Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

RABINO PINKUSS, PIONEIRO NUMA UNIVERSIDADE BRASILEIRA


A figura do rabino Fritz Pinkuss (1905-1994) é incontornável numa história da presença judaica no Brasil. Já se escreveu bastante sobre as suas múltiplas atividades, principalmente a sua dimensão de líder religioso bem sucedido, porém a sua ação como professor universitário não se tem realçado tanto.
A sua formação como intelectual e líder religioso deu-se dentro da Haskala (Iluminismo judaico). Um dos seus modelos de vida foi o tio Dr. Hermann Pinkuss (1867-1936), rabino em Heidelberg, autor de trabalhos na área de lingüística e a quem sucedeu como rabino nesta comunidade. A vida discente do Dr. Pinkuss deu-se em vários centros de estudos. Ele estudou nas universidades de Breslau, de Würzburg e Berlim, além de ter freqüentado o seminário em Breslau. A sua tese de doutoramento sobre Mendelssohn foi defendida em Würzburg (1928), depois publicada e premiada.
O respeito e a gratidão aos seus professores estão registrados na sua autobiografia: Estudar, Ensinar, Ajudar. Seis décadas de um rabino em dois continentes (1989). Ele nomeou carinhosamente um a um, todos eles importantes figuras intelectuais na cultura judaica e européia, muitos pertencentes a corrente da “ciência do judaísmo”. Destes, o rabino Leo Baeck (1873-1956) foi o principal mestre. Outro, o rabino Dr. Hanoch Albeck (1890–1972), futuro professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, lhe concedeu a semiha (ordenação rabínica). Ele deu ao filho o nome do talmudista Mihály Guttmann (1872-1942), um dos mestres de sua formação, como mais um sinal deste respeito.
Em 1936 o rabino Pinkuss chegou a S. Paulo onde desenvolveu as suas atividades de líder religioso, porém não descurou de sua vocação didática e de pesquisa. Logo ele procurou a recém-fundada USP, num momento em que Judeus e Judaísmo ainda era um assunto marginal, considerado irrelevante para ser tratado por intelectuais como ciência, ainda visto como algo restrito a conversa de imigrantes.
Um dos seus interlocutores na universidade foi o geneticista André Dreyfus (1897-1952), diretor da FFCH, a quem expôs um projeto sobre estudos judaicos, que lhe fez apenas uma objeção, a sua cidadania alemã impedia a consecução de tal idéia. Ele não a abandonou, tanto que depois o novo diretor, Dr. Eurípedes Simões de Paula (1910-1977), retomou o projeto e assim em 1946, se teve a aula inaugural desta disciplina, dada pelo Dr. Pinkuss. Foi a primeira universidade latino-americana a incluir uma disciplina judaica em seu currículo e o início de sua carreira docente na universidade brasileira.
A sua carreira docente foi completa. Ele pesquisou - a sua bibliografia é extensa, lecionou e orientou teses. Somente parou com a aposentadoria compulsória em função da idade em 1975. Através de sua idéia inicial a universidade brasileira reconheceu que “Judeus e Judaísmo” são objetos de estudos importantes para o conhecimento acadêmico. Hoje são produzidas teses sobre o tema, com a maior naturalidade, mas não devemos esquecer que o Dr. Pinkuss foi um pioneiro de sua introdução na vida universitária brasileira e latino-americana.

FOTO: AHJB/FOTOTECA

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Judeus sepultados em dois cemitérios não-judaicos de capitais brasileiras: Natal e Salvador.



CEMITÉRIO DO ALECRIM, Natal, RN:

ADONIS, Rachel (1921-1922).
CARVALHO, José Nunes Cabral de (1913-1979). Professor universitário e líder espiritual dos judeus autóctones.
FRIMER, Abraão.
GENESI, Efraim b. Tzvi.
HOROVITZ, Jayme b. Tzvi.
JOSUÁ, José b. Judá (1915 – 1933).
JOSUÁ, Alberto (1895 – 1970).
JOSUÁ, Victoria ( + 1925)
KALER*, Zev.
KELMANSON, Mindla (1872 – 1938).
LIPMAN, Sarah.
PALATNIK, Rosinha (1916 – 1936). Homenageada com uma poesia composta pela poeta Iracema Macedo.

SCHOR, Benjamin (1873 – 1934).
SLAVNI, Godel (+ 1914).
SOVKA, Mindla.
STAREC, Tila Debora (1884 – 1958).
TILLINGER, Emil (1911 – 1965).
VOLFZON, Dr. Jacob (1917 – 1951).
VOLFZON, Haia (+ 1943).
VOLFZON, Leon (1887 – 1967).
VOLFZON, Maria (1895 – 1983).
WEINSTEIN*, Rivca (1926 – 1926).
XURINOW, Maurício (+ 1946).


BRITISH CEMETERY, Salvador, Bahia:


AIZIN, Marie Miriam (19/09/1918).
ALKAIM, Moysés (17/02/1878).
ARIANI, Raffaele (11/04/1864). Filho do rabino Prospero Moisè Ariani e Smeralda Levi. Casado com Isabella Finzi. Introduziu o serviço de transporte na cidade, primeiro com carruagens e depois com bondes.
BENZAQUEM, Augusto (25/07/1928).
BENZAQUEM, Jacob (27/08/1927).
COHEN, Rachel (25/09/1935).
FAINSTEIN, Dalva (Sheiva) (14/07/1936).
DANON, Israel Isidor (30/11/1933).
ELLIS, Moysés Acher (31/05/1923).
LOEB, Alphonse Loeb (03/03/1879).
LOEB, Joseph (23/07/1823).
LOWENTHAL (Junior), Julius (28/03/1896).
SAFFRON, Isaac (31/08/1919).
GERSGOREN, Jacob (23/02/1920).
GORENDER, Eugenio (01/11/1920).
GUCOWISKY, Hilda Golda (10/07/1921).
UCHITEL, Pascual (03/11/1921).
SCHWAB, Raphael (28/05/1926).
SCHWAB, Regina (06/05/1955)
SINAY, Samuel (04/10/1900).
SOIBEL, Sophie Kahan (15/05/1918).

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ALGUNS NÚMEROS DESTE SÍTIO

Esta semana um artigo deste blog completou 1 mil acessos, enquanto já ultrapassam os 10 mil acessos no geral.
É um número de leitores que nos orgulha bastante. Para um sítio onde se fala de genealogia judaica, escrito em português e com um nome polissêmico , mas estranho (Besta esfolada) é uma façanha.
Muito obrigado
P.V.

ALGUNS NÚMEROS:
1º - UM BAIRRO ÉTNICO EM CAMPINAS: O PARQUE TAQUARAL CIGANO, 1002 acessos.
http://bestaesfolada.blogspot.com/2011/01/um-bairro-etnico-em-campinas-o-parque.html
2º - OS ABRAVANEL DE SALONICA, INDIANAPOLIS, RIO DE JANEIRO E S. PAULO, 565 acessos.
http://bestaesfolada.blogspot.com/2010/12/os-abravanel-de-salonica-indianapolis.html
3º - A FAMÍLIA ABRAVANEL: UM RAMO DA “DINASTIA DO REI DAVID” NO BRASIL, 460 acessos.
http://bestaesfolada.blogspot.com/2010/12/famlia-abravanel-um-ramo-da-dinastia-do.html
4º - DE ABRAVANEL A ZADEH: PRIMEIROS JUDEUS EM S. PAULO, 302 acessos.
http://bestaesfolada.blogspot.com/2010/01/de-abravanel-zadeh-primeiros-judeus-em.html
5º - GENEALOGIA BRASILEIRA (II): ARIANO SUASSUNA, 247 acessos.
http://bestaesfolada.blogspot.com/2010/08/genealogia-brasileira-ii-ariano.html

ORIGEM DOS LEITORES:
1º - BRASIL, 9962 acessos.
2º - PORTUGAL, 1126 acessos.
3º - EUA, 1056 acessos.
4º - CANADÁ, 713 acessos.
5º - ISRAEL, 267 acessos

É POSSÍVEL DESCOBRIR SUA ORIGEM ATRAVÉS DA GENEALOGIA?

CLIC TV
PROGRAMA IMIGRAÇÃO APRESENTADO POR PAULO PADOVANI
18/08/2011
É POSSÍVEL DESCOBRIR SUA ORIGEM ATRAVÉS DA GENEALOGIA?
ENTREVISTADO: PAULO VALADARES

http://mais.uol.com.br/view/wxs5e3bsd547/e-possivel-descubrir-sua-orgiem-atraves-da-genealogia-04024E983970DC812326?types=A&

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O AVÔ JUDEU DO PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAES (1872-1918)



O major Sidónio Paes foi presidente da República Portuguesa entre abril a dezembro de 1918, quando então foi assassinado. Ele dirigiu o país num momento turbulento da história nacional. A sua aparência física, o cuidado no vestir-se e a crença messiânica numa missão pessoal lhe deram esta confiança e as expectativas de reorganizar a nação.
Fernando Pessoa (1888-1935), descendente de cristãos-novos da Beira, viu nele este messias falhado:

À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais

(...) Governa o servo e o jogral. O que íamos a ser morreu. Não teve aurora matinal 'Strela do céu. Vivemos só de recordar. Na nossa alma entristecida Há um som de reza a invocar A morta vida;
E um místico vislumbre chama O que, no plaino trespassado, Vive ainda em nós, longínqua chama - O DESEJADO.
Sim, só há a esp'rança, como aquela - E quem sabe se a mesma? - quando Se foi de Aviz a última estrela No campo infando.
Novo Alcacer-Kibir na noite! Novo castigo e mal do Fado! Por que pecado novo o açoite Assim é dado?
Só resta a fé, que a sua memória Nos nossos corações gravou, Que Deus não dá paga ilusória A quem amou. Flor alta do paul da grei, Antemanhã da Redenção, Nele uma hora encarnou o el-rei Dom Sebastião
(...)
Até que Deus o laço solte Que prende à terra a asa que somos, E a curva novamente volte Ao que já fomos, E no ar de bruma que estremece (Clarim longínquo matinal!) O DESEJADO enfim regresse A Portugal!”

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Paes (1872-1918) pertencia a velhas famílias minhotas, mas que também possuía relações e uma costela judaica. A sua esposa, Maria dos Prazeres Martins Bessa (1869-1945) era prima da mãe do capitão Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961), líder dos descendentes de cristãos-novos que retornaram ao Judaísmo Rabínico, na Sinagoga Kadoorie Mekor Haim do Porto.
Os genealogistas padre António Julio Limpo Trigueiros e Armando B. Malheiros da Silva publicaram uma excelente genealogia do notável homem público português – Os Paes de Barcelos. Subsídios genealógicos para a biografia do Presidente da República Sidónio Paes (Barcelos, 1994). Nela encontramos o avô judeu do Presidente-Rei. Trata-se do barbeiro e sangrador António Velho da Fonseca (1677-1734), avô do avô do seu pai, natural de Barcelos e filho de “pessoas muito honradas que viviam de alguns bens que tinhaõ”. Mesmo assim os seus descendentes encontraram dificuldades para se inserirem na sociedade devido a esta origem judaica. Este António Velho da Fonseca era neto de um personagem importante da genealogia judaica, o licenciado Gaspar Cardoso, falecido em Barcelos (1649), que aparece em processos inquisitoriais e no trabalho do grande Luís de Bivar Guerra.


A linhagem cristã-nova é a seguinte:


1 – ANTÓNIO VELHO DA FONSECA (1677-1734)
2 – ANDRÉ JOSÉ PAES DE FARIA (1715-1780).
3 – LUÍS RIBEIRO PAES DE FARIA 91752-1825).
4 – BERNARDO JOSÉ PAES DE AZEVEDO (1799-1878).
5 – SIDÓNIO ALBERTO MARROCOS PAES (1846-1883).
6 – SIDÓNIO BERNARDINO CARDOSO DA SILVA PAES (1872-1918).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O GUERREIRO DE YACO. SERRA DAS ALMAS. MEMÓRIAS E LENDAS DE ZÉ RUFINO




Quando encontrei o escritor [Francisco] Calazans Fernandes (1929-2010) ele morava em S. Paulo. Ele foi jornalista nos melhores jornais, Jornal do Brasil, Times, dentre outros. Foi também Secretário de Educação do Rio Grande do Norte – ele deu a primeira oportunidade para o pernambucano Paulo Freire (1921-1997) aplicar o seu método de alfabetização. Como correspondente gerou o mundo todo, esteve em Israel de ponta a ponta, porém o seu espírito nunca deixou o seu berço natal, na região conhecida como “Tromba do Elefante”, parte do RN que vai em direção a PB.


---“Três dias que passo na minha terra – disse-me entre o raro sorriso de sertanejo desconfiado – me rejuvenesce trinta anos”. Falava enquanto me mostrava uma espingarda Comblain, usada em Canudos e por todo o Brasil profundo.


Eu cheguei a Calazans Fernandes, através de Marília Freidenson, que leu o seu livro O GUERREIRO DE YACO. SERRA DAS ALMAS. MEMÓRIAS E LENDAS DE ZÉ RUFINO (C.F. Natal, Fundação José Augusto, 2002, 318 páginas) e me emprestou um exemplar, sabendo que era assunto de meu interesse. Imediatamente falei com o Dr. Marcos Antonio Filgueira, o genealogista par excellance das famílias do RN, que me passou o seu endereço e assim pude conversar uma tarde com este notável criador e saber um pouco mais de seu trabalho.


O GUERREIRO DE YACO (...) é o primeiro de uma planejada trilogia. Escritor disciplinado pelos prazos do jornalismo, ele já tem a pauta dos trabalhos que seguirão “Chamas do Passado” e “Cinzas da Fortuna”, contando as histórias do seu pai Zé Rufino (José Calazans Fernandes, 1892-1976), homem atento e de boa memória que reteve as histórias de ocupação das terras em volta da Serra das Almas. O leitmotiv do livro é o desvendamento de um segredo. para que isto aconteça, microbiografias de sertanejos são reveladas através de pequenos episódios, onde a identidade cultural é sempre realçada.


Este primeiro volume é descrito como “a memória do baú sobre um Fernandes cristão novo da Ilha do Fayal contava como, perseguido pela Inquisição por viver com uma bruxa também Fernandes, em 1700 ele demandou ao Brasil no navio de que era dono, sobreviveu a um naufrágio no litoral do RGN, subiu o Apodi dos encantos, com ajuda dos índios, chegou à Serra das almas, onde , dos grotões da mina do Cabelo-Não-Tem, arrancou fortuna em ouro. Tão venturosa história resume tudo sobre quem deixou descendentes sem conta e brigas eternas nos direitos de posse de terras sem fim” (p. 27).


Entrar no universo de C.F. não foi difícil para quem tem a pele crestada herdada de ancestrais que também viveram alongados pelo Sertão. Na riqueza memorial do seu pai, lembrei-me de histórias contadas por alguns Valadares sertanejos – como a de uma chuva de peixes vivos no sertão sergipano. Mas a mim falta-me o talento narrativo e a fluidez do autor norteriograndense, portanto basta-me desfrutar o seu saborosissimo trabalho para eu também recuperar o me Sertão e recomendá-lo a quem deseje conhecer o Brasil profundo – não o das grandes e insossas cidade, mas as raízes profundas deste país, que leiam este livro,pois ele se coloca ao lado de três outras obras primas sobre o sertão brasileiro: A pedra do Reino, de Ariano Suassuna; Os Peãs, de Gerardo Mello Mourão (1917-2007) e o poema Psiu, a penúltima, de Soares Feitosa.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

QUE FIM LEVARAM OS CARAS SUJAS? O ANÃO, O LOUCO, O MOLEQUE E O MANETA. NO QUE VAI DAR TUDO ISTO?





“Caras sujas” (Carasucias no original) foi o nome dado pela crônica esportiva para dois ataques diferentes de times argentinos, realçando craques atrevidos, dentro e fora de campo, lembrando o filme homônimo que falava de jovens delinqüentes. O primeiro foi a linha final da Seleção Argentina no Sulamericano de Lima: Maschio, Angelilo e Sivori. O segundo, bem mais lembrado, até por ser mais próximo a nós, é o ataque do San Lorenzo de Almagro no começo dos anos sessenta, que tinha Areán, Doval, Veira e Casa. Na foto, que foi capa de El Gráfico (1965) aparece também o volante Roberto Marcelo Oveja Telch (San Vicente, 1943), que também era tão bagunceiro quanto os colegas. Na Copa de 1974 ele quase ficou preso por violar uma camareira da concentração na Alemanha. Mas vamos aos verdadeiros ”Caras sujas” e o que aconteceu a eles.

FERNANDO JOSÉ el Nano AREÁN (Buenos Aires, 1942 – Mendoza, 2011). Era muito habilidoso, mas não fez carreira, por que preferiu fazer dinheiro jogando por times colombianos, quando estes não representavam muito.


NARCISO HORÁCIO el Loco DOVAL (Buenos Aires, 1944 – idem, 1991), depois de tentar agarrar uma aeromoça numa excursão, foi “deportado” para o Brasil. Por aqui fez uma grande dupla com Zico e depois jogou na “Máquina tricolor”. Foi campeão carioca por ambos os times. Voltou aposentado a cidade natal, onde morreu depois de uma noitada numa boite.


HÉCTOR RUDOLFO Bambino VEIRA (Buenos Aires, 1946). Jogou também no Brasil. Defendeu o Corintians sem sucesso. Voltou a Buenos Aires onde esteve preso um ano por violentar um menino de 13 anos, que hoje é o conhecido travesti Malena Candelmo. Mesmo assim é adorado pela torcida, que lhe perdoa os deslizes, por suas frases jocosas, chamadas bambifrases. Eis duas delas. Sobre o ofício de treinador: “Yo tengo um laburo más difícil que el plomero (encanador) del Titanic”. Sobre a defesa do San Lorenzo: “Esta zona de la cancha de San Lorenzo es terrible acá lo asaltaron a Rambo”.


VICTORIO FRANCISCO el Manco CASA (1944). Tinha o mesmo perfil técnico e boêmio dos outros, porém um acidente em 1965 afastou-o do futebol. Ele namorava dentro de um carro nos fundos de um quartel, a temível Escuela Mecanica da Armada. Um sentinela vendo o carro mexer-se bastante, não teve dúvidas, deu um tiro de fuzil como advertência, que resultou no amputamento do braço direito de Casa. Ele ainda tentou jogar, mas não deu mais.

domingo, 5 de junho de 2011

GLAUBER ROCHA E ELOMAR FIGUEIRA MELO: DOIS GUSMÃOS DE VITÓRIA DA CONQUISTA E A CULTURA CRISTÃ-NOVA




O Arraial da Conquista, depois Vitória da Conquista, foi fundado por bandeirantes paulistas que buscavam ouro na região ou pela ocupação territorial promovida pela Coroa portuguesa no final do século XVIII. Atribui-se a condição de fundador da cidade ao trasmontano João Gonçalves da Costa (1720-1820). Esta condição deixou aos seus descendentes a propriedade das terras e por conseqüência o controle da administração pública. Duas linhagens oriundas do Fundador se destacam nestas atividades: os políticos Ferraz (descendentes do negociante paulista de animais Joaquim Ferraz de Araújo) e os místicos Gusmãos, de quem falaremos um pouco mais.
No começo do século XIX apareceu na cidade o negociante de animais Plácido da Silva Gusmão, vindo de S. Paulo, que ali se casou e se estabeleceu como fazendeiro. A família sempre teve inquietações metafísicas e comportamento messiânico. Se diz que o filho do patriarca, Tertuliano da Silva Gusmão (1831-1919) ganhou nas suas viagens pelo Sertão uma Bíblia e com a leitura dela, ele e sua família romperam formalmente com o Catolicismo. Este pequeno grupo familiar deu origem a Primeira Igreja Batista de Vitória da Conquista, que teve entre os seus predicantes, o judeu converso Salomão Ginsburg (1867-1927).
Serão estes “da Silva Gusmão” cristãos-novos? São parentes do padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), o Maschiach falhado? Dona Lucia Rocha deu-me uma explicação mítica desta origem, eles descendiam de uma “filha de Tatá que era casada com filho do judeu legítimo chamado David”. Dois descendentes de Plácido, o músico Elomar Figueira Melo (1937), por sua mãe Eurides Gusmão Figueira, e o cineasta Glauber Rocha (1939-1981), produziram obras que se enquadram por suas características no que chamo de “cultura cristã-nova”. Como exemplo tomo a canção “Ecos de uma estrofe de Abacuc” e a frase de Glauber para explicar a trajetória familiar: “de Jerusalém para Lisboa, de Lisboa para o sertão”, dentre outras manifestações nos trabalhos de ambos os criadores.
A ocupação fundiária e a administração pública de Vitória da Conquista não foi pacífica apesar das redes de parentescos formada por seus ocupantes. Dois episódios se destacam nisto, primeiro a Tragédia do Tamanduá e a Guerra dos Meletes e dos Peduros.
A luta entre os fazendeiros, coronel Domingos Ferraz de Araújo (? – 1895) e a viúva Lourença de Oliveira Freitas pelos limites entre as fazendas Tamanduá e Pau de Espinho, levou a uma série de escaramuças culminando no assassinato de dois filhos da viúva em 1895. Ela colocou os mortos num carro de boi e levou a cidade buscando justiça – “Vocês mataram os meus filhos, se quiser enterre-os, se não coma-os”. Sem a justiça pedida ela reuniu forças para atacar o coronel Domingos Ferraz. Este subestimou a adversária: “Ratos não comem gatos”. Resultado o grupo da viúva Lourença invadiu a Fazenda Tamanduá, que resistiu dois dias, mas no final dos combates, 22 pessoas foram assassinadas. As vinganças recíprocas continuaram por meio século.
Já no século XX – janeiro de 1919 as lutas pela direção política da cidade levaram a Guerra dos Meletes (uma espécie de tamanduá) e dos Peduros (o mesmo que de baixa estirpe), entre os coronéis Manoel Emiliano Moreira de Andrade (1871-1936) e Dino Correia (Ascendino dos Santos Melo, 1885-1928). No primeiro combate morreu o fazendeiro Teotônio de Andrade – os Andrades são descendentes do padre José Joaquim de Andrade. Vencedor, o coronel Dino Correia exigiu que o Juiz de Direito Antonio José de Araújo deixasse a cidade, montado num boi como símbolo de sua humilhação, porém um grupo de mulheres, lideradas por Laudicéia Gusmão (1862-1948), filha de Tertuliano da Silva Gusmão, conseguiu revogar o capricho do coronel Dino Correia e ele pode abandonar a cidade sem passar pelo vexame maior.
Um dos signatários do documento chamado “Compromisso de Não Matar” onde a elite local se comprometia a “(...) evitar toda espécie de vinganças contra qualquer cidadão, ficando sujeito as penas de lei e sem amparo de nenhum de nós todo aquele que transgredir esta cláusula (...)” foi o fazendeiro Plácido Gusmão Mendes, neto do patriarca da família Gusmão.
Este personagem nos interessa genealogicamente, pois ele foi casado com Lúcia de Oliveira Ferraz. A filha do casal, Marcelina de Oliveira Ferraz Mendes casou-se com o fazendeiro Antonio Vicente de Andrade, e teve a filha Lúcia Mendes de Andrade, que do casamento com o comerciante Adamastor Bráulio da Silva Rocha, teve o cineasta Glauber Rocha e a atriz Anecy Rocha (1942-1977), que foi o mote para escrever este pequeno artigo, mostrando o mundo sertanejo com suas vinganças bíblicas e também a sua expectativa messiânica da construção de um mundo justo.


NA FOTO: Lucia Mendes de Andrade Rocha e o filho Glauber Rocha. Fonte: http://tabernadahistoriavc.blogspot.com/2010/11/genios-famosos-3.html

quarta-feira, 1 de junho de 2011

SOBRENOMES USADOS POR JUDEUS NA ESPANHA CONFORME D. LUIS DE SALAZAR Y CASTRO

O genealogista espanhol D. Luis de Salazar y Castro (1658-1734) estudou a genealogia de muitas famílias judias que se converteram ao Catolicismo na Espanha.
No INDICE DE LA COLECCIÓN DE D. LUIS DE SALAZAR y CASTRO, volume XVII, organizado por Baltasar Cuartero y Huerta e Antonio de Vargas-Zùñiga (Madrid, 1956), são citadas algumas destas famílias.
v. http://www.rah.es/biblioteca.htm
Nº DOC. SOBRENOME ORIGINAL NATURALIDADE SOBRENOME ADOTADO

29469 Acavel Zaragoza Santa Fé
29472 Almazán Borja
29475 Azcocas Zaragoza Vidal
29464 Caballería Zaragoza
29470 Chamorro Zaragoza Clemente
29476 Conejo Zaragoza
29473 D. Perafón Calatayud López de Villanova
29465 Jamilo Calatayud
29468 Levy Soria Garcia de Santamaría
29463 Sánchez Zaragoza
29466 Trueba Alisbano Huesca Del Río
29474 Uctón Calatayud Garcia de los Moros
29467 Valaquen Alcañiz Santafé

sexta-feira, 13 de maio de 2011

MISS ELIZA LOPES, LOPES OF MARISTOW




O príncipe William Arthur Philip Louis, Duque de Cambridge, casou-se com a sua colega de faculdade Catherine Elizabeth Middleton em 29 de abril de 2011. Foi uma cerimônia midiática assistida por dois bilhões de pessoas. Todos os personagens da cerimônia foram escolhidos a dedo, dos pajens e damas de honra aos convidados das bodas. Dentre os protagonistas foi considerada "one of the most photogenic members of the royal bridal party, happily smiling for photographers as she made her" a pequena dama de honra, Eliza Lopes, de três anos, neta da Duquesa de Cornwall (Camilla Rosemary Shand, ex-Parker Bowles).



Eliza Lopes, por sua varonia descende de judeus portuguesas enriquecidos na Jamaica, originários provavelmente de Pernambuco ou da Holanda e Portugal.
Eis a sua linha genealógica judaico-portuguesa:



Sua genealogia portuguesa:

X - ELIZA LOPES (16/01/2008), dama no casamento do Príncipe William, filha de:
IX- HARRY MARCUS GEORGE LOPES (1977), que se casou com LAURA ROSE PARKER BOWLES (1978), filha de Camilla Parker Bowles. Harry Lopes é filho de:
VIII - HONORÁVEL GEORGE EDWARD LOPES, casado com SARAH VIOLET ASTOR, George é filho de:
VIII - MASSEY HENRY EDGECUMBE LOPES, 2º Barão Roborough, casou-se com SARAH ANNE PIPON BAKER. Henry é filho de:
VII - HENRY YARDE-BULLER LOPES (1859-1938), 1º Barão Roborough (1805), casou-se com LADY ALBERTA LOUISE FLORENCE EDGECUMBE. É filho de:
VI - MASSEY LOPES (1818-1908), 3º Baronete, casou-se com BERTA YARDE-BULLER. É filho de:
V - RALPH FRANCO (1788-1854), 2º Baronete, casou-se com SUSAN DE ABRAHAM LUDLOW. Ralph é filho de:
IV - ESTHER LOPES (1757-1795), que se casou com ABRAHAM FRANCO (1785-1799). Esther é filha de:
III - REBECCA PEREIRA (1737-1795), que se casou com MORDECAI RODRIGUES LOPES (1729-1752). Rebecca é filha de:
II- MENASSEH PEREIRA (1693-1737), que casou-se com ABIGAIL ...... (1707-1759). Manasseh é filho de:
I - BENJAMIN PEREIRA (1678-1723) casou-se com RACHEL DE PAZ (1678-1723).

quinta-feira, 5 de maio de 2011

LI RONGXIN: O ÚLTIMO JUDEU DO "IMPÉRIO DO MEIO"



Até o século passado existiu uma comunidade judaica em Kaifeng na China, formada por judeus vindos da Pérsia e da Índia durante a dinastia Tang (séc. VII). Eles são conhecidos como “tiao jung jiao” (religião dos extratores de tendões) ou “muçulmanos do solidéu azul”. Com a tolerância chinesa estes judeus foram progressivamente se assimilando até desaparecer parcialmente da paisagem local. Restou apenas um pequeno grupo de indivíduos, descendentes desta comunidade desaparecida, reconhecível por regras alimentares distintas da população local e pela genealogia e onomástica.


Os judeus de Kaifeng são identificados por sete sobrenomes, que lhes foram concedidos pelo Imperador chinês e que transmitidos em linha masculina chegaram até os nossos dias: Ai, Gao, Jin, Li, Shi, Zhang e Zhao. Apesar de identificá-los, eles não são exclusivos dos judeus locais. O sobrenome Li é usado por 1% da população chinesa, algo em torno de dez milhões de pessoas. Ele surgiu na dinastia Yin (séc. XV aC), quando um nobre perseguido pelos inimigos sobreviveu escondido numa ameixeira (li em chinês), alimentado pelos frutos da árvore. Dali em diante ele adotou por gratidão o seu nome como sobrenome familiar, que depois incorporou-se à onomástica chinesa.


A presença na vida chinesa destes judeus foi muito discreta. Poucos são os registros. Durante a dinastia Ming (séc. XVII), Matteo Ricci (1552-1610), um jesuíta que viveu na China, os encontrou e viveu alguns episódios curiosos com eles. O mais significativo foi quando recebeu o judeu Ai Tian e este vendo uma imagem católica da Virgem Maria, do menino Jesus e João Batista, “reconheceu” neles Rebeca, Esaú e Jacó. O que valeu para o jesuíta Ricci um convite para que se tornasse o “rabino” da comunidade. Bastava abster-se da carne suína. Ricci recusou o convite, mas anotou que tinha mais identidade com estes judeus, do que com os cristãos chineses. Os anos se passaram e apenas um personagem que freqüenta as enciclopédias e dicionários é apontado como descendente desta comunidade. Trata-se de Liu Shaoqi (1898-1969), presidente da República Popular da China entre 1959 e 1968.


A obscuridade em que estava mergulhada a história destes judeus começou a ser rompida quando o professor Xu Xin, da Universidade de Nanjing, passou a conviver na sua faculdade, na década de oitenta, judeu de Chicago, que lhe mostrou a importância da cultura judaica para o mundo ocidental. Isto estimulou o intelectual chinês a procurar vestígios da passagem dos judeus pela China. Encontrando-os em Kaifeng, onde vive uma centena de pessoas, que ainda são reconhecidas como pertencentes ao grupo étnico “you tai” (judeus). A partir deste momento começou-se a recuperar uma história que parecia perdida. Já há alguns deles vivendo em Israel.
Para completar este artigo escolhi a genealogia de um judeu de Kaifeng. Ela começou com o patriarca do clã Li, considerado como sendo de condição levita e que no período documentado desta comunidade produziram vinte rabinos. Ele, o comerciante Li Jingsheng (1851-1903), foi enviado como representante dos judeus de Kaifeng a David Ezekiel Joshua Abraham (1863-1945), judeu iraquiano e chefe da comunidade de Xangai. Lá conviveu com os judeus locais e quando morreu foi sepultado no cemitério judaico. O seu filho, Li Shumei, conhecido como Samuel, viveu entre os judeus de Xangai, onde teve o filho Li Rongxin em 1910, que adulto buscou a cidade do clã. Durante a Revolução Cultural foi aprisionado pelos Guardas Vermelhos e mandado para um campo de reeducação, mas com a flexibilização, voltou para a sua cidade, onde se tornou uma espécie de anfitrião para os judeus de todo o mundo que vão visitá-los.


Assim como outros pequenos grupos de judeus, os de Kaifeng também se desmontaram pela migração interna e externa. Há notícias deles vindo para a América. No recenseamento feito em Montreal e Quebec em 1901, o pesquisador Glen Eker (Jewish Genealogical Society of Canada) encontrou dois deles no Canadá: Wah Hing Ling, 40 anos, e Lewis Lunng, 28 anos – curiosamente nenhum tem o sobrenome tradicional.


Há poucos registros sobre as relações entre os judeus chineses e o Brasil. Na FFLCH-USP foi defendida em 1970 a tese de doutoramento do professor Nicholas (Nicolau) Mu-Yu Chen (1903-1982) intitulada: A comunidade israelita de Khai Fon. Um estudo sobre a assimilação dos judeus na China (121 páginas), baseada em fontes chinesas; e no Cemitério Israelita do Butantã, em S. Paulo, estão sepultados alguns judeus nascidos na China, deles já identificamos: Lidia Gurevich (1910-1960), nascida em Harbin, e Abram Kapustin (1913-1960), nascido em Hailar. Hoje, olhando rostos chineses, ora sorridentes, ora desconfiados, que encontro aqui pelos bairros centrais de S. Paulo, de quem não sei mais do que todos sabem, fico curioso: qual deles será um judeu de Kaifeng?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

MATARAM O "AZUL" DE RENOIR EM AUSCHWITZ



O impressionista Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) pintou em 1881 o retrato de Elisabeth e Alice as duas filhas do banqueiro francês Louis Raphael Cahen d´Anvers.
A tela chamada “Rosa e Azul” não teve as simpatias da família e ficou guardada num dependência mais simples da casa.
Passaram-se os anos. Elisabeth (a azul), apesar de ser católica há cinqüenta anos, foi assassinada pelos nazistas no campo de extermínio de Auschwitz em 15 de abril de 1944.
Alice sobreviveu.
Em 1952 o “Rosa e azul” foi comprado pelo Museu de Arte de S. Paulo (MASP)

ÁRVORE DE COSTADO

1. ELISABETH (1871-1944) e ALICE (1876-1965).

PAIS:
2. CONDE LOUIS RAPHAEL CAHEN D´ANVERS, nasceu em Antuérpia e morreu em Paris (24/05/1837 – 20/12/1922). Banqueiro.
3. LOUISE DE MORPURGO, nasceu em Trieste (1845 – 1926).

AVÓS:
4. CONDE MEYER JOSEPH CAHEN D`ANVERS, nasceu em Bonn e morreu em Chateau Nainville lês Roche (25/02/1804 – 11/09/1881). Banqueiro.
5. CLARA BISCHOFFSHEIM (1810-1876).
6. BARÃO GIUSEPPE DE MORPURGO, nascida em Trieste (1815-1898). Controlador da Assicurazioni Generali (empresa seguradora).
7. ELIZA PARENTE, morreu em 1874.

OUTROS ANCESTRAIS.....
8. JOSEPH LAMBRECHT CAHEN (1763-1809). Banqueiro.
9. SOPHIE SCHEUER (1777-1835).
10. RAPHAEL NATHAN BISCHOFFSHEIM, nasceu em Bischoffsheim e morreu em Mainz (1773 – 22/01/1814).
11. HELENE CASSEL, morreu em 1830.

sábado, 30 de abril de 2011

DOIS "INQUISIDORES" EM S. PAULO: LLORENTE e BORBÓN





Como se vestia um alto personagem da Inquisição?
Qual a aparência destes homens que detinham tanto poder?
Há dois retratos destes figurões, pintados por Francisco Goya (1746-1828), no acervo do MUSEU DE ARTE DE S. PAULO (MASP) ASSIS CHATEAUBRIAND, na Avenida Paulista nº 1578.
O primeiro retrato é de D. JUAN ANTONIO LLORENTE (1756-1893), Comissário do Santo Ofício espanhol, que pretendendo reformar a Inquisição, teve que expatriar-se na França. Escreveu um livro em quatro volumes denunciando a instituição: Histoire Critique de L´Inquisicion Espagnole (1817/8). Estes relatos seriam responsáveis pela “Leyenda negra” que fixou-se a Espanha.
O segundo “inquisidor” é o cardeal D. LUÍS MARÍA DE BORBÓN y VALLABRIGA (1777-1823), pertencente ao Santo Oficio e que foi um dos signatários do decreto que terminou com a Inquisição espanhola em 1808.
Os dois retratos estão no MASP e merecem ser vistos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

ODMAR BRAGA, UM POETA ENGAJADO E MILITANTE, MAS LÍRICO

Na foto: Gilberto Freyre Neto, P.V. e o poeta Odmar Braga


Quando encontro o poeta pernambucano Odmar Braga lembro-me imediatamente do marquês de Santillana, D. Iñigo López de Mendoza y de la Vega (1398-1458), poeta e soldado espanhol, por sua trajetória na vida. Ele faz verdade a frase do fidalgo espanhol: “La sciencia non embota el fierro de la lança nin face floxa la espada en la mano del caballero”. Quem ouve o lírico Odmar cantar as delícias do amor e das tristezas da herança ancestral, não deve esquecer que ele é um mestre em lutas orientais (6º Dan em Karatê) e já ganhou a vida como policial no sertão bravio. Barbudo, sólido e lento caminhando pelas ruas de Recife está atento a tudo. Ele é um poeta incômodo para a tradição lírica brasileira. É um bardo que canta por uma minoria, assim como o gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009) cantava pelos afrobrasileiros, o pernambucano Odmar Braga canta pelos descendentes de cristãos-novos alongados pelo Sertão brasileiro. Gente invisível até os anos 70 do século passado quando alguns deles resolveram dar as costas ao altar católico. Em segredo já tinham feito isto há muito tempo.
Odmar Braga nasceu em Recife (08/11/1952), neto dos sertanejos Pinheiro, Filgueira e Braga. Para falar dele escolhi um poema de sua lavra: “Kidush com cachaça” do seu livro anterior. Através dos seus versos posso falar do poeta e de sua poesia.


Tão perto do azul do céu, / tão longe do azul do mar. / Ao D´us Alto com sua Graça,/ lechá dodi licrat calah / Hei de assentar a mesa posta / E o mais belo salmo louvar, / num compasso bem saudoso / reacender meu alegrar. / Com rapadura e tapioca, / com cuscuz de mandioca, / com o aboiar do meu rezar. / transbordando minha taça, num Kidush com cachaça, / o repartir do pão chaláh” (Lembranças, Coleção Mossoroense, Série C, volume 1260, dezembro de 2001, Fundação Guimarães Duque/Fundação Vingt-Un Rosado. p. 55).


A poesia engajada e militante de Odmar Braga deve ser lida e relida. Ela comporta várias interpretações. Aparentemente, só aparentemente, ela é muito simples, porém lendo atentamente, encontramos citações, alusões históricas e ecos de uma linhagem poética que começou em Alcabetz e chegou ao cearense Albano, que explicam o seu projeto de vida e visão de mundo.
No estilo dos Salmos ele faz conviver afirmação e negação, mostra os opostos na mesma imagem, para fortalecer a sua argumentação lírica. O poeta cearense José Albano (1882-1923), descendente de uma velha família de origem cristã-nova, usou o mesmo recurso na sua glosa do Salmo nº 137 – o do desterro babilônico: “(...) Subi à montanha azul / e desci ao verde val (...)”. Odmar usa o céu e o mar para afirmar o seu exílio. O céu, entenda-se o Transcendente, está mais perto dele que o mar.
Logo a seguir ele se apropria dos versos sacros do cabalista tessalonicense Schlomo Alkabetz (c.1500-1580) para o serviço litúrgico do Shabat: “Vem Amado meu ao encontro da noiva”. Renovando a sua crença na relação especial do Transcendente (que ele grafa incompleto como os Ortodoxos) com o Povo de Israel.
O poema continua com o desejo do cumprimento futuro (“hei..”) das regras cotidianas codificadas pelo toledano Josef Caro (1488-1575), a “mesa posta” (Shulkhan Arukh). E para mim vem o inesperado no poema, depois da Ortodoxia, de crenças e costumes judaicos, ele traz a mestiçagem brasileira, introduzindo a rapadura, a tapioca e a cachaça no banquete de seus versos. Para mim o desfecho é uma advertência para os pesquisadores de história dos descendentes dos cristãos-novos: eles não devem usar como parâmetro os hassidim (judeus ortodoxos da Europa Oriental) – não podem esquecer que o Brasil é um país mestiço.
Apesar de trazer a mais velha cidade portuguesa como parte do seu nome (Braga, a Bracara Augusta romana), o poeta Odmar muitas vezes se expressa em Ladino, a língua dos judeus oriundos do Império Otomano, que levaram o português e o espanhol para aquelas plagas e fertilizaram-nos com o hebraico, turco, árabe, etc. É uma forma dele legitimar-se, de inserir-se no mundo judaico além-mar, usando uma das muitas línguas de uso e segredo dos judeus sefarditas. O seu último livro, “Rekodros de mis rekodros” (2011) dialoga com poetas judeus espalhados pelo mundo, como Ernesto Kahan, Margalit Matitiahu, Matilda Koen-Sarano, Denise León, Haim Vitali Sadacca, dentre outros.
Odmar é também um grande contador de causos. Na última vez que estivemos juntos comemos um agulha (peixe) em Olinda e passamos uma tarde discorrendo sobre as velhas linhagens do Sertão (que ele conhece quase todas) e uma montagem transgressora de Jean Genet. Odmar Braga é surpreendente, tanto como causeur e claro como um poeta de Israel no Sertão brasileiro.

GENEALOGIA CRISTÃ-NOVA (V): CAMILO CASTELO BRANCO (1825-1890)





1. CAMILO FERREIRA BOTELHO CASTELO BRANCO, Visconde de Correia Botelho, nasceu em Lisboa e morreu em S. Miguel de Seide, suicídio (16 de março de 1825 – 01 de junho de 1890). Romancista.



PAIS:
2. MANUEL JOAQUIM BOTELHO CASTELO BRANCO morreu em Lisboa (17 de agosto de 1778 – 22 de dezembro de 1835). Cadete do Egimento de Cavalaria nº 12 e funcionário dos Correios.
3. JACINTA ROSA DO ESPÍRITO SANTO.



AVÓS (PATERNOS):
4. DR. DOMINGOS JOSÉ (“Bexigas”) CORREIA BOTELHO, Sr. da Quinta de Montezelos, nasceu e morreu em Vila Real (1741 – 23 de junho de 1809). Juiz em Cascais e Viseu.
5. RITA TERESA MARGARIDA PRECIOSA DA VEIGA CALDEIRÃO CASTELO BRANCO nasceu em Cascais (1748 – 28 de novembro de 1826).
BISAVÓS (PATERNOS):
8. MANUEL (“Brocas”) CORREIA BOTELHO nasceu e morreu em Vila Real (22 de abril de 1714 – 16 de janeiro de 1801). Escrivão.
9. MARIA DE CARVALHO E MENEZES.
10. CAPITÃO JOSÉ PEREIRA DA SILVA.
11. TERESA INÁCIA JOAQUINA CASTELO BRANCO.



....OUTROS ANCESTRAIS.
16. DOMINGOS (“Brocas”) CORREIA BOTELHO (1672 - ?). “Picheleiro” (fabricante de canecas) e vendedor ambulante.
17. ARCANGELA FERNANDES.
18. FRANCISCO MARTINS MENEZES, cristão-novo.
19. LUISA RABELO DE CARVALHO.
22. DIOGO LUÍS DE MESQUITA CASTELO BRANCO.
23. ISABEL DE MATOS.
32. LÁZARO DA COSTA (1606 -1683). Chefiou o clã cristão-novo dos “Barbados do Açougue”. Era açougueiro e comprador de gado.
33. FRANCISCA MENDES.
34. JOÃO LOPES.
35. FILIPA FERNANDES
44. JOSÉ FERRÃO CASTELO BRANCO.
45. FILIPA DE MESQUITA.
64. MARTINHO MACHADO PINTO nasceu em Vila Real (1586 - ?). Mestre de Campo dos Auxiliares de Vila Real. Cavaleiro da Ordem de Santiago.
65. ISABEL MENDES, a “Barbada”. Cristã-nova.
66. ANTONIO MENDES.
67. ANA BARREIRA
128. DOMINGOS RODRIGUES PINTO nasceu em Vila Real (1566 – 1643). Mercador.
129. ISABEL MACHADO BOTELHO (ou MALRASCA). Filha de Martim Fernandes Malrasca e Inês Machado, moradores de Parada de Cunhos, Vila Real.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

GENEALOGIA JUDAICA (XVI): CAO HAMBURGER


1. CARLOS (“Cao”) IMPÉRIO HAMBURGER nasceu em S. Paulo (1962). Cineasta.


PAIS:


2. Dr. ERNST WOLFGANG HAMBURGER nasceu em Berlim (08/06/1933). Físico e professor universitário (USP).

3. Drª AMÉLIA IMPÉRIO nasceu e morreu em S. Paulo (12/07/1932 – 01/04/2011). Física e professora universitária (USP). Irmã do cenógrafo e arquiteto FLAVIO IMPÉRIO (1935 – 1985).


AVÓS:

4. Dr. HANS HAMBURGER nasceu em Posen e morreu em S. Paulo (27/03/1891 – 06/09/1953). Soldado na I Guerra Mundial condecorado com a “Cruz de Ferro” (perdeu o braço esquerdo em combate). Juiz. Expatriou-se em setembro de 1936 para S. Paulo. Dirigente comunal (Congregação Israelita Paulista).

5. CHARLOTTE MARGARETE LIEPMANN, morreu em S. Paulo (18/12/1899 – 25/07/1977). Fundadora do Lar das Crianças (CIP).

6. DOMINGOS IMPÉRIO nasceu e morreu em S. Paulo (19/05/1889 – 15/06/1952). Ourives. 7. HELENA FAUSTO nasceu e morreu em S. Paulo (30/03/1908 – 27/04/2004).


BISAVÓS:


8. NAPHTALI HAMBURGER.

9. IDA LICHTENSTEIN.

10. DR. HUGO PAUL CARL LIEPMANN (1856 – 1932). Médico neurologista.

11. AGATHE BLEICHRÖEDER nasceu e morreu em Berlim (1871 – 1933).

12. ANTONIO IMPÉRIO.

13. AMÉLIA COLONA.

14. ERNESTO FAUSTO.

15. ANGELINA RIZZO.


OUTROS ANCESTRAIS...


20. LOUIS LIEPMANN nasceu e morreu em Berlim (1816 – 1906). Filho de um empresário têxtil e fundador de um banco. O seu primo Rudi Liepmann foi envolvido no assassinato do político Karl Liebknecht (1871 – 1919).

21. FANNY PLAUT nasceu em Nordhausen e morreu em Berlim (1830 – 1908).

22. JULIUS BLEICHRÖEDER (1828 – 1907). Irmão do barão GERSON von BLEICHRÖEDER (1822-1893), o homem mais rico da Prússia. Dirigiram o banco fundado pelo pai.

23. ADELHEID ..........

42. HERZ KUSEL PLAUT nasceu em Reichsachsen e morreu em Nordhausen (1784 – 1837).

43. CAROLINE BLACH nasceu em Abterode e morreu em Nordhausen (1800-1855).

44. SAMUEL BLEICHRÖEDER nasceu em Wriezen e morreu em Berlim (15/07/1779 – 30/12/1855). Fundador do BANCO S. BLEICHRÖEDER em Berlim (1803). Sócio dos Rothschild. 84. KUSEL JACOB PLAUT nasceu e morreu em Reichensachsen (1740 – 1824).

85. JETTCHEN .................

86. MEIR SAMUEL BLACH.

87. JETTCHEN PLAUT.

168. JACOB JEHUTIEL PLAUT.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

GENEALOGIA BRASILEIRA (III): OSCAR NIEMEYER


1. OSCAR RIBEIRO DE ALMEIDA DE NIEMEYER SOARES nasceu no Rio de Janeiro (15/12/1907). “Patrono da Arquitetura Brasileira” (Lei nº 11.117, 18/05/2005).

PAIS:


2. OSCAR NIEMEYER SOARES (1873 - 1959).

3. DELFINA (“Filoca”) RIBEIRO DE ALMEIDA nasceu em Nova Friburgo e morreu no Rio de Janeiro (1879 – 1932).


AVÓS:


4. NICOLAU HENRIQUE SOARES (1828 – 1877), artesão e tipógrafo.

5. FRANCISCA AMÉLIA DE NIEMEYER (1846 – 1879).

6. ANTONIO AUGUSTO RIBEIRO DE ALMEIDA nasceu em Maricá e morreu no Rio de Janeiro (1838 -1919). Ministro do STF.

7. MARIA EUGÉNIA VEIGA RIBEIRO DE ANDRADE, prima do marido.


BISAVÓS:


8. Alferes NICOLAU HENRIQUE SOARES

9. LUIZA MARIA DE SANT´ANA SILVA

10. JOAQUIM CARLOS DE NIEMEYER nasceu no Porto e morreu no Rio de Janeiro (1818 – 1886).

11. ANA VITÓRIA DE MENDONÇA NIEMEYER nasceu em Fortaleza e morreu no Rio de Janeiro (1826-1904).

12. Comendador MANUEL RIBEIRO DE ALMEIDA.

13. ANA ALEXANDRINA DE JESUS.

14. Major JOAQUIM RIBEIRO DE ALMEIDA

15. DELFINA EUGENIA DA VEIGA.



OUTROS ASCENDENTES:


20. Tenente-coronel CARLOS CONRADO DE NIEMEYER.

21. FRANCISCA AMÁLIA TEIXEIRA nasceu em Guimarães (1799-1883).

22. Coronel CONRADO JACOB DE NIEMEYER nasceu em Lisboa e morreu no Rio de Janeiro (1787 – 1862).

23. TERESA XAVIER DE MENDONÇA.

30. JOÃO PEDRO DA VEIGA. Irmão do político Liberal EVARISTO DA VEIGA (Rio de Janeiro, 1799 – idem, 1837), autor do “Hino da Independência”.

31. JOAQUINA ROSA DA CONCEIÇÃO.

40/44. Coronel CONRADO HENRIQUE von NIEMEYER nasceu em Hanover e morreu em Lisboa (1761 – 1806).

41/45. FIRMINA ANGÉLICA DE SANTO AGOSTINHO, filho de MANUEL CORREIA DANTAS e SEBASTIANA GERTRUDES.

60. FRANCISCO LUÍS SATURNINO DA VEIGA nasceu em Lisboa e morreu no Rio de Janeiro (1771 – 1841). Professor e livreiro.

61. FRANCISCA XAVIER DE BARROS, filha de DOMINGOS CARDOSO DE BARROS.

80. Tenente-general (de Cavalaria) JACOB KONRAD von NIEMEYER nasceu em Hanover e morreu em Northeim (1730 – 1808).

81. MARGARETHE ELISABETH von BIGUER.



BIBLIOGRAFIA: BARATA, Carlos Eduardo de Almeida; CUNHA BUENO, Antonio Henrique da. Dicionário das famílias brasileiras, I-II. S. Paulo: IberoAmerica, 2000.

quarta-feira, 30 de março de 2011

EL NORA ALILAH, de Moisés Ibn Ezra (1055? - 1138?)

O piut (poema litúrgico) El Nora Alilah composto pelo poeta, filósofo e linguista espanhol Moshe b. Yaakov HaSallah Ibn Ezra, nascido em Granada (1055? – 1138?) é usado nas congregações sefaraditas para fechar o Yom Kippur (dia do Perdão). É um poema requintado – inclusive na forma de um acróstico. Antes de começá-lo, fala-se a frase: “Moisés, nos faça forte”, homenageando o autor. Aqui na versão cantada pelo Coral da Congregação Espanhola e Portuguesa de Londres - (2 Ashworth Road): http://www.youtube.com/watch?v=HHWmjncxfOU&feature=related Deus de temor, Deus de poder / Concede-nos perdão nesta hora, pois suas portas estão fechadas esta noite (refrão). / Nós, que somos poucos, erguemos os olhos à altura do céu / temendo por nossa oração, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Derrama sobre nossa alma, nós oramos para que a frase que você vai escrever / apague nossos pecados, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Resgata-nos, refúgio forte e nos tira deste sofrimento terrível / sela o nosso destino para a alegria, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Dai-nos o favor, se você é nosso Juiz, mostre-nos a graça para aqueles que negam o nosso direito e nos oprimem, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Gerações de homens fortes na fé tem andado na tua luz / Como no passado, renova os nossos dias, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Reúna até Judá o rebanho disperso e reconstrua Sião / Abençoe este ano com a graça divina, pois suas portas estão fechados nesta noite. / Que todos nós, velhos e jovens, encontrem alegria e prazernos anos vindouros, pois suas portas estão fechadas esta noite. / Miguel, príncipe de Israel e Gabriel. Seus anjos luminosos, com Elias,venham nos resgatar, pois suas portas estão fechadas esta noite.

terça-feira, 29 de março de 2011

GENEALOGIA JUDAICA (XV): DINA SFAT (1939-1989), Atriz brasileira


1. DINA (“Sfat”) KUTNER (S. Paulo, 1939 – Rio de Janeiro, 1989). Atriz. Casada com o ator Paulo José de Souza. Filhos: Isabel, Ana e Clara.


PAIS:

2. JACOB KUTNER, Yaacov b. Schlomo (Varsóvia, 12/08/1895 – S. Paulo, 25/02/1976). Vendedor dos Tapetes Tabacow e depois proprietário de uma fábrica de sapatos.

3. NOEMIA LERNER (Rosh Pinah, 1905 – S. Paulo, 16/10/1991).


AVÓS:

4. SALOMÃO KUTNER, Schulem Scharna b. Reuven (Varsóvia, abril de 1864 – S. Paulo, 22/05/1955).

5. LEONTINA RACHEL SLEDZ (? – Buenos Aires, 1915).

6. NAHUM LERNER, Nahum b. Shabetai (Sfat, 1877 – S. Paulo, 13/11/1918). Comerciante de tecidos. Fundador da Sinagoga Knesset Israel (rua Newton Prado, S. Paulo).

7. DORA ABRAMOVITCH.

quarta-feira, 23 de março de 2011

ANOTAÇÕES SOBRE O ARTIGO "Los San Román de Zamora: del siglo XV hasta nuestros dias" de MATILDE GINI DE BARNATÁN



No III Congreso de Cervantes y Sefarad em 1997 a pesquisadora Matilde Gini de Barnatán trouxe a história da família espanhola San Román de Zamora e as suas ligações com o judaísmo. A história começou com D. Francisco de San Román, “vecino de Zamora”, funcionário do rabino Abraham Senior e a sua missão junto a Arias Dávila, outro converso importante.


O artigo resultante da apresentação, “Los San Román de Zamora: Del siglo XV hasta nuestros dias” (MAGUÉN-ESCUDO, Revista trimestral de la Associación Israelita de Venezuela, nº 144, Julio-septiembre 2007, pp. 16-33) tem dois tempos. No primeiro ela fala das relações de D. Francisco de San Román (homônimo do primeiro espanhol queimado como “luterano” em 1544) com estes personagens já citados, usando a documentação da época. No segundo momento, já utilizando a técnica da história oral, ela vai a Zamora e reencontra os San Román, surpreendentemente alguns deles continuam ligados a velha herança familiar. A sua informante é Maria Manuela Rodríguez Fernández, que relata que os seus tios David e Antonio de San Román recebiam o português Artur Mirandela durante os anos da Guerra e rezavam secretamente numa sala fechada da casa.


Como sou um genealogista especialista em famílias cristãs-novas portuguesas trago mais informações que podem enriquecer o belo trabalho de Matilde Gini de Barnatán e até fornecer novos rumos para esta pesquisa.


1. ARTUR MIRANDELA é o pseudônimo de Artur Augusto das Neves, que nasceu em Valpaços e morreu em Matosinhos (1900 – 1964). Ele pertencia a uma família de origem cristã-nova de Vilarinhos dos Galegos. Foi um dos membros da “Obra do resgate”, movimento de reinserção dos descendentes de cristãos-novos ao judaísmo rabínico, liderado pelo capitão Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961). Trabalhou como tesoureiro no Banco de Portugal em Bragança, ao lado de José António Furtado Montanha (1882 - 1976), presidente da comunidade israelita local. Teve papel destacado no acolhimento de refugiados estrangeiros em Portugal.

2. No livro “Uma família de cristãos-novos em Bragança. Cinco séculos de história” (Bragança: edição do autor, 2007), vol. II, de Filipe Pinheiro de Campos, na página 906, há o registro de casamento de ALEXANDRINA BEATRIZ LOPES NAVARRO, filha de Antero Artur Lopes Navarro (1867-1949), secretário do Governo Civil de Bragança e de Maria da Assunção Vaz (1877-1953), descendente de relevante família de origem cristã-nova estabelecida em Lagoaça. O noivo é o espanhol MANUEL INOCÊNCIO FREDERICO SAN ROMÁN GONZÁLEZ, natural de Puebla de Zanabria e chefe do Departamento Nacional do Auxilio Social em Madrid, filho de Manuel San Román Sánchez e Maria Dolores González.


Percebe-se que Artur Mirandela foi um membro categorizado do criptojudaismo trasmontano, bastante envolvido nas atividades “proselitistas” da “Obra do resgate” e podia estar numa missão destas junto aos San Román.


No artigo há menção sobre a endogamia dos San Román e os seus aparentados. Esta informação se fortalece com o registro deste casamento. O descendente de cristãos-novos espanhóis que vai encontrar a sua esposa numa velha família de cristãos-novos penitenciados pela Inquisição no outro lado da fronteira. Todas estas informações fornecem indicativos de que estas relações eram profundas e estavam baseadas numa cultura comum e na rede de parentesco que chegou até o século XX.


FOTO: Na capa da revista HaLAPID, órgão da “Obra do resgate”, estão: Luís J. de Carvalho, capitão Barros Basto e ARTUR MIRANDELA, o terceiro em pé. Sentados: capitão Jaime Borges (da família do escritor argentino Jorge Luís Borges), rabino Baruch Ben-Jacob e Furtado Montanha.

sábado, 12 de março de 2011

Resenha de A Presença Oculta publicada na Revista Pesquisa FAPESP março 2008 nº 145

Livros

A presença oculta
Paulo Valadares
Fundação Ana Lima 292 páginas

O judeu em cada um de nós
Estudo revela presença da descendência dos cristãos-novos brasileiros

Léa Vinocur Freitag

Esta obra do historiador foi originalmente feita sob a orientação da professora Anita Novinsky, o que confere um aval respeitável em termos de trabalho acadêmico. O autor realizou uma investigação paciente e fecunda, analisando documentos na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, Centro Cultural Vergueiro, PUCCamp, IFCH-Unicamp e FFLCH-USP (São Paulo), Real Gabinete Português de Leitura carioca, Arquivos Distritais portugueses, Biblioteca Pública Municipal do Porto e Bibliotecas Nacionais de Lisboa e Madri. Valadares é um nome de destaque na linha de pesquisa histórica e genealógica, co-autor do Dicionário sefaradi de sobrenomes, ao lado de Guilherme Faiguenboim e Anna Rosa Bigazzi, premiado em 2003 como “o melhor livro de referência judaica”. Pertence a Sociedades Genealógicas Nacionais e Internacionais e vem publicando trabalhos em revistas especializadas, com temas instigantes, como “Os Mesquitas do Estadão vistos pela genealogia judaica”. A presença oculta é o primeiro trabalho acadêmico que buscou responder a uma questão central na história da formação nacional: o que aconteceu aos descendentes dos cristãos-novos no país? “Com o fim da Inquisição terminou a perseguição à cultura dos cristãos-novos no Brasil, mas continuou a existir o estigma que satanizou o judeu. Tanto que os poucos judeus que chegam no período a seguir não se identificam como tal: eram “hebreus”, “israelitas”, “russos”, “alemães”, “franceses” etc. O mesmo se deu com o nome das instituições judaicas, que preferiram denominar-se “israelitas”.Nos anos 1930 e 40 o anti-semitismo difundiu-se no Brasil, inclusive pela influência do integralismo. Fernando Raja Gabaglia, diretor do respeitado Colégio Pedro II e descendente da cristã-nova Branca Dias, foi questionado pelo ministro Gustavo Capanema sobre a forte presença judaica na instituição – soube contornar o problema defendendo a liberdade religiosa e a integração dos seus alunos. Um dos expoentes da diplomacia brasileira no pós-guerra foi Hugo Gouthier de Oliveira Gondim, falecido em 1992, da linha genealógica de Branca Dias. Chegou ao posto de embaixador brasileiro na Itália, comprou e restaurou o Palácio da Piazza Navona, em Roma, mantendo amizade com grandes personalidades internacionais, como Kennedy. Foi aposentado compulsoriamente em 1964 e teve os direitos políticos cassados. Nomes ilustres da sociedade brasileira têm suas origens ligadas a cristãos-novos: “Antônio Henrique Cunha Bueno, neto materno de Maria Cursina de Leão, baiana de Macaúbas, foi deputado federal por São Paulo. Defendeu a comunidade judaica durante os seus mandatos legislativos e membros de sua família são voluntários em instituições judaicas”. O historiador Sérgio Buarque de Holanda, autor de Raízes do Brasil, pai de Chico Buarque, chegou a ser inquirido pelo regime nazista, quando estudou na Alemanha. Aparece nas pesquisas genealógicas como descendente de Abraham Senior.Outras personalidades dos meios econômicos e empresariais citados por Paulo Valadares são Luís Eulálio de Bueno Vidigal e Gastão Vidigal, este último presidente do Banco Mercantil.Referindo-se aos “profetas hebreus que nos espiam das Gerais”, Valadares vê na cultura cristã-nova das serras mineiras uma opção pelos profetas judeus, mais do que pelos apóstolos cristãos. Em Congonhas do Campo os profetas estão fora da igreja e são imagens dessacralizadas – os católicos preferem cultuar sua fé dentro da igreja.Nessa linha de idéias, o autor observa também uma aproximação dos carmelitas com os judeus, exemplificando com os fundadores da Ordem, santa Teresa d’Ávila e são João da Cruz, ambos de origem cristã-nova. Em Ouro Preto o profeta Elias é reverenciado na Igreja N.S. do Carmo, e é comum encontrar nas igrejas imagens de Abrão e Moisés.

LÉA VINOCUR FREITAG é professora titular pela Escola de Comunicações e Artes (USP) e doutora em Ciências Sociais (USP).

terça-feira, 8 de março de 2011

OS PRIMEIROS JUDEUS DE S. PAULO. UMA BREVE HISTÓRIA CONTADA ATRAVÉS DO CEMITÉRIO ISRAELITA DE VILA MARIANA

OS PRIMEIROS JUDEUS DE S. PAULO - UMA BREVE HISTÓRIA CONTADA ATRAVÉS DO CEMITÉRIO ISRAELITA DE VILA MARIANA (S. Paulo: Fraiha, 2009)

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DICIONÁRIO SEFARADI DE SOBRENOMES / DICTIONARY OF SEPHARDIC SURNAMES

O DICIONÁRIO SEFARADI DE SOBRENOMES / DICTIONARY OS SEPHARDIC SURNAMES (S. Paulo: Fraiha, três edições)
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sábado, 5 de março de 2011

TERROR NUM SHTETL GAÚCHO: QUATRO IRMÃOS (1924) - UMA HISTÓRIA OCULTA DA COLUNA PRESTES

As revoluções têm uma imagem complacente de si. Raramente há a autocrítica de sua ação concreta. Conforme se consolida sua história, apagam-se as violências ou injustiças cometidas por elas, restando apenas a sua motivação altruísta. A Coluna Prestes (1924-7) é um destes casos, pois a historiografia dominante se rendeu ao ineditismo militar (guerra de movimentos), o caráter heróico e a busca utópica da justiça social por seus líderes. Porém, pouco se escreveu da brutalidade dos revolucionários no trato dispensado à população civil, que por razões práticas teve de lhe prover o sustento, sob a ameaça das armas.
Este artigo é na contramão desta história consagrada, ele mostra a Coluna Prestes no início, atacando o povoado gaúcho de Quatro Irmãos, com o único propósito de saquear a sua população para sustentar o grupo revolucionário que se formava. Foi escrito com base numa cópia do inquérito policial que o Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB) possui, junto à documentação que compõe o fundo Jewish Colonization Association (ICA). Entrevistei, também, alguns descendentes de famílias atingidas por essa desordem pretensamente revolucionária. Pronto o artigo, ele foi oferecido a três revistas de História onde já publiquei, porém foi recusado por razões singelas, mas que podem ser interpretadas nas entrelinhas como “ainda não se publicam na historiografia acadêmica os desvios de um ícone esquerdista”.

A COLUNA PRESTES

O presidente Arthur Bernardes (1875-1955) já assumiu o governo em estado de sítio. A insatisfação política dos seus opositores tomou forma revolucionária. Em S. Paulo grupos militares levantaram-se contra o governo, mas foram batidos pelas tropas legalistas e então fugiram para o sudoeste do Paraná. No sul o capitão Luís Carlos Prestes (1898-1990), que servia no 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo sublevou sua unidade militar em 28 de outubro de 1924. O gesto funcionou como uma senha para os descontentes começarem a se agrupar para integrar a coluna de insurretos que formou com eles e mais o grupo paulista. Tornou-se conhecida como Coluna Prestes e deslocou-se militarmente 24 mil quilômetros por todo o país, entre 1924 a 1927. Próximo a fronteira com Santa Catarina, um destes bandos de revolucionários caiu sobre a indefesa Quatro Irmãos para tomar cavalos, víveres e dinheiro, supostamente para prover o movimento. Eles chegaram pela estrada de Nonohay. O calendário marcava três de dezembro de 1924.
Eram quarenta ou cinqüenta homens aramados com fuzis e armas brancas, identificados pelo lenço vermelho dos maragatos (oposicionistas) colocados em volta do pescoço, montados em cavalos, todos comandados por um velho trajado de uniforme cáqui amarelo com seis galões no ombro. Soube-se depois que ele era o coronel Favorino Mariano Pinto (1869-1927) e que ao seu lado cavalgavam dois filhos: o capitão Heráclides Pinto, apelidado “Pretinho” e o tenente Apolinário Pinto, vulgo, “Lulu” ou “Pintinho”. O trio era gaúcho e já agia na região há tempos. Revolução para eles era um meio de vida e os seus título militares eram forjados nas sangrentas lutas campeiras. Eram maragatos de formação.
“Maragatos” foi o apelido depreciativo dado pela primeira vez durante a Revolução Farroupilha em 1893 aos opositores de Borges de Medeiros (1864-1961), presidente do Rio Grande do Sul. O nome vinha de um grupo etnocultural de origem espanhola, maragatos, nômades e, ao que parece, descendentes de mouriscos, reputados como ladrões e assassinos. O nome foi assumido como orgulho pelos Federalistas, e perdurou como uma forma de assustar os adversários. Era gente com uma persistente tradição de ferocidade e crueldade. Um dos maragatos históricos, Adão Latorre (1837-1923), teria degolado sozinho numa tarde trezentos prisioneiros no chamado Massacre do Rio Negro (1893). Já o Pretinho de nossa história, dias antes da invasão a colônia, matara num baile ocorrido no povoado chamado Sapo o sanfoneiro que lhe desagradara. Preso, ele foi solto pelo bando que o pai comandava.

O SHTETL

Quatro Irmãos fica num vale entre as serras gaúchas, próximo a Erechim, e na época era uma espécie de shtetl (povoado judeu) europeu transplantado para terras brasileiras. Poucas ruas de terra batida, conhecidas na época como Rua da Guenendel (homenagem a costureira Guilhermina Lechtman, que morava nela), a Rua da Fremeleia (a comerciante Luisa Antebi), a Rua dos Grãfinos e a dos Carrapichos, circundadas por várias propriedades rurais. O povoado fora criado na primeira década do século XX por judeus vindos, em sua maior parte, da Bessarábia (hoje Moldávia e Romênia). Era o fruto de um projeto encabeçado pelo banqueiro alemão barão Maurice de Hirsch (1831-1896), destinado a tirar os judeus da Europa Oriental, livrando-os das perseguições anti-semitas locais, e fixá-los no mundo rural. Muitos deles já tinham experiência agrícola, pois cultivam fumo e girassol nas terras de origem. Para viabilizar esse projeto foi criada a Jewish Colonization Association, conhecida como ICA, que em 1909 comprou mai sde noventa mil hectares no Rio Grande do Sul, onde eles se estabeleceram. Cada colono adquiriu a prestações o seu pedacinho de terra para recomeçar a vida. Nenhum deles era rico, pois estavam endividados com a compra da propriedade e muitos ainda nem tinham aprendido o português. Isso era suficiente para não não se importarem com a política nacional. Então, foi com espanto que os colonos receberam a invasão dos revolucionários.

O ATAQUE

No inquérito policial que se seguiu ao evento criminoso, conduzido pelo subchefe de polícia de Passo Fundo, Dr. Miguel Chmielewski, desfilaram os colonos extorquidos e aterrorizados pelos revolucionários, frente a autoridade legal. Não se sabe quem foi a primeira vítima, pois os revolucionários se espalharam pelo território da povoação, atacando estrategicamente todos os pontos da localidade durante a noite e o dia. As queixas dos moradores são as mesmas. Percebe-se nelas que o objetivo central do grupo invasor era apenas a pilhagem da população. De todos os colonos abordados foi exigido dinheiro em espécie, depois roupas e ferramentas, alimentação e cavalos. A nenhum deles falou-se da conjuntura política – apenas dois colonos foram acusados genericamente como chimangos (governistas).
O agricultor Jacob Sirotsky, 58 anos, viajava numa carroça de quatro rodas quando foi assaltado pelos revolucionários. Tomaram-lhe dois contos e quinhentos mil réis, mais outro tanto em mercadorias.
Jaime Melnik, dono da atafona (moinho) local, perdeu vinte sacos de farinha de mandioca e três sacos de polvilho, mais roupas, utensílios e ferramentas. Destruíram a sua plantação de milho e mandioca, como também o mandiocal de Marcos Nagelstein, e levaram deste mais um boi, oito sacos de farinha de mandioca e também roupas.
Tomaram de Leão Agranionik quatro cavalos e do madeireiro Gregório Ioshpe, roupas e objetos.
Os Matone perderam um cavalo arreado e dinheiro. Saquearam o armazém dos Brochman.
A lista prossegue por tantos outros colonos, que tiveram as suas vacas carneadas, a plantação devastada e o dinheiro de sua economias, já que não havia bancos, tomado pelos invasores. Os relatos mostram como foi a coleta de recursos pelos revolucionários.
Ao agricultor Manoel Weinstein, de 29 anos:

“(...) revistaram-o tirando-lhe do bolso a quantia de cinqüenta e dois mil reis em dinheiro, dizendo-lhes que não lhe tomaram o casaco porque estava muito velho e rasgado (...)”.

Outro agricultor, Abraão Raskin, de 45 anos, foi levado a presença do coronel favorino Pinto e espancado com rebenques e espadas. Pretinho, o filho do chefe do bando, arrancou-lhe a barba com uma faca, tirou-lhe a roupa e roubou-lhe seis mil réis.
Pedro Birman, 55 anos, foi arrastado por uma corda no pescoço de sua casa até o chefe do bando.
Sanson Schwartzman, de 36 anos, ante ao bando:
“(...) cahiu quase desmaiado e sua mulher e as creanças choravam e gritavam implorando aos revolucionários que não o matassem (...)”.

A família de Ichiel Feldman ante as agressões fugiu de sua casa:
“(...) na precipitação (eles) esqueceram uma creança de três anos (...)”.

Ninguém escapou a sanha dos saqueadores. Até a Jewish Colonization Association (ICA) foi extorquida. Três revolucionários, sendo um deles o Pintinho, invadiram por uma janela a casa do agrônomo David Sevi, representante da sociedade na colônia e exigiram quarenta contos de resgate, depois o coronel Favorino Pinto diminuiu o pedido pela metade, finalmente aceitou receber uma quantia menor escriturada em recibo:

EMPRÉSTIMO DE GUERRA. De ordem do Sr. Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias [leia-se o capitão Luis Carlos Prestes] em operação no norte do estado recebi da Jewish Colonization Association, representada na pessoa do seu diretor David Sevi a importância de três contos de réis (3:000.000) a título de empréstimo. Acampamento na fazenda de Quatro Irmãos, quatro de dezembro de mil novecentos e vinte e quatro. (assignado) Favorino Pinto Coronel comandante de guerra”.

AMORTE DO COLONO

A invasão culminou com o desaparecimento do agricultor David Faiguenboim (na foto acima), de 62 anos, oriundo de Shargorod e pai de nove filhos. Ele era um homem religioso que muitas vezes liderava as orações comunitárias. A única fotografia que sobreviveu mostra um homem de barbas longas com um livro de orações. Dado sinal do desaparecimento pelos familiares, os vizinhos saíram a sua procura e só depois de algum tempo o colono Usher Galodnik e Maurício Faiguenboim (1906-1971), filho da vítima, descobriram o corpo degolado escondido numa touceira de mato. Ele tinha uma ferida que:

“(...) abrangia a fronte, a começar pelo lado direito da mesma, atravessava o nariz, cortado profundamente e atravessava a vista esquerda, que estava vasada, estendendo-se bem assim no nariz. Os ferimentos foram produzidos por um instrumento cortante, além disso verificaram-se que em redor do pescoço havia signaes no cadáver, do vestígio de um laço apertado de uma corda (..)”

Como ele não sabia português, é possível que tenha sido assassinado por mão compreender a cupidez dos revolucionários.
Depois de dois dias de pilhagem em Quatro Irmãos, percebendo a chegada das tropas Legalistas, os saqueadores seguiram em frente incorporando-se ao destacamento do tenente João Alberto (1899-1955) com que fizeram toa a campanha da Coluna Prestes pelo interior do Brasil. Ali não foram cobrados pelo comportamento indigno, nem pelos companheiros de armas, nem pelos autores que se ocuparam deste grupo insurreto. Eles tornaram natural o saque as populações desarmadas como método de abastecimento.

“(...) Neste ponto não tínhamos escrúpulos – afirmou o capitão Luiz Vieira Fagundes, combatente gaúcho numa entrevista na década de setenta – Pegávamos com naturalidade do alheio, o que tinha pela frente era nossa alimentação. Não tínhamos dinheiro para comprar, não tínhamos de onde tirar, nós usávamos aquilo como se fosse nosso (..)”.

Já no fim da jornada, somente dois dias antes de deixarem o solo nacional, em dois de fevereiro de 1927, o coronel Favorino Pinto foi denunciado ao Estado Maior revolucionário por acumulação de uma fortuna “obtida por meios ilícitos”, segundo a documentação revolucionária preservada no Arquivo Edgar Leuenroth (UNICAMP). Feita a revista no oficial gaucho encontrou-se além de muitas jóias preciosas uma quantia inventariada em dezenove contos e novecentos mil réis (o valor de dois automóveis novos na época) que foi confiscada em parte pelo general Miguel Costa (1874-1959) em benefício do patrimônio coletivo da Coluna Prestes. Levaram mais de dois anos para descobrir as atividades criminosas desse revolucionário, mas, enquanto isso aproveitaram-se e bem dessa pilhagem para o sustento da expedição. Ele só foi “punido” nos últimos momentos em terras brasileiras. O coronel Favorino Pinto morreu cinco meses depois, em Pasos de los Libres em conseqüência de uma hemorragia cerebral. Hoje é personagem elogiado nos livros sobre a Coluna Prestes.
O saque a colônia de Quatro Irmãos apressou o seu fim. Quarenta famílias judias e três católicas, amedrontadas pela violência, fugiram para Erechim e dali procuram novas plagas. Foram seguidas depois por outras famílias que, descapitalizadas pelo saque, abandonaram também a sua vida rural, espalhando-se pelo Brasil em busca de uma vida mais segura. Eles que já tinham deixado a Europa Oriental pelo medo dos pogroms (destruição de comunidades judaicas) foram embora de Quatro irmãos, mas sem esquecer o episódio sangrento vivido, tanto que, se a memória destas famílias não tivesse guardado esses fatos, é provável que esse fosse mais um episódio condenado ao esquecimento

BIBLIOGRAFIA

COSTA, general Miguel. Boletim Reservado nº 3, Baia Bela, 2 de fevereiro de 1927 – Arquivo Edgard Leuenroth, UNICAMP, LMC.CL.209 P.3 e CL.210 P.3.
FAERMAN, Martha Pargendler. A promessa cumprida. Porto Alegre: Metrópole, 1990.
FELDMAN, Marcos. Memórias da Colônia de Quatro Irmãos. S. Paulo: Maayanot, 2003.
JEWISH COLONIZATION ASSOCIATION (ICA), 1902-1968, 71 caixas – ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO BRASILEIRO.
LIMA, Lourenço Moreira. A Coluna Prestes – marchas e combates. S. Paulo: Alfa-Ômega, 1979. PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. S. Paulo: Paz e Terra, 1997.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

GENEALOGIA JUDAICA: THEODOR HERZL (1860-1904)


1. THEODOR HERZ, nasceu em Pest e morreu em Edlach (02/05/1860 – 03/07/1904). Jornalista, teatrólogo e ativista sionista. Autor do “Der Judenstaat” (1896).

PAIS:
2. JAKOB HERZL nasceu em Semlin e morreu em Pest (14/04/1835 – 09/06/1902). Comerciante em Budapeste.
3. JEANETTE DIAMANT nasceu em Pest e morreu em Viena (28/07/1836 – 20/02/1911).

AVÓS:
4. SIMON LÖB HERZL nasceu em Semlin e morreu em Pest (1805- 03/11/1879). Seguidor de Judah Alkalai (1798-1878). Teórico do Sionismo.
5. REBEKKA BILIZ nasceu em Semlin e morreu em Pest (1809 – 29/08/1888)
6. HERMANN GABRIEL DIAMANT nasceu e morreu em Pest (1805 – 09/01/1871).
7. JOHANNA KATHERINA ABÉLES nasceu e morreu em Pest (1806 – 09/07/1872)
BISAVÓS:
8. LEOPOLD YEHUDA LOBL HERZL nasceu em Neuzatz e morrem em Semlin (1761-1855).
9. VERA FRUMMET HERZL (*1777).
10. JAKOB BILIZ (*1776).
11. SARA FEISCHEL (*1781).
12. WOLF DIAMANT nasceu em Pest (1799 – 1814).
13. CHARLOTTE HABER nasceu em Hubalec e morreu em Pest (1780 – 1843).
14. .........................
15. .........................

TRISAVÓS:
16. NAFTALI ZVI LOBL, descendente de um frade chamado Rafael, descendente ou colateral de D. Pablo de Santa Maria (Schlomo b. Yitzhak HaLevy, 1351 - 1435), ex-rabino e Bispo de Burgos. Bibliografia: Chouraqui, André. A man alone: the life of Theodor Herzl, p. 5.
17. ............. AMIGO, filha de MEIR AMIGO, conhecido como o “Rey chico”, representante comercial de Aguilar na região de Temesvar, séc. XVIII.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

RELAÇÕES ENTRE OS ABAFADORES E O "BLOOD LIBEL"

As tentativas de extermínio do Povo Judeu tiveram algum êxito, porque antes disso houvera um processo de satanização preparando a agressão futura, onde eram atribuídos crimes que segundo a lógica desta difusão, revelariam uma espécie de perversidade congênita dos judeus e seus descendentes. Os cristãos-novos, descendentes de judeus convertidos na Península Ibérica no século XV, também herdaram de seus avós, além do pagamento de impostos privativos (fintas) alguns prejuízos sociais e também uma mitogenia que os classificava de assassinos. Através da acusação da existência de um grupo de homens que apressariam a morte de agonizantes do seu povo, sufocando-os numa espécie de eutanásia ritual. Eles seriam os abafadores e viveriam no “marrano country” (WOLF, 1926, 161), região portuguesa nas Beiras e nos Trás-os-Montes, onde se concentram os descendentes de cristãos-novos e também no Brasil em Minas Gerais. É uma acusação relativamente recente, pois elas só apareceram nos inquéritos de antropólogos que ouviram tanto cristãos-novos, quanto os seus vizinhos católicos, porém nos processos inquisitoriais já lidos ou estudados, não há nenhum registro deste comportamento, como também nos monitórios publicados pelo Santo Oficio, que descreviam as práticas judaizantes.

A MITOGENIA MUTANTE

Alem da acusação do deicídio, outra acusação insistente feita aos judeus, é a do “blood libel” (alilath dam em hebraico), de agora em adiante mencionado neste texto apenas como “libelo (no sentido de calúnia) de sangue”. Segundo esta acusação defendida por setores intolerantes do Catolicismo e do Islamismo, o judeu usaria o sangue de sacrifícios humanos para amassar o pão ázimo necessário a Páscoa. Flavio Josefo, o primeiro autor que se ocupou do tema, ao refutar o egípcio Apion afirma que esta acusação é uma “fábula de procedencia griega” (JOSEFO: 250-3). Mesmo assim esta calúnia prosperou tomando novas formas. Séculos depois o poeta Geofrey Chaucer nos Canterbury Tales (1386) levou a lenda mais adiante. É possível listar uma relação dos principais “libelos de sangue”. Philip Birnbaum encontrou entre 1144, ano da primeira acusação em terras européias, até 1940, 152 casos desta falta acusação (BIRNBAUM, 1995, 610). Um deles é o da Espanha, o chamado Caso “Santo Nino de la Guardia”, pretensamente acontecido nesta aldeia espanhola, sendo o sapateiro judeu Jucé Franco queimado em Ávila em decorrência da falsa acusação. As versões eclesiásticas do episódio foram usadas para legitimar junto ao povo a expulsão dos judeus alguns meses depois. Lope de Vega (1562-1635), Familiar do Santo Ofício espanhol escreveu a peça El Nino Inocente de la Guardia (1617), recolocando o mito em circulação, que sobreviveu até os nossos dias. No ultimo 24 de setembro de 2005, as 14 hs, aconteceu uma “ofrenda floral al Santo Nino de la Guardia por parte de la Reina y Damas de Honor de las fiestas en la puerta de la Iglesia Parroquial”, conforme informação colhida por mim ao acaso na WEB. Em 1840 a acusação repetiu-se em Damasco atingindo judeus de ascendência sefaradita das famílias Harari, Farhi, Picciotto, Abuláfia e Laniado. Ele pode ser considerado como um caso ainda não encerrado, pois o governo sírio distribui nos paises estrangeiros a sua versão racista do caso. Infelizmente quem desejar pode consultá-lo em bibliotecas publicas brasileiras. Ele está à disposição dos leitores como se fosse uma versão legítima da Historia (TLAS, 1985).
O mitema tomou nova forma com a conversão dos judeus que ficaram em Portugal e Espanha após o século XV, isto fica claro observando as denúncias contras os cristãos-novos. Eles aproveitaram o grande contingente de médicos, cirurgiões e boticários cristãos-novos para adaptar a acusação em algo mais verossímil. Segundo a propaganda anti-semita os profissionais da saúde usariam todos os recursos para envenenar e matar os seus pacientes católicos. Mesmo sem identificar as vitimas, eles aproveitavam as fugas causadas pela ação da Inquisição para espalhar que o médico fugira, não por ser perseguido, mas por ter envenenado os seus pacientes. Esta acusação durou ate o final da Inquisição e às vezes prolongou-se no mundo oral. Na década de sessenta passada esta história sobrevivia no interior paulista. Minha mãe receava ficar num hospital em Marilia, S. Paulo, pois existiria um tal “chá da meia noite” na forma de injeção letal aplicada nos pacientes pobres por médicos “turcos” (árabes ou judeus). Com o fim das diferenças de condição jurídica entre cristãos-novos e velhos o mito poderia ter acabado, porém ele ressurgiu no final do seculo XIX tão humilhante e degradante quanto às formas anteriores. Segundo esta nova variante do “libelo de sangue” os descendentes de cristãos-novos possuiriam dinastias de assassinos chamados abafadores. É uma forma sutil de compará-los a Caim, o irmão fratricida e assim impor uma resposta que alimenta o mito anti-semita: se este povo mata os seus moribundos imagine o que ele pode fazer em outras situações.

ABAFADORES E INCALCÕES

O primeiro registro disto é um desmentido do orientalista português Guilherme de Vasconcelos Abreu (1842-1907) aos boatos da existência de abafadores entre os cristãos-novos portugueses. Ele conhecia o ethos judaico e sabia da impossibilidade dos judeus agirem deste modo. A Torah (Pentateuco) é taxativa: “não assassinarás”. Os suicidas judeus são sepultados em silêncio junto aos muros do cemitério israelita sem direito a qualquer honraria post-mortem. Mas não adiantou muito, pois em 1902, num vocabulário aldeão publicado por João de Castro Lopo há o registro do termo abafador:

Cristão novo encarregado de estrangular ou abafar com as roupas da cama os moribundos da mesma comunhão religiosa, pois, segundo é corrente, passa como preceito de certa seita judaica que os proselytos não devem morrer, mas ser mortos. O abafador cumpre a triste e repugnante missão com a serenidade com o que o sacerdote pratica os actos mais santos do seu ministério. Nos concelhos de Penamacor e Covilhã, onde abundam os chamados cristãos novos, são apontados pelo povo os afogadores. Conta-se que muitas pessoas tem sido instadas pelos moribundos para que os não abandonem enquanto não expirarem, horrorizados com a idéia do estrangulamento” (LOPO, 1902, 241).

Este modesto registro deu origem a vários trabalhos que fixaram esta história como verdade antropológica. Escolhi os três mais significativos para uma melhor análise. Dois são relatos etnográficos e o último deles, uma peça de ficção. Apenas no trabalho romanceado a figura do abafador é tida como verdadeira. Nas outras obras os etnógrafos registram o burburinho, porém mantém uma dúvida envergonhada. São a partir destes trabalhos que surgiram novas versões para o mitema. Os três autores são portugueses: José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo (1858-1941), médico por formação e etnógrafo; Casimiro Henrique de Morais Machado (1898-1964), etnógrafo e Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha, 1907-1995), médico e ficcionista. Os três chegaram a esta história por caminhos parecidos. J. Leite de Vasconcelos e Casimiro de Morais Machado ouviam o povo para escrever os seus trabalhos. Vasconcelos para uma monumental etnografia do povo português. Machado sobre os descendentes de cristãos-novos que ainda viviam no “marrano country”. Já, Torga, além de romancista, exercia a medicina entre esta população, onde pode ter ouvido a história de fontes católicas.
Mas como isto se manifestava? Os três relatam que o moribundo cristão-novo recebia a visita de uma espécie de verdugo da mesma origem, quando então o “agonizante era envolvido em cobertores e carregavam-se-lhe em cima até lhe darem morte por asfixia” (VASCONCELOS, 1958, 175). Na outra versão: “deita-se o paciente de costas, bem estendido, e, então, a “incalcadora”, colocando-se na cama, vai-lhe comprimindo o peito com os joelhos, até que se “fina’’”. (MACHADO, 1952, 26). Estes seriam os incalcões. São relatos curtos e secos, mas graças à boa reputação dos pesquisadores foram aceitos como uma verdade científica, esquecendo-se até das dúvidas dos seus autores.
Mas é o escritor Miguel Torga que ao dar o tratamento ficcional ao tema vai impressionar os leitores. Ele construiu a sua narrativa com elementos que identificasse cenário e personagens como judeus. O conto “O Alma-Grande” começa com uma frase definitiva; “Riba Dal é terra de judeus” (TORGA, 1981, 15). Logo ele introduz a tensão entre os católicos e os “judeus” locais. Não adianta o cura local ensinar-lhes a nova religião, pois “detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”. Os personagens pertencem a uma família conjugal cristã-nova, Isaac, a esposa Lia, mais o filho Abel. Há também, Daniel, irmão de Isaac e o médico Dr. Samuel. Os nomes foram escolhidos por sua carga simbólica, pois são inexistentes na onomástica em Portugal pré-República, mesmo entre descendentes de cristãos-novos. A vítima chama-se Isaac, exatamente como o personagem do “akedá” (amarramento) bíblico, “condenado” a ser sacrificado por seu pai. Abel, que trás o assassino para dentro de casa, tem o nome da primeira vítima humana identificada pela Bíblia. O assassino é nomeado por uma alcunha, Alma-Grande e é identificado como em qualquer texto anti-semita, pelo “nariz adunco”. O enredo é simples, Isaac está moribundo e o Alma-Grande é chamado para abafar o doente, porém... o desfecho não é esperado. O curioso é que este conto vai fertilizar outros autores, assumindo a condição de verdade etnológica, atraindo leitores como Carlos Lacerda e tantos outros, que vão importar e divulgar este episódio para o Brasil (LACERDA, 1977, 19).

O SEPULTAMENTO DO ÚLTIMO CRISTÃO-NOVO


Uma forma de se desfazer esta calúnia é acompanhar a morte e o sepultamento de um descendente de cristão-novo judaizante como foi costume até as primeiras décadas do século XX. Sentir como é a reação familiar ao impacto da perda definitiva de um deles. Pois mesmo sendo um culto reservado, portanto mantido ágrafo, é possível reconstruí-lo através dos depoimentos dos seus protagonistas. Primeiro são esvaziados todos os reservatórios de água armazenada em casa. A justificativa é que o anjo da morte lavou o seu alfanje na água caseira. Depois vem a preparação do morto: são cortadas as suas unhas, aparados os cabelos e lhe dado banho. Estes restos são enrolados num pano ou papel, juntados a uma moeda de prata e um pedaço de pão elas serão as suas testemunhas da última viagem. Ainda sem a presença de estranhos são entoadas pelas mulheres da família algumas orações tiradas de um caderninho centenário, como a oração seguinte:

Ao Vale de Josaphat irás, / um leão encontrarás: / Se te pedir carne, dá-lhe pão; / se te pedir senha, dá-lhe dinheiro; / Se te procurar de que lei és, / Diz-lhe que és da de Moisés. / Que te deixe passar / Livre e desembaraçado / Para onde Deus te deixar, / Para onde Deus te mandar. / Se perguntar quem te compôs, / Diz-lhe que foi uma hebréia / que neste mundo ficou. / Que te fez o que sabia, / Não te fez o que devia.” (MACHADO, 1952, 27)

Depois disto era permitida a entrada de estranhos e quem sabe até do sacerdote católico com os seus ritos funerários. Só então o cadáver era levado para o cemitério. Em Castelo Branco as famílias ricas desta origem fechavam à porta a pedra a cal por onde saiu o féretro. É o que lá se chama de “entaipamento”. Na cidade ainda são apontadas várias destas portas inutilizadas, inclusive em casa de parentes de Fernando Pessoa (1888-1935), o grande poeta nacional (VALADARES, 2004, 97). Os rituais de despedida da alma continuavam no segredo familiar com esmolas, orações e jejuns específicos. Os enlutados não se barbeiam e alguns nem tomam banho durante um mês. É dado a um pobre da comunidade as roupas do morto, para que este ocupe a mesa familiar, com estas roupas, durante uma semana e coma os pratos preferidos do falecido. Todas as quartas e sextas-feiras, durante um ano, é dado esmolas em dinheiro e pão para cultivar a sua memória. As rezadeiras, todas as noites, junto a uma lamparina de óleo desfiam as muitas orações conhecidas por elas, são pedidos e bênçãos até completar o tempo do luto. Os pedidos são indagações do cotidiano e até tragicômicos: “Diz ao Tim-Tim que agora estamos mal, porque já nos morreu a burra Ruça – Pergunta a teu avô onde deixou as “guinchas”: se foi nas Arribas de baixo, ou nas de cima” (MACHADO, 1952, 27).
Muitos destes costumes foram abandonados com a saída dos pequenos centros e a laicização da sociedade promovida pela República. Deste rol de providências espirituais sobreviveram um ou outro costume. Tanto que no sepultamento do Capitão Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961), neto de um cristão-novo de Amarante e que ficou para a História Judaica como o “Guia dos Maranos” (com um erre só), a cerimônia já estava esvaziada de várias etapas do roteiro funerário.


Foi um acto civil apenas, como ele testemunhara ser costume de todos os marranos. Assistiram mais de uma centena de pessoas, entre familiares, conterrâneos, admiradores silenciosos das múltiplas facetas de sua vida infatigável e todos os judeus do Porto, askenazi e marranos. / Terminado o acto, quando os circunstantes se voltavam para sair do cemitério, alguém saiu de entre a multidão e aproximou-se da sepultura fresca de Abraham Israel Ben-Rosh. O imigrante polaco, Srul Finkelstein, apelou para os seus correligionários: “Judeus, aproximai-vos”. / No meio do mais profundo silêncio, gerado pela surpresa dos presentes, rodeado por pouco mais de um minyan de judeus, Samuel Rodrigues pronunciou a oração de “kaddish” (...)” (MEA, 1997, 239-240).

CONCLUSÃO

Os cristãos-novos e seus descendentes, mesmo apartados do Judaísmo rabínico, continuaram a ser vistos e tratados exatamente como os seus ancestrais judeus. O aparato jurídico do Estado presente através da cobrança de impostos especiais (fintas) e o impedimento ao acesso a profissões nobres existentes na administração pública, no Exército e Igreja, até o final do século XVIII, mantiveram esta fração da grande nação portuguesa como uma minoria etnocultural. Esta discriminação legal alimentou e foi alimentada pelos preconceitos difundidos entre a população católica. Já que as justificativas para ela baseava-se em mitos pré-existentes, como o mitema do “blood libel” que acompanhou os judeus por toda a Europa. A “notícia” (sic) da existência dos abafadores foi apenas uma modernização desta falsa acusação e que só prosperou pela incapacidade dos historiadores que trataram do tema separarem a milenar propaganda anti-semita da verdade histórica.