Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 30 de março de 2011

EL NORA ALILAH, de Moisés Ibn Ezra (1055? - 1138?)

O piut (poema litúrgico) El Nora Alilah composto pelo poeta, filósofo e linguista espanhol Moshe b. Yaakov HaSallah Ibn Ezra, nascido em Granada (1055? – 1138?) é usado nas congregações sefaraditas para fechar o Yom Kippur (dia do Perdão). É um poema requintado – inclusive na forma de um acróstico. Antes de começá-lo, fala-se a frase: “Moisés, nos faça forte”, homenageando o autor. Aqui na versão cantada pelo Coral da Congregação Espanhola e Portuguesa de Londres - (2 Ashworth Road): http://www.youtube.com/watch?v=HHWmjncxfOU&feature=related Deus de temor, Deus de poder / Concede-nos perdão nesta hora, pois suas portas estão fechadas esta noite (refrão). / Nós, que somos poucos, erguemos os olhos à altura do céu / temendo por nossa oração, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Derrama sobre nossa alma, nós oramos para que a frase que você vai escrever / apague nossos pecados, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Resgata-nos, refúgio forte e nos tira deste sofrimento terrível / sela o nosso destino para a alegria, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Dai-nos o favor, se você é nosso Juiz, mostre-nos a graça para aqueles que negam o nosso direito e nos oprimem, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Gerações de homens fortes na fé tem andado na tua luz / Como no passado, renova os nossos dias, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Reúna até Judá o rebanho disperso e reconstrua Sião / Abençoe este ano com a graça divina, pois suas portas estão fechados nesta noite. / Que todos nós, velhos e jovens, encontrem alegria e prazernos anos vindouros, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Miguel, príncipe de Israel e Gabriel. Seus anjos luminosos, com Elias,venham nos resgatar, pois suas portas estão fechadas esta noite.

terça-feira, 29 de março de 2011

GENEALOGIA JUDAICA (XV): DINA SFAT (1939-1989), Atriz brasileira


1. DINA (“Sfat”) KUTNER (S. Paulo, 1939 – Rio de Janeiro, 1989). Atriz. Casada com o ator Paulo José de Souza. Filhos: Isabel, Ana e Clara.


PAIS:

2. JACOB KUTNER, Yaacov b. Schlomo (Varsóvia, 12/08/1895 – S. Paulo, 25/02/1976). Vendedor dos Tapetes Tabacow e depois proprietário de uma fábrica de sapatos.

3. NOEMIA LERNER (Rosh Pinah, 1905 – S. Paulo, 16/10/1991).


AVÓS:

4. SALOMÃO KUTNER, Schulem Scharna b. Reuven (Varsóvia, abril de 1864 – S. Paulo, 22/05/1955).

5. LEONTINA RACHEL SLEDZ (? – Buenos Aires, 1915).

6. NAHUM LERNER, Nahum b. Shabetai (Sfat, 1877 – S. Paulo, 13/11/1918). Comerciante de tecidos. Fundador da Sinagoga Knesset Israel (rua Newton Prado, S. Paulo).

7. DORA ABRAMOVITCH.

quarta-feira, 23 de março de 2011

ANOTAÇÕES SOBRE O ARTIGO "Los San Román de Zamora: del siglo XV hasta nuestros dias" de MATILDE GINI DE BARNATÁN



No III Congreso de Cervantes y Sefarad em 1997 a pesquisadora Matilde Gini de Barnatán trouxe a história da família espanhola San Román de Zamora e as suas ligações com o judaísmo. A história começou com D. Francisco de San Román, “vecino de Zamora”, funcionário do rabino Abraham Senior e a sua missão junto a Arias Dávila, outro converso importante.


O artigo resultante da apresentação, “Los San Román de Zamora: Del siglo XV hasta nuestros dias” (MAGUÉN-ESCUDO, Revista trimestral de la Associación Israelita de Venezuela, nº 144, Julio-septiembre 2007, pp. 16-33) tem dois tempos. No primeiro ela fala das relações de D. Francisco de San Román (homônimo do primeiro espanhol queimado como “luterano” em 1544) com estes personagens já citados, usando a documentação da época. No segundo momento, já utilizando a técnica da história oral, ela vai a Zamora e reencontra os San Román, surpreendentemente alguns deles continuam ligados a velha herança familiar. A sua informante é Maria Manuela Rodríguez Fernández, que relata que os seus tios David e Antonio de San Román recebiam o português Artur Mirandela durante os anos da Guerra e rezavam secretamente numa sala fechada da casa.


Como sou um genealogista especialista em famílias cristãs-novas portuguesas trago mais informações que podem enriquecer o belo trabalho de Matilde Gini de Barnatán e até fornecer novos rumos para esta pesquisa.


1. ARTUR MIRANDELA é o pseudônimo de Artur Augusto das Neves, que nasceu em Valpaços e morreu em Matosinhos (1900 – 1964). Ele pertencia a uma família de origem cristã-nova de Vilarinhos dos Galegos. Foi um dos membros da “Obra do resgate”, movimento de reinserção dos descendentes de cristãos-novos ao judaísmo rabínico, liderado pelo capitão Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961). Trabalhou como tesoureiro no Banco de Portugal em Bragança, ao lado de José António Furtado Montanha (1882 - 1976), presidente da comunidade israelita local. Teve papel destacado no acolhimento de refugiados estrangeiros em Portugal.

2. No livro “Uma família de cristãos-novos em Bragança. Cinco séculos de história” (Bragança: edição do autor, 2007), vol. II, de Filipe Pinheiro de Campos, na página 906, há o registro de casamento de ALEXANDRINA BEATRIZ LOPES NAVARRO, filha de Antero Artur Lopes Navarro (1867-1949), secretário do Governo Civil de Bragança e de Maria da Assunção Vaz (1877-1953), descendente de relevante família de origem cristã-nova estabelecida em Lagoaça. O noivo é o espanhol MANUEL INOCÊNCIO FREDERICO SAN ROMÁN GONZÁLEZ, natural de Puebla de Zanabria e chefe do Departamento Nacional do Auxilio Social em Madrid, filho de Manuel San Román Sánchez e Maria Dolores González.


Percebe-se que Artur Mirandela foi um membro categorizado do criptojudaismo trasmontano, bastante envolvido nas atividades “proselitistas” da “Obra do resgate” e podia estar numa missão destas junto aos San Román.


No artigo há menção sobre a endogamia dos San Román e os seus aparentados. Esta informação se fortalece com o registro deste casamento. O descendente de cristãos-novos espanhóis que vai encontrar a sua esposa numa velha família de cristãos-novos penitenciados pela Inquisição no outro lado da fronteira. Todas estas informações fornecem indicativos de que estas relações eram profundas e estavam baseadas numa cultura comum e na rede de parentesco que chegou até o século XX.


FOTO: Na capa da revista HaLAPID, órgão da “Obra do resgate”, estão: Luís J. de Carvalho, capitão Barros Basto e ARTUR MIRANDELA, o terceiro em pé. Sentados: capitão Jaime Borges (da família do escritor argentino Jorge Luís Borges), rabino Baruch Ben-Jacob e Furtado Montanha.

sábado, 12 de março de 2011

Resenha de A Presença Oculta publicada na Revista Pesquisa FAPESP março 2008 nº 145

Livros

A presença oculta
Paulo Valadares
Fundação Ana Lima 292 páginas

O judeu em cada um de nós
Estudo revela presença da descendência dos cristãos-novos brasileiros

Léa Vinocur Freitag

Esta obra do historiador foi originalmente feita sob a orientação da professora Anita Novinsky, o que confere um aval respeitável em termos de trabalho acadêmico. O autor realizou uma investigação paciente e fecunda, analisando documentos na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, Centro Cultural Vergueiro, PUCCamp, IFCH-Unicamp e FFLCH-USP (São Paulo), Real Gabinete Português de Leitura carioca, Arquivos Distritais portugueses, Biblioteca Pública Municipal do Porto e Bibliotecas Nacionais de Lisboa e Madri. Valadares é um nome de destaque na linha de pesquisa histórica e genealógica, co-autor do Dicionário sefaradi de sobrenomes, ao lado de Guilherme Faiguenboim e Anna Rosa Bigazzi, premiado em 2003 como “o melhor livro de referência judaica”. Pertence a Sociedades Genealógicas Nacionais e Internacionais e vem publicando trabalhos em revistas especializadas, com temas instigantes, como “Os Mesquitas do Estadão vistos pela genealogia judaica”. A presença oculta é o primeiro trabalho acadêmico que buscou responder a uma questão central na história da formação nacional: o que aconteceu aos descendentes dos cristãos-novos no país? “Com o fim da Inquisição terminou a perseguição à cultura dos cristãos-novos no Brasil, mas continuou a existir o estigma que satanizou o judeu. Tanto que os poucos judeus que chegam no período a seguir não se identificam como tal: eram “hebreus”, “israelitas”, “russos”, “alemães”, “franceses” etc. O mesmo se deu com o nome das instituições judaicas, que preferiram denominar-se “israelitas”.Nos anos 1930 e 40 o anti-semitismo difundiu-se no Brasil, inclusive pela influência do integralismo. Fernando Raja Gabaglia, diretor do respeitado Colégio Pedro II e descendente da cristã-nova Branca Dias, foi questionado pelo ministro Gustavo Capanema sobre a forte presença judaica na instituição – soube contornar o problema defendendo a liberdade religiosa e a integração dos seus alunos. Um dos expoentes da diplomacia brasileira no pós-guerra foi Hugo Gouthier de Oliveira Gondim, falecido em 1992, da linha genealógica de Branca Dias. Chegou ao posto de embaixador brasileiro na Itália, comprou e restaurou o Palácio da Piazza Navona, em Roma, mantendo amizade com grandes personalidades internacionais, como Kennedy. Foi aposentado compulsoriamente em 1964 e teve os direitos políticos cassados. Nomes ilustres da sociedade brasileira têm suas origens ligadas a cristãos-novos: “Antônio Henrique Cunha Bueno, neto materno de Maria Cursina de Leão, baiana de Macaúbas, foi deputado federal por São Paulo. Defendeu a comunidade judaica durante os seus mandatos legislativos e membros de sua família são voluntários em instituições judaicas”. O historiador Sérgio Buarque de Holanda, autor de Raízes do Brasil, pai de Chico Buarque, chegou a ser inquirido pelo regime nazista, quando estudou na Alemanha. Aparece nas pesquisas genealógicas como descendente de Abraham Senior.Outras personalidades dos meios econômicos e empresariais citados por Paulo Valadares são Luís Eulálio de Bueno Vidigal e Gastão Vidigal, este último presidente do Banco Mercantil.Referindo-se aos “profetas hebreus que nos espiam das Gerais”, Valadares vê na cultura cristã-nova das serras mineiras uma opção pelos profetas judeus, mais do que pelos apóstolos cristãos. Em Congonhas do Campo os profetas estão fora da igreja e são imagens dessacralizadas – os católicos preferem cultuar sua fé dentro da igreja.Nessa linha de idéias, o autor observa também uma aproximação dos carmelitas com os judeus, exemplificando com os fundadores da Ordem, santa Teresa d’Ávila e são João da Cruz, ambos de origem cristã-nova. Em Ouro Preto o profeta Elias é reverenciado na Igreja N.S. do Carmo, e é comum encontrar nas igrejas imagens de Abrão e Moisés.

LÉA VINOCUR FREITAG é professora titular pela Escola de Comunicações e Artes (USP) e doutora em Ciências Sociais (USP).

terça-feira, 8 de março de 2011

OS PRIMEIROS JUDEUS DE S. PAULO. UMA BREVE HISTÓRIA CONTADA ATRAVÉS DO CEMITÉRIO ISRAELITA DE VILA MARIANA

OS PRIMEIROS JUDEUS DE S. PAULO - UMA BREVE HISTÓRIA CONTADA ATRAVÉS DO CEMITÉRIO ISRAELITA DE VILA MARIANA (S. Paulo: Fraiha, 2009)

LIVRARIA CULTURA:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/index.asp
LIVRARIA SEFER – Especializada em temas judaicos:
http://www.sefer.com.br/



DICIONÁRIO SEFARADI DE SOBRENOMES / DICTIONARY OF SEPHARDIC SURNAMES

O DICIONÁRIO SEFARADI DE SOBRENOMES / DICTIONARY OS SEPHARDIC SURNAMES (S. Paulo: Fraiha, três edições)
LIVRARIA CULTURA:
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LIVRARIA SEFER – Especializada em temas judaicos:
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sábado, 5 de março de 2011

TERROR NUM SHTETL GAÚCHO: QUATRO IRMÃOS (1924) - UMA HISTÓRIA OCULTA DA COLUNA PRESTES

As revoluções têm uma imagem complacente de si. Raramente há a autocrítica de sua ação concreta. Conforme se consolida sua história, apagam-se as violências ou injustiças cometidas por elas, restando apenas a sua motivação altruísta. A Coluna Prestes (1924-7) é um destes casos, pois a historiografia dominante se rendeu ao ineditismo militar (guerra de movimentos), o caráter heróico e a busca utópica da justiça social por seus líderes. Porém, pouco se escreveu da brutalidade dos revolucionários no trato dispensado à população civil, que por razões práticas teve de lhe prover o sustento, sob a ameaça das armas.
Este artigo é na contramão desta história consagrada, ele mostra a Coluna Prestes no início, atacando o povoado gaúcho de Quatro Irmãos, com o único propósito de saquear a sua população para sustentar o grupo revolucionário que se formava. Foi escrito com base numa cópia do inquérito policial que o Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB) possui, junto à documentação que compõe o fundo Jewish Colonization Association (ICA). Entrevistei, também, alguns descendentes de famílias atingidas por essa desordem pretensamente revolucionária. Pronto o artigo, ele foi oferecido a três revistas de História onde já publiquei, porém foi recusado por razões singelas, mas que podem ser interpretadas nas entrelinhas como “ainda não se publicam na historiografia acadêmica os desvios de um ícone esquerdista”.

A COLUNA PRESTES

O presidente Arthur Bernardes (1875-1955) já assumiu o governo em estado de sítio. A insatisfação política dos seus opositores tomou forma revolucionária. Em S. Paulo grupos militares levantaram-se contra o governo, mas foram batidos pelas tropas legalistas e então fugiram para o sudoeste do Paraná. No sul o capitão Luís Carlos Prestes (1898-1990), que servia no 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo sublevou sua unidade militar em 28 de outubro de 1924. O gesto funcionou como uma senha para os descontentes começarem a se agrupar para integrar a coluna de insurretos que formou com eles e mais o grupo paulista. Tornou-se conhecida como Coluna Prestes e deslocou-se militarmente 24 mil quilômetros por todo o país, entre 1924 a 1927. Próximo a fronteira com Santa Catarina, um destes bandos de revolucionários caiu sobre a indefesa Quatro Irmãos para tomar cavalos, víveres e dinheiro, supostamente para prover o movimento. Eles chegaram pela estrada de Nonohay. O calendário marcava três de dezembro de 1924.
Eram quarenta ou cinqüenta homens aramados com fuzis e armas brancas, identificados pelo lenço vermelho dos maragatos (oposicionistas) colocados em volta do pescoço, montados em cavalos, todos comandados por um velho trajado de uniforme cáqui amarelo com seis galões no ombro. Soube-se depois que ele era o coronel Favorino Mariano Pinto (1869-1927) e que ao seu lado cavalgavam dois filhos: o capitão Heráclides Pinto, apelidado “Pretinho” e o tenente Apolinário Pinto, vulgo, “Lulu” ou “Pintinho”. O trio era gaúcho e já agia na região há tempos. Revolução para eles era um meio de vida e os seus título militares eram forjados nas sangrentas lutas campeiras. Eram maragatos de formação.
“Maragatos” foi o apelido depreciativo dado pela primeira vez durante a Revolução Farroupilha em 1893 aos opositores de Borges de Medeiros (1864-1961), presidente do Rio Grande do Sul. O nome vinha de um grupo etnocultural de origem espanhola, maragatos, nômades e, ao que parece, descendentes de mouriscos, reputados como ladrões e assassinos. O nome foi assumido como orgulho pelos Federalistas, e perdurou como uma forma de assustar os adversários. Era gente com uma persistente tradição de ferocidade e crueldade. Um dos maragatos históricos, Adão Latorre (1837-1923), teria degolado sozinho numa tarde trezentos prisioneiros no chamado Massacre do Rio Negro (1893). Já o Pretinho de nossa história, dias antes da invasão a colônia, matara num baile ocorrido no povoado chamado Sapo o sanfoneiro que lhe desagradara. Preso, ele foi solto pelo bando que o pai comandava.

O SHTETL

Quatro Irmãos fica num vale entre as serras gaúchas, próximo a Erechim, e na época era uma espécie de shtetl (povoado judeu) europeu transplantado para terras brasileiras. Poucas ruas de terra batida, conhecidas na época como Rua da Guenendel (homenagem a costureira Guilhermina Lechtman, que morava nela), a Rua da Fremeleia (a comerciante Luisa Antebi), a Rua dos Grãfinos e a dos Carrapichos, circundadas por várias propriedades rurais. O povoado fora criado na primeira década do século XX por judeus vindos, em sua maior parte, da Bessarábia (hoje Moldávia e Romênia). Era o fruto de um projeto encabeçado pelo banqueiro alemão barão Maurice de Hirsch (1831-1896), destinado a tirar os judeus da Europa Oriental, livrando-os das perseguições anti-semitas locais, e fixá-los no mundo rural. Muitos deles já tinham experiência agrícola, pois cultivam fumo e girassol nas terras de origem. Para viabilizar esse projeto foi criada a Jewish Colonization Association, conhecida como ICA, que em 1909 comprou mai sde noventa mil hectares no Rio Grande do Sul, onde eles se estabeleceram. Cada colono adquiriu a prestações o seu pedacinho de terra para recomeçar a vida. Nenhum deles era rico, pois estavam endividados com a compra da propriedade e muitos ainda nem tinham aprendido o português. Isso era suficiente para não não se importarem com a política nacional. Então, foi com espanto que os colonos receberam a invasão dos revolucionários.

O ATAQUE

No inquérito policial que se seguiu ao evento criminoso, conduzido pelo subchefe de polícia de Passo Fundo, Dr. Miguel Chmielewski, desfilaram os colonos extorquidos e aterrorizados pelos revolucionários, frente a autoridade legal. Não se sabe quem foi a primeira vítima, pois os revolucionários se espalharam pelo território da povoação, atacando estrategicamente todos os pontos da localidade durante a noite e o dia. As queixas dos moradores são as mesmas. Percebe-se nelas que o objetivo central do grupo invasor era apenas a pilhagem da população. De todos os colonos abordados foi exigido dinheiro em espécie, depois roupas e ferramentas, alimentação e cavalos. A nenhum deles falou-se da conjuntura política – apenas dois colonos foram acusados genericamente como chimangos (governistas).
O agricultor Jacob Sirotsky, 58 anos, viajava numa carroça de quatro rodas quando foi assaltado pelos revolucionários. Tomaram-lhe dois contos e quinhentos mil réis, mais outro tanto em mercadorias.
Jaime Melnik, dono da atafona (moinho) local, perdeu vinte sacos de farinha de mandioca e três sacos de polvilho, mais roupas, utensílios e ferramentas. Destruíram a sua plantação de milho e mandioca, como também o mandiocal de Marcos Nagelstein, e levaram deste mais um boi, oito sacos de farinha de mandioca e também roupas.
Tomaram de Leão Agranionik quatro cavalos e do madeireiro Gregório Ioshpe, roupas e objetos.
Os Matone perderam um cavalo arreado e dinheiro. Saquearam o armazém dos Brochman.
A lista prossegue por tantos outros colonos, que tiveram as suas vacas carneadas, a plantação devastada e o dinheiro de sua economias, já que não havia bancos, tomado pelos invasores. Os relatos mostram como foi a coleta de recursos pelos revolucionários.
Ao agricultor Manoel Weinstein, de 29 anos:

“(...) revistaram-o tirando-lhe do bolso a quantia de cinqüenta e dois mil reis em dinheiro, dizendo-lhes que não lhe tomaram o casaco porque estava muito velho e rasgado (...)”.

Outro agricultor, Abraão Raskin, de 45 anos, foi levado a presença do coronel favorino Pinto e espancado com rebenques e espadas. Pretinho, o filho do chefe do bando, arrancou-lhe a barba com uma faca, tirou-lhe a roupa e roubou-lhe seis mil réis.
Pedro Birman, 55 anos, foi arrastado por uma corda no pescoço de sua casa até o chefe do bando.
Sanson Schwartzman, de 36 anos, ante ao bando:
“(...) cahiu quase desmaiado e sua mulher e as creanças choravam e gritavam implorando aos revolucionários que não o matassem (...)”.

A família de Ichiel Feldman ante as agressões fugiu de sua casa:
“(...) na precipitação (eles) esqueceram uma creança de três anos (...)”.

Ninguém escapou a sanha dos saqueadores. Até a Jewish Colonization Association (ICA) foi extorquida. Três revolucionários, sendo um deles o Pintinho, invadiram por uma janela a casa do agrônomo David Sevi, representante da sociedade na colônia e exigiram quarenta contos de resgate, depois o coronel Favorino Pinto diminuiu o pedido pela metade, finalmente aceitou receber uma quantia menor escriturada em recibo:

EMPRÉSTIMO DE GUERRA. De ordem do Sr. Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias [leia-se o capitão Luis Carlos Prestes] em operação no norte do estado recebi da Jewish Colonization Association, representada na pessoa do seu diretor David Sevi a importância de três contos de réis (3:000.000) a título de empréstimo. Acampamento na fazenda de Quatro Irmãos, quatro de dezembro de mil novecentos e vinte e quatro. (assignado) Favorino Pinto Coronel comandante de guerra”.

AMORTE DO COLONO

A invasão culminou com o desaparecimento do agricultor David Faiguenboim (na foto acima), de 62 anos, oriundo de Shargorod e pai de nove filhos. Ele era um homem religioso que muitas vezes liderava as orações comunitárias. A única fotografia que sobreviveu mostra um homem de barbas longas com um livro de orações. Dado sinal do desaparecimento pelos familiares, os vizinhos saíram a sua procura e só depois de algum tempo o colono Usher Galodnik e Maurício Faiguenboim (1906-1971), filho da vítima, descobriram o corpo degolado escondido numa touceira de mato. Ele tinha uma ferida que:

“(...) abrangia a fronte, a começar pelo lado direito da mesma, atravessava o nariz, cortado profundamente e atravessava a vista esquerda, que estava vasada, estendendo-se bem assim no nariz. Os ferimentos foram produzidos por um instrumento cortante, além disso verificaram-se que em redor do pescoço havia signaes no cadáver, do vestígio de um laço apertado de uma corda (..)”

Como ele não sabia português, é possível que tenha sido assassinado por mão compreender a cupidez dos revolucionários.
Depois de dois dias de pilhagem em Quatro Irmãos, percebendo a chegada das tropas Legalistas, os saqueadores seguiram em frente incorporando-se ao destacamento do tenente João Alberto (1899-1955) com que fizeram toa a campanha da Coluna Prestes pelo interior do Brasil. Ali não foram cobrados pelo comportamento indigno, nem pelos companheiros de armas, nem pelos autores que se ocuparam deste grupo insurreto. Eles tornaram natural o saque as populações desarmadas como método de abastecimento.

“(...) Neste ponto não tínhamos escrúpulos – afirmou o capitão Luiz Vieira Fagundes, combatente gaúcho numa entrevista na década de setenta – Pegávamos com naturalidade do alheio, o que tinha pela frente era nossa alimentação. Não tínhamos dinheiro para comprar, não tínhamos de onde tirar, nós usávamos aquilo como se fosse nosso (..)”.

Já no fim da jornada, somente dois dias antes de deixarem o solo nacional, em dois de fevereiro de 1927, o coronel Favorino Pinto foi denunciado ao Estado Maior revolucionário por acumulação de uma fortuna “obtida por meios ilícitos”, segundo a documentação revolucionária preservada no Arquivo Edgar Leuenroth (UNICAMP). Feita a revista no oficial gaucho encontrou-se além de muitas jóias preciosas uma quantia inventariada em dezenove contos e novecentos mil réis (o valor de dois automóveis novos na época) que foi confiscada em parte pelo general Miguel Costa (1874-1959) em benefício do patrimônio coletivo da Coluna Prestes. Levaram mais de dois anos para descobrir as atividades criminosas desse revolucionário, mas, enquanto isso aproveitaram-se e bem dessa pilhagem para o sustento da expedição. Ele só foi “punido” nos últimos momentos em terras brasileiras. O coronel Favorino Pinto morreu cinco meses depois, em Pasos de los Libres em conseqüência de uma hemorragia cerebral. Hoje é personagem elogiado nos livros sobre a Coluna Prestes.
O saque a colônia de Quatro Irmãos apressou o seu fim. Quarenta famílias judias e três católicas, amedrontadas pela violência, fugiram para Erechim e dali procuram novas plagas. Foram seguidas depois por outras famílias que, descapitalizadas pelo saque, abandonaram também a sua vida rural, espalhando-se pelo Brasil em busca de uma vida mais segura. Eles que já tinham deixado a Europa Oriental pelo medo dos pogroms (destruição de comunidades judaicas) foram embora de Quatro irmãos, mas sem esquecer o episódio sangrento vivido, tanto que, se a memória destas famílias não tivesse guardado esses fatos, é provável que esse fosse mais um episódio condenado ao esquecimento

BIBLIOGRAFIA

COSTA, general Miguel. Boletim Reservado nº 3, Baia Bela, 2 de fevereiro de 1927 – Arquivo Edgard Leuenroth, UNICAMP, LMC.CL.209 P.3 e CL.210 P.3.
FAERMAN, Martha Pargendler. A promessa cumprida. Porto Alegre: Metrópole, 1990.
FELDMAN, Marcos. Memórias da Colônia de Quatro Irmãos. S. Paulo: Maayanot, 2003.
JEWISH COLONIZATION ASSOCIATION (ICA), 1902-1968, 71 caixas – ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO BRASILEIRO.
LIMA, Lourenço Moreira. A Coluna Prestes – marchas e combates. S. Paulo: Alfa-Ômega, 1979. PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. S. Paulo: Paz e Terra, 1997.