Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O GUERREIRO DE YACO. SERRA DAS ALMAS. MEMÓRIAS E LENDAS DE ZÉ RUFINO




Quando encontrei o escritor [Francisco] Calazans Fernandes (1929-2010) ele morava em S. Paulo. Ele foi jornalista nos melhores jornais, Jornal do Brasil, Times, dentre outros. Foi também Secretário de Educação do Rio Grande do Norte – ele deu a primeira oportunidade para o pernambucano Paulo Freire (1921-1997) aplicar o seu método de alfabetização. Como correspondente gerou o mundo todo, esteve em Israel de ponta a ponta, porém o seu espírito nunca deixou o seu berço natal, na região conhecida como “Tromba do Elefante”, parte do RN que vai em direção a PB.


---“Três dias que passo na minha terra – disse-me entre o raro sorriso de sertanejo desconfiado – me rejuvenesce trinta anos”. Falava enquanto me mostrava uma espingarda Comblain, usada em Canudos e por todo o Brasil profundo.


Eu cheguei a Calazans Fernandes, através de Marília Freidenson, que leu o seu livro O GUERREIRO DE YACO. SERRA DAS ALMAS. MEMÓRIAS E LENDAS DE ZÉ RUFINO (C.F. Natal, Fundação José Augusto, 2002, 318 páginas) e me emprestou um exemplar, sabendo que era assunto de meu interesse. Imediatamente falei com o Dr. Marcos Antonio Filgueira, o genealogista par excellance das famílias do RN, que me passou o seu endereço e assim pude conversar uma tarde com este notável criador e saber um pouco mais de seu trabalho.


O GUERREIRO DE YACO (...) é o primeiro de uma planejada trilogia. Escritor disciplinado pelos prazos do jornalismo, ele já tem a pauta dos trabalhos que seguirão “Chamas do Passado” e “Cinzas da Fortuna”, contando as histórias do seu pai Zé Rufino (José Calazans Fernandes, 1892-1976), homem atento e de boa memória que reteve as histórias de ocupação das terras em volta da Serra das Almas. O leitmotiv do livro é o desvendamento de um segredo. para que isto aconteça, microbiografias de sertanejos são reveladas através de pequenos episódios, onde a identidade cultural é sempre realçada.


Este primeiro volume é descrito como “a memória do baú sobre um Fernandes cristão novo da Ilha do Fayal contava como, perseguido pela Inquisição por viver com uma bruxa também Fernandes, em 1700 ele demandou ao Brasil no navio de que era dono, sobreviveu a um naufrágio no litoral do RGN, subiu o Apodi dos encantos, com ajuda dos índios, chegou à Serra das almas, onde , dos grotões da mina do Cabelo-Não-Tem, arrancou fortuna em ouro. Tão venturosa história resume tudo sobre quem deixou descendentes sem conta e brigas eternas nos direitos de posse de terras sem fim” (p. 27).


Entrar no universo de C.F. não foi difícil para quem tem a pele crestada herdada de ancestrais que também viveram alongados pelo Sertão. Na riqueza memorial do seu pai, lembrei-me de histórias contadas por alguns Valadares sertanejos – como a de uma chuva de peixes vivos no sertão sergipano. Mas a mim falta-me o talento narrativo e a fluidez do autor norteriograndense, portanto basta-me desfrutar o seu saborosissimo trabalho para eu também recuperar o me Sertão e recomendá-lo a quem deseje conhecer o Brasil profundo – não o das grandes e insossas cidade, mas as raízes profundas deste país, que leiam este livro,pois ele se coloca ao lado de três outras obras primas sobre o sertão brasileiro: A pedra do Reino, de Ariano Suassuna; Os Peãs, de Gerardo Mello Mourão (1917-2007) e o poema Psiu, a penúltima, de Soares Feitosa.

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