Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

ODMAR BRAGA, UM POETA ENGAJADO E MILITANTE, MAS LÍRICO

Na foto: Gilberto Freyre Neto, P.V. e o poeta Odmar Braga


Quando encontro o poeta pernambucano Odmar Braga lembro-me imediatamente do marquês de Santillana, D. Iñigo López de Mendoza y de la Vega (1398-1458), poeta e soldado espanhol, por sua trajetória na vida. Ele faz verdade a frase do fidalgo espanhol: “La sciencia non embota el fierro de la lança nin face floxa la espada en la mano del caballero”. Quem ouve o lírico Odmar cantar as delícias do amor e das tristezas da herança ancestral, não deve esquecer que ele é um mestre em lutas orientais (6º Dan em Karatê) e já ganhou a vida como policial no sertão bravio. Barbudo, sólido e lento caminhando pelas ruas de Recife está atento a tudo. Ele é um poeta incômodo para a tradição lírica brasileira. É um bardo que canta por uma minoria, assim como o gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009) cantava pelos afrobrasileiros, o pernambucano Odmar Braga canta pelos descendentes de cristãos-novos alongados pelo Sertão brasileiro. Gente invisível até os anos 70 do século passado quando alguns deles resolveram dar as costas ao altar católico. Em segredo já tinham feito isto há muito tempo.
Odmar Braga nasceu em Recife (08/11/1952), neto dos sertanejos Pinheiro, Filgueira e Braga. Para falar dele escolhi um poema de sua lavra: “Kidush com cachaça” do seu livro anterior. Através dos seus versos posso falar do poeta e de sua poesia.


Tão perto do azul do céu, / tão longe do azul do mar. / Ao D´us Alto com sua Graça,/ lechá dodi licrat calah / Hei de assentar a mesa posta / E o mais belo salmo louvar, / num compasso bem saudoso / reacender meu alegrar. / Com rapadura e tapioca, / com cuscuz de mandioca, / com o aboiar do meu rezar. / transbordando minha taça, num Kidush com cachaça, / o repartir do pão chaláh” (Lembranças, Coleção Mossoroense, Série C, volume 1260, dezembro de 2001, Fundação Guimarães Duque/Fundação Vingt-Un Rosado. p. 55).


A poesia engajada e militante de Odmar Braga deve ser lida e relida. Ela comporta várias interpretações. Aparentemente, só aparentemente, ela é muito simples, porém lendo atentamente, encontramos citações, alusões históricas e ecos de uma linhagem poética que começou em Alcabetz e chegou ao cearense Albano, que explicam o seu projeto de vida e visão de mundo.
No estilo dos Salmos ele faz conviver afirmação e negação, mostra os opostos na mesma imagem, para fortalecer a sua argumentação lírica. O poeta cearense José Albano (1882-1923), descendente de uma velha família de origem cristã-nova, usou o mesmo recurso na sua glosa do Salmo nº 137 – o do desterro babilônico: “(...) Subi à montanha azul / e desci ao verde val (...)”. Odmar usa o céu e o mar para afirmar o seu exílio. O céu, entenda-se o Transcendente, está mais perto dele que o mar.
Logo a seguir ele se apropria dos versos sacros do cabalista tessalonicense Schlomo Alkabetz (c.1500-1580) para o serviço litúrgico do Shabat: “Vem Amado meu ao encontro da noiva”. Renovando a sua crença na relação especial do Transcendente (que ele grafa incompleto como os Ortodoxos) com o Povo de Israel.
O poema continua com o desejo do cumprimento futuro (“hei..”) das regras cotidianas codificadas pelo toledano Josef Caro (1488-1575), a “mesa posta” (Shulkhan Arukh). E para mim vem o inesperado no poema, depois da Ortodoxia, de crenças e costumes judaicos, ele traz a mestiçagem brasileira, introduzindo a rapadura, a tapioca e a cachaça no banquete de seus versos. Para mim o desfecho é uma advertência para os pesquisadores de história dos descendentes dos cristãos-novos: eles não devem usar como parâmetro os hassidim (judeus ortodoxos da Europa Oriental) – não podem esquecer que o Brasil é um país mestiço.
Apesar de trazer a mais velha cidade portuguesa como parte do seu nome (Braga, a Bracara Augusta romana), o poeta Odmar muitas vezes se expressa em Ladino, a língua dos judeus oriundos do Império Otomano, que levaram o português e o espanhol para aquelas plagas e fertilizaram-nos com o hebraico, turco, árabe, etc. É uma forma dele legitimar-se, de inserir-se no mundo judaico além-mar, usando uma das muitas línguas de uso e segredo dos judeus sefarditas. O seu último livro, “Rekodros de mis rekodros” (2011) dialoga com poetas judeus espalhados pelo mundo, como Ernesto Kahan, Margalit Matitiahu, Matilda Koen-Sarano, Denise León, Haim Vitali Sadacca, dentre outros.
Odmar é também um grande contador de causos. Na última vez que estivemos juntos comemos um agulha (peixe) em Olinda e passamos uma tarde discorrendo sobre as velhas linhagens do Sertão (que ele conhece quase todas) e uma montagem transgressora de Jean Genet. Odmar Braga é surpreendente, tanto como causeur e claro como um poeta de Israel no Sertão brasileiro.

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