Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 4 de janeiro de 2014

A epígrafe na lápide baseada no Gênesis: “And Romy walked with God with Purity and Humility” é incomum neste gênero de citações. Já anotamos milhares de epígrafes e ela não aparece em nenhuma das já vistas por nós. Se normalmente elas buscam uma semelhança entre o Ser biológico e o literário, quando a vimos, intuímos que ali repousou um místico e não apenas um crente, algo que o seu círculo intimo reconheceu ao registrar a frase bíblica onde o misterioso Enoque, raiz da mística judaica, é biografado. Foi o que pensamos ao passar pela lápide de Reuven ben Moshe Aaron, aliás, ROMY FINK, no Cemitério Israelita do Butantã, em S. Paulo. Fomos as várias fontes, dicionários e quem-é-quem, sem encontrar nada, mas, por sincronicidade, caiu nas mãos, o livro “Bodenlos: uma autobiografia filosófica” de Vilém Flusser e lá está o nosso personagem desconhecido. ROMY FINK (1912-1972) foi um advogado inglês, mas não só isto, ele possuiu múltiplos interesses: foi especialista em Shakespeare e arte japonesa, coreógrafo do Ballets de Monte Carlo. Descendia de uma dinastia rabínica, cultores da Cabalá, fundada por Joseph Caro, autor de Shulchan Aruch. Como conviva de Vilém Flusser em S. Paulo, ele serviu de tipo ideal judaico no livro já citado para discutir qual a essência do Judaísmo, e onde reconhece as suas atividades místicas como estudioso e praticante do Zohar. Recomendo o capítulo, simbolicamente o “18”, tanto para quem deseja conhecer o personagem, quanto, para os que procuram entender a essência moral e metafísica do Judaísmo. FOTO: ROMY FINK, circa 1960, ARQUIVO NACIONAL.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Joaquim vira os invasores napoleônicos forjarem uma lima muito superior as que já haviam no país. Ele copiou a fórmula secreta, acertou, começou a ganhar os seus contos de réis. Com a arca cheia, deu para reclamar dos “dízimos das favas” que pagava a Igreja. Não demorou muito e a população incendiou a sua casa e ele e família, os “Tomés” (pela incredulidade religiosa ou na versão familiar, por serem originários de S. Tomé de Mira), só tiveram o tempo de colocar os pertences numa carroça, fugir e arribaram em Vieira de Leiria, onde com o tempo prosperaram ainda mais, criando uma fábrica de limas e tornaram-se os senhores locais. LÚCIO TOMÉ FETEIRA (1902-2000), o neto de Joaquim, não herdou a fábrica imediatamente e assim teve que se virar. Trabalhou no Congo com café, girou pela África portuguesa, como funcionário colonial de finanças. E aqui são os inimigos que falam: ameaçou suicidar-se se não lhe deixassem se casar com uma herdeira portuguesa muito rica. Casou-se e tomou um empréstimo de 3 contos com o sogro, melhorou o cheque alterando-o para 13 contos e construiu uma fábrica de vidros planos, que replicou no Brasil, na Argentina, no Uruguai e na Venezuela. Isto em um tempo que para se fazer um telefonema interurbano levava-se um dia e uma carta para além-mar um mês. Criou uma grande fortuna, tornou-se um filantropo. É (ainda) grande proprietário no Brasil, um pouco depois de Niterói, possui uma sesmaria de 70 km costeando o mar, onde pretendeu construir uma cidade, Olímpia, em homenagem a irmã, que morrera solteira, depois que dois namorados inconvenientes morreram antes de vestirem os paletós de noivos. Feteira soube também cultivar o Poder, esteve sempre com ele, mas também ajudava financeiramente as Oposições, das portuguesas as estrangeiras (Juscelino Kubitschek foi amparado por si). Com ele não tive nem o shake hands habitual, só o vi no reveillon do Sr. Adelino Dias, sobre o qual falei ontem...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ontem (31/12) saímos, minha irmã Sara e eu, para reconhecermos o que restou da Campinas dos anos Setenta. Subimos ao viaduto Miguel Vicente Cury, para vermos a “a Firma”, como chamávamos o armazém do Sr. João Veríssimo, o velho. O entreposto ainda está lá, mas abandonado. Isto me lembrou a festa de final de ano que o seu sobrinho Sr. Adelino Dias dava na sua chácara em Valinhos aos funcionários portugueses do grupo Eldorado e também a patrícios importantes de passagem pela cidade. Foi numa delas que vi o capitão trasmontano JOÃO MARIA FERREIRA SARMENTO PIMENTEL (1888-1987). Eu ainda era adolescente e besta, algo que o Tempo buscou curar e só percebia a sua importância, pela corte que os mais velhos faziam em torno de si. Anos mais tarde comprei as suas Memórias, autografada e com o seu ex-libris. Há um episódio delicioso neste trabalho. Ele conta as peripécias de Camilo Castelo Branco e um tio seu, ambos “freiráticos” (isto é, quem namorou freiras). Explicação: naqueles tempos, as famílias de escol não permitiam que suas filhas se casassem com sujeitos que elas viam como inferiores socialmente e assim as colocavam nos conventos para evitar a procriação indesejada. Lá sem a menor vocação religiosa, elas sublimavam a vida fazendo doces e “torneios” de poesias, ocasião do namoro platônico dos parentes que as visitavam. Pois num destes torneios, o Sr. Morgado de Quintela recebeu de uma delas, o mote para desenvolver em poesia: “Deste que muito a venera / O Morgado de Quintela” Depois de uma semana insone e angustiado ele compôs a quadrinha. Não saiu grande coisa, mas pelo menos comeu as “babas de moça”: “Tarde virá uma tarde / Como a tarde de ontem a tarde / Deste que muito a venera, / O Morgado de Quintela”.
Réveillon de 1968: “(...) Foi tudo muito rápido. A aparição dançava com a novidade daquele verão carioca, um forasteiro egípcio que, por ser também judeu, ganhou dos seus rivais um apelido retirado da incomum combinação étnica: “contradição ambulante”. Dizia-se que era muito rico e contavam-se histórias mirabolantes a seu respeito. Ao certo, sabia-se que tinha uma cara estranhamente bela e um nome com rima e aliteração, desde que pronunciado à francesa: Soli Levi. Até onde se podia ver, o par dançava como estivesse disputando um concurso de bom comportamento; nem de rostos colados estavam. De repente ela avistou o marido (...)” Em: VENTURA, Zuenir. S. Paulo, Círculo do Livro, p. 28