Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

UM BAIRRO ÉTNICO EM CAMPINAS: O PARQUE TAQUARAL CIGANO

Estudo feito em memória da cigana calón Dona Umbelina, que foi amiga de meu avô Eusébio Valadares (1880 - 1962) e lhe contou as desditas de seu Povo, despertando o meu interesse por eles.


Minha família assentou-se no Parque Taquaral no final da década de setenta. Logo percebemos que a maioria de nossos vizinhos pertencia a um grupo muito singular de habitantes: eram ciganos e contrariando a expectativa, semi-sedentários e ricos. Estas informações voltaram a me interessar quando passei a pesquisar minorias etnoculturais, isto depois de se mudar do bairro e ter completado os estudos universitários. Foi assim que descobri o conceito de bairro étnico e como isto podia ser aplicado ao bairro onde morei na minha adolescência.
Este trabalho é uma recuperação do Parque Taquaral como um bairro étnico dentro da multiétnica Campinas, quando ainda se via por aqui apenas como bairros étnicos os habitados pelos afro-brasileiros. Entendendo bairro étnico como a concentração de elementos de um grupo etnocultural com identidade claramente definida num determinado topos perceptível aos externos a ele.


QUEM SÃO OS CIGANOS

O romancista português Manuel Ribeiro (1878 – 1941) no livro A batalha nas sombras descreve poeticamente a trajetória do Povo Cigano pelo mundo. “Vinham, com lentidão, no rumo dos astros, lá das bandas do Oriente, arrastando o triste fadário do seu misterioso destino errante, por caminhos infinitos e morosos como órbitas cometárias, e num fluxo e refluxo de vagas roladas, até ao cabo do mundo”.
O etnônimo cigano, gitano, zingari ou gipsy talvez seja uma corruptela de egípcio, pois a Europa acreditava que eles teriam vindo do Egito. Hoje, apesar da agrafia cigana, mas estudando as suas lendas, tradições e linguagem atribue-se sua origem a uma região indiana, de onde foram expulsos há mais de mil anos e se espalhado pelo mundo (VISHNEVSKY: 25).
Os ciganos dividem-se em três grandes grupos (PEREIRA: 31-2):

1) Calóns, originários do mundo ibérico, tanto de Portugal, quando de Espanha;
2) Manuches ou Sintis, formado por ciganos franceses, alemães e piemonteses e;
3) Roms, que por sua vez subdividem-se em vários subgrupos: Macvaia (leem-se matchuáia), Tchurara, Lovara, Khorakhané (muçulmanos) e Kalderash.
.
Os ciganos estão no Brasil desde que o calón João Torres foi degredado de Portugal para o Brasil em 1574 – que teria sido precedido por André do Souto em 1549 (BRAGA: 36). Depois dele muitos outros demandaram nossos ermos percorrendo os sertões brasileiros, pois como todo cigano sabe: “chugel sos pirela, cocal terela” (cão que caminha, não morre de fome). Podem-se apontar alguns ilustres descendentes na vida brasileira. O poeta Laurindo Rabelo (1826-1864) era cigano ou mestiço de cigano. Acredita-se que o presidente Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) seja bisneto de um Rom originário de Wintingau que chegou ao Brasil em 1823. No Rio de Janeiro, no bairro do Catumbi, vivem dinastias de oficiais de justiça (antigos meirinhos) como os Verani, que estão na profissão desde 1809 até os nossos dias, de pai a filho.
Mesmo assim esta convivência não é pacífica. O modo de viver cigano encontra oposição numa sociedade baseada no trabalho organizado e assalariado. Não há lugar em nossa sociedade para os nômades. A tradição persecutória já vem dos tempos coloniais e chegou até os dias contemporâneos, quando eles encontram barreiras quase invisíveis no seu percurso. Basta lembrar uma ordem mandada em código telegráfico pela organização policial as prefeituras paulistas para ser cumprida: gesalda, que significava, “não deveis permitir permanência de ciganos deste município” (SANTOS: 168-9).
Os ciganos do Parque Taquaral são todos Rom, do subgrupo Kalderash, originários da Itália e anteriormente vindos de algum ermo da Europa Oriental, com passagens por outros países latino-americanos na década de quarenta e cinqüenta. Eles deixaram a Itália com as perseguições raciais aos judeus e ciganos durante a II Guerra Mundial. Formavam um clã, pois todos eram aparentados em algum grau uns dos outros, já que há poucos troncos genealógicos entre eles, podendo ser resumidos as linhagens Breschak, Hudorovich (o maior deles), Iwanovich, Kwiek, Melotti e Nicolini. Nomeavam-se com prenomes italianos, Andrea, Domenico, Emilio, Giorgio, Giovanni, Guido, Lazaro, Primo, Tomaso, mas também se encontravam nomes balcânicos como Mile ou Draguicha, entre eles. Apesar desta marca cultural, nunca os ouvi falar em italiano, mas sempre em romani.

PARQUE TAQUARAL

O Parque Taquaral fica num morro, de um lado a Avenida Almeida Garrett que é a via de acesso por ônibus e do outro quase circundando o bairro, a cerca da Lagoa do Taquaral. São poucas ruas que formam o bairro. Hoje é um bairro de classe média alta, mas a sua origem está numa antiga zona de prostituição, antes dela ser transferida posteriormente para ao Jardim Itatinga na década de setenta.
Provavelmente o baixo valor destas terras atraiu estes moradores ciganos. Algo que já encontrei em outros bairros étnicos. Eles se formam em áreas desvalorizadas pelo setor imobiliário e que já possuem uma tradição de exclusão ou apartação. O Bom Retiro, bairro judaico na capital paulistana, também foi área de prostituição, antes da ocupação pelos imigrantes judeus e depois pelos coreanos.
Na segunda metade da década de setenta o bairro já tinha algumas mansões de empresários bem sucedidos, como a dos portugueses Figueiredos, proprietários da Cia Campineira de Doces; imensas casas alugadas a executivos estrangeiros de empresas multinacionais e a do misterioso xeque árabe El-Sayed Mahamed Ibrahim Shalabi (MANGEON: 1986); mas o que dava identidade ao bairro eram as mansões dos ciganos, apontados sempre com admiração pelos dedos dos visitantes. Casas grandes, muradas, quase sem móveis, e que nos terrenos dos fundos se viam barracas para os mais velhos se acomodarem.
Os ciganos tinham as suas vidas e nós, a nossa. Conhecíamos o Sr. Giovanni Breschak também chamado de João ou Juan, líder informal da comunidade, que chegou ao Brasil em 1946, vindo do Piemonte na Itália, depois de deambular pelo Chile (cinco anos) e Argentina, porém não nos freqüentávamos. Não espreitávamos o que havia atrás dos altos muros que protegiam as suas mansões, mesmo assim sabíamos de suas festas que duravam semanas pelo deslocamento de carros. Eram festas de noivados, casamentos ou reuniões muito formais, os kris, quando um tribunal de velhos da comunidade julgava os casos em demanda, questões familiares ou comerciais entre eles. Nestes momentos se viam carros com placas de muito longe. Depois desapareciam por longos períodos: iam vender enxovais ou comprar e revender automóveis pelo interior do Brasil. As mulheres acompanhavam nestas viagens de trabalho, isto fica claro, observando os locais de nascimento de alguns ciganos mais jovens do Taquaral: já encontrei um Hudorovich nascido em Campo Florido (GO), um Breschak em Paulista (PE) e outro em Floriano Peixoto (AL), dentre alguns exemplos documentados nos editais de proclamas de casamentos.
Pacíficos e trabalhadores raramente saiam na crônica policial.
Seguindo uma tendência já encontrada entre os ciganos europeus, muitos ciganos campineiros abandonaram o culto a Santa Sara (identificação sincrética da deusa indiana Kali) em Sainte-Marie-de-la-Mer em Camarga (França) feito na romaria dos 24 e 25 de maio todos os anos e aderiram ao pentecostalismo, fundando em 1984, no Jardim Eulina uma igreja exclusiva, a Igreja Pentecostal Romany para Cristo, liderada por Emilio Hudorovich, que desdobrou-se posteriormente em outras igrejas com novos nomes.

COMO DESCOBRI-LOS

Para documentar este trabalho tive que identificar quem eram estes ciganos e encontrei uma dificuldade inicial na pesquisa. Como encontrar uma fonte confiável, além das escrituras das propriedades, que os vinculasse ao bairro? Lembrei-me das antigas Listas Telefônicas – livro onde se registram os possuidores de telefones por ordem alfabética ou por endereço. Nelas estão registrados os donos de telefones – na década de setenta e oitenta, geralmente o chefe da família. Partindo disto, recuperei alguns exemplares de LTs campineiras das décadas de setenta e oitenta e levantei todas as quatro linhagens, encontrando a maioria deles vivendo no bairro.

RUA OU AVENIDA
nº.
Almeida Garrett
1610
BRESCHAK
Almeida Garrett
1591
BRESCHAK
Fernão Lopes
1464
KWIEK
Fernão Lopes
792
MELOTTI
Gonçalo Coelho
118
BRESCHAK
Heitor Penteado
1641
BRESCHAK
Heitor Penteado
1941
KWIEK
Latino Coelho
1308
IWANOVICH
Martim Afonso
179
MELOTTI
FONTE
: Lista Telefônica.

É bom relembrar que o Parque Taquaral, além de pequeno, era pouco adensado e as casas estavam localizados em grandes chácaras, em muitos casos, usadas apenas nos finais de semanas. A presença cigana destacava-se pela ocupação espacial do bairro. Ela era presente em todo o bairro e também porque cada proprietário de telefone tinha atrás de si, filhos solteiros e casados, netos e toda uma grande família extensa. A presença deles foi perpetuada no bairro com a abertura da Praça Giovanni Melotti – que a Prefeitura grafou de forma incorreta, homenageando um cigano desta comunidade.


CONCLUSÃO

O esvaziamento cigano do bairro deu-se por vários motivos. Alguns deles interligados. O semi-sedentarismo e o sucesso econômico levaram as gerações mais velhas matricularem os seus filhos nas escolas públicas campineiras, estabelecendo assim vínculos mais próximos com os gajões (estrangeiros). Este espaço de sociabilidade abriu caminho para o casamento hexogâmico (fora do grupo) diluindo a forte identidade ítalo-cigana da geração anterior. Nos proclamas de casamentos publicados no Diário do Povo percebe-se a alta taxa de casamentos mistos neste grupo a partir da década de oitenta. A isto adicione o alto preço do metro quadrado local e o IPTU que impedem a compra de terrenos para a construção de novas casas para os filhos – assim elas foram construídas ou compradas em outros bairros, como Chapadão ou Jardim Eulina, deslocando o conceito de bairro étnico para estes novos endereços. Finalmente o assassinato da cigana Rosana Rajer Mellotti em 2002, atribuído a bandidos atraídos por sua fama de ricos, levaram outros a saírem do bairro pela visibilidade e vulnerabilidade excessiva.


CONHEÇA OS CIGANOS DE CAMPINAS NA WEB:

Culto numa igreja local (vídeo):
http://video.google.com/videoplay?docid=-5174865738058472058
Blog de um jovem cigano com fotografias de membros da Igreja:
http://ciganosparacristo.nafoto.net/index.html



BIBLIOGRAFIA

BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. “Para o estudo da minoria cigana no Portugal quinhentista”, em Brigantia (Revista de Cultura de Bragança), nº. 4, Outubro/Dezembro de 1992, pp. 29-47.
CORREIO POPULAR, várias edições, décadas de setenta e oitenta.
DIÁRIO DO POVO, várias edições, décadas de setenta e oitenta.
LISTAS TELEFÔNICAS DE CAMPINAS, décadas de setenta e oitenta.
MANGEON, Fernando. As 7 chaves do sheik. Campinas: Editorial Alternativa, 1986.
MARTINEZ, Nicole. Os ciganos. Campinas: Papirus, 1989.
PEREIRA, Cristina da Costa. Povo cigano. Rio de Janeiro: edição do autor, 1986.
SANT´ANA, Maria de Lourdes B. Os ciganos. Aspectos da organização social de um grupo cigano em Campinas. Dissertação de mestrado, USP, 1972.
SANTOS, Virgínia Rita dos. Espacialidade e territorialidade dos grupos ciganos na cidade de S. Paulo. Dissertação de mestrado, USP, 2002.
VISHNEVSKY, Victor. Memórias de um cigano. S. Paulo: Duna Dueto, 1999.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. EVENTOS PERSONALIZADOS.
    Marcos Limoli { Linkedin }
    Protocolo y Etiqueta.

    ResponderExcluir