Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

LI RONGXIN: O ÚLTIMO JUDEU DO "IMPÉRIO DO MEIO"



Até o século passado existiu uma comunidade judaica em Kaifeng na China, formada por judeus vindos da Pérsia e da Índia durante a dinastia Tang (séc. VII). Eles são conhecidos como “tiao jung jiao” (religião dos extratores de tendões) ou “muçulmanos do solidéu azul”. Com a tolerância chinesa estes judeus foram progressivamente se assimilando até desaparecer parcialmente da paisagem local. Restou apenas um pequeno grupo de indivíduos, descendentes desta comunidade desaparecida, reconhecível por regras alimentares distintas da população local e pela genealogia e onomástica.


Os judeus de Kaifeng são identificados por sete sobrenomes, que lhes foram concedidos pelo Imperador chinês e que transmitidos em linha masculina chegaram até os nossos dias: Ai, Gao, Jin, Li, Shi, Zhang e Zhao. Apesar de identificá-los, eles não são exclusivos dos judeus locais. O sobrenome Li é usado por 1% da população chinesa, algo em torno de dez milhões de pessoas. Ele surgiu na dinastia Yin (séc. XV aC), quando um nobre perseguido pelos inimigos sobreviveu escondido numa ameixeira (li em chinês), alimentado pelos frutos da árvore. Dali em diante ele adotou por gratidão o seu nome como sobrenome familiar, que depois incorporou-se à onomástica chinesa.


A presença na vida chinesa destes judeus foi muito discreta. Poucos são os registros. Durante a dinastia Ming (séc. XVII), Matteo Ricci (1552-1610), um jesuíta que viveu na China, os encontrou e viveu alguns episódios curiosos com eles. O mais significativo foi quando recebeu o judeu Ai Tian e este vendo uma imagem católica da Virgem Maria, do menino Jesus e João Batista, “reconheceu” neles Rebeca, Esaú e Jacó. O que valeu para o jesuíta Ricci um convite para que se tornasse o “rabino” da comunidade. Bastava abster-se da carne suína. Ricci recusou o convite, mas anotou que tinha mais identidade com estes judeus, do que com os cristãos chineses. Os anos se passaram e apenas um personagem que freqüenta as enciclopédias e dicionários é apontado como descendente desta comunidade. Trata-se de Liu Shaoqi (1898-1969), presidente da República Popular da China entre 1959 e 1968.


A obscuridade em que estava mergulhada a história destes judeus começou a ser rompida quando o professor Xu Xin, da Universidade de Nanjing, passou a conviver na sua faculdade, na década de oitenta, judeu de Chicago, que lhe mostrou a importância da cultura judaica para o mundo ocidental. Isto estimulou o intelectual chinês a procurar vestígios da passagem dos judeus pela China. Encontrando-os em Kaifeng, onde vive uma centena de pessoas, que ainda são reconhecidas como pertencentes ao grupo étnico “you tai” (judeus). A partir deste momento começou-se a recuperar uma história que parecia perdida. Já há alguns deles vivendo em Israel.
Para completar este artigo escolhi a genealogia de um judeu de Kaifeng. Ela começou com o patriarca do clã Li, considerado como sendo de condição levita e que no período documentado desta comunidade produziram vinte rabinos. Ele, o comerciante Li Jingsheng (1851-1903), foi enviado como representante dos judeus de Kaifeng a David Ezekiel Joshua Abraham (1863-1945), judeu iraquiano e chefe da comunidade de Xangai. Lá conviveu com os judeus locais e quando morreu foi sepultado no cemitério judaico. O seu filho, Li Shumei, conhecido como Samuel, viveu entre os judeus de Xangai, onde teve o filho Li Rongxin em 1910, que adulto buscou a cidade do clã. Durante a Revolução Cultural foi aprisionado pelos Guardas Vermelhos e mandado para um campo de reeducação, mas com a flexibilização, voltou para a sua cidade, onde se tornou uma espécie de anfitrião para os judeus de todo o mundo que vão visitá-los.


Assim como outros pequenos grupos de judeus, os de Kaifeng também se desmontaram pela migração interna e externa. Há notícias deles vindo para a América. No recenseamento feito em Montreal e Quebec em 1901, o pesquisador Glen Eker (Jewish Genealogical Society of Canada) encontrou dois deles no Canadá: Wah Hing Ling, 40 anos, e Lewis Lunng, 28 anos – curiosamente nenhum tem o sobrenome tradicional.


Há poucos registros sobre as relações entre os judeus chineses e o Brasil. Na FFLCH-USP foi defendida em 1970 a tese de doutoramento do professor Nicholas (Nicolau) Mu-Yu Chen (1903-1982) intitulada: A comunidade israelita de Khai Fon. Um estudo sobre a assimilação dos judeus na China (121 páginas), baseada em fontes chinesas; e no Cemitério Israelita do Butantã, em S. Paulo, estão sepultados alguns judeus nascidos na China, deles já identificamos: Lidia Gurevich (1910-1960), nascida em Harbin, e Abram Kapustin (1913-1960), nascido em Hailar. Hoje, olhando rostos chineses, ora sorridentes, ora desconfiados, que encontro aqui pelos bairros centrais de S. Paulo, de quem não sei mais do que todos sabem, fico curioso: qual deles será um judeu de Kaifeng?

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