Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

RELAÇÕES ENTRE OS ABAFADORES E O "BLOOD LIBEL"

As tentativas de extermínio do Povo Judeu tiveram algum êxito, porque antes disso houvera um processo de satanização preparando a agressão futura, onde eram atribuídos crimes que segundo a lógica desta difusão, revelariam uma espécie de perversidade congênita dos judeus e seus descendentes. Os cristãos-novos, descendentes de judeus convertidos na Península Ibérica no século XV, também herdaram de seus avós, além do pagamento de impostos privativos (fintas) alguns prejuízos sociais e também uma mitogenia que os classificava de assassinos. Através da acusação da existência de um grupo de homens que apressariam a morte de agonizantes do seu povo, sufocando-os numa espécie de eutanásia ritual. Eles seriam os abafadores e viveriam no “marrano country” (WOLF, 1926, 161), região portuguesa nas Beiras e nos Trás-os-Montes, onde se concentram os descendentes de cristãos-novos e também no Brasil em Minas Gerais. É uma acusação relativamente recente, pois elas só apareceram nos inquéritos de antropólogos que ouviram tanto cristãos-novos, quanto os seus vizinhos católicos, porém nos processos inquisitoriais já lidos ou estudados, não há nenhum registro deste comportamento, como também nos monitórios publicados pelo Santo Oficio, que descreviam as práticas judaizantes.

A MITOGENIA MUTANTE

Alem da acusação do deicídio, outra acusação insistente feita aos judeus, é a do “blood libel” (alilath dam em hebraico), de agora em adiante mencionado neste texto apenas como “libelo (no sentido de calúnia) de sangue”. Segundo esta acusação defendida por setores intolerantes do Catolicismo e do Islamismo, o judeu usaria o sangue de sacrifícios humanos para amassar o pão ázimo necessário a Páscoa. Flavio Josefo, o primeiro autor que se ocupou do tema, ao refutar o egípcio Apion afirma que esta acusação é uma “fábula de procedencia griega” (JOSEFO: 250-3). Mesmo assim esta calúnia prosperou tomando novas formas. Séculos depois o poeta Geofrey Chaucer nos Canterbury Tales (1386) levou a lenda mais adiante. É possível listar uma relação dos principais “libelos de sangue”. Philip Birnbaum encontrou entre 1144, ano da primeira acusação em terras européias, até 1940, 152 casos desta falta acusação (BIRNBAUM, 1995, 610). Um deles é o da Espanha, o chamado Caso “Santo Nino de la Guardia”, pretensamente acontecido nesta aldeia espanhola, sendo o sapateiro judeu Jucé Franco queimado em Ávila em decorrência da falsa acusação. As versões eclesiásticas do episódio foram usadas para legitimar junto ao povo a expulsão dos judeus alguns meses depois. Lope de Vega (1562-1635), Familiar do Santo Ofício espanhol escreveu a peça El Nino Inocente de la Guardia (1617), recolocando o mito em circulação, que sobreviveu até os nossos dias. No ultimo 24 de setembro de 2005, as 14 hs, aconteceu uma “ofrenda floral al Santo Nino de la Guardia por parte de la Reina y Damas de Honor de las fiestas en la puerta de la Iglesia Parroquial”, conforme informação colhida por mim ao acaso na WEB. Em 1840 a acusação repetiu-se em Damasco atingindo judeus de ascendência sefaradita das famílias Harari, Farhi, Picciotto, Abuláfia e Laniado. Ele pode ser considerado como um caso ainda não encerrado, pois o governo sírio distribui nos paises estrangeiros a sua versão racista do caso. Infelizmente quem desejar pode consultá-lo em bibliotecas publicas brasileiras. Ele está à disposição dos leitores como se fosse uma versão legítima da Historia (TLAS, 1985).
O mitema tomou nova forma com a conversão dos judeus que ficaram em Portugal e Espanha após o século XV, isto fica claro observando as denúncias contras os cristãos-novos. Eles aproveitaram o grande contingente de médicos, cirurgiões e boticários cristãos-novos para adaptar a acusação em algo mais verossímil. Segundo a propaganda anti-semita os profissionais da saúde usariam todos os recursos para envenenar e matar os seus pacientes católicos. Mesmo sem identificar as vitimas, eles aproveitavam as fugas causadas pela ação da Inquisição para espalhar que o médico fugira, não por ser perseguido, mas por ter envenenado os seus pacientes. Esta acusação durou ate o final da Inquisição e às vezes prolongou-se no mundo oral. Na década de sessenta passada esta história sobrevivia no interior paulista. Minha mãe receava ficar num hospital em Marilia, S. Paulo, pois existiria um tal “chá da meia noite” na forma de injeção letal aplicada nos pacientes pobres por médicos “turcos” (árabes ou judeus). Com o fim das diferenças de condição jurídica entre cristãos-novos e velhos o mito poderia ter acabado, porém ele ressurgiu no final do seculo XIX tão humilhante e degradante quanto às formas anteriores. Segundo esta nova variante do “libelo de sangue” os descendentes de cristãos-novos possuiriam dinastias de assassinos chamados abafadores. É uma forma sutil de compará-los a Caim, o irmão fratricida e assim impor uma resposta que alimenta o mito anti-semita: se este povo mata os seus moribundos imagine o que ele pode fazer em outras situações.

ABAFADORES E INCALCÕES

O primeiro registro disto é um desmentido do orientalista português Guilherme de Vasconcelos Abreu (1842-1907) aos boatos da existência de abafadores entre os cristãos-novos portugueses. Ele conhecia o ethos judaico e sabia da impossibilidade dos judeus agirem deste modo. A Torah (Pentateuco) é taxativa: “não assassinarás”. Os suicidas judeus são sepultados em silêncio junto aos muros do cemitério israelita sem direito a qualquer honraria post-mortem. Mas não adiantou muito, pois em 1902, num vocabulário aldeão publicado por João de Castro Lopo há o registro do termo abafador:

Cristão novo encarregado de estrangular ou abafar com as roupas da cama os moribundos da mesma comunhão religiosa, pois, segundo é corrente, passa como preceito de certa seita judaica que os proselytos não devem morrer, mas ser mortos. O abafador cumpre a triste e repugnante missão com a serenidade com o que o sacerdote pratica os actos mais santos do seu ministério. Nos concelhos de Penamacor e Covilhã, onde abundam os chamados cristãos novos, são apontados pelo povo os afogadores. Conta-se que muitas pessoas tem sido instadas pelos moribundos para que os não abandonem enquanto não expirarem, horrorizados com a idéia do estrangulamento” (LOPO, 1902, 241).

Este modesto registro deu origem a vários trabalhos que fixaram esta história como verdade antropológica. Escolhi os três mais significativos para uma melhor análise. Dois são relatos etnográficos e o último deles, uma peça de ficção. Apenas no trabalho romanceado a figura do abafador é tida como verdadeira. Nas outras obras os etnógrafos registram o burburinho, porém mantém uma dúvida envergonhada. São a partir destes trabalhos que surgiram novas versões para o mitema. Os três autores são portugueses: José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo (1858-1941), médico por formação e etnógrafo; Casimiro Henrique de Morais Machado (1898-1964), etnógrafo e Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha, 1907-1995), médico e ficcionista. Os três chegaram a esta história por caminhos parecidos. J. Leite de Vasconcelos e Casimiro de Morais Machado ouviam o povo para escrever os seus trabalhos. Vasconcelos para uma monumental etnografia do povo português. Machado sobre os descendentes de cristãos-novos que ainda viviam no “marrano country”. Já, Torga, além de romancista, exercia a medicina entre esta população, onde pode ter ouvido a história de fontes católicas.
Mas como isto se manifestava? Os três relatam que o moribundo cristão-novo recebia a visita de uma espécie de verdugo da mesma origem, quando então o “agonizante era envolvido em cobertores e carregavam-se-lhe em cima até lhe darem morte por asfixia” (VASCONCELOS, 1958, 175). Na outra versão: “deita-se o paciente de costas, bem estendido, e, então, a “incalcadora”, colocando-se na cama, vai-lhe comprimindo o peito com os joelhos, até que se “fina’’”. (MACHADO, 1952, 26). Estes seriam os incalcões. São relatos curtos e secos, mas graças à boa reputação dos pesquisadores foram aceitos como uma verdade científica, esquecendo-se até das dúvidas dos seus autores.
Mas é o escritor Miguel Torga que ao dar o tratamento ficcional ao tema vai impressionar os leitores. Ele construiu a sua narrativa com elementos que identificasse cenário e personagens como judeus. O conto “O Alma-Grande” começa com uma frase definitiva; “Riba Dal é terra de judeus” (TORGA, 1981, 15). Logo ele introduz a tensão entre os católicos e os “judeus” locais. Não adianta o cura local ensinar-lhes a nova religião, pois “detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”. Os personagens pertencem a uma família conjugal cristã-nova, Isaac, a esposa Lia, mais o filho Abel. Há também, Daniel, irmão de Isaac e o médico Dr. Samuel. Os nomes foram escolhidos por sua carga simbólica, pois são inexistentes na onomástica em Portugal pré-República, mesmo entre descendentes de cristãos-novos. A vítima chama-se Isaac, exatamente como o personagem do “akedá” (amarramento) bíblico, “condenado” a ser sacrificado por seu pai. Abel, que trás o assassino para dentro de casa, tem o nome da primeira vítima humana identificada pela Bíblia. O assassino é nomeado por uma alcunha, Alma-Grande e é identificado como em qualquer texto anti-semita, pelo “nariz adunco”. O enredo é simples, Isaac está moribundo e o Alma-Grande é chamado para abafar o doente, porém... o desfecho não é esperado. O curioso é que este conto vai fertilizar outros autores, assumindo a condição de verdade etnológica, atraindo leitores como Carlos Lacerda e tantos outros, que vão importar e divulgar este episódio para o Brasil (LACERDA, 1977, 19).

O SEPULTAMENTO DO ÚLTIMO CRISTÃO-NOVO


Uma forma de se desfazer esta calúnia é acompanhar a morte e o sepultamento de um descendente de cristão-novo judaizante como foi costume até as primeiras décadas do século XX. Sentir como é a reação familiar ao impacto da perda definitiva de um deles. Pois mesmo sendo um culto reservado, portanto mantido ágrafo, é possível reconstruí-lo através dos depoimentos dos seus protagonistas. Primeiro são esvaziados todos os reservatórios de água armazenada em casa. A justificativa é que o anjo da morte lavou o seu alfanje na água caseira. Depois vem a preparação do morto: são cortadas as suas unhas, aparados os cabelos e lhe dado banho. Estes restos são enrolados num pano ou papel, juntados a uma moeda de prata e um pedaço de pão elas serão as suas testemunhas da última viagem. Ainda sem a presença de estranhos são entoadas pelas mulheres da família algumas orações tiradas de um caderninho centenário, como a oração seguinte:

Ao Vale de Josaphat irás, / um leão encontrarás: / Se te pedir carne, dá-lhe pão; / se te pedir senha, dá-lhe dinheiro; / Se te procurar de que lei és, / Diz-lhe que és da de Moisés. / Que te deixe passar / Livre e desembaraçado / Para onde Deus te deixar, / Para onde Deus te mandar. / Se perguntar quem te compôs, / Diz-lhe que foi uma hebréia / que neste mundo ficou. / Que te fez o que sabia, / Não te fez o que devia.” (MACHADO, 1952, 27)

Depois disto era permitida a entrada de estranhos e quem sabe até do sacerdote católico com os seus ritos funerários. Só então o cadáver era levado para o cemitério. Em Castelo Branco as famílias ricas desta origem fechavam à porta a pedra a cal por onde saiu o féretro. É o que lá se chama de “entaipamento”. Na cidade ainda são apontadas várias destas portas inutilizadas, inclusive em casa de parentes de Fernando Pessoa (1888-1935), o grande poeta nacional (VALADARES, 2004, 97). Os rituais de despedida da alma continuavam no segredo familiar com esmolas, orações e jejuns específicos. Os enlutados não se barbeiam e alguns nem tomam banho durante um mês. É dado a um pobre da comunidade as roupas do morto, para que este ocupe a mesa familiar, com estas roupas, durante uma semana e coma os pratos preferidos do falecido. Todas as quartas e sextas-feiras, durante um ano, é dado esmolas em dinheiro e pão para cultivar a sua memória. As rezadeiras, todas as noites, junto a uma lamparina de óleo desfiam as muitas orações conhecidas por elas, são pedidos e bênçãos até completar o tempo do luto. Os pedidos são indagações do cotidiano e até tragicômicos: “Diz ao Tim-Tim que agora estamos mal, porque já nos morreu a burra Ruça – Pergunta a teu avô onde deixou as “guinchas”: se foi nas Arribas de baixo, ou nas de cima” (MACHADO, 1952, 27).
Muitos destes costumes foram abandonados com a saída dos pequenos centros e a laicização da sociedade promovida pela República. Deste rol de providências espirituais sobreviveram um ou outro costume. Tanto que no sepultamento do Capitão Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961), neto de um cristão-novo de Amarante e que ficou para a História Judaica como o “Guia dos Maranos” (com um erre só), a cerimônia já estava esvaziada de várias etapas do roteiro funerário.


Foi um acto civil apenas, como ele testemunhara ser costume de todos os marranos. Assistiram mais de uma centena de pessoas, entre familiares, conterrâneos, admiradores silenciosos das múltiplas facetas de sua vida infatigável e todos os judeus do Porto, askenazi e marranos. / Terminado o acto, quando os circunstantes se voltavam para sair do cemitério, alguém saiu de entre a multidão e aproximou-se da sepultura fresca de Abraham Israel Ben-Rosh. O imigrante polaco, Srul Finkelstein, apelou para os seus correligionários: “Judeus, aproximai-vos”. / No meio do mais profundo silêncio, gerado pela surpresa dos presentes, rodeado por pouco mais de um minyan de judeus, Samuel Rodrigues pronunciou a oração de “kaddish” (...)” (MEA, 1997, 239-240).

CONCLUSÃO

Os cristãos-novos e seus descendentes, mesmo apartados do Judaísmo rabínico, continuaram a ser vistos e tratados exatamente como os seus ancestrais judeus. O aparato jurídico do Estado presente através da cobrança de impostos especiais (fintas) e o impedimento ao acesso a profissões nobres existentes na administração pública, no Exército e Igreja, até o final do século XVIII, mantiveram esta fração da grande nação portuguesa como uma minoria etnocultural. Esta discriminação legal alimentou e foi alimentada pelos preconceitos difundidos entre a população católica. Já que as justificativas para ela baseava-se em mitos pré-existentes, como o mitema do “blood libel” que acompanhou os judeus por toda a Europa. A “notícia” (sic) da existência dos abafadores foi apenas uma modernização desta falsa acusação e que só prosperou pela incapacidade dos historiadores que trataram do tema separarem a milenar propaganda anti-semita da verdade histórica.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS (RELATOS DE UMA CERTA GUERRA NA ÁFRICA)

Na adolescência tomei algumas resoluções para quando me fizesse adulto. Atravessaria toda a “Rota da seda”. Depois sentaria praça na Legião Estrangeira e finalmente me tornaria um escritor de sucesso. Enquanto isso continuaria apaixonado pelas mouriscas, contemplando os seus joelhos redondos e cabelos pretos. Porém outros sabores e outros azares me empurraram para o posto disto tudo. Não fui o romeiro na estrada chinesa, nem vesti o quepe branco dos mercenários napoleônicos. Foi assim que cumpri o destino de vários Moisés: não entrei em nenhuma Terra Prometida. Só conto esta história, porque revendo uns jornais portugueses, encontrei uma fotografia onde apareço no interior africano. Foi o primeiro desvio na minha vitae.
Este desvio começou quando aceitei a convocação para lutar pelo Exército Português em Moçambique. Parecia que minha vocação de soldado se realizaria. Coloquei os versinhos do poeta-soldado Rubert Brooke (1887-1915) e enfiei no bolso:

“(...) If I should die, think only this of me; / That there´s some corner of a foreign field / that is forever England (…)”

T. E. Lawrence (1888-1935), o “Lawrence da Arábia’, era o meu tipo inesquecível. Troquei mentalmente o England pela Santa Terrinha e fui inocente fazer a última guerra ultramar de Portugal.
Lá descobri que era um desperdício lutar por Moçambique. Não havia motivos para isto. Qual o interesse da Metrópole naquilo? Se luta pela Sophia Loren ou por Jerusalém. Mas lutar por Moçambique? Destinado a uma unidade burocrática, os chamados “aramistas”, apavorei-me com a perspectiva de passar a guerra carimbando relatórios, pedi minha remoção e fui deslocado para uma companhia operacional. Fiz a guerra que outros fizeram. Atirei onde os outros atiraram. É só. Quer dizer, não resistindo saber que Companhia estava sendo traída politicamente por um daqueles capitães vermelhos (Vila Pery), dei-lhe uns cachações...
Perdemos a guerra. Amigos de uma confraria de soldados, deram-me o passaporte de um gajo barbudo muito parecido comigo, homônimo de outro que tentara assassinar o Rei do Afeganistão. Fugi para Joanesburgo. Daí rolei mais um pouco até chegar este momento em que vos escrevo. Hoje relembro tudo isto e penso que aconteceu a outra pessoa. Afinal hoje sou outra pessoa. Permitam-me fechar estas memórias seletivas com uma parábola do Mirza Khan. Para quem trabalhei no jornal The Sentinel de Punjab em Lahore, que pode explicar meu curriculum vitae:

Nas grandes matilhas sempre há um lobo diferente. Ninguém sabe explicar porque ele é diferente. Talvez seja o formado dos seus dentes ou o espinho que está fincado na sua pata. Ele não ganiu porque como todos sabem um lobo de verdade não gane. Mas aquele espinho faz ele pisar no chão de outro jeito. Não pode correr como todos os lobos. Ele tem que ficar próximo a matilha. Mas não dentro da matilha. Isto lhe deu outra forma de ver o campo. Descobriu que a carne putrefata é horrível e algumas raízes não são de jogar fora. Porém um lobo comendo raízes é muito estranho para outros lobos. Nas grandes matilhas sempre há um lobo diferente”.

UM BAIRRO ÉTNICO EM CAMPINAS: O PARQUE TAQUARAL CIGANO

Estudo feito em memória da cigana calón Dona Umbelina, que foi amiga de meu avô Eusébio Valadares (1880 - 1962) e lhe contou as desditas de seu Povo, despertando o meu interesse por eles.


Minha família assentou-se no Parque Taquaral no final da década de setenta. Logo percebemos que a maioria de nossos vizinhos pertencia a um grupo muito singular de habitantes: eram ciganos e contrariando a expectativa, semi-sedentários e ricos. Estas informações voltaram a me interessar quando passei a pesquisar minorias etnoculturais, isto depois de se mudar do bairro e ter completado os estudos universitários. Foi assim que descobri o conceito de bairro étnico e como isto podia ser aplicado ao bairro onde morei na minha adolescência.
Este trabalho é uma recuperação do Parque Taquaral como um bairro étnico dentro da multiétnica Campinas, quando ainda se via por aqui apenas como bairros étnicos os habitados pelos afro-brasileiros. Entendendo bairro étnico como a concentração de elementos de um grupo etnocultural com identidade claramente definida num determinado topos perceptível aos externos a ele.


QUEM SÃO OS CIGANOS

O romancista português Manuel Ribeiro (1878 – 1941) no livro A batalha nas sombras descreve poeticamente a trajetória do Povo Cigano pelo mundo. “Vinham, com lentidão, no rumo dos astros, lá das bandas do Oriente, arrastando o triste fadário do seu misterioso destino errante, por caminhos infinitos e morosos como órbitas cometárias, e num fluxo e refluxo de vagas roladas, até ao cabo do mundo”.
O etnônimo cigano, gitano, zingari ou gipsy talvez seja uma corruptela de egípcio, pois a Europa acreditava que eles teriam vindo do Egito. Hoje, apesar da agrafia cigana, mas estudando as suas lendas, tradições e linguagem atribue-se sua origem a uma região indiana, de onde foram expulsos há mais de mil anos e se espalhado pelo mundo (VISHNEVSKY: 25).
Os ciganos dividem-se em três grandes grupos (PEREIRA: 31-2):

1) Calóns, originários do mundo ibérico, tanto de Portugal, quando de Espanha;
2) Manuches ou Sintis, formado por ciganos franceses, alemães e piemonteses e;
3) Roms, que por sua vez subdividem-se em vários subgrupos: Macvaia (leem-se matchuáia), Tchurara, Lovara, Khorakhané (muçulmanos) e Kalderash.
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Os ciganos estão no Brasil desde que o calón João Torres foi degredado de Portugal para o Brasil em 1574 – que teria sido precedido por André do Souto em 1549 (BRAGA: 36). Depois dele muitos outros demandaram nossos ermos percorrendo os sertões brasileiros, pois como todo cigano sabe: “chugel sos pirela, cocal terela” (cão que caminha, não morre de fome). Podem-se apontar alguns ilustres descendentes na vida brasileira. O poeta Laurindo Rabelo (1826-1864) era cigano ou mestiço de cigano. Acredita-se que o presidente Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) seja bisneto de um Rom originário de Wintingau que chegou ao Brasil em 1823. No Rio de Janeiro, no bairro do Catumbi, vivem dinastias de oficiais de justiça (antigos meirinhos) como os Verani, que estão na profissão desde 1809 até os nossos dias, de pai a filho.
Mesmo assim esta convivência não é pacífica. O modo de viver cigano encontra oposição numa sociedade baseada no trabalho organizado e assalariado. Não há lugar em nossa sociedade para os nômades. A tradição persecutória já vem dos tempos coloniais e chegou até os dias contemporâneos, quando eles encontram barreiras quase invisíveis no seu percurso. Basta lembrar uma ordem mandada em código telegráfico pela organização policial as prefeituras paulistas para ser cumprida: gesalda, que significava, “não deveis permitir permanência de ciganos deste município” (SANTOS: 168-9).
Os ciganos do Parque Taquaral são todos Rom, do subgrupo Kalderash, originários da Itália e anteriormente vindos de algum ermo da Europa Oriental, com passagens por outros países latino-americanos na década de quarenta e cinqüenta. Eles deixaram a Itália com as perseguições raciais aos judeus e ciganos durante a II Guerra Mundial. Formavam um clã, pois todos eram aparentados em algum grau uns dos outros, já que há poucos troncos genealógicos entre eles, podendo ser resumidos as linhagens Breschak, Hudorovich (o maior deles), Iwanovich, Kwiek, Melotti e Nicolini. Nomeavam-se com prenomes italianos, Andrea, Domenico, Emilio, Giorgio, Giovanni, Guido, Lazaro, Primo, Tomaso, mas também se encontravam nomes balcânicos como Mile ou Draguicha, entre eles. Apesar desta marca cultural, nunca os ouvi falar em italiano, mas sempre em romani.

PARQUE TAQUARAL

O Parque Taquaral fica num morro, de um lado a Avenida Almeida Garrett que é a via de acesso por ônibus e do outro quase circundando o bairro, a cerca da Lagoa do Taquaral. São poucas ruas que formam o bairro. Hoje é um bairro de classe média alta, mas a sua origem está numa antiga zona de prostituição, antes dela ser transferida posteriormente para ao Jardim Itatinga na década de setenta.
Provavelmente o baixo valor destas terras atraiu estes moradores ciganos. Algo que já encontrei em outros bairros étnicos. Eles se formam em áreas desvalorizadas pelo setor imobiliário e que já possuem uma tradição de exclusão ou apartação. O Bom Retiro, bairro judaico na capital paulistana, também foi área de prostituição, antes da ocupação pelos imigrantes judeus e depois pelos coreanos.
Na segunda metade da década de setenta o bairro já tinha algumas mansões de empresários bem sucedidos, como a dos portugueses Figueiredos, proprietários da Cia Campineira de Doces; imensas casas alugadas a executivos estrangeiros de empresas multinacionais e a do misterioso xeque árabe El-Sayed Mahamed Ibrahim Shalabi (MANGEON: 1986); mas o que dava identidade ao bairro eram as mansões dos ciganos, apontados sempre com admiração pelos dedos dos visitantes. Casas grandes, muradas, quase sem móveis, e que nos terrenos dos fundos se viam barracas para os mais velhos se acomodarem.
Os ciganos tinham as suas vidas e nós, a nossa. Conhecíamos o Sr. Giovanni Breschak também chamado de João ou Juan, líder informal da comunidade, que chegou ao Brasil em 1946, vindo do Piemonte na Itália, depois de deambular pelo Chile (cinco anos) e Argentina, porém não nos freqüentávamos. Não espreitávamos o que havia atrás dos altos muros que protegiam as suas mansões, mesmo assim sabíamos de suas festas que duravam semanas pelo deslocamento de carros. Eram festas de noivados, casamentos ou reuniões muito formais, os kris, quando um tribunal de velhos da comunidade julgava os casos em demanda, questões familiares ou comerciais entre eles. Nestes momentos se viam carros com placas de muito longe. Depois desapareciam por longos períodos: iam vender enxovais ou comprar e revender automóveis pelo interior do Brasil. As mulheres acompanhavam nestas viagens de trabalho, isto fica claro, observando os locais de nascimento de alguns ciganos mais jovens do Taquaral: já encontrei um Hudorovich nascido em Campo Florido (GO), um Breschak em Paulista (PE) e outro em Floriano Peixoto (AL), dentre alguns exemplos documentados nos editais de proclamas de casamentos.
Pacíficos e trabalhadores raramente saiam na crônica policial.
Seguindo uma tendência já encontrada entre os ciganos europeus, muitos ciganos campineiros abandonaram o culto a Santa Sara (identificação sincrética da deusa indiana Kali) em Sainte-Marie-de-la-Mer em Camarga (França) feito na romaria dos 24 e 25 de maio todos os anos e aderiram ao pentecostalismo, fundando em 1984, no Jardim Eulina uma igreja exclusiva, a Igreja Pentecostal Romany para Cristo, liderada por Emilio Hudorovich, que desdobrou-se posteriormente em outras igrejas com novos nomes.

COMO DESCOBRI-LOS

Para documentar este trabalho tive que identificar quem eram estes ciganos e encontrei uma dificuldade inicial na pesquisa. Como encontrar uma fonte confiável, além das escrituras das propriedades, que os vinculasse ao bairro? Lembrei-me das antigas Listas Telefônicas – livro onde se registram os possuidores de telefones por ordem alfabética ou por endereço. Nelas estão registrados os donos de telefones – na década de setenta e oitenta, geralmente o chefe da família. Partindo disto, recuperei alguns exemplares de LTs campineiras das décadas de setenta e oitenta e levantei todas as quatro linhagens, encontrando a maioria deles vivendo no bairro.

RUA OU AVENIDA
nº.
Almeida Garrett
1610
BRESCHAK
Almeida Garrett
1591
BRESCHAK
Fernão Lopes
1464
KWIEK
Fernão Lopes
792
MELOTTI
Gonçalo Coelho
118
BRESCHAK
Heitor Penteado
1641
BRESCHAK
Heitor Penteado
1941
KWIEK
Latino Coelho
1308
IWANOVICH
Martim Afonso
179
MELOTTI
FONTE
: Lista Telefônica.

É bom relembrar que o Parque Taquaral, além de pequeno, era pouco adensado e as casas estavam localizados em grandes chácaras, em muitos casos, usadas apenas nos finais de semanas. A presença cigana destacava-se pela ocupação espacial do bairro. Ela era presente em todo o bairro e também porque cada proprietário de telefone tinha atrás de si, filhos solteiros e casados, netos e toda uma grande família extensa. A presença deles foi perpetuada no bairro com a abertura da Praça Giovanni Melotti – que a Prefeitura grafou de forma incorreta, homenageando um cigano desta comunidade.


CONCLUSÃO

O esvaziamento cigano do bairro deu-se por vários motivos. Alguns deles interligados. O semi-sedentarismo e o sucesso econômico levaram as gerações mais velhas matricularem os seus filhos nas escolas públicas campineiras, estabelecendo assim vínculos mais próximos com os gajões (estrangeiros). Este espaço de sociabilidade abriu caminho para o casamento hexogâmico (fora do grupo) diluindo a forte identidade ítalo-cigana da geração anterior. Nos proclamas de casamentos publicados no Diário do Povo percebe-se a alta taxa de casamentos mistos neste grupo a partir da década de oitenta. A isto adicione o alto preço do metro quadrado local e o IPTU que impedem a compra de terrenos para a construção de novas casas para os filhos – assim elas foram construídas ou compradas em outros bairros, como Chapadão ou Jardim Eulina, deslocando o conceito de bairro étnico para estes novos endereços. Finalmente o assassinato da cigana Rosana Rajer Mellotti em 2002, atribuído a bandidos atraídos por sua fama de ricos, levaram outros a saírem do bairro pela visibilidade e vulnerabilidade excessiva.


CONHEÇA OS CIGANOS DE CAMPINAS NA WEB:

Culto numa igreja local (vídeo):
http://video.google.com/videoplay?docid=-5174865738058472058
Blog de um jovem cigano com fotografias de membros da Igreja:
http://ciganosparacristo.nafoto.net/index.html



BIBLIOGRAFIA

BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. “Para o estudo da minoria cigana no Portugal quinhentista”, em Brigantia (Revista de Cultura de Bragança), nº. 4, Outubro/Dezembro de 1992, pp. 29-47.
CORREIO POPULAR, várias edições, décadas de setenta e oitenta.
DIÁRIO DO POVO, várias edições, décadas de setenta e oitenta.
LISTAS TELEFÔNICAS DE CAMPINAS, décadas de setenta e oitenta.
MANGEON, Fernando. As 7 chaves do sheik. Campinas: Editorial Alternativa, 1986.
MARTINEZ, Nicole. Os ciganos. Campinas: Papirus, 1989.
PEREIRA, Cristina da Costa. Povo cigano. Rio de Janeiro: edição do autor, 1986.
SANT´ANA, Maria de Lourdes B. Os ciganos. Aspectos da organização social de um grupo cigano em Campinas. Dissertação de mestrado, USP, 1972.
SANTOS, Virgínia Rita dos. Espacialidade e territorialidade dos grupos ciganos na cidade de S. Paulo. Dissertação de mestrado, USP, 2002.
VISHNEVSKY, Victor. Memórias de um cigano. S. Paulo: Duna Dueto, 1999.