Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

RABINO PINKUSS, PIONEIRO NUMA UNIVERSIDADE BRASILEIRA


A figura do rabino Fritz Pinkuss (1905-1994) é incontornável numa história da presença judaica no Brasil. Já se escreveu bastante sobre as suas múltiplas atividades, principalmente a sua dimensão de líder religioso bem sucedido, porém a sua ação como professor universitário não se tem realçado tanto.
A sua formação como intelectual e líder religioso deu-se dentro da Haskala (Iluminismo judaico). Um dos seus modelos de vida foi o tio Dr. Hermann Pinkuss (1867-1936), rabino em Heidelberg, autor de trabalhos na área de lingüística e a quem sucedeu como rabino nesta comunidade. A vida discente do Dr. Pinkuss deu-se em vários centros de estudos. Ele estudou nas universidades de Breslau, de Würzburg e Berlim, além de ter freqüentado o seminário em Breslau. A sua tese de doutoramento sobre Mendelssohn foi defendida em Würzburg (1928), depois publicada e premiada.
O respeito e a gratidão aos seus professores estão registrados na sua autobiografia: Estudar, Ensinar, Ajudar. Seis décadas de um rabino em dois continentes (1989). Ele nomeou carinhosamente um a um, todos eles importantes figuras intelectuais na cultura judaica e européia, muitos pertencentes a corrente da “ciência do judaísmo”. Destes, o rabino Leo Baeck (1873-1956) foi o principal mestre. Outro, o rabino Dr. Hanoch Albeck (1890–1972), futuro professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, lhe concedeu a semiha (ordenação rabínica). Ele deu ao filho o nome do talmudista Mihály Guttmann (1872-1942), um dos mestres de sua formação, como mais um sinal deste respeito.
Em 1936 o rabino Pinkuss chegou a S. Paulo onde desenvolveu as suas atividades de líder religioso, porém não descurou de sua vocação didática e de pesquisa. Logo ele procurou a recém-fundada USP, num momento em que Judeus e Judaísmo ainda era um assunto marginal, considerado irrelevante para ser tratado por intelectuais como ciência, ainda visto como algo restrito a conversa de imigrantes.
Um dos seus interlocutores na universidade foi o geneticista André Dreyfus (1897-1952), diretor da FFCH, a quem expôs um projeto sobre estudos judaicos, que lhe fez apenas uma objeção, a sua cidadania alemã impedia a consecução de tal idéia. Ele não a abandonou, tanto que depois o novo diretor, Dr. Eurípedes Simões de Paula (1910-1977), retomou o projeto e assim em 1946, se teve a aula inaugural desta disciplina, dada pelo Dr. Pinkuss. Foi a primeira universidade latino-americana a incluir uma disciplina judaica em seu currículo e o início de sua carreira docente na universidade brasileira.
A sua carreira docente foi completa. Ele pesquisou - a sua bibliografia é extensa, lecionou e orientou teses. Somente parou com a aposentadoria compulsória em função da idade em 1975. Através de sua idéia inicial a universidade brasileira reconheceu que “Judeus e Judaísmo” são objetos de estudos importantes para o conhecimento acadêmico. Hoje são produzidas teses sobre o tema, com a maior naturalidade, mas não devemos esquecer que o Dr. Pinkuss foi um pioneiro de sua introdução na vida universitária brasileira e latino-americana.

FOTO: AHJB/FOTOTECA

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