Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 30 de novembro de 2013

ERMELINDA CANADAS MENDES LOPES, comerciante portuguesa de roupas, viveu no Brasil desde os anos Cinquenta. Faleceu em S. Paulo e foi sepultada no Cemitério Israelita do Butantã. Ela deixou a sua herança a Associação Israelita Beneficência Beit Chabad “com a missão de constituir uma FUNDAÇÃO [MARINHA MENDES LOPES, em lembrança a filha falecida] que apoiasse e atendesse as necessidades de crianças e adolescentes doentes e carentes do Brasil”. A Senhora Ermelinda fez parte de uma pequena onda migratória contemporânea, a dos judeus-portugueses, a partir dos anos Quarenta, impelidos por razões econômicas. Há gente de variadas origens geográficas e graus de observância. A figura mais conhecida de todos eles é o rabino MENDEL DIESENDRUCK, líder espiritual da comunidade judaica portuguesa entre os anos Trinta e Cinquenta. Na revista HaLAPID, porta-voz da “Obra do Resgate” da Sinagoga Kadoorie Mekor Haim, do Porto, editada pelo capitão ARTUR CARLOS DE BARROS BASTO, há vários registros desta migração. No nº 99, luas de maio e junho de 5700/1940, p. 5, sob a rubrica “Emigrantes maranos” são nomeados: JULIO CÉSAR D´ALGE, de Lagoaça; ANTÓNIO (Yomtob) RODRIGUES, de Belmonte; MANUEL ANTÓNIO (David) LAPO, de Vila Nova de Gaia e ARTUR HENRIQUE (Abraham) LOPES (coloquei uma foto dele em post anterior) e MANUEL AUGUSTO (David) RODRIGUES, ambos de Vilarinho dos Galegos. Em outros números da Revista e outras fontes há registros de mais imigrantes desta origem.
No começo do século XVIII chegaram a Londres um grupo de famílias foragidas da Inquisição ibérica: Mendoza, Lopes, Rodrigues Brandão, Rodrigues Ribeiro e Henriques Valentine, que casavam-se entre si. O casal ABRAHAM MENDOZA (1731-1805) e ESTHER LOPES (1731-1813) deu origem a uma extensa parentela, onde se encontram um pugilista importante (DANIEL MENDOZA, Reuven Faingold tem um belo artigo sobre ele na revista GERAÇÕES/BRASIL), um Vice-Rei da Índia (MARQUÊS DE READING) e atores. Um dos atores, descendente desta parentela é o aniversariante de hoje (08/09), PETER SELLERS (1925-1980), neto materno de WELLCOME (Benvenida) e bisneto de ELIZABETH (Bilha) MENDOZA (…), que apesar de ser um dos maiores atores cômicos em todos os tempos, era inseguro, dependente da mãe e extremamente agressivo durante estas crises. Morreu ao fazer uma doença cardíaca pelo excesso de álcool e drogas que usava para atenuar o sofrimento pessoal. Para mim, ficou o excepcional ator que deu vida ao ator indiano Hrudi V. Bakshi de The Party (1968) e ao jardineiro americano Chance, de Being There (1979), em atuações irretocáveis. Happy Birthday, Mr. Sellers
O menino negro IBRAHIM, de oito anos, foi capturado por caçadores de escravos na Etiópia no começo do século XVIII e levado para o mercado de escravos em Istambul, onde foi comprado por um grupo de nobres russos liderados por P. A. TOLSTOI, bisavô do Escritor, que o presenteou ao Czar Pedro. Na Rússia ele recebeu novo nome – ABRAM PETROVICH HANIBAL (1696-1781), e esmerada educação militar na França e na Espanha, graças ao padrinho imperial. Casou-se na nobreza local, teve dez filhos, deixando grande descendência. O mais importante deles foi o bisneto, A. S. PUSHKIN (1799-1837), considerado o fundador da literatura russa moderna, cujos descendentes se aparentaram a realeza inglesa, através de casamento num ramo Mountbatten. A aniversariante de hoje (09/09), bisneta de Pushkin, a condessa NASTASIA MIKHAILOVNA de TORBY (1892-1977) teve entre os bisavós três reis europeus: Paulo I, da Rússia; Frederico Guilherme III, da Prússia e Gustavo IV da Suécia. Ela foi casada com um general inglês e viveu na Inglaterra.
Ela nasceu num 10 de setembro, filha de um Orientalista e de uma aristocrata da família dos Medicis. Tentou ser atriz e escreveu um livro de poesias eróticas, sem sucesso. A família barrou-lhe os dois projetos. Foi babá em Londres, onde conheceu um conde, de atividades misteriosas (teosofia), e teve uma filha. Separou-se e ficou sem dinheiro em Paris. Entrou no nascente ramo da moda cindindo-o em dois caminhos distintos. Ela optou por vender, as vezes provocando espanto (foi ela quem difundiu o rosa-choque), apostou na roupa feita sob tamanho-padrão (popularizou o zíper) e no formato “desfile” como vitrines. Sempre fez o caminho oposto de Coco Chanel. A sua descendência também ficou ligada a moda. As suas netas são MARISA e BERRY BERENSON, esta última, esposa do ator Anthony Perkins, foi assassinada com todos os passageiros em 11 de setembro de 2001 no voo do American Airline Flight 11. A aniversariante ELSA SCHIAPARELLI passou pelo Brasil numa viagem de negócios – uma extravagancia para a época (1949), tal a dificuldade dos transportes...
A letra da poeta portuguesa FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938-2007) era miudinha, mas, clara e legível (desde que você usasse óculos). Foi o que percebi após interrogá-la sobre o porquê de alguns dos seus poemas ter o universo bíblico como cenário e metáfora. Dentre outras obras de sabor bíblico, a Fiama produziu uma versão do Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos) a partir de outra versão de SAMUEL SCHWARZ (1880-1953), z”l. Herança atribuída ao avô materno ANIBAL CORTE-REAL PESSOA SPÍNOLA DE VASCONCELOS HASSE (1880-1976), que segundo ela, “era de cepa judaica – mas era agnóstico”. Lembrei-me dela, que em algum momento chegou a ser cogitada para o Nobel de Literatura, hoje, ao desencaixotar uma caixa de livros, que jazia num canto, onde encontrei livros (com sua dedicatória) e cartas. De uma, firmada em Lisboa, a 24 DE SETEMBRO DE 1993, transcrevo: “(...) O judaísmo místico e a Terra de Leite e Mel (erev) faz-me estremecer dos pés à cabeça. Deve ser uma memória molecular (...)”
Memórias da Campinas que vivi – Gerente de uma loja de fechaduras e parafusos na av. Benjamin Constant nos anos Setenta, tive como cliente, o Dr. AUGUSTO CARLOS EDUARDO DA ROCHA MONTEIRO GALLO (1922-1989), Procurador do Estado e pai de atriz famigerada – que assassinara a esposa alguns anos antes e fora absolvido num julgamento presidido pelo Dr. ROBERTO TELLES SAMPAIO. Magro, paletó sem gravata, pomos das faces bem salientes. O Dr. Gallo foi o homem mais snob que conheci (já tratei com príncipes e aristocratas), era distante e glacial, mas polido. Ele chegava a loja, sentava-se junto ao telônio esgarçado, de onde eu dirigia a empresa, sem pedir licença e ficava ali silencioso. O carpinteiro MIRÓ, ex-jogador do Guarani, ia comigo as prateleiras para escolher os produtos ou me orientar quanto a encomenda de algo de melhor qualidade. A nova esposa só se manifestava para assinar o cheque do pagamento, cumprimentam-me e saiam. A cena repetiu-se tantas vezes que tornou-se uma espécie de sketch teatral. O dia que o proprietário da empresa estava por lá e quis cumprimentá-lo, recusou a saudação, pois não falava com desconhecidos. Ele terminou a construção da casa no litoral, eu saí da empresa para ser policial alfandegário e não nos vimos mais. Até que uma tarde descendo a av. Campos Sales, próximo ao antigo cine Carlos Gomes, alguém me chamou pelo nome: Paulo, Paulo...volto e revejo o Dr. Gallo, que continuava fisicamente o mesmo, mas simpaticamente estendeu-me a mão e cumprimentou-me sem o pirranço antigo. Disse-me que fora a empresa e sentira a minha falta. Eu espantado pela empatia tardia. Dias depois veio a má notícia, o Dr. Gallo deixara de Ser, por si.
“BERNSTEIN”, personagem do filme Cidadão Kane (1941) foi moldado a partir do executivo americano S. S. CARVALHO (1856-1942), leal ao empresário de jornais Hearst, inspirador de toda a história, seu patrão. Este financista judeu contemporâneo descendia de um grande personagem da história dos cristãos-novos, Duarte da Silva. O banqueiro DUARTE DA SILVA (1596-1688), filho do cobrador de impostos Diogo Pinto da Silva, vinha de família de Alter do Chão, e tinha uma carreira agitada. Ele foi um dos financiadores da restauração bragantina, emprestou dinheiro para o casamento da princesa Catarina com o rei inglês e também para a defesa do Brasil – era um dos maiores importadores do açúcar baiano. Também era um “líder informal” dos cristãos-novos portugueses. Porém, foi preso como judaizante em 1647. Conseguiu escapar e a sua descendência deixou de ser portuguesa. O filho João tornou-se Daniel, e teve um Jacob, este, um Daniel (homenagem ao avô). Daniel (1683-1750) casou-se com uma descendente do último Rabino de Castelo e tiveram outro Jacob, este a um Solomon, este a Jacob, que teve uma Sara, esta casou-se com o fotógrafo Solomon Nunes de Carvalho e tiveram o S. S. CARVALHO, o “Bernstein” inicial.
Foi sepultado num dia destes (20/11) o DR. SALUSTIANO FERREIRA SOUTO (1814-1887) no Campo Santo em Salvador. Ele viera do Sertão, de Vila Nova da Rainha (hoje Senhor do Bomfim), para ser o médico do pobres (operava gente de graça e ainda hospedava em sua casa no Largo dos Aflitos), líder abolicionista (estimulava as donas de casa a produzir prendas para vendê-las num bingo e comprar a liberdade de escravinhas), voluntário na Guerra do Paraguai, deputado provincial e secretamente dignitário muçulmano (malê), dentre tantas atividades em que se envolveu. Foi amigo da Condessa de Barral (Joaquim Nabuco dizia que ele era o pai do seu filho temporão). Deu casa e comida ao poeta cigano Laurindo Rabelo enquanto este fazia o curso de medicina em Salvador. Medicou a Castro Alves e deu-lhe o cavalo Richelieu para o poeta andar pela cidade, depois da amputação. Emprestou recursos para que Rui Barbosa casasse e se transferisse para a Corte... Rui demorou mais de dez anos para pagá-lo. Construí a sua biografia: “Conselheiro Salustiano Souto, o abencerragem invisível” (157 laudas), que coxeia há 1097 dias entre as editoras. Sempre recusada por alguns motivos recorrentes: É biografia? Quem se interessa pela vida de um mulato baiano?
Quem diria, a francesinha JULIETTE BINOCHE, ganhadora do Oscar e do César, começou na Baixada Fluminense. Ela é neta paterna de Georges Marie Binoche, e este por sua vez, neto de Jean Baptiste François Felix Henri Binoche, um dos três filhos de ADOLPHE BINOCHE (1827-1911), comerciante de fazendas (tecidos) na Rua do Rosário nº 86, Rio de Janeiro, e de URSULA ROSA DE ARAUJO MATOS, nascida em Saracuruna, filha do abastado fazendeiro JOSÉ PEDRO DE ARAUJO MATOS (S. João do Meriti, 1799 – Rio de Janeiro, 1867) e INACIA ANTONIA DO AMARAL, descendente dos povoadores Botafogos e Correias de Sá, aqueles mesmos que botaram os franceses para correr.
Que dia foi ontem na Argentina? Domingo, obvio. E também o “DÍA DEL INVENTOR” (29/09) em homenagem a um Professor Pardal local, o húngaro Biro. Ele inventou algo presente no cotidiano de todos nós: o bolígrafo (ou birome). Hoje toda gente tem o seu bolígrafo e muitas vezes leva para sua casa por “engano” o bolígrafo do vizinho. LADISLAU JOSÉ BIRO (1899-1985) nasceu em Budapeste como SCHWEIGER LASZLO e com a magiarização dos nomes estrangeiros, ele passou a usar o sobrenome “BIRO” (juiz). Era um jornalista, mas vivia metido em inventos, criou uma máquina de lavar roupas, uma transmissão econômica da GM, vários perfumes, etc. Vinte invenções diferentes. Com a perseguição nazista aos judeus, expatriou-se na Argentina, onde desenvolveu o bolígrafo. O bolígrafo, a princípio foi idealizado como um brinquedo para crianças, mas um barão franco-italiano descobriu outro mercado para o brinquedinho, comprou em 1951, deu-lhe o seu nome – estava inventada a CANETA BIC, que aliás foi usada para escrever este texto.
ROBERT COHN é um personagem de Hemingway, no livro The sun also rises (1926). Rico, educado em Princeton, mas, com valores sociais diferentes da turma que frequenta, é visto por eles como fraco ou ingênuo. Estudiosos da literatura de Hemingway afirmam que ele seria o romancista HAROLD LOEB (1891-1974). Porém há uma frase no livro que pode indicar mais verossimilhança com outro escritor americano. Hemingway, dentre outras coisas, escreve que ele pertencia as “velhas famílias judias”. ROBERT NATHAN (1894-1985), romancista, cabe mais nesta descrição, algo que não se ajusta a Loeb. Nathan descendia das “velhas famílias judias” americanas, “the Grandess”, como os chama Birmingham, vindas de Portugal (a maioria). O seu pai, o advogado HAROLD, é filho do ISRAEL, este filho do ISAAC, este da poeta GRACE (o irmão Gershon esteve como rabino na posse de Washington), e eles do lisboeta ISAAC MENDES SEIXAS (1708-1780), filho de ABRAHAM, gentes da Covilhã e anteriormente de uma freguesia de Vila Nova de Fozcoa. Este para fugir no porto de Lisboa, usou um estratagema, entrou num cesto de roupas e carregado por um gigante ultrapassou a vigilância inquisitorial.
Como antigo infante, combates navais não me atraem, parecem-me apenas uma confusão homicida, sem nenhuma ciência. Mesmo assim, moro numa rua que recorda uma batalha naval vencida pelos Brasileiros (Aquidabã) e o nome LEPANTO sempre me atraiu por vários motivos. Nos anos Oitenta passei várias madrugadas pelo HOTEL LEPANTO, em frente a Estação Ferroviária da Luz, em S. Paulo, que devia ter sido anteriormente um hotel para caixeiros viajantes ou modestos visitantes a cidade, até virar um hotel de curtíssima permanência, que foi o modo que encontrei. Eu via a sua decadência a cada madrugada – mesmo assim, ele não chegou a ser o Hotel Guarapari, um ponto semelhante as casas de ópio chinesas. Quando lia a placa “HOTEL LEPANTO” soava uma campainha em mim. Era a minha madeleine. Nunca encontrei o dono para perguntar por que recordar Lepanto? Lepanto foi uma batalha entre forças do Ocidente e islâmicas em 7 de OUTUBRO DE 1571. Geopolítica transmutada em fé religiosa (Hello! Mr. Huntington. Witam! Panie Koneczny). De um lado, a Liga Santa (Espanha, Estados Pontifícios, Republica de Veneza, de Gênova, Grão-Ducado da Toscana e Ducado de Savoia) e do outro o Sultão otomano. O que estava em jogo era o domínio do Mediterrâneo. Os números da confusão são expressivos: 98 mil homens da Liga e 120 mil da Sublime Porta, todos em seus barquinhos. As sete da manhã começou a batalha no golfo frente a cidade, final, 40 mil mortos e dentre os sobreviventes, o soldado MIGUEL DE CERVANTES (1547-1616), que perdeu os movimentos da mão esquerda no combate corpo a corpo. A que restou escreveu D. Quixote......
Gente de carne e osso pode tornar-se personagem de ficção, basta entrar no campo de visão de um escritor. Foi o que aconteceu ao neto de um funcionário do Império Austro-húngaro, que sem pressentir tornou-se um personagem ficcional, baseado nas velhas tragédias gregas. ADOLF (“Abraham”) SCHMITZ, natural de Kopchen, deixou a sua terra em busca de melhores oportunidades. Casou-se com a italiana Paolina Rosa Macerata e o filho, FRANZ SCHMITZ (1829-1892), foi comerciante em Trieste e casou-se com Miriam Felice (“Allegra”) Moravia (1832-1895), rica herdeira de uma fábrica de tintas que tornou-se parte da gigante farmacêutica Sandoz, anos adiante, e tiveram o filho ARONNE ETTORE SCHMITZ (1861-1928), que por sua vez casou-se com a prima Livia Fausta Veneziani e teve uma posição confortável, e assim pode dedicar-se a literatura, sob o pseudônimo ITALO SVEVO. Atividade que levou a conhecer o autor irlandês, James Joyce, que fez dele o LEOPOLD BLOOM, o seu Ulisses. “(...) Rudolph Bloom (falecido) narrara a seu filho Leopold (de 6 anos) um arranjo retrospectivo de imigrações e assentamentos em e entre Dublin, Londres, Florença, Milão, Viena, Budapest, Szombathely, com asserções de satisfação (tendo seu avô visto Maria Teresa, imperatriz da Áustria, rainha da Hungria), conselhos comerciais (tendo cuidado do pence, as libras cuidarão de si mesmas). Leopold Bloom (de 6 anos) acompanhara essas narrativas com constante consulta do mapa geográfico da Europa (político) e com sugestões para o estabelecimento de locais de negócio afiliados nos vários centros mencionados (...)” [fragmento de Ulisses].
“(...) Emi Ojeladé, mo dé ti mo nbayin soro, won bimi ni , lu Brasili li ti von npé ni Bahia. Oruko mi ni ede oyimbo won npé mi ni Martiniano Eliseu do Bonfim / Eu, Ojeladé, estou aqui para falar com você. Eu nasci no estado brasileiro da Bahia. Meu nome brasileiro é Martiniano (...). Foi assim em Iorubá que o pintor de paredes baiano recebeu o Americano numa salinha escura do Pelourinho, onde por horas ou dias passou para o gravador do americano o que sabia do seu Povo. E era muito, histórias e canções. O americano queria se encontrar no Mundo... Sally Rocks, a filha do fazendeiro branco, teve do seu escravo Jacob, quatro filhos. Um deles, Margareth casou-se com o pastor batista Daniel Turner, negro livre e tiveram a Rooks Turner. Ele estudou e completou um mestrado acadêmico. O seu filho, LORENZO DOW TURNER (1890-1972), lecionava num dia banal, quando ouviu o que lhe daria sentido a sua vida, percebeu que perto dele alguns afroamericanos falavam o “Gullah” (algo como a cupópia falada aqui perto de Soracaba). Não sabia o que era. Foi o seu doutorado, mas não esgotou o tema para ele, viajou durante vinte anos pelos condados “Gullah” na Georgia e Carolina do Sul, esteve em aldeias africanas de Serra Leoa, e um dia na Bahia em busca da língua primeira...
Hoje (26/11) é aniversário de nosso primo, PEDRO ALMEIDA VALADARES (1911-1965), o Pedrinho de Antônio Carlos, como lhe chamava minha mãe. Industrial (descaroçamento de algodão) e político (prefeito e deputado). Ele seguiu a tradição inaugurada pelo avô João Valadares, proprietário da Fazenda Buril, que foi eleito Conselheiro (vereador) em Riachão do Dantas em 1º de setembro de 1897, no mandato do Intendente Leopoldo de Carvalho Braque (1860-1947), e dedicou-se a Administração pública, com honradez. Pedrinho Valadares foi prefeito de Simão Dias entre 1959 a 1963 e os seus filhos e netos já exerceram todos os cargos eletivos do Brasil, com a única exceção da Presidência da República, pois já foram eleitos: vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, governador e senador.
A linhagem florentina della Stufa, de místicos esfomeados, cavaleiros andantes e sibaritas satisfeitos, existe desde o século X, mas na II Guerra sofreu com inúmeras perdas, teve o palácio familiar saqueado e o herdeiro expatriado por razões sociais. Foi condenado a três meses de trabalho forçado na Sardenha por homossexualismo. Ele, TERRI DELLA STUFA (1919-1982) parou na África (Dakar) e aportou no Rio de Janeiro em 1953. O título de Marchese (marquês) lhe permitiu enturmar-se na classe alta carioca com pouco esforço. Contador de piadas e possuidor de alto sentido estético, decorou a boite Au Bon Gourmet em Copacabana, incluindo os uniformes dos funcionários. Lá se apresentavam gente como Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto, Maysa e estreou-se no mundo musical a canção “Garota de Ipanema”. Isto abriu-lhe caminho para novos trabalhos na área de decoração em S. Paulo, primeiro na casa de Ema Klabin (1907-1994) no Jardim Europa; depois, no palácio dos Bandeirantes (para receber a rainha Elizabeth II) e a abertura de uma empresa de decoração com sucesso. É um expert e figura de referência desta especialidade no Brasil. O Sr. Marquês nasceu num 21 de novembro como hoje.
Jogar tênis não é muito saudável, pelo menos não o foi para o romancista americano OSCAR Jerome HIJUELOS (1951-2013), que morreu no último sábado (12/10) enquanto jogava. Filho de modestos cubanos que imigraram para New York nos anos Quarenta. Ele tratou nos seus trabalhos da herança cultural cubana recebida dos pais. Deixou vários romances sobre isto. Um deles, que particularmente me interessou foi A SIMPLE HABANA MELODY (2002), baseado na vida de um personagem real, o músico cubano Moisés Simon Rodríguez (1889-1945), compositor de El Manisero (1928), sob o nome de Israel Levis. Moisés Simón foi um imenso sucesso, até na Europa, tanto que mudou-se para Paris. Quando os Nazistas invadiram a cidade, M. S. foi preso como “judeu”, para sua própria perplexidade, pois era católico, filho e neto de católicos. Este episódio da vida de M. S. é um dos núcleos do romance. Aqui entra a questão cristã-nova em Cuba, tratada ficcionalmente. É um romance e como tal, lida também com sua atração pela cantora Rita Valladares, mas que não terá sucesso, como em outras tantas coisas na vida. Viver é frustrar-se. Moisés Simon (o de carne e osso), foi preso no campo de Buchenwald e sobreviveu. Morreu como mendigo na Espanha. É uma história triste.
O empreiteiro (manceps operarum) anonimo vindo da Gália (França) cruzou o rio Pó para trabalhar nas colheitas dos Sabinos. Não voltou mais para a sua terra, casou-se por alí e teve um filho de nome já latinizado: TITUS FLAVIUS PETRO, que por sua vez, alistou-se como voluntário numa Legião Romana. Deu certo, a valentia trouxe-lhe o posto de centurião e quando voltou a vida civil recebeu a incumbência de cobrar impostos. O seu filho TITUS FLAVIUS SABINUS, neto do trabalhador inicial, continuou a tomar dinheiro dos cidadãos como coletor de impostos e terminou a vida na Gália. É possível que não tenha conhecido Asterix... VESPASIANUS (9-79), filho do anterior, apesar do conforto familiar e do acesso as redes genealógicas do poder, não lhe apetecia a carreira política. Era tímido e detestava a exposição pública, mas “incentivado” pelos insultos da mãe Vespásia (filha de militar e irmã de senador), que o menosprezava, entrou para a vida militar e terminou Imperador romano. Lutou por todo mundo romano, da Inglaterra a Bulgária e até no Eretz Israel, dentre outros lugares. Protegeu o historiador judeu Flavius Josephus (Yossef b. Mattityahu, 37-100). Criou um imposto sobre a urina coletada nos mictórios, feita para retirar a amônia, produto usado ao curtir couros, afinal “pecunia non olet (o dinheiro não tem cheiro)”. O seu nome tornou-se sinônimo de banheiro na Europa. É pai do imperador TITUS (39-81), que tomou Jerusalém. O imperador VESPASIANUS também teve uma filha, de quem não se sabe o nome, mas cujo filho é conhecido, não entre os Romanos, mas entre suas vitimas: ONKELOS, o Convertido (c. 35-120), personagem do Talmude e a quem é atribuido a autoria do Targum de Onkelos, tradução da Torah para o aramaico.
O que fazer quando alguém chamado Santo Trafficante (1914-1987) lhe cobra uma dívida antiga e não há dinheiro, nem onde arrumá-lo? Numa situação destas, qualquer idéia por mais extravagante que seja, prospera. Foi o que aconteceu a BOBBY RIGGS (1918-1995), um tenista que batera os míticos Pancho Segura e Jack Kramer nos anos Quarenta e era conhecido por sua forma peculiar de espírito esportivo, alguém que amarrou um cão na perna direita para enfrentar um adversario inferior. Aposentado, sem dinheiro e devendo ao mafioso citado, ele escolheu chamar atenção a si para ganhar algum e pagar a dívida. Então BOBBY RIGGS declarou que qualquer tenista feminina era inferior a ele, um aposentado quase sexagenário. Desafiou a Margaret Court. Jogou e ganhou. A partida foi o laboratório para uma jogada maior. BILLIE JEAN KING era a Número Um. Pois Bobby não teve dúvidas, desafiou-a e assim nasceu a “BATALHA DOS SEXOS”. A partida foi jogada em Houston, em 20/09/1973, com 30.472 pagantes e uma audiência de 90 milhões pelo mundo. Billie Jean King ganhou por 3 x 0. Bobby ficou deprimido com a derrota, até receber o cachê, e pensar em novas formas de ganhar dinheiro. Ele morreu num 25 de outubro, depois de ter passado pelo Brasil, muitos anos antes.
“Gómez, las cebollas empiezam a oler” (...as cebolas começam a cheirar), disse o Rei espanhol ao cortesão numa conversa despreocupada, que imediatamente compreendeu a mensagem do amigo real e caso uma emergência não poderia salvá-lo da Inquisição. Em 1696, depois de trocar o nome Luis por Moses, ele já estava em N. Y. Sete Gómez foram presidentes da sinagoga Shearith Israel. A posição geopolítica de Portugal dificultava a fuga. Ou se tomava um navio em Lisboa ou no Porto – o patriarca dos MENDES SEIXAS entrou num navio dentro de um cesto de roupa suja; ou se caminhava através da Espanha, para chegar a outro porto, ou se lançava numa viagem a pé até a França. Foi assim que surgiu uma nova profissão: os acarreadores de judíos (guias para a fuga). Os trasmontanos RODRIGUES PEREIRA levaram quase trinta anos para atravessar a Espanha. Nossa prima R. S., ISABEL ROSA MENDES, com dezoito anos, já tinha vivido, depois de sair de Portugal, em Livorno, Alexandria, Esmirna, Cairo e Bordeaux (todas cidades a beira do Mediterrâneo, professor Braudel!), até ser presa em Lisboa (1669). Ou o algarvio PERO LOPES, que depois do avô e um tio queimados pela Inquisição, deixou uma filha de oito anos com a mãe, tomou um navio para o Brasil, mas, foi parar em Cuzco, vadeou pela região, pois “no tiene oficio”, tentou negociar em Cartagena de Índias, esteve em Acapulco e finalmente preso em Guaiaquil em 1596... O madeirense Manuel Dias, que vocês conhecem como o rabino MENASSEH ben ISRAEL (1604-1657) deve ter pensado nestas histórias, quando adotou o seu ex-libris.
O parisiense HENRI CLEMENT SANSON (1799-1889) deixou cair o machado pela última vez em 1847. Aposentou-se, pois não podia ver mais sangue, e desapareceu de cena. Durante sete gerações, desde 1688, os SANSONS dedicaram-se a profissão de carrascos em Paris, e anteriores a isto, exerceram a mesma profissão por cinco séculos na Noruega. Em sete gerações francesas todas as mulheres Sanson casaram-se com carrascos e dezenove deles foram carrascos. Eles formavam um grupo fechado, já que a profissão causava nojo nas pessoas comuns, só restavam casar-se entre si, criando um grupo genealógico único. A profissão de carrasco, além de hereditária, era muito bem remunerada. Acumulavam ao salário, benefícios fiscais, eram funcionários publicos e também dedicavam-se a medicina popular. Alguns deles tornaram-se milionários. Mas o serviço era pesado, o carrasco devia estar pronto para marcar com ferro, chicotear, usar convenientemente o oleo quente, ter as cordas prontas, saber amputar membros e manipular bem o machado e a guilhotina. Manter a equipe de auxiliares (pagos por ele), numa espécie de microempresa da morte. Durante o Terror revolucionário, CHARLES HENRI SANSON (1739-1806), avô do aposentado Henri Clement, decapitou os Reis de França e outras três mil vítimas, ao capricho dos juízes alucinados. As mil e trezentas e seis vítimas fidalgas decapitadas por Charles Henri foram sepultadas no pequeno Cemitério de Picpus, na rua do mesmo nome nº 35, em Paris, onde repousam La Fayette, Montalembert, Chateaubriand, Crillon, Gontaut-Biron, Choiseul, La Rochefoucauld, Montmorency, Rohan, Noailles, etc. É o mais exclusivo cemitério do mundo, onde um amigo meu (J. R. J. B.), de caráter extravagante e com pretensões a aristocrata, “sonhava” inutilmente em ser sepultado...
Os COSTA-BRANDÃO vieram do Minho e assentaram-se no Porto, na rua de S. Miguel – onde moravam as trinta famílias cristãs-novas de alta origem social, vindas de Espanha e lideradas por um Aboab. Cinco irmãos desta família demandaram a Amsterdã para juntar-se a comunidade judaica local. O mais conhecido deles, Gabriel da Costa (1583?-1640), conhecido como Uriel Acosta, não conseguiu adaptar-se a nova vida e suicidou-se com um tiro de revólver. A sua vida é tema de peça teatral, poesias, ensaios, etc. Dos outros irmãos, conhecemos apenas os descendentes que ficaram por alí, mas outros buscaram nova geografias para viverem. No começo do séc. XIX aparece em Guanajuato, JOSÉ TOMÁS ACOSTA, cujos descendentes alegaram descender dos cristãos-novos tripeiros já mencionados. INÊS DE ACOSTA y PEREDO, neta de José Tomás Acosta e sobrinha de León Benito Acosta (o 1º aeronauta mexicano), nasceu em 1825. Ela casou-se com um soldado da fortuna, que dizia chamar-se ANASTASIO DE LA RIVERA SFORZA, ao que tudo indica, pertencente a família dos cristãos-novos Navarro e tiveram o filho DIEGO (1º). Este ao pintor DIEGO (2º) Maria de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la RIVERA y Barrientos Acosta y Rodríguez (1886-1967), que mesmo considerando-se agnóstico, apresentou-se em apoio a B´nai Brith local, quando ensaiou-se uma confusão contra os judeus mo México. Segundo ele: era “Judio”, como sua avó Inês. DIEGO RIVERA morreu num 24 de novembro.