Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O AVÔ JUDEU DO PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAES (1872-1918)



O major Sidónio Paes foi presidente da República Portuguesa entre abril a dezembro de 1918, quando então foi assassinado. Ele dirigiu o país num momento turbulento da história nacional. A sua aparência física, o cuidado no vestir-se e a crença messiânica numa missão pessoal lhe deram esta confiança e as expectativas de reorganizar a nação.
Fernando Pessoa (1888-1935), descendente de cristãos-novos da Beira, viu nele este messias falhado:

À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais

(...) Governa o servo e o jogral. O que íamos a ser morreu. Não teve aurora matinal 'Strela do céu. Vivemos só de recordar. Na nossa alma entristecida Há um som de reza a invocar A morta vida;
E um místico vislumbre chama O que, no plaino trespassado, Vive ainda em nós, longínqua chama - O DESEJADO.
Sim, só há a esp'rança, como aquela - E quem sabe se a mesma? - quando Se foi de Aviz a última estrela No campo infando.
Novo Alcacer-Kibir na noite! Novo castigo e mal do Fado! Por que pecado novo o açoite Assim é dado?
Só resta a fé, que a sua memória Nos nossos corações gravou, Que Deus não dá paga ilusória A quem amou. Flor alta do paul da grei, Antemanhã da Redenção, Nele uma hora encarnou o el-rei Dom Sebastião
(...)
Até que Deus o laço solte Que prende à terra a asa que somos, E a curva novamente volte Ao que já fomos, E no ar de bruma que estremece (Clarim longínquo matinal!) O DESEJADO enfim regresse A Portugal!”

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Paes (1872-1918) pertencia a velhas famílias minhotas, mas que também possuía relações e uma costela judaica. A sua esposa, Maria dos Prazeres Martins Bessa (1869-1945) era prima da mãe do capitão Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961), líder dos descendentes de cristãos-novos que retornaram ao Judaísmo Rabínico, na Sinagoga Kadoorie Mekor Haim do Porto.
Os genealogistas padre António Julio Limpo Trigueiros e Armando B. Malheiros da Silva publicaram uma excelente genealogia do notável homem público português – Os Paes de Barcelos. Subsídios genealógicos para a biografia do Presidente da República Sidónio Paes (Barcelos, 1994). Nela encontramos o avô judeu do Presidente-Rei. Trata-se do barbeiro e sangrador António Velho da Fonseca (1677-1734), avô do avô do seu pai, natural de Barcelos e filho de “pessoas muito honradas que viviam de alguns bens que tinhaõ”. Mesmo assim os seus descendentes encontraram dificuldades para se inserirem na sociedade devido a esta origem judaica. Este António Velho da Fonseca era neto de um personagem importante da genealogia judaica, o licenciado Gaspar Cardoso, falecido em Barcelos (1649), que aparece em processos inquisitoriais e no trabalho do grande Luís de Bivar Guerra.


A linhagem cristã-nova é a seguinte:


1 – ANTÓNIO VELHO DA FONSECA (1677-1734)
2 – ANDRÉ JOSÉ PAES DE FARIA (1715-1780).
3 – LUÍS RIBEIRO PAES DE FARIA 91752-1825).
4 – BERNARDO JOSÉ PAES DE AZEVEDO (1799-1878).
5 – SIDÓNIO ALBERTO MARROCOS PAES (1846-1883).
6 – SIDÓNIO BERNARDINO CARDOSO DA SILVA PAES (1872-1918).

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