Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

RELAÇÕES ENTRE OS ABAFADORES E O "BLOOD LIBEL"

As tentativas de extermínio do Povo Judeu tiveram algum êxito, porque antes disso houvera um processo de satanização preparando a agressão futura, onde eram atribuídos crimes que segundo a lógica desta difusão, revelariam uma espécie de perversidade congênita dos judeus e seus descendentes. Os cristãos-novos, descendentes de judeus convertidos na Península Ibérica no século XV, também herdaram de seus avós, além do pagamento de impostos privativos (fintas) alguns prejuízos sociais e também uma mitogenia que os classificava de assassinos. Através da acusação da existência de um grupo de homens que apressariam a morte de agonizantes do seu povo, sufocando-os numa espécie de eutanásia ritual. Eles seriam os abafadores e viveriam no “marrano country” (WOLF, 1926, 161), região portuguesa nas Beiras e nos Trás-os-Montes, onde se concentram os descendentes de cristãos-novos e também no Brasil em Minas Gerais. É uma acusação relativamente recente, pois elas só apareceram nos inquéritos de antropólogos que ouviram tanto cristãos-novos, quanto os seus vizinhos católicos, porém nos processos inquisitoriais já lidos ou estudados, não há nenhum registro deste comportamento, como também nos monitórios publicados pelo Santo Oficio, que descreviam as práticas judaizantes.

A MITOGENIA MUTANTE

Alem da acusação do deicídio, outra acusação insistente feita aos judeus, é a do “blood libel” (alilath dam em hebraico), de agora em adiante mencionado neste texto apenas como “libelo (no sentido de calúnia) de sangue”. Segundo esta acusação defendida por setores intolerantes do Catolicismo e do Islamismo, o judeu usaria o sangue de sacrifícios humanos para amassar o pão ázimo necessário a Páscoa. Flavio Josefo, o primeiro autor que se ocupou do tema, ao refutar o egípcio Apion afirma que esta acusação é uma “fábula de procedencia griega” (JOSEFO: 250-3). Mesmo assim esta calúnia prosperou tomando novas formas. Séculos depois o poeta Geofrey Chaucer nos Canterbury Tales (1386) levou a lenda mais adiante. É possível listar uma relação dos principais “libelos de sangue”. Philip Birnbaum encontrou entre 1144, ano da primeira acusação em terras européias, até 1940, 152 casos desta falta acusação (BIRNBAUM, 1995, 610). Um deles é o da Espanha, o chamado Caso “Santo Nino de la Guardia”, pretensamente acontecido nesta aldeia espanhola, sendo o sapateiro judeu Jucé Franco queimado em Ávila em decorrência da falsa acusação. As versões eclesiásticas do episódio foram usadas para legitimar junto ao povo a expulsão dos judeus alguns meses depois. Lope de Vega (1562-1635), Familiar do Santo Ofício espanhol escreveu a peça El Nino Inocente de la Guardia (1617), recolocando o mito em circulação, que sobreviveu até os nossos dias. No ultimo 24 de setembro de 2005, as 14 hs, aconteceu uma “ofrenda floral al Santo Nino de la Guardia por parte de la Reina y Damas de Honor de las fiestas en la puerta de la Iglesia Parroquial”, conforme informação colhida por mim ao acaso na WEB. Em 1840 a acusação repetiu-se em Damasco atingindo judeus de ascendência sefaradita das famílias Harari, Farhi, Picciotto, Abuláfia e Laniado. Ele pode ser considerado como um caso ainda não encerrado, pois o governo sírio distribui nos paises estrangeiros a sua versão racista do caso. Infelizmente quem desejar pode consultá-lo em bibliotecas publicas brasileiras. Ele está à disposição dos leitores como se fosse uma versão legítima da Historia (TLAS, 1985).
O mitema tomou nova forma com a conversão dos judeus que ficaram em Portugal e Espanha após o século XV, isto fica claro observando as denúncias contras os cristãos-novos. Eles aproveitaram o grande contingente de médicos, cirurgiões e boticários cristãos-novos para adaptar a acusação em algo mais verossímil. Segundo a propaganda anti-semita os profissionais da saúde usariam todos os recursos para envenenar e matar os seus pacientes católicos. Mesmo sem identificar as vitimas, eles aproveitavam as fugas causadas pela ação da Inquisição para espalhar que o médico fugira, não por ser perseguido, mas por ter envenenado os seus pacientes. Esta acusação durou ate o final da Inquisição e às vezes prolongou-se no mundo oral. Na década de sessenta passada esta história sobrevivia no interior paulista. Minha mãe receava ficar num hospital em Marilia, S. Paulo, pois existiria um tal “chá da meia noite” na forma de injeção letal aplicada nos pacientes pobres por médicos “turcos” (árabes ou judeus). Com o fim das diferenças de condição jurídica entre cristãos-novos e velhos o mito poderia ter acabado, porém ele ressurgiu no final do seculo XIX tão humilhante e degradante quanto às formas anteriores. Segundo esta nova variante do “libelo de sangue” os descendentes de cristãos-novos possuiriam dinastias de assassinos chamados abafadores. É uma forma sutil de compará-los a Caim, o irmão fratricida e assim impor uma resposta que alimenta o mito anti-semita: se este povo mata os seus moribundos imagine o que ele pode fazer em outras situações.

ABAFADORES E INCALCÕES

O primeiro registro disto é um desmentido do orientalista português Guilherme de Vasconcelos Abreu (1842-1907) aos boatos da existência de abafadores entre os cristãos-novos portugueses. Ele conhecia o ethos judaico e sabia da impossibilidade dos judeus agirem deste modo. A Torah (Pentateuco) é taxativa: “não assassinarás”. Os suicidas judeus são sepultados em silêncio junto aos muros do cemitério israelita sem direito a qualquer honraria post-mortem. Mas não adiantou muito, pois em 1902, num vocabulário aldeão publicado por João de Castro Lopo há o registro do termo abafador:

Cristão novo encarregado de estrangular ou abafar com as roupas da cama os moribundos da mesma comunhão religiosa, pois, segundo é corrente, passa como preceito de certa seita judaica que os proselytos não devem morrer, mas ser mortos. O abafador cumpre a triste e repugnante missão com a serenidade com o que o sacerdote pratica os actos mais santos do seu ministério. Nos concelhos de Penamacor e Covilhã, onde abundam os chamados cristãos novos, são apontados pelo povo os afogadores. Conta-se que muitas pessoas tem sido instadas pelos moribundos para que os não abandonem enquanto não expirarem, horrorizados com a idéia do estrangulamento” (LOPO, 1902, 241).

Este modesto registro deu origem a vários trabalhos que fixaram esta história como verdade antropológica. Escolhi os três mais significativos para uma melhor análise. Dois são relatos etnográficos e o último deles, uma peça de ficção. Apenas no trabalho romanceado a figura do abafador é tida como verdadeira. Nas outras obras os etnógrafos registram o burburinho, porém mantém uma dúvida envergonhada. São a partir destes trabalhos que surgiram novas versões para o mitema. Os três autores são portugueses: José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo (1858-1941), médico por formação e etnógrafo; Casimiro Henrique de Morais Machado (1898-1964), etnógrafo e Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha, 1907-1995), médico e ficcionista. Os três chegaram a esta história por caminhos parecidos. J. Leite de Vasconcelos e Casimiro de Morais Machado ouviam o povo para escrever os seus trabalhos. Vasconcelos para uma monumental etnografia do povo português. Machado sobre os descendentes de cristãos-novos que ainda viviam no “marrano country”. Já, Torga, além de romancista, exercia a medicina entre esta população, onde pode ter ouvido a história de fontes católicas.
Mas como isto se manifestava? Os três relatam que o moribundo cristão-novo recebia a visita de uma espécie de verdugo da mesma origem, quando então o “agonizante era envolvido em cobertores e carregavam-se-lhe em cima até lhe darem morte por asfixia” (VASCONCELOS, 1958, 175). Na outra versão: “deita-se o paciente de costas, bem estendido, e, então, a “incalcadora”, colocando-se na cama, vai-lhe comprimindo o peito com os joelhos, até que se “fina’’”. (MACHADO, 1952, 26). Estes seriam os incalcões. São relatos curtos e secos, mas graças à boa reputação dos pesquisadores foram aceitos como uma verdade científica, esquecendo-se até das dúvidas dos seus autores.
Mas é o escritor Miguel Torga que ao dar o tratamento ficcional ao tema vai impressionar os leitores. Ele construiu a sua narrativa com elementos que identificasse cenário e personagens como judeus. O conto “O Alma-Grande” começa com uma frase definitiva; “Riba Dal é terra de judeus” (TORGA, 1981, 15). Logo ele introduz a tensão entre os católicos e os “judeus” locais. Não adianta o cura local ensinar-lhes a nova religião, pois “detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”. Os personagens pertencem a uma família conjugal cristã-nova, Isaac, a esposa Lia, mais o filho Abel. Há também, Daniel, irmão de Isaac e o médico Dr. Samuel. Os nomes foram escolhidos por sua carga simbólica, pois são inexistentes na onomástica em Portugal pré-República, mesmo entre descendentes de cristãos-novos. A vítima chama-se Isaac, exatamente como o personagem do “akedá” (amarramento) bíblico, “condenado” a ser sacrificado por seu pai. Abel, que trás o assassino para dentro de casa, tem o nome da primeira vítima humana identificada pela Bíblia. O assassino é nomeado por uma alcunha, Alma-Grande e é identificado como em qualquer texto anti-semita, pelo “nariz adunco”. O enredo é simples, Isaac está moribundo e o Alma-Grande é chamado para abafar o doente, porém... o desfecho não é esperado. O curioso é que este conto vai fertilizar outros autores, assumindo a condição de verdade etnológica, atraindo leitores como Carlos Lacerda e tantos outros, que vão importar e divulgar este episódio para o Brasil (LACERDA, 1977, 19).

O SEPULTAMENTO DO ÚLTIMO CRISTÃO-NOVO


Uma forma de se desfazer esta calúnia é acompanhar a morte e o sepultamento de um descendente de cristão-novo judaizante como foi costume até as primeiras décadas do século XX. Sentir como é a reação familiar ao impacto da perda definitiva de um deles. Pois mesmo sendo um culto reservado, portanto mantido ágrafo, é possível reconstruí-lo através dos depoimentos dos seus protagonistas. Primeiro são esvaziados todos os reservatórios de água armazenada em casa. A justificativa é que o anjo da morte lavou o seu alfanje na água caseira. Depois vem a preparação do morto: são cortadas as suas unhas, aparados os cabelos e lhe dado banho. Estes restos são enrolados num pano ou papel, juntados a uma moeda de prata e um pedaço de pão elas serão as suas testemunhas da última viagem. Ainda sem a presença de estranhos são entoadas pelas mulheres da família algumas orações tiradas de um caderninho centenário, como a oração seguinte:

Ao Vale de Josaphat irás, / um leão encontrarás: / Se te pedir carne, dá-lhe pão; / se te pedir senha, dá-lhe dinheiro; / Se te procurar de que lei és, / Diz-lhe que és da de Moisés. / Que te deixe passar / Livre e desembaraçado / Para onde Deus te deixar, / Para onde Deus te mandar. / Se perguntar quem te compôs, / Diz-lhe que foi uma hebréia / que neste mundo ficou. / Que te fez o que sabia, / Não te fez o que devia.” (MACHADO, 1952, 27)

Depois disto era permitida a entrada de estranhos e quem sabe até do sacerdote católico com os seus ritos funerários. Só então o cadáver era levado para o cemitério. Em Castelo Branco as famílias ricas desta origem fechavam à porta a pedra a cal por onde saiu o féretro. É o que lá se chama de “entaipamento”. Na cidade ainda são apontadas várias destas portas inutilizadas, inclusive em casa de parentes de Fernando Pessoa (1888-1935), o grande poeta nacional (VALADARES, 2004, 97). Os rituais de despedida da alma continuavam no segredo familiar com esmolas, orações e jejuns específicos. Os enlutados não se barbeiam e alguns nem tomam banho durante um mês. É dado a um pobre da comunidade as roupas do morto, para que este ocupe a mesa familiar, com estas roupas, durante uma semana e coma os pratos preferidos do falecido. Todas as quartas e sextas-feiras, durante um ano, é dado esmolas em dinheiro e pão para cultivar a sua memória. As rezadeiras, todas as noites, junto a uma lamparina de óleo desfiam as muitas orações conhecidas por elas, são pedidos e bênçãos até completar o tempo do luto. Os pedidos são indagações do cotidiano e até tragicômicos: “Diz ao Tim-Tim que agora estamos mal, porque já nos morreu a burra Ruça – Pergunta a teu avô onde deixou as “guinchas”: se foi nas Arribas de baixo, ou nas de cima” (MACHADO, 1952, 27).
Muitos destes costumes foram abandonados com a saída dos pequenos centros e a laicização da sociedade promovida pela República. Deste rol de providências espirituais sobreviveram um ou outro costume. Tanto que no sepultamento do Capitão Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961), neto de um cristão-novo de Amarante e que ficou para a História Judaica como o “Guia dos Maranos” (com um erre só), a cerimônia já estava esvaziada de várias etapas do roteiro funerário.


Foi um acto civil apenas, como ele testemunhara ser costume de todos os marranos. Assistiram mais de uma centena de pessoas, entre familiares, conterrâneos, admiradores silenciosos das múltiplas facetas de sua vida infatigável e todos os judeus do Porto, askenazi e marranos. / Terminado o acto, quando os circunstantes se voltavam para sair do cemitério, alguém saiu de entre a multidão e aproximou-se da sepultura fresca de Abraham Israel Ben-Rosh. O imigrante polaco, Srul Finkelstein, apelou para os seus correligionários: “Judeus, aproximai-vos”. / No meio do mais profundo silêncio, gerado pela surpresa dos presentes, rodeado por pouco mais de um minyan de judeus, Samuel Rodrigues pronunciou a oração de “kaddish” (...)” (MEA, 1997, 239-240).

CONCLUSÃO

Os cristãos-novos e seus descendentes, mesmo apartados do Judaísmo rabínico, continuaram a ser vistos e tratados exatamente como os seus ancestrais judeus. O aparato jurídico do Estado presente através da cobrança de impostos especiais (fintas) e o impedimento ao acesso a profissões nobres existentes na administração pública, no Exército e Igreja, até o final do século XVIII, mantiveram esta fração da grande nação portuguesa como uma minoria etnocultural. Esta discriminação legal alimentou e foi alimentada pelos preconceitos difundidos entre a população católica. Já que as justificativas para ela baseava-se em mitos pré-existentes, como o mitema do “blood libel” que acompanhou os judeus por toda a Europa. A “notícia” (sic) da existência dos abafadores foi apenas uma modernização desta falsa acusação e que só prosperou pela incapacidade dos historiadores que trataram do tema separarem a milenar propaganda anti-semita da verdade histórica.

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