Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Memórias da Campinas que vivi – Gerente de uma loja de fechaduras e parafusos na av. Benjamin Constant nos anos Setenta, tive como cliente, o Dr. AUGUSTO CARLOS EDUARDO DA ROCHA MONTEIRO GALLO (1922-1989), Procurador do Estado e pai de atriz famigerada – que assassinara a esposa alguns anos antes e fora absolvido num julgamento presidido pelo Dr. ROBERTO TELLES SAMPAIO. Magro, paletó sem gravata, pomos das faces bem salientes. O Dr. Gallo foi o homem mais snob que conheci (já tratei com príncipes e aristocratas), era distante e glacial, mas polido. Ele chegava a loja, sentava-se junto ao telônio esgarçado, de onde eu dirigia a empresa, sem pedir licença e ficava ali silencioso. O carpinteiro MIRÓ, ex-jogador do Guarani, ia comigo as prateleiras para escolher os produtos ou me orientar quanto a encomenda de algo de melhor qualidade. A nova esposa só se manifestava para assinar o cheque do pagamento, cumprimentam-me e saiam. A cena repetiu-se tantas vezes que tornou-se uma espécie de sketch teatral. O dia que o proprietário da empresa estava por lá e quis cumprimentá-lo, recusou a saudação, pois não falava com desconhecidos. Ele terminou a construção da casa no litoral, eu saí da empresa para ser policial alfandegário e não nos vimos mais. Até que uma tarde descendo a av. Campos Sales, próximo ao antigo cine Carlos Gomes, alguém me chamou pelo nome: Paulo, Paulo...volto e revejo o Dr. Gallo, que continuava fisicamente o mesmo, mas simpaticamente estendeu-me a mão e cumprimentou-me sem o pirranço antigo. Disse-me que fora a empresa e sentira a minha falta. Eu espantado pela empatia tardia. Dias depois veio a má notícia, o Dr. Gallo deixara de Ser, por si.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Uma Campinas que vivi: Gerente de um banco estatal em Barão Geraldo, que atendia majoritariamente docentes da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), tive nos anos 90, como clientes e interlocutores, personagens de uma história cultura...l brasileira. Encontrei gente como o matemático brâmane Tenkasi Mutukrishna Vishwanathan, com quem discutia além da economia, um método para a interpretação de sonhos. César Lattes, exegese bíblica, os Profetas. Berta Waldman e Iara Franchetti, literatura, Fernando Pessoa e Sá Carneiro. Um destes professores, a quem chamarei de B., trabalhara no Projeto Manhattan, “disputávamos”, como se uma negociação bancária fosse uma partida de truco, “quem passava o outro para trás”, nos cálculos de juros. Ele usando o cérebro privilegiado e eu uma FACIT rudimentar. Lamento dizer, mas, eu ganhava. Porém a melhor história que tenho foi outra. Laura, filha da professora Maria da Conceição Tavares, a época fazia o doutorado na instituição e recomendou-me que atendesse o seu filho, um menino de sete ou oito anos, se ele me procurasse com algum problema. Como eu tinha fama (imerecida) de doleiro, o filho de Laura, buscou-me um dia, perguntou se eu era o P.V. Confirmei. Ele contou a sua dificuldade: precisava trocar dólares (no plural) e se eu podia fazê-lo para ele? Depende da quantia. Quantos? One! Quanto? Um. Fomos conferir a cotação com a seriedade e trocamos a cédula americana. Laura quando soube da façanha, riu. A avó, professora Maria da Conceição Tavares, sabendo de minha ligação com Portugal, deu-me de lembrança um belíssimo caderno com um pavão na capa que comprara na Santa Terrinha, comigo até hoje. Eu tive a cédula na carteira como amuleto por muitos anos, até... FOTO: A professora Maria da Conceição Tavares quando entrou no Brasil –ARQUIVO NACIONAL.
DIÁRIO DA COPA – 30/12/2013: O comerciante português ZÉ DA GAMA dava nó em pingo d´água. Ninguém soube o que fazia em Portugal. No Brasil ele assentou-se no bairro de Madureira, na cidade do Rio de Janeiro e logo estava metido no time do bairro, o tricolor suburbano (grená, azul e amarelo). Tornou-se empresário de futebol, coisa que nem entendia por aqui. Tanto que na mesma época, o colombiano Abello quase foi preso por tentar levar jogadores para a sua “liga pirata” - baseado no Código Penal: “aliciar trabalhadores para a emigração” (artigo 206). ZÉ DA GAMA foi mais hábil, intermediou jogadores na compra e venda, e principalmente levou o Madureira em excursões pelo Mundo. Não se sabe como, mas, ZÉ DA GAMA tinha amizades bem heterodoxas. Como não conseguia fazer o Circuito Elizabeth Arden do futebol (Europa), que era feito pelo chileno Samuel Ratinoff e o Santos FC., ele saia por Cuba e chegava a Ásia, tanto que o Madureira esteve com o rosarino Che Guevara e Mao Tse-tung (na época escrevíamos assim). As excursões não eram fechadas. Ele saia com alguns jogos assertados e conforme o time ia ganhando, acertava mais outros. Foi assim que saiu uma vez numa excursão para vários jogos, depois não conseguiu arrumar outros, não teve duvidas, inventou que o time era um grupo de samba brasileira e vendeu shows musicais até na Turquia.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pá. O tiro certeiro no coração tirou a vida do poeta francês Jacques Rigaut (1898-1929). Vida fácil de ser resumida: estudou Direito, tenente numa companhia de artilharia, viveu com uma americana que lhe deu um Rolls-Royce (ele recusou o presente), fez poesia dadaísta, viciou-se em álcool, tentou o rehab, não conseguiu – Suicídio aos trinta e poucos anos. A sua existência iria para o Esquecimento se um amigo, PIERRE-EUGÈNE DRIEU LA ROCHELLE (1893-1945), Extremista de Esquerda e de Direita, réprobo colabo, antissemita e casado com judia, amigo e personagem de Jorge Luís Borges, não escrevesse como romance a vida do amigo poeta. Colocou nele todos os dados vitais de Rigaut, porém adicionou as suas angustias (que também lhe provocaria o suicídio) como motor de destruição do personagem que atende no romance por Alain Leroy. O livro “Le feu follet” de 1931, virou filme com nome em brasileiro de “Trinta anos esta noite” em 1963, sob os olhos de Louis Malle e atuação impecável de Maurice Ronet.
DIARIO DA COPA – 26/12/2013: A Ponte Preta sempre teve jogadores marcantes, inclusive pelo nome, como no caso do zagueiro negro ESTALINGRADO, inexpugnável nos anos Quarenta. O melômano goleiro CIASCA que deixou para o Museu local a sua imensa coleção de discos de ópera. São tantos, porém a unanimidade do melhor de todos, é de MESTRE DICÁ (Oscar Salles Bueno Filho, *1947), descendente das velhas famílias de Campinas, oriundo do Bairro Santo Odília, armador habilidoso, grande cobrador de faltas (artilheiro do time com 154 gols em 581 partidas), Campeão do Torneio de Acesso em 1969 e que levou a Ponte Preta a quatro decisões no Campeonato Paulista (1970, 1977, 1979 e 1981), mas, principalmente para quem convive com ele, um sujeito decente, orgulho de sua comunidade.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

“(...) Pertenço a um gênero de portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho (…). É Fernando Pessoa enquanto Álvaro de Campos, mas também pode ser Eu. Sempre pensei viver em movimento pelo mar: “Call me Ishmael”. Não consegui este objetivo, apesar da minha parentela cruzar por várias vezes os oceanos, mas, um dos nossos primos R.S.conseguiu. Ele tornou-se visível pela primeira vez no Brasil (1827), num charivari entre marinheiros ianques e brasileiros na cidade do Rio de Janeiro. Depois de alguns goddamn it, tombos, hematomas, a confusão resolveu-se numa delegacia. D. Pedro I, ao saber do conflito, entusiasmou-se tanto pelo Oficial de marinha estrangeira que o convidou para compor o nosso Cisne Branco. Polidamente, o tenente URIAH PHILLIPS LEVY recusou a ordem real. Este convite não seria preciso, se não houvera a Inquisição, pois URIAH PHILLIPS LEVY (1792-1862) era de origem portuguesa (e alguns de seus primos viviam pela Bahia). A sua mãe RACHEL PHILLIPS, é filha de REBECCA MENDES MACHADO, esta por sua vez, de ZIPPORAH NUNEZ ou MARIA CAETANA DA VEIGA, como era conhecida em Lisboa. Filha do médico penamacorense Dr. SAMUEL NUNEZ ou DIOGO NUNES RIBEIRO, que foi condenado pela Inquisição em 1704, mas, após muitos problemas, chegou a Savannah em 1733.
O financista alfacinha DUARTE DA SILVA (1596-1678) foi um homem ativo e cuidadoso ao lidar com o seu capital e de seus clientes, tanto que era obrigado a tomar posição e “prever” os caprichos do futuro. Os seus interlocutores eram gente como o padre Antonio Vieira, o Vila Real (ancestral do Disraeli) e o rei que subira o trono, D. João IV, graças, também ao seu dinheiro. Mas ele deu um passo em falso, dentre os seus projetos, sonhou com uma sinagoga em Lisboa. Isto significava ter os judeus de volta a azáfama lusitana. Não teve clemência dos opositores e salvou-se fugindo para Antuérpia, onde faleceu. Os seus descendentes viveram e sofreram a obscuridade do expatriado: o filho João virou Daniel (lembra-se que falei ontem no post sobre Nabuco), Daniel gerou a Jacob, Jacob gerou a Daniel II, este a outro Jacob, Jacob a Solomon, Solomon a Jacob que casou-se com Charity Hays e tiveram a SARAH MIRIAM DA SILVA SOLIS (1824-1894), professora de religião. SARAH MIRIAM casou-se com o fotógrafo e pintor SOLOMON NUNES DE CARVALHO (1815-1897) na sinagoga Mikve Israel em Filadélfia em 1845. Tiveram vários filhos, um deles, foi o banqueiro S. S. Carvalho, que foi decalcado no personagem “Bernstein” do filme “Cidadão Kane”, um banqueiro como o ancestral Duarte da Silva. IMAGEM: SARAH SOLIS CARVALHO sob os olhos de seu marido. Óleo sobre tela, circa 1856, Yeshiva University.
DIARIO DA COPA - 25/12/2013: O estádio da Ponte Preta, onde a Seleção das Cinco Quinas treinará, leva o nome do comerciante e industrial MOYSÉS LUCARELLI (Limeira, 1898- Campinas, 1978). Foi ele quem liderou a construção do Estádio no final dos anos Quarenta, feita pelos aficionados de forma voluntária. Quem só tinha um tijolo levava este tijolo e se não tivesse oferecia o seu trabalho....É a história deste homem que se confunde com a da própria instituição, que o documentário “Moysés Lucarelli – um sonho majestoso” se ocupa e bem. [É sempre bom lhe ouvir sobre a Macaca, caro amigo (José Moraes) Neto!] Sou contra qualquer ideia de jerico em construir um novo Estádio. Parte 1 (15:10) - http://www.youtube.com/watch?v=urrlQr0ZG4E Parte 2 (14:41) - http://www.youtube.com/watch?v=sFDH1rnvnCc

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DIARIO DA COPA – 23/12/2013: Há times brasileiros cujos torcedores são na maioria oriundos de uma colônia nacional. Os portugueses possuem alguns times identificados por esta origem: o Tuna Luso de Belém, o Vasco da Gama carioca e as Portuguesas espalhadas entre o Rio de Janeiro, Santos e São Paulo. Isto não obriga os portugueses torcerem só por um destes times. O Sr. José Antunes Coimbra (1901-1986), natural de Tondela, pai de ZICO, o último grande jogador brasileiro, torcia pelo Flamengo. Poucos jogadores portugueses vieram jogar numa equipa brasileira, talvez, até por razões econômicas e políticas. Nos anos Cinquenta veio o grande atacante benfiquista ROGÉRIO PIPI, jogar no Botafogo, mas não deu certo, pois chocou-se com o “dono” do time, o irascível Heleno de Freitas. Quando PIPI errava um passe, Heleno, dava a bronca: “Burro, olhe sua camisa, não é igual a minha? Você tem que passar a bola para mim...” ROGÉRIO PIPI, que era bem-educado, evitou o conflito e retornou a Pátria. Nos anos Setenta veio FERNANDO PERES, um dos “Magriços” de 1966, que jogou no Vasco da Gama e foi campeão brasileiro em 1974. Já o sadino JACINTO JOÃO esteve na Portuguesa paulistana, mas não teve sorte, ele se entusiasmou tanto pela comida ítalo paulistana, que não conseguiu entrar em forma. Só consigo me lembrar dele como um simpático senhor gorducho que ficava sentado no banco de reservas, balançando a cabeça a concordar com o que dizia mister Oto Glória. FOTO: Documento da entrada de ROGÉRIO PIPI no Brasil.

sábado, 21 de dezembro de 2013

DIARIO DA COPA – 22/12/2013: ALCIDES EDGARDO GHIGGIA PEREIRA é o único sobrevivente da equipe uruguaia, Campeã Mundial em 1950, cuja Copa foi realizada no Brasil. Nesta decisão o último gol foi dele, silenciando o estádio do Maracanã. O suficiente para ele cunhar a frase: «Solo tres personas en la historia han conseguido hacer callar al Maracaná con un solo gesto: el Papa, Frank Sinatra y yo». GIGGHIA, o Papa João Paulo II e Frank Sinatra usaram o Estádio para as suas atividades.
DIARIO DA COPA - 21/12/2013: Num dezembro dos anos Oitenta fui ao Rio de Janeiro visitar a CBF. O objetivo era levantar alguns nomes completos de velhos jogadores brasileiros e como já estava lá, ver a maior conquista brasileira, a Taça Jules Rimet. O Brasil foi campeão em 1958, 1962 e 1970 para conquistá-la. O prédio da CBF ficava na rua da Alfandega. Sem credenciais, a não ser falar a linguagem do “boleiro”, fui recebido pelo sargento Napoleão que me levou ao Santo Graal do futebol. Vi e achei pequena, mas bonita. Fiz as minhas anotações, fui embora e esqueci a visita.... Dias depois a “Jules Rimet” foi roubada – A original ficava em exposição e a réplica no cofre. Ela conseguira atravessar a II Guerra escondida na casa do signore Barassi, de Nápoles. Fora roubada na Inglaterra em 1966 e recuperada pelo cão collie Pickles, que morreu engasgado no ano seguinte ao perseguir um gato. O bando que a roubou na rua da Alfandega logo foi identificado, porém o processo judicial não conseguiu alcançar todos os envolvidos e puni-los. Parecia algo de encomenda, pois os ladrões começaram a morrer logo que presos. Isto no mundo do crime não é coincidência. S. P., um dos ladrões resumiu tudo: “Era pouco ouro para muito ladrão”... Ficamos sem a taça.
DIARIO DA COPA – 20/12/2013: Campinas foi fundada por portugueses, liderados pelo Sr. Morgado de Mateus, natural de Vila Real. Hoje a cidade tem mais de um milhão de habitantes de todas as origens geográficas – basta dizer que há igrejas cristãs (de todas as suas ramificações), mesquita e sinagoga para atender a clientela campineira. Infelizmente a cidade é feia e sem atrativos turísticos. A exceção é o PARQUE PORTUGAL, conhecido como Taquaral onde há um lago, uma caravela em estado de putrefação, pista de corridas e principalmente sombra e água fresca. Há duas universidades de alta qualidade, a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e a PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas). Pensando bem é uma cidade para se trabalhar, há grandes indústrias estrangeiras e é um dormitório para quem trabalha em S. Paulo (104 km de distância). Dez mil são os portugueses natos que vivem na cidade. Foi aqui que os FERREIRA DE MESQUITA, de Parada de Cunhos, em Vila Real, começaram sua vida no Brasil e controlaram o principal jornal brasileiro, O Estado de S. Paulo. Os ALVES VERISSIMO, de Mação construíram o melhor supermercado do interior, o Eldorado. O arquiteto ANTONIO DA COSTA SANTOS (1952-2001), chegou a Prefeito da Cidade, quando foi assassinado. Os seus pais eram de Vimioso. O atual presidente da CASA DE PORTUGAL é o Sr. ADELINO DA PONTE, natural de Vermoil. Ele também é o dono da Padaria Nico (que fornece os pães aqui em casa). O ramo da panificadora é quase exclusivamente de portugueses emigrados nos anos 50 e 60. Quem vier para cá, prepare a carteira, pois Campinas é muito cara para se viver. Bem-vindos!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

DIARIO DA COPA – 17/12/2013: A SELEÇÃO PORTUGUESA anunciou que ficará em CAMPINAS, S. Paulo durante a primeira fase da Copa. Ela se hospedará no Hotel Royal Palm Plaza pertencente ao Sr. Armindo Dias, natural de Ansião, próxima a Leiria. Treinará nos espaços da Associação Atlética Ponte Preta – o time mais velho em atividade no Brasil (fundado em 1900). Os treinos abertos serão no Centro de Treinamento (CT) da Ponte e os abertos no Estádio Moisés Lucarelli. Portugal que está no Grupo G enfrentará a ALEMANHA em Salvador no dia 16 (2 horas de viagem), EUA em Manaus no dia 22(3h45 de viagem) e GANA em Brasília no dia 26(1h15). Boa sorte ao Paulo Bento e os rapazes,

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O jesuíta italiano Mateo Ricci (1552-1610) em missão proselitista na China recebeu sem muita surpresa o convite para ser rabino da comunidade judaica de Kaifeng. A sondagem surgiu depois que o judeu AI TIAN vendo uma imagem católica da Virgem Maria, do menino Jesus e João Batista, mostrada pelo padre “reconheceu” neles Rebeca, Esaú e Jacó. Bastava Mateo Ricci abster-se de carne suína para ser aceito por sua comunidade. O padre Ricci polidamente recusou o convite, mas anotou que tinha mais identidade com estes judeus, do que com os cristãos chineses. Passaram-se os anos, e os judeus de Kaifeng, continuaram sem rabinos, mas, um dia souberam que em Xangai vivia um grupo de judeus iraquianos, e mandaram o comerciante LI JINGSHENG (1851-1903) para conhecê-los. Ele e o filho LI SHUMEI foram a Xangai, com esta missão. O velho morreu na chegada e foi sepultado no cemitério israelita local. O menino, conhecido como “Samuel” foi agregado a família de David Ezekiel Joshua Abraham (1863-1945), presidente da comunidade judaica local, oriundo da mesma região que os ancestrais de LI diziam ter vindo. Samuel viveu com os Abrahams até a idade de casar-se quando então resolveu voltar a Kaifeng para encontrar noiva. Ele casou-se e teve o filho, LI RONGXIN, que viveu em Kaifeng, e contou a história dos Seus para o Ocidente ...

domingo, 1 de dezembro de 2013

sábado, 30 de novembro de 2013

ERMELINDA CANADAS MENDES LOPES, comerciante portuguesa de roupas, viveu no Brasil desde os anos Cinquenta. Faleceu em S. Paulo e foi sepultada no Cemitério Israelita do Butantã. Ela deixou a sua herança a Associação Israelita Beneficência Beit Chabad “com a missão de constituir uma FUNDAÇÃO [MARINHA MENDES LOPES, em lembrança a filha falecida] que apoiasse e atendesse as necessidades de crianças e adolescentes doentes e carentes do Brasil”. A Senhora Ermelinda fez parte de uma pequena onda migratória contemporânea, a dos judeus-portugueses, a partir dos anos Quarenta, impelidos por razões econômicas. Há gente de variadas origens geográficas e graus de observância. A figura mais conhecida de todos eles é o rabino MENDEL DIESENDRUCK, líder espiritual da comunidade judaica portuguesa entre os anos Trinta e Cinquenta. Na revista HaLAPID, porta-voz da “Obra do Resgate” da Sinagoga Kadoorie Mekor Haim, do Porto, editada pelo capitão ARTUR CARLOS DE BARROS BASTO, há vários registros desta migração. No nº 99, luas de maio e junho de 5700/1940, p. 5, sob a rubrica “Emigrantes maranos” são nomeados: JULIO CÉSAR D´ALGE, de Lagoaça; ANTÓNIO (Yomtob) RODRIGUES, de Belmonte; MANUEL ANTÓNIO (David) LAPO, de Vila Nova de Gaia e ARTUR HENRIQUE (Abraham) LOPES (coloquei uma foto dele em post anterior) e MANUEL AUGUSTO (David) RODRIGUES, ambos de Vilarinho dos Galegos. Em outros números da Revista e outras fontes há registros de mais imigrantes desta origem.
No começo do século XVIII chegaram a Londres um grupo de famílias foragidas da Inquisição ibérica: Mendoza, Lopes, Rodrigues Brandão, Rodrigues Ribeiro e Henriques Valentine, que casavam-se entre si. O casal ABRAHAM MENDOZA (1731-1805) e ESTHER LOPES (1731-1813) deu origem a uma extensa parentela, onde se encontram um pugilista importante (DANIEL MENDOZA, Reuven Faingold tem um belo artigo sobre ele na revista GERAÇÕES/BRASIL), um Vice-Rei da Índia (MARQUÊS DE READING) e atores. Um dos atores, descendente desta parentela é o aniversariante de hoje (08/09), PETER SELLERS (1925-1980), neto materno de WELLCOME (Benvenida) e bisneto de ELIZABETH (Bilha) MENDOZA (…), que apesar de ser um dos maiores atores cômicos em todos os tempos, era inseguro, dependente da mãe e extremamente agressivo durante estas crises. Morreu ao fazer uma doença cardíaca pelo excesso de álcool e drogas que usava para atenuar o sofrimento pessoal. Para mim, ficou o excepcional ator que deu vida ao ator indiano Hrudi V. Bakshi de The Party (1968) e ao jardineiro americano Chance, de Being There (1979), em atuações irretocáveis. Happy Birthday, Mr. Sellers
O menino negro IBRAHIM, de oito anos, foi capturado por caçadores de escravos na Etiópia no começo do século XVIII e levado para o mercado de escravos em Istambul, onde foi comprado por um grupo de nobres russos liderados por P. A. TOLSTOI, bisavô do Escritor, que o presenteou ao Czar Pedro. Na Rússia ele recebeu novo nome – ABRAM PETROVICH HANIBAL (1696-1781), e esmerada educação militar na França e na Espanha, graças ao padrinho imperial. Casou-se na nobreza local, teve dez filhos, deixando grande descendência. O mais importante deles foi o bisneto, A. S. PUSHKIN (1799-1837), considerado o fundador da literatura russa moderna, cujos descendentes se aparentaram a realeza inglesa, através de casamento num ramo Mountbatten. A aniversariante de hoje (09/09), bisneta de Pushkin, a condessa NASTASIA MIKHAILOVNA de TORBY (1892-1977) teve entre os bisavós três reis europeus: Paulo I, da Rússia; Frederico Guilherme III, da Prússia e Gustavo IV da Suécia. Ela foi casada com um general inglês e viveu na Inglaterra.
Ela nasceu num 10 de setembro, filha de um Orientalista e de uma aristocrata da família dos Medicis. Tentou ser atriz e escreveu um livro de poesias eróticas, sem sucesso. A família barrou-lhe os dois projetos. Foi babá em Londres, onde conheceu um conde, de atividades misteriosas (teosofia), e teve uma filha. Separou-se e ficou sem dinheiro em Paris. Entrou no nascente ramo da moda cindindo-o em dois caminhos distintos. Ela optou por vender, as vezes provocando espanto (foi ela quem difundiu o rosa-choque), apostou na roupa feita sob tamanho-padrão (popularizou o zíper) e no formato “desfile” como vitrines. Sempre fez o caminho oposto de Coco Chanel. A sua descendência também ficou ligada a moda. As suas netas são MARISA e BERRY BERENSON, esta última, esposa do ator Anthony Perkins, foi assassinada com todos os passageiros em 11 de setembro de 2001 no voo do American Airline Flight 11. A aniversariante ELSA SCHIAPARELLI passou pelo Brasil numa viagem de negócios – uma extravagancia para a época (1949), tal a dificuldade dos transportes...
A letra da poeta portuguesa FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938-2007) era miudinha, mas, clara e legível (desde que você usasse óculos). Foi o que percebi após interrogá-la sobre o porquê de alguns dos seus poemas ter o universo bíblico como cenário e metáfora. Dentre outras obras de sabor bíblico, a Fiama produziu uma versão do Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos) a partir de outra versão de SAMUEL SCHWARZ (1880-1953), z”l. Herança atribuída ao avô materno ANIBAL CORTE-REAL PESSOA SPÍNOLA DE VASCONCELOS HASSE (1880-1976), que segundo ela, “era de cepa judaica – mas era agnóstico”. Lembrei-me dela, que em algum momento chegou a ser cogitada para o Nobel de Literatura, hoje, ao desencaixotar uma caixa de livros, que jazia num canto, onde encontrei livros (com sua dedicatória) e cartas. De uma, firmada em Lisboa, a 24 DE SETEMBRO DE 1993, transcrevo: “(...) O judaísmo místico e a Terra de Leite e Mel (erev) faz-me estremecer dos pés à cabeça. Deve ser uma memória molecular (...)”
Memórias da Campinas que vivi – Gerente de uma loja de fechaduras e parafusos na av. Benjamin Constant nos anos Setenta, tive como cliente, o Dr. AUGUSTO CARLOS EDUARDO DA ROCHA MONTEIRO GALLO (1922-1989), Procurador do Estado e pai de atriz famigerada – que assassinara a esposa alguns anos antes e fora absolvido num julgamento presidido pelo Dr. ROBERTO TELLES SAMPAIO. Magro, paletó sem gravata, pomos das faces bem salientes. O Dr. Gallo foi o homem mais snob que conheci (já tratei com príncipes e aristocratas), era distante e glacial, mas polido. Ele chegava a loja, sentava-se junto ao telônio esgarçado, de onde eu dirigia a empresa, sem pedir licença e ficava ali silencioso. O carpinteiro MIRÓ, ex-jogador do Guarani, ia comigo as prateleiras para escolher os produtos ou me orientar quanto a encomenda de algo de melhor qualidade. A nova esposa só se manifestava para assinar o cheque do pagamento, cumprimentam-me e saiam. A cena repetiu-se tantas vezes que tornou-se uma espécie de sketch teatral. O dia que o proprietário da empresa estava por lá e quis cumprimentá-lo, recusou a saudação, pois não falava com desconhecidos. Ele terminou a construção da casa no litoral, eu saí da empresa para ser policial alfandegário e não nos vimos mais. Até que uma tarde descendo a av. Campos Sales, próximo ao antigo cine Carlos Gomes, alguém me chamou pelo nome: Paulo, Paulo...volto e revejo o Dr. Gallo, que continuava fisicamente o mesmo, mas simpaticamente estendeu-me a mão e cumprimentou-me sem o pirranço antigo. Disse-me que fora a empresa e sentira a minha falta. Eu espantado pela empatia tardia. Dias depois veio a má notícia, o Dr. Gallo deixara de Ser, por si.
“BERNSTEIN”, personagem do filme Cidadão Kane (1941) foi moldado a partir do executivo americano S. S. CARVALHO (1856-1942), leal ao empresário de jornais Hearst, inspirador de toda a história, seu patrão. Este financista judeu contemporâneo descendia de um grande personagem da história dos cristãos-novos, Duarte da Silva. O banqueiro DUARTE DA SILVA (1596-1688), filho do cobrador de impostos Diogo Pinto da Silva, vinha de família de Alter do Chão, e tinha uma carreira agitada. Ele foi um dos financiadores da restauração bragantina, emprestou dinheiro para o casamento da princesa Catarina com o rei inglês e também para a defesa do Brasil – era um dos maiores importadores do açúcar baiano. Também era um “líder informal” dos cristãos-novos portugueses. Porém, foi preso como judaizante em 1647. Conseguiu escapar e a sua descendência deixou de ser portuguesa. O filho João tornou-se Daniel, e teve um Jacob, este, um Daniel (homenagem ao avô). Daniel (1683-1750) casou-se com uma descendente do último Rabino de Castelo e tiveram outro Jacob, este a um Solomon, este a Jacob, que teve uma Sara, esta casou-se com o fotógrafo Solomon Nunes de Carvalho e tiveram o S. S. CARVALHO, o “Bernstein” inicial.
Foi sepultado num dia destes (20/11) o DR. SALUSTIANO FERREIRA SOUTO (1814-1887) no Campo Santo em Salvador. Ele viera do Sertão, de Vila Nova da Rainha (hoje Senhor do Bomfim), para ser o médico do pobres (operava gente de graça e ainda hospedava em sua casa no Largo dos Aflitos), líder abolicionista (estimulava as donas de casa a produzir prendas para vendê-las num bingo e comprar a liberdade de escravinhas), voluntário na Guerra do Paraguai, deputado provincial e secretamente dignitário muçulmano (malê), dentre tantas atividades em que se envolveu. Foi amigo da Condessa de Barral (Joaquim Nabuco dizia que ele era o pai do seu filho temporão). Deu casa e comida ao poeta cigano Laurindo Rabelo enquanto este fazia o curso de medicina em Salvador. Medicou a Castro Alves e deu-lhe o cavalo Richelieu para o poeta andar pela cidade, depois da amputação. Emprestou recursos para que Rui Barbosa casasse e se transferisse para a Corte... Rui demorou mais de dez anos para pagá-lo. Construí a sua biografia: “Conselheiro Salustiano Souto, o abencerragem invisível” (157 laudas), que coxeia há 1097 dias entre as editoras. Sempre recusada por alguns motivos recorrentes: É biografia? Quem se interessa pela vida de um mulato baiano?
Quem diria, a francesinha JULIETTE BINOCHE, ganhadora do Oscar e do César, começou na Baixada Fluminense. Ela é neta paterna de Georges Marie Binoche, e este por sua vez, neto de Jean Baptiste François Felix Henri Binoche, um dos três filhos de ADOLPHE BINOCHE (1827-1911), comerciante de fazendas (tecidos) na Rua do Rosário nº 86, Rio de Janeiro, e de URSULA ROSA DE ARAUJO MATOS, nascida em Saracuruna, filha do abastado fazendeiro JOSÉ PEDRO DE ARAUJO MATOS (S. João do Meriti, 1799 – Rio de Janeiro, 1867) e INACIA ANTONIA DO AMARAL, descendente dos povoadores Botafogos e Correias de Sá, aqueles mesmos que botaram os franceses para correr.
Que dia foi ontem na Argentina? Domingo, obvio. E também o “DÍA DEL INVENTOR” (29/09) em homenagem a um Professor Pardal local, o húngaro Biro. Ele inventou algo presente no cotidiano de todos nós: o bolígrafo (ou birome). Hoje toda gente tem o seu bolígrafo e muitas vezes leva para sua casa por “engano” o bolígrafo do vizinho. LADISLAU JOSÉ BIRO (1899-1985) nasceu em Budapeste como SCHWEIGER LASZLO e com a magiarização dos nomes estrangeiros, ele passou a usar o sobrenome “BIRO” (juiz). Era um jornalista, mas vivia metido em inventos, criou uma máquina de lavar roupas, uma transmissão econômica da GM, vários perfumes, etc. Vinte invenções diferentes. Com a perseguição nazista aos judeus, expatriou-se na Argentina, onde desenvolveu o bolígrafo. O bolígrafo, a princípio foi idealizado como um brinquedo para crianças, mas um barão franco-italiano descobriu outro mercado para o brinquedinho, comprou em 1951, deu-lhe o seu nome – estava inventada a CANETA BIC, que aliás foi usada para escrever este texto.
ROBERT COHN é um personagem de Hemingway, no livro The sun also rises (1926). Rico, educado em Princeton, mas, com valores sociais diferentes da turma que frequenta, é visto por eles como fraco ou ingênuo. Estudiosos da literatura de Hemingway afirmam que ele seria o romancista HAROLD LOEB (1891-1974). Porém há uma frase no livro que pode indicar mais verossimilhança com outro escritor americano. Hemingway, dentre outras coisas, escreve que ele pertencia as “velhas famílias judias”. ROBERT NATHAN (1894-1985), romancista, cabe mais nesta descrição, algo que não se ajusta a Loeb. Nathan descendia das “velhas famílias judias” americanas, “the Grandess”, como os chama Birmingham, vindas de Portugal (a maioria). O seu pai, o advogado HAROLD, é filho do ISRAEL, este filho do ISAAC, este da poeta GRACE (o irmão Gershon esteve como rabino na posse de Washington), e eles do lisboeta ISAAC MENDES SEIXAS (1708-1780), filho de ABRAHAM, gentes da Covilhã e anteriormente de uma freguesia de Vila Nova de Fozcoa. Este para fugir no porto de Lisboa, usou um estratagema, entrou num cesto de roupas e carregado por um gigante ultrapassou a vigilância inquisitorial.
Como antigo infante, combates navais não me atraem, parecem-me apenas uma confusão homicida, sem nenhuma ciência. Mesmo assim, moro numa rua que recorda uma batalha naval vencida pelos Brasileiros (Aquidabã) e o nome LEPANTO sempre me atraiu por vários motivos. Nos anos Oitenta passei várias madrugadas pelo HOTEL LEPANTO, em frente a Estação Ferroviária da Luz, em S. Paulo, que devia ter sido anteriormente um hotel para caixeiros viajantes ou modestos visitantes a cidade, até virar um hotel de curtíssima permanência, que foi o modo que encontrei. Eu via a sua decadência a cada madrugada – mesmo assim, ele não chegou a ser o Hotel Guarapari, um ponto semelhante as casas de ópio chinesas. Quando lia a placa “HOTEL LEPANTO” soava uma campainha em mim. Era a minha madeleine. Nunca encontrei o dono para perguntar por que recordar Lepanto? Lepanto foi uma batalha entre forças do Ocidente e islâmicas em 7 de OUTUBRO DE 1571. Geopolítica transmutada em fé religiosa (Hello! Mr. Huntington. Witam! Panie Koneczny). De um lado, a Liga Santa (Espanha, Estados Pontifícios, Republica de Veneza, de Gênova, Grão-Ducado da Toscana e Ducado de Savoia) e do outro o Sultão otomano. O que estava em jogo era o domínio do Mediterrâneo. Os números da confusão são expressivos: 98 mil homens da Liga e 120 mil da Sublime Porta, todos em seus barquinhos. As sete da manhã começou a batalha no golfo frente a cidade, final, 40 mil mortos e dentre os sobreviventes, o soldado MIGUEL DE CERVANTES (1547-1616), que perdeu os movimentos da mão esquerda no combate corpo a corpo. A que restou escreveu D. Quixote......
Gente de carne e osso pode tornar-se personagem de ficção, basta entrar no campo de visão de um escritor. Foi o que aconteceu ao neto de um funcionário do Império Austro-húngaro, que sem pressentir tornou-se um personagem ficcional, baseado nas velhas tragédias gregas. ADOLF (“Abraham”) SCHMITZ, natural de Kopchen, deixou a sua terra em busca de melhores oportunidades. Casou-se com a italiana Paolina Rosa Macerata e o filho, FRANZ SCHMITZ (1829-1892), foi comerciante em Trieste e casou-se com Miriam Felice (“Allegra”) Moravia (1832-1895), rica herdeira de uma fábrica de tintas que tornou-se parte da gigante farmacêutica Sandoz, anos adiante, e tiveram o filho ARONNE ETTORE SCHMITZ (1861-1928), que por sua vez casou-se com a prima Livia Fausta Veneziani e teve uma posição confortável, e assim pode dedicar-se a literatura, sob o pseudônimo ITALO SVEVO. Atividade que levou a conhecer o autor irlandês, James Joyce, que fez dele o LEOPOLD BLOOM, o seu Ulisses. “(...) Rudolph Bloom (falecido) narrara a seu filho Leopold (de 6 anos) um arranjo retrospectivo de imigrações e assentamentos em e entre Dublin, Londres, Florença, Milão, Viena, Budapest, Szombathely, com asserções de satisfação (tendo seu avô visto Maria Teresa, imperatriz da Áustria, rainha da Hungria), conselhos comerciais (tendo cuidado do pence, as libras cuidarão de si mesmas). Leopold Bloom (de 6 anos) acompanhara essas narrativas com constante consulta do mapa geográfico da Europa (político) e com sugestões para o estabelecimento de locais de negócio afiliados nos vários centros mencionados (...)” [fragmento de Ulisses].
“(...) Emi Ojeladé, mo dé ti mo nbayin soro, won bimi ni , lu Brasili li ti von npé ni Bahia. Oruko mi ni ede oyimbo won npé mi ni Martiniano Eliseu do Bonfim / Eu, Ojeladé, estou aqui para falar com você. Eu nasci no estado brasileiro da Bahia. Meu nome brasileiro é Martiniano (...). Foi assim em Iorubá que o pintor de paredes baiano recebeu o Americano numa salinha escura do Pelourinho, onde por horas ou dias passou para o gravador do americano o que sabia do seu Povo. E era muito, histórias e canções. O americano queria se encontrar no Mundo... Sally Rocks, a filha do fazendeiro branco, teve do seu escravo Jacob, quatro filhos. Um deles, Margareth casou-se com o pastor batista Daniel Turner, negro livre e tiveram a Rooks Turner. Ele estudou e completou um mestrado acadêmico. O seu filho, LORENZO DOW TURNER (1890-1972), lecionava num dia banal, quando ouviu o que lhe daria sentido a sua vida, percebeu que perto dele alguns afroamericanos falavam o “Gullah” (algo como a cupópia falada aqui perto de Soracaba). Não sabia o que era. Foi o seu doutorado, mas não esgotou o tema para ele, viajou durante vinte anos pelos condados “Gullah” na Georgia e Carolina do Sul, esteve em aldeias africanas de Serra Leoa, e um dia na Bahia em busca da língua primeira...
Hoje (26/11) é aniversário de nosso primo, PEDRO ALMEIDA VALADARES (1911-1965), o Pedrinho de Antônio Carlos, como lhe chamava minha mãe. Industrial (descaroçamento de algodão) e político (prefeito e deputado). Ele seguiu a tradição inaugurada pelo avô João Valadares, proprietário da Fazenda Buril, que foi eleito Conselheiro (vereador) em Riachão do Dantas em 1º de setembro de 1897, no mandato do Intendente Leopoldo de Carvalho Braque (1860-1947), e dedicou-se a Administração pública, com honradez. Pedrinho Valadares foi prefeito de Simão Dias entre 1959 a 1963 e os seus filhos e netos já exerceram todos os cargos eletivos do Brasil, com a única exceção da Presidência da República, pois já foram eleitos: vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, governador e senador.
A linhagem florentina della Stufa, de místicos esfomeados, cavaleiros andantes e sibaritas satisfeitos, existe desde o século X, mas na II Guerra sofreu com inúmeras perdas, teve o palácio familiar saqueado e o herdeiro expatriado por razões sociais. Foi condenado a três meses de trabalho forçado na Sardenha por homossexualismo. Ele, TERRI DELLA STUFA (1919-1982) parou na África (Dakar) e aportou no Rio de Janeiro em 1953. O título de Marchese (marquês) lhe permitiu enturmar-se na classe alta carioca com pouco esforço. Contador de piadas e possuidor de alto sentido estético, decorou a boite Au Bon Gourmet em Copacabana, incluindo os uniformes dos funcionários. Lá se apresentavam gente como Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto, Maysa e estreou-se no mundo musical a canção “Garota de Ipanema”. Isto abriu-lhe caminho para novos trabalhos na área de decoração em S. Paulo, primeiro na casa de Ema Klabin (1907-1994) no Jardim Europa; depois, no palácio dos Bandeirantes (para receber a rainha Elizabeth II) e a abertura de uma empresa de decoração com sucesso. É um expert e figura de referência desta especialidade no Brasil. O Sr. Marquês nasceu num 21 de novembro como hoje.
Jogar tênis não é muito saudável, pelo menos não o foi para o romancista americano OSCAR Jerome HIJUELOS (1951-2013), que morreu no último sábado (12/10) enquanto jogava. Filho de modestos cubanos que imigraram para New York nos anos Quarenta. Ele tratou nos seus trabalhos da herança cultural cubana recebida dos pais. Deixou vários romances sobre isto. Um deles, que particularmente me interessou foi A SIMPLE HABANA MELODY (2002), baseado na vida de um personagem real, o músico cubano Moisés Simon Rodríguez (1889-1945), compositor de El Manisero (1928), sob o nome de Israel Levis. Moisés Simón foi um imenso sucesso, até na Europa, tanto que mudou-se para Paris. Quando os Nazistas invadiram a cidade, M. S. foi preso como “judeu”, para sua própria perplexidade, pois era católico, filho e neto de católicos. Este episódio da vida de M. S. é um dos núcleos do romance. Aqui entra a questão cristã-nova em Cuba, tratada ficcionalmente. É um romance e como tal, lida também com sua atração pela cantora Rita Valladares, mas que não terá sucesso, como em outras tantas coisas na vida. Viver é frustrar-se. Moisés Simon (o de carne e osso), foi preso no campo de Buchenwald e sobreviveu. Morreu como mendigo na Espanha. É uma história triste.
O empreiteiro (manceps operarum) anonimo vindo da Gália (França) cruzou o rio Pó para trabalhar nas colheitas dos Sabinos. Não voltou mais para a sua terra, casou-se por alí e teve um filho de nome já latinizado: TITUS FLAVIUS PETRO, que por sua vez, alistou-se como voluntário numa Legião Romana. Deu certo, a valentia trouxe-lhe o posto de centurião e quando voltou a vida civil recebeu a incumbência de cobrar impostos. O seu filho TITUS FLAVIUS SABINUS, neto do trabalhador inicial, continuou a tomar dinheiro dos cidadãos como coletor de impostos e terminou a vida na Gália. É possível que não tenha conhecido Asterix... VESPASIANUS (9-79), filho do anterior, apesar do conforto familiar e do acesso as redes genealógicas do poder, não lhe apetecia a carreira política. Era tímido e detestava a exposição pública, mas “incentivado” pelos insultos da mãe Vespásia (filha de militar e irmã de senador), que o menosprezava, entrou para a vida militar e terminou Imperador romano. Lutou por todo mundo romano, da Inglaterra a Bulgária e até no Eretz Israel, dentre outros lugares. Protegeu o historiador judeu Flavius Josephus (Yossef b. Mattityahu, 37-100). Criou um imposto sobre a urina coletada nos mictórios, feita para retirar a amônia, produto usado ao curtir couros, afinal “pecunia non olet (o dinheiro não tem cheiro)”. O seu nome tornou-se sinônimo de banheiro na Europa. É pai do imperador TITUS (39-81), que tomou Jerusalém. O imperador VESPASIANUS também teve uma filha, de quem não se sabe o nome, mas cujo filho é conhecido, não entre os Romanos, mas entre suas vitimas: ONKELOS, o Convertido (c. 35-120), personagem do Talmude e a quem é atribuido a autoria do Targum de Onkelos, tradução da Torah para o aramaico.
O que fazer quando alguém chamado Santo Trafficante (1914-1987) lhe cobra uma dívida antiga e não há dinheiro, nem onde arrumá-lo? Numa situação destas, qualquer idéia por mais extravagante que seja, prospera. Foi o que aconteceu a BOBBY RIGGS (1918-1995), um tenista que batera os míticos Pancho Segura e Jack Kramer nos anos Quarenta e era conhecido por sua forma peculiar de espírito esportivo, alguém que amarrou um cão na perna direita para enfrentar um adversario inferior. Aposentado, sem dinheiro e devendo ao mafioso citado, ele escolheu chamar atenção a si para ganhar algum e pagar a dívida. Então BOBBY RIGGS declarou que qualquer tenista feminina era inferior a ele, um aposentado quase sexagenário. Desafiou a Margaret Court. Jogou e ganhou. A partida foi o laboratório para uma jogada maior. BILLIE JEAN KING era a Número Um. Pois Bobby não teve dúvidas, desafiou-a e assim nasceu a “BATALHA DOS SEXOS”. A partida foi jogada em Houston, em 20/09/1973, com 30.472 pagantes e uma audiência de 90 milhões pelo mundo. Billie Jean King ganhou por 3 x 0. Bobby ficou deprimido com a derrota, até receber o cachê, e pensar em novas formas de ganhar dinheiro. Ele morreu num 25 de outubro, depois de ter passado pelo Brasil, muitos anos antes.
“Gómez, las cebollas empiezam a oler” (...as cebolas começam a cheirar), disse o Rei espanhol ao cortesão numa conversa despreocupada, que imediatamente compreendeu a mensagem do amigo real e caso uma emergência não poderia salvá-lo da Inquisição. Em 1696, depois de trocar o nome Luis por Moses, ele já estava em N. Y. Sete Gómez foram presidentes da sinagoga Shearith Israel. A posição geopolítica de Portugal dificultava a fuga. Ou se tomava um navio em Lisboa ou no Porto – o patriarca dos MENDES SEIXAS entrou num navio dentro de um cesto de roupa suja; ou se caminhava através da Espanha, para chegar a outro porto, ou se lançava numa viagem a pé até a França. Foi assim que surgiu uma nova profissão: os acarreadores de judíos (guias para a fuga). Os trasmontanos RODRIGUES PEREIRA levaram quase trinta anos para atravessar a Espanha. Nossa prima R. S., ISABEL ROSA MENDES, com dezoito anos, já tinha vivido, depois de sair de Portugal, em Livorno, Alexandria, Esmirna, Cairo e Bordeaux (todas cidades a beira do Mediterrâneo, professor Braudel!), até ser presa em Lisboa (1669). Ou o algarvio PERO LOPES, que depois do avô e um tio queimados pela Inquisição, deixou uma filha de oito anos com a mãe, tomou um navio para o Brasil, mas, foi parar em Cuzco, vadeou pela região, pois “no tiene oficio”, tentou negociar em Cartagena de Índias, esteve em Acapulco e finalmente preso em Guaiaquil em 1596... O madeirense Manuel Dias, que vocês conhecem como o rabino MENASSEH ben ISRAEL (1604-1657) deve ter pensado nestas histórias, quando adotou o seu ex-libris.
O parisiense HENRI CLEMENT SANSON (1799-1889) deixou cair o machado pela última vez em 1847. Aposentou-se, pois não podia ver mais sangue, e desapareceu de cena. Durante sete gerações, desde 1688, os SANSONS dedicaram-se a profissão de carrascos em Paris, e anteriores a isto, exerceram a mesma profissão por cinco séculos na Noruega. Em sete gerações francesas todas as mulheres Sanson casaram-se com carrascos e dezenove deles foram carrascos. Eles formavam um grupo fechado, já que a profissão causava nojo nas pessoas comuns, só restavam casar-se entre si, criando um grupo genealógico único. A profissão de carrasco, além de hereditária, era muito bem remunerada. Acumulavam ao salário, benefícios fiscais, eram funcionários publicos e também dedicavam-se a medicina popular. Alguns deles tornaram-se milionários. Mas o serviço era pesado, o carrasco devia estar pronto para marcar com ferro, chicotear, usar convenientemente o oleo quente, ter as cordas prontas, saber amputar membros e manipular bem o machado e a guilhotina. Manter a equipe de auxiliares (pagos por ele), numa espécie de microempresa da morte. Durante o Terror revolucionário, CHARLES HENRI SANSON (1739-1806), avô do aposentado Henri Clement, decapitou os Reis de França e outras três mil vítimas, ao capricho dos juízes alucinados. As mil e trezentas e seis vítimas fidalgas decapitadas por Charles Henri foram sepultadas no pequeno Cemitério de Picpus, na rua do mesmo nome nº 35, em Paris, onde repousam La Fayette, Montalembert, Chateaubriand, Crillon, Gontaut-Biron, Choiseul, La Rochefoucauld, Montmorency, Rohan, Noailles, etc. É o mais exclusivo cemitério do mundo, onde um amigo meu (J. R. J. B.), de caráter extravagante e com pretensões a aristocrata, “sonhava” inutilmente em ser sepultado...
Os COSTA-BRANDÃO vieram do Minho e assentaram-se no Porto, na rua de S. Miguel – onde moravam as trinta famílias cristãs-novas de alta origem social, vindas de Espanha e lideradas por um Aboab. Cinco irmãos desta família demandaram a Amsterdã para juntar-se a comunidade judaica local. O mais conhecido deles, Gabriel da Costa (1583?-1640), conhecido como Uriel Acosta, não conseguiu adaptar-se a nova vida e suicidou-se com um tiro de revólver. A sua vida é tema de peça teatral, poesias, ensaios, etc. Dos outros irmãos, conhecemos apenas os descendentes que ficaram por alí, mas outros buscaram nova geografias para viverem. No começo do séc. XIX aparece em Guanajuato, JOSÉ TOMÁS ACOSTA, cujos descendentes alegaram descender dos cristãos-novos tripeiros já mencionados. INÊS DE ACOSTA y PEREDO, neta de José Tomás Acosta e sobrinha de León Benito Acosta (o 1º aeronauta mexicano), nasceu em 1825. Ela casou-se com um soldado da fortuna, que dizia chamar-se ANASTASIO DE LA RIVERA SFORZA, ao que tudo indica, pertencente a família dos cristãos-novos Navarro e tiveram o filho DIEGO (1º). Este ao pintor DIEGO (2º) Maria de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la RIVERA y Barrientos Acosta y Rodríguez (1886-1967), que mesmo considerando-se agnóstico, apresentou-se em apoio a B´nai Brith local, quando ensaiou-se uma confusão contra os judeus mo México. Segundo ele: era “Judio”, como sua avó Inês. DIEGO RIVERA morreu num 24 de novembro.