro: “Os Nagô e a morte”. O seu trabalho não é uma ruptura, é uma forma de tradução como os dos antigos turjimões judeus, apresentar numa língua conhecida algo que se desconhecia.
No cemitério judaico de Hamburgo existiu uma lápide, quebrada e jogada depois num canto, para lembrar VITÓRIA DIAS, sepultada ali na metade do século XVII. Nome português, gente portuguesa? Errado. Ela foi serva de uma importante parentela de comerciantes judeus portugueses, os Dias Milão. Pegue um mapa e veja as suas deambulações e as trocas de identidades. VITÓRIA DIAS tinha nascido na China, fora ao Japão, convertida ao Catolicismo, e vendida como escrava para o mercado de Goa, onde foi comprada por um dos Dias Milão que a trouxe para a sua casa na Mouraria em Lisboa. Ela fazia os trabalhos domésticos, quase calada, até entender um pouco de português. A família afeiçoou-se a ela, deu-lhe liberdade, mas ela ficou com eles. Porém durante a festa do entrudo de 1611 alguns Dias Milão foram presos como judaizantes, e a sua patroa, Guiomar Gomes, pressentindo o perigo, pegou os filhos, uma sobrinha e fugiram para Flandres. Pausa: Imagine o que era fugir na época e a circunstância, encontrar os “acarreadores de judíos” (guias que conheciam os caminhos) de alguma confiança, já, que eles podiam roubá-las, chantageá-las... – uma fuga destas podia terminar ao deixar a soleira da casa ou durar dias ou décadas como as dos Rodrigues Pereira. Ela dependia de tantas coisas, que se poderia dizer, dependia da sorte. Pois estas mulheres alcançaram Flandres e daí foram reunir-se a outros membros da parentela que já estavam em Hamburgo (em 1617), onde VITÓRIA DIAS faleceu alguns anos depois....
O paranaense FLAVIO MENDES CARVALHO (1954-1996), um Saraiva Leão materno, tinha uma grande visão. Nos anos 80 quando ninguém entendia bem o que era identidade cristã-nova, ele teve uma ideia batuta, reunir num livro as vítimas da Inquisição, fazer um repertório de processados e apenados. É o livro: “Raízes judaicas no Brasil: o arquivo secreto da Inquisição” (1992). Um vade-mécum obrigatório para quem tem ancestrais desta origem. A ideia era simples: o cristão-novo não era uma mula, tinha descendentes. Ele levantou a base genealógica, abrindo caminho para os genealogistas completarem o restante depois. Conheci Flávio nesta época, quando, com outros amigos fraternos como o Newton Menezes Júlio, o André Fitousie (que fizera aliá – subir a Israel), o Yaakov de Oliveira (que recebeu depois a semiha – ordenação rabínica – em Israel), dentre outros – evidente que esqueço muitos (a quem peço desculpas) – buscávamos levar além do nosso meio familiar, esta identidade ignorada. Ontem inesperadamente recebi uma mensagem de Hannah Carvalho (filha do F.), que eu não conhecia, só depois de algum tempo, soube que ela achara entre os papéis do Pai e da família, o meu cartão de visitas e o obituário sentido onde procurei descrever a importância de FLÁVIO MENDES CARVALHO, Z”l., para nós. Obrigado, Hannah, por nos fazer lembrar a nossa juventude.
O Império do Meio tornou-se incomunicável no começo do século XX. As pessoas não sobreviviam sem ligar-se a um warlord. Não foi diferente com o engenheiro Chu Chen (o nome de família antecede o pessoal), de Xangai, que ficou como soldado sob as ordens do general Chiang Kai-shek (1887-1975). Vencido o líder nacionalista no continente, iniciou-se a grande migração da família Chu para escapar a perseguição: pai, mãe e quatro filhos. Mudaram-se para Hong Kong, onde ficaram por quatro anos, daí, mais três meses chegaram ao Brasil. O engenheiro tornou-se um pequeno comerciante, mas, os filhos estudaram em boas escolas. CHU MING (1939-1997), a segunda filha, formou-se em Arquitetura na Universidade Mackenzie. Foi trabalhar na CTB (Companhia Telefônica Brasileira) em 1966, onde cinco anos depois, criou para a empresa uma proteção sonora para os telefones públicos. Estava inventado o “Orelhão”, ou no jargão da falecida empresa, o “Chu I”.
Rua da Misericórdia nº 6. É o Museu da Santa Casa de Misericórdia em Salvador. A Sala de reuniões é soberba. Móveis antigos e bonitos, junto a uma galeria de retratos dos Provedores da instituição. Uma tela chama a atenção, é a do Antonio da Silva Paranhos, Provedor e Capitão-Mór da Bahia. A casa foi na sua época o lugar da nobreza local, com os requisitos de poder familiar e “sangue limpo”. Os retratos são parecidos, os Provedores em tamanho natural, trazem na mão a carta de nomeação. A exceção é Antonio da Silva Paranhos, que apenas mostra um montão de dinheiro que deu a instituição. O realismo tripeiro transmitiu-se na família Silva, originária da freguesia de Paranhos, no Porto, até chegar ao sobrinho-bisneto José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845-1912), BARÃO DO RIO BRANCO, filho do Visconde do Rio Branco, um dos políticos mais importantes do II Reinado. O Barão do Rio Branco fez muitas coisas, desde tomar banhos, nu, no rio Tamanduateí em S. Paulo; namorar atrizes e coristas, porém o seu nome está ligado a diplomacia brasileira. Construiu o MRE, entre 1902 a 1912, como uma entidade de excelência e de cultura aristocrática. Através de sua caneta e mapas deixou fronteiras sólidas para o país. 900 mil km2 foram reunidos ao centro – uma França e Alemanha juntas, sem precisar dar um tiro sequer. Recusou a ser indicado ao Prêmio Nobel de 1911. O Sr. Barão morreu em 10 de fevereiro de 1912. Requiescat in pace.
O agente britânico 007 casou-se na família brasileira Rio Branco (a do Barão). Quer dizer, pelo menos, o personagem de carne e osso cujas habilidades foram emprestadas para compor o James Bond, de Ian Fleming. RONALD BRUCE TURNBULL, OBE (1914-2004) é o homem. Filho de um militar escocês que serviu na Índia, ele estudou em Cambridge, onde destacou-se em vários esportes, em História e fluência em dinamarquês. Por isto foi recrutado pelo Special Operations Executive (SOE) e plantado em Copenhague. Com a invasão, ele fugiu em zigue-zague, numa linha maluca, esteve no Cairo, Istambul (onde o filho Michael nasceu), Cidade do Cabo, até voltar a Estocolmo, onde organizou a resistência dinamarquesa, sabotando e organizando greves contra os nazis. Conseguiu convencer e retirar o físico Bohr do país para evitar que ele participasse do projeto soviético. MARIA THEREZA BOTAFOGO DO RIO BRANCO morreu num acidente automobilístico em 1945. Turnbull casou-se mais duas vezes com brasileiras e teve nove filhos no total. No Brasil ele foi empresário, dono da agência de publicidade Orion e presidente da Câmara Britânica de Comércio.
Paris foi a periferia dos muito-ricos brasileiros no começo do século passado. Era a terra da cultura, do prazer e da modernidade científica. Quando o Alberto [Santos Dumont] terminou o ginásio, na escola Culto a Ciência aqui de Campinas, o pai lhe deu um talão de cheques e mandou-o para Paris, para ele se entender com a dirigibilidade no ar. Outros iam para conhecer a modernidade literária. E assim foi com Oswald de Andrade, com o Eduardo Prado (modelo para a Cidade e as Serras, do Eça de Queiróz). Eles iam com todo conforto: uma família paulistana seguiu para Paris, levando além da criadagem, a vaca de estimação no navio, para garantir-se com o leite fresco. Muitos deles aproveitavam a temporada local e casavam (a contragosto dos pais) com francesas. O casamento assimétrico entre estes aristocratas tropicais e jovens da classe média francesa, causavam desconforto na geração dos pais – o medo que elas fossem confundidas com cocotes aposentadas trazendo uma nódoa para os seus descendentes. HORÁCIO GOMES LEITE DE CARVALHO JUNIOR, riquíssimo neto do Barão de Monteiro de Barros, também vivia em Paris. Foi lá que encontrou LILY MONIQUE LAMB (1921-2011), filha de um guarda-livros inglês radicado na França e miss Paris 1938. Ele não teve dúvidas, despachou-a para o Brasil, onde casou-se com ela. Viuva, ela casou-se em 1991 com ROBERTO MARINHO (1904-2003), dono das Organizações Globo, e um dos homens mais ricos do mundo.
No começo eles eram só os “tigres”. Os gallegos deixavam a sua terra. “(...) Tus hijos / huyen de ti o te los roban, / llenando de íntima pena / tus entrañas amorosas / y como a parias malditos, / y como a tribus de ilotas / que llevasen e el vostro sello de infamia y deshonra (...)”, escreveu a gallega Rosalía de Castro (1837-1885). Tudo isto para a chance de uma vida digna a si e aos seus. O inicio foi brutal para estes imigrantes, oriundos do mundo rural, quase todos analfabetos (a taxa mais alta entre os imigrantes), para inserir-se numa sociedade que se urbanizava. O trabalho mais visivel deles era transportar dejetos humanos numa cidade sem saneamento básico. “Só um tigre podia aguentar aquilo”. Nos anos Sessenta a Galícia continuava a mesma, tanto que o adolescente MANOLO, temendo a convocação para o serviço militar embarcou para o Rio de Janeiro, com o dinheirinho no bolso para um mês, se acabasse e não encontrasse emprego, podia optar pelo suicidio ou mendicância. A perspectiva não lhe pareceu boa ao ver o tamanho do cemitério S. João Batista. “Morre muita gente por aqui”. Mesmo assim, ele conseguiu um emprego de vigia num museu, passou o tempo e depois com outro gallego, Florentino, construiram o bar ANTONIO´S no Leblon, lugar onde se reunia, Vinicius, Tom Jobim, Roniquito, Walter Clark, Otto Lara Resende, Armando Nogueira, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Di Cavalcanti....
É grande mérito lavar ritualmente o companheiro de comunidade que morreu, preparando-o para o sepultamento num cemitério israelita, já que os mitaskim (lavadores) não esperam receber nada em troca a quem fizeram o bem. Foi esta atividade que o baronete inglês MOSES MONTEFIORE (1784-1885) tomou para si, quando aposentou-se aos quarenta anos, depois de uma bem sucedida carreira nos negócios e também na política (foi o primeiro prefeito de Londres, onde introduziu a iluminação a gás) Percebendo que podia fazer mais pelos semelhantes ele dedicou-se até o final de sua centenária vida a filantropia. Esteve na Turquia, em 1840, para defender os judeus de Damasco, acusados do Libelo de Sangue. Tentou trazer para a família o menino Edgardo Mortara (1858). Lutou para diminuir os sofrimentos dos judeus da Russia (1846), Romênia 1867) e Marrocos (1872). Esteve sete vezes no Eretz Israel, onde construiu o Mishkenot Sha´ananim, restaurou o tumulo de Rachel, etc., etc. Os Montefiores descendiam do casal Jorge de Almeida e Leonor Nunes, oriundos de Mogadouro, que tinham passado de Portugal ao México, onde viviam parentes importantes, com medo da Inquisição. Percebendo que seriam novamente incomodados eles fugiram para a Península Itálica, onde os descendentes adotaram o apelido Montefiore (nome de uma cidadezinha local) e continuaram casando-se entre portugueses, com os Lumbrozo, com os Mattos, com os Lamegos, com os Lousadas, com os Ximenes... É deles, que nasceu “sir” MOSES MONTEFIORE, o aniversariante de hoje (24/10).
Transplanta-se um pezinho de alface, mas, e uma cidade? Mazagão (hoje El Jadida) no Marrocos foi uma fortaleza portuguesa encravada no norte da África por quase três séculos. Com problemas de abastecimento, sem utilidade bélica e correndo o risco de um massacre, Pombal transferiu toda a cidade fortaleza de Mazagão para a Amazônia em 1769, numa solução encontrada por si, para acomodar o grupo de combatentes que formavam esta cabeça de ponte na luta contra os Mouros. Primeiro, eles passaram por Lisboa, onde foram apresentados ao El-Rei pelo Ministro: “São tão nobres quanto V. Majestade”, e do grupo inicial, seguiram 371 famílias em dez navios para fundar a Nova Mazagão (Amapá). Vinte e um individuos morreram na travessia oceânica. O escritor paulistano José OSWALD Nogueira DE ANDRADE (1890 - 1954) que pintou o sete na Literatura brasileira, como um dos criadores da Semana de Arte Moderna (1922), descendia destes refugiados por sua mãe, a paraense Inês Henriqueta, filha do desembargador Marcos Antonio Rodrigues de Sousa e Henriqueta Amália de Góis Brito Inglês. Oswald morreu num 22 de outubro.
Sempre me interessei por linguagem cifrada. Assim colecionei mais de uma centena de histórias envolvendo esta linguagem – desde o modo do Presidente de MG, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, IV (1870-1946), que avisara ao seu oficial de gabinete, apenas transformar em leis ou liberação de verbas, as que contivessem o ponto no “i” de sua assinatura. As outras, sem o ponto, eram apenas para impressionar os seus eleitores, mas, sem consequências práticas. A qualquer cobrança ele colocava a “culpa” no ajudante, mostrando o documento assinado. Tenho exemplos disto em outras situações. Mas como driblar a censura postal? Onde o cifrado não pode parecer um código, pois se for, será detido pelos censores militares. Passo duas historinhas reais, onde o texto está na vista do censor sem que ele saiba. Quando o rom (cigano) brasileiro Victor (1931-) soube que a kumpania ia deambular pela URSS, combinou com eles uma forma de saber a nova realidade dos seus parentes: “(...) O código era o seguinte: eles incluiriam fotografias nas cartas. Se ele ou ela estivesse em pé na foto, significaria que estava tudo bem; se estivessem sentados, significaria que a situação não estava bem. Quando as cartas chegaram, qual não foi a surpresa ao ver que todas as mulheres nas fotos estavam deitadas (...)”[VISHNEVSKY, V. Memórias de um cigano, p. 27] Outra história: o escorregadio nazista Albert Speer (1905-1981) ao saber que a filha ia viver numa casa americana de família judia (trocada por uma Quaker) no programa de desnazificação, instruiu-a: “(...) Linguagem secreta: se algo estiver errado, mas você não quiser, ou não puder, dizer que está, coloque a palavra “contudo” no começo da frase. Portanto, se você disser, “contudo, eu estou bem”, isso significa que você não está bem (...)” [SERENY, G. Albert Speer: sua luta com a verdade, p. 864].
O Iossif [Stalin] está? O Winnie [Churchill] está? E Nikita [Khrushchev]? E Chu En-Lai? CYRUS SULZBERGER, II (1912-1993), além de falar ao telefone com estes gajos, também os visitava frequentemente nos seus palácios. Cyrus tinha dois lados, o solar: jornalista brilhante do N. Y. Times (acionista da empresa jornalística), e o noturno, pombo correio dos presidentes americanos para missões em segredo e coletor de informações para as agências de informação durante a Guerra Fria. Nestes anos passou várias vezes pelo Brasil onde um ramo de sua ancestralidade deixara a obscuridade também numa guerra. O filho do português DIOGO MENDES PEIXOTTO, viveu em Recife, sob o nome de MOSES COHEN, onde passeava com sua farda e seu arcabuz (haakbus) de soldado holandês. Ele casou-se com a neta do rabino Aboab e tiveram o filho JOSHUA COHEN PEIXOTTO, que rumou para Caiena, onde casou-se com uma burdelesa e tiveram a DANIEL, que casou-se com uma Campos Pereira. Ambos tiveram a LEAH, que casou-se com SAMUEL LEVY MADURO PEIXOTTO (descendente de Antonio Rodrigues, o “Maduro”, natural de Trancoso e queimado em 1616). O filho de ambos foi o hazzan (cantor litúrgico) MOSES, que teve ao médico DANIEL LEVY MADURO PEIXOTTO (1800-1843), pioneiro da medicina preventiva, que por sua vez, uniu-se a RACHEL MENDES SEIXAS. O casal teve a JUDITH, esta a RACHEL, que casou-se com Cyrus Lindauer Sulzberger (dono do N. Y. Times), avô de CYRUS SULZBERGER, II, o amigo do rei... ... que no último 20 de setembro completou vinte anos do seu falecimento.
O que há de comum entre o lutador sino-americano BRUCE LEE e a comunidade judaica holandesa? Teve um aluno importante desta origem? Um produtor cinematografico? Ou algo mais próximo, um parente? É uma história curiosa, com muitas versões, aqui vai a minha, baseado em documentos. Em 1859, o jovem comerciante MOZES HARTOG, também conhecido como C. H. M. BOSMAN (1839-1892), judeu natural de Roterdã, chegou a Hong Kong como representante de uma empresa de exportação, mais tarde, ele deixou a firma e construiu um hotel. Neste período teve uma concubina chinesa, com quem teve oito filhos. Quando percebeu que o negócio não ia bem, mudou-se para a Inglaterra, deixando os filhos eurasianos em Hong Kong. Um destes filhos, HO KUM-TONG (1866-1950), comerciante bem-sucedido, começou como negociante de açucar e depois associado com irmãos, primos e sobrinhos Ho, expandiu-se para criação de banco, seguradora e cassino. O clã era tão fechado que possuia até cemitério próprio. HO KUM-TONG teve de várias mulheres, trinta filhos reconhecidos, e um deles foi HO OI-YU (1902-1996), conhecida como “Grace”. GRACE HO casou-se com o ator LI HUI-CHUEN e tiveram o filho BRUCE LEE (Li Jun-fan, 1940-1973), o pequeno dragão.
10 de OUTUBRO de 1880 – O escravo LOURENÇO (*1851), que mourejava na Rocinha (hoje Vinhedo), na fazenda do campineiro Manoel Caetano Pacheco de Macedo, resolveu não esperar mais tempo para desfrutar a liberdade e deu no pé. Era a sua segunda fuga, a primeira fora onze anos antes. Percebia-se que naquele momento este modo de produção trabalhista não tinha futuro, por vários motivos, principalmente pela desobediência civil, tanto, dos escravos que não aceitavam esta condição e fugiam, quanto a reprovação da maioria da sociedade a escravidão e faziam ouvidos de mercador aos capitães do mato. Em 1884 o Manoel Caetano já era morto e sua esposa e prima Maria Pacheco de Toledo perdeu a fazenda por dívidas para Antonio Freitas Guimarães (os processos estão no CENTRO DE MEMÓRIA da UNICAMP). Do prazenteiro LOURENÇO, que fizera do limão de sua vida, uma limonada, nenhuma notícia mais. FOTO: CORREIO PAULISTANO, 1880.
Gente de carne e osso pode tornar-se personagem de ficção, basta entrar no campo de visão de um escritor. Foi o que aconteceu ao neto de um funcionário do Império Austro-húngaro, que sem pressentir tornou-se um personagem ficcional, baseado nas velhas tragédias gregas. ADOLF (“Abraham”) SCHMITZ, natural de Kopchen, deixou a sua terra em busca de melhores oportunidades. Casou-se com a italiana Paolina Rosa Macerata e o filho, FRANZ SCHMITZ (1829-1892), foi comerciante em Trieste e casou-se com Miriam Felice (“Allegra”) Moravia (1832-1895), rica herdeira de uma fábrica de tintas que tornou-se parte da gigante farmacêutica Sandoz, anos adiante, e tiveram o filho ARONNE ETTORE SCHMITZ (1861-1928), que por sua vez casou-se com a prima Livia Fausta Veneziani e teve uma posição confortável, e assim pode dedicar-se a literatura, sob o pseudônimo ITALO SVEVO. Atividade que levou a conhecer o autor irlandês, James Joyce, que fez dele o LEOPOLD BLOOM, o seu Ulisses. “(...) Rudolph Bloom (falecido) narrara a seu filho Leopold (de 6 anos) um arranjo retrospectivo de imigrações e assentamentos em e entre Dublin, Londres, Florença, Milão, Viena, Budapest, Szombathely, com asserções de satisfação (tendo seu avô visto Maria Teresa, imperatriz da Áustria, rainha da Hungria), conselhos comerciais (tendo cuidado do pence, as libras cuidarão de si mesmas). Leopold Bloom (de 6 anos) acompanhara essas narrativas com constante consulta do mapa geográfico da Europa (político) e com sugestões para o estabelecimento de locais de negócio afiliados nos vários centros mencionados (...)” [fragmento de Ulisses].
Nomes de famílias, apelidos ou sobrenomes, foram escolhidos em algum momento do passado baseado numa característica pessoal do utente (Gordo, Moreno, etc), num patronímico (de Rodrigo, Rodrigues; de Pedro, Peres, etc); tirado de uma profissão (Carpinteiro, Pastor, etc), religiosos (Rosário, Carmo, etc) e toponímicos (de uma cidade ou região, Lisboa, etc). São estas as principais fontes de sobrenomes, porém estas formas não esgotam as fontes de nomeação. Escolhi duas formas que fogem a citações: Numa guerra contra os vizinhos castelhanos, o capitão penamacorense MANUEL ROBALO DO AMARAL, aprisionou um batalhão inimigo comandado por D. ANTONIO PIGNATELLI, filho do Vice-Rei da Sardenha. Resultado, ele recebeu …. do seu cativo, “as armas, o nome Pignatelli, e a condição de parente”. Portanto, os portugueses Pignatelli (Graciosa) não tem ascendência italiana. Outro caso é o do escritor piemontês UMBERTO ECO (1932), neto de uma criança abandonada – normalmente na Itália estas crianças recebiam ao serem registrados o sobrenome Proietti ou Esposito (na Bahia, quem passou pela Roda dos Enjeitados de Salvador, o Mattos, em homenagem ao filantropo Matinhos). No caso do avô de Umberto Eco, ele recebeu o acrônimo de ex caelis oblatus (oferecido pelos céus). Há outros casos...
(…) Toque de sacristão, de alarme, de tristeza fúnebre, de parto, de Nosso Pai (comunhão levada para enfermo), de agonia (anunciar a morte iminente de alguém), de anjinho (falecimento de criança), de Aragão (recolher as 22hs) foram modos da autoridade comunicar-se com a comunidade existente na Romanitas. O sino que está ali desde 1781 na torre esquerda da igreja da Ordem Terceira do Carmo, em Ouro Preto, se apresenta: “Chamo-me Elias. Pelo clamor de minha voz desfaçam-se as nuvens em chuva e destrua-se a falsidade” (em latim na campânula). De Ouro Preto saíram para a fogueiras da Inquisição: o médico DIOGO CORREIA DO VALE, natural de Vila Real, em 1732; o lavrador LUIS MIGUEL CORREIA, natural de Viseu, em 1732 e o comerciante MANUEL DA COSTA RIBEIRO, natural de Celorico da Beira, em 1737. Quando procurei entender o verdadeiro carisma do Carmo, dentre outras coisas, visitei o Elias em busca de pistas para compreender a atração que a Ordem exerce sobre os judeus (da vetusta Santa Teresa de Ávila ao contemporâneo frei Daniel Rufeisen), assim como a do Rosário, atrai os afro-brasileiros para o culto católico...
O SEBASTIÃO JOSÉ (1699-1782) parece perguntar a “fotógrafa” JOANA DO SALITRE: Estou bem? A peruca nobilitante, o peitilho engomado, a Cruz de Cristo a mostra, a biblioteca jurídica próxima a si, indicam que sim. A combinação da pena na mão e o papel é a demonstração do exercício do poder. Só faltava o título que lhe celebraria no futuro: MARQUÊS DE POMBAL (o primeiro), recebido em 16 DE SETEMBRO DE 1769. Quando SEBASTIÃO JOSÉ viveu em Viena e Londres teve relações com a parentela R.S. Na Viena, conversando com o Dr. ANTÓNIO NUNES R. S. soube o que Portugal perdia com a expatriação dos cristãos-novos. Em Londres foi o padrinho de batismo católico do menino JOHN JOSEPH BELLI (1740-1805), sobrinho-neto do Dr. ANTÓNIO, futuro tronco de uma linhagem de soldados (estiveram na Guerra Peninsular, Waterloo e Dardanelos) e dos baronetes de BEAUMONT of STOUGHTON GRANGE. De mim, confesso a incompetência social, não consegui gostar do descendente brasileiro mais visível do Sebastião José, o árbitro de futebol, JOSÉ ROBERTO WRIGHT, e “retomar” a velha amizade. Infelizmente através do seu apito ele prejudicou a Ponte Preta em momentos cruciais. Lamento, mas é imperdoável...
Sete de setembro é uma boa data para lembrar príncipes que perderam os seus reinos. Do que vou falar, poucos conhecem, apesar de ter vivido parte do exílio no Bom Retiro, antigo bairro judaico de S. Paulo. Trata-se do 6º “MUNKATCHER REBBE”, líder espiritual e laico desta seita húngara. Estas seitas ou movimentos hassídicos são como pequenos reinos não-territoriais, fechados a estranhos e são governadas por um Rebbe ou Admor, sucedidos de forma hereditária. O(a)s filho(a)s dos Admores só casavam entre si, tecendo uma teia genealógica, que gerou uma nova aristocracia judaica. Pois, o nosso príncipe, rabino BARUCH YEHOSHUA YERACHMIEL RABINOVICH (1914-1997), descendia de uma dinastia rabínica cujo tronco é o RASHI, e como já sabem, este, descendente de David HaMelech (o rei David). Em 13 de março de 1933 ele casou-se com a filha única do Admor dos Munkatchers. A festa teve entre 20 a 30 mil convidados (há filmes dela no Youtube). O sogro morreu em 1937 e ele herdou o “reino”. Infelizmente o Nazismo deu o bote e ele foi separado dos seus liderados, viveu deslocado entre a Europa e a Ásia. Nos anos Cinquenta veio ao Brasil tentando reencontrar os seus súditos perdidos. Em S. Paulo estudou Filosofia e Psicologia na USP. Já tinha deixado de ser Anti-Sionista e a partir dali passou a citar os gentios Platão e Aristóteles, algo incompatível para os seus antigos súditos. O “reino” passou ao filho e ele foi para Israel onde viveu os últimos dias de sua vida.
MIGUEL TELES DA COSTA (1655-1717) nasceu em Trancoso, numa bem-sucedida família cristã-nova de comerciantes. Ele chegou ao Brasil como Capitão-Mór de Paraty (1702-5), posteriormente adentrou MG a dentro e em Rio das Mortes montou uma estalagem e plantou milho e feijão. Os seus negócios atingiam até o Nordeste – um dos parceiros econômicos foi o médico e “financista” Manuel Mendes Monforte (pertencente a nossa parentela R.S.) em Salvador. Denunciado a Inquisição em 1710, foi condenado por judaizante, teve os bens confiscados. Morreu louco e como indigente. Há uma biografia escrita pela historiadora Rachel Mizrahi: A Inquisição do Brasil: um capitão-mor judaizante (1984). Nos anos Oitenta reconstruindo a genealogia do Visconde de Francos (Fernando da Fonseca Mesquita e Sola, 1795-1867), primeiro militar de origem integralmente cristã-nova a comandar o Exército português, conheci o Dr. Julian Kemper, de Surrey, genealogista da parentela “de Sola” e foi através dele que consegui, ligar o ramo português aos da diáspora extra-ibérica, notadamente uma dinastia rabínica (Abraham de Sola, Abraham Pereira Mendes, Frederick de Sola Mendes, David Aaron de Sola, David de Sola Pool, etc.). Lembrei dele ao pensar na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, onde se celebra o Livro, razão de atrair muitos judeus, suficientes para ter-se um minian para um Kaballah Shabbat. Minha sugestão, que tal, arranjarmos um modo de homenagear o filho de Israel mais antigo de Paraty nesta festa literária?
No domingo passado (01/09), penúltimo final de semana permitido a visitar o Cemitério Israelita do Butantã (na cidade de S. Paulo), antes do Yom Kippur (Dia do Perdão), quando as pessoas vão em massa visitar os túmulos dos antepassados, vi uma Senhora de origem lituana visitando os seus mortos, que me lembrou o comportamento de nossos patrícios de Vilarinho dos Galegos. Ela estava na quadra P, caracterizada como local de gente muito religiosa, onde está a ohel (capela) do rabino JOEL BEER, descendente de multicentenária dinastia; do rabino MENDEL DIESENDRUCK, líder espiritual da comunidade portuguesa entre os anos 30 e 60; do rabino OSELKA, do mohel SIMHON (que circuncidou um rei egípcio)... Pois esta Senhora ao cumprir o ritual de levar uma pedrinha a cada lápide dos seus parentes, batia com a pedrinha na lápide por algumas vezes e dava um “recado” familiar em tom de carpideira. Nos ritos fúnebres dos cristãos-novos de Vilarinho dos Galegos, século XX, há algo parecido: “Logo após a morte, aparecem as rezadeiras, que choram e lamentam em grande gritaria, dando ao morto instruções e conselhos, encarregando-o de perguntas e recados a pessoas anteriormente falecidas. As perguntas e recados são muitíssimo extravagantes e, a título de exemplo, eis alguns: “Diz ao Tim-Tim que agora estamos mal, porque já nos morreu a burra Ruça – Pergunta a teu avô onde deixou as “guinchas”: se foi na Arribas de Baixo, ou nas de Cima” (,,,)” Em: MACHADO , Casimiro de Morais. Subsídios para a História de Mogadouro. Os marranos de Vilarinho dos Galegos. Tentativa Etnográfica, p. 27.