Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS (RELATOS DE UMA CERTA GUERRA NA ÁFRICA)

Na adolescência tomei algumas resoluções para quando me fizesse adulto. Atravessaria toda a “Rota da seda”. Depois sentaria praça na Legião Estrangeira e finalmente me tornaria um escritor de sucesso. Enquanto isso continuaria apaixonado pelas mouriscas, contemplando os seus joelhos redondos e cabelos pretos. Porém outros sabores e outros azares me empurraram para o posto disto tudo. Não fui o romeiro na estrada chinesa, nem vesti o quepe branco dos mercenários napoleônicos. Foi assim que cumpri o destino de vários Moisés: não entrei em nenhuma Terra Prometida. Só conto esta história, porque revendo uns jornais portugueses, encontrei uma fotografia onde apareço no interior africano. Foi o primeiro desvio na minha vitae.
Este desvio começou quando aceitei a convocação para lutar pelo Exército Português em Moçambique. Parecia que minha vocação de soldado se realizaria. Coloquei os versinhos do poeta-soldado Rubert Brooke (1887-1915) e enfiei no bolso:

“(...) If I should die, think only this of me; / That there´s some corner of a foreign field / that is forever England (…)”

T. E. Lawrence (1888-1935), o “Lawrence da Arábia’, era o meu tipo inesquecível. Troquei mentalmente o England pela Santa Terrinha e fui inocente fazer a última guerra ultramar de Portugal.
Lá descobri que era um desperdício lutar por Moçambique. Não havia motivos para isto. Qual o interesse da Metrópole naquilo? Se luta pela Sophia Loren ou por Jerusalém. Mas lutar por Moçambique? Destinado a uma unidade burocrática, os chamados “aramistas”, apavorei-me com a perspectiva de passar a guerra carimbando relatórios, pedi minha remoção e fui deslocado para uma companhia operacional. Fiz a guerra que outros fizeram. Atirei onde os outros atiraram. É só. Quer dizer, não resistindo saber que Companhia estava sendo traída politicamente por um daqueles capitães vermelhos (Vila Pery), dei-lhe uns cachações...
Perdemos a guerra. Amigos de uma confraria de soldados, deram-me o passaporte de um gajo barbudo muito parecido comigo, homônimo de outro que tentara assassinar o Rei do Afeganistão. Fugi para Joanesburgo. Daí rolei mais um pouco até chegar este momento em que vos escrevo. Hoje relembro tudo isto e penso que aconteceu a outra pessoa. Afinal hoje sou outra pessoa. Permitam-me fechar estas memórias seletivas com uma parábola do Mirza Khan. Para quem trabalhei no jornal The Sentinel de Punjab em Lahore, que pode explicar meu curriculum vitae:

Nas grandes matilhas sempre há um lobo diferente. Ninguém sabe explicar porque ele é diferente. Talvez seja o formado dos seus dentes ou o espinho que está fincado na sua pata. Ele não ganiu porque como todos sabem um lobo de verdade não gane. Mas aquele espinho faz ele pisar no chão de outro jeito. Não pode correr como todos os lobos. Ele tem que ficar próximo a matilha. Mas não dentro da matilha. Isto lhe deu outra forma de ver o campo. Descobriu que a carne putrefata é horrível e algumas raízes não são de jogar fora. Porém um lobo comendo raízes é muito estranho para outros lobos. Nas grandes matilhas sempre há um lobo diferente”.

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