Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A FAMÍLIA ABRAVANEL: UM RAMO DA "DINASTIA DO REI DAVID" NO BRASIL


Quando ao pé do Mar Vermelho os hebreus esperavam o milagre que os levaria a liberdade, Naschshon ben (filho de) Aminadav, o Nassi (Príncipe) da Tribo de Judá e cunhado do Sumo-sacerdote Aarão, foi o primeiro a se lançar as águas, seguido depois por sua tribo, somente quando a água chegou ao pescoço, é que o mar se abriu. É uma façanha e tanto! Porém quem fixou o carisma desta linhagem, que possuía um leão como emblema do clã, foi o seu tetraneto, David b. Yishai, segundo Rei de Israel e autor inspirado de muitos Salmos que estão na Bíblia. Graças a este conjunto de nobres virtudes familiares, judeus e cristãos crêem que o Maschiach (Messias) sairá ou já saiu desta semente. Esta expectativa gerada em volta dos descendentes de David HaMelech permitiram a manutenção de registros escritos e tradições orais identificando os seus descendentes.
No mundo cristão a duas linhagens reais são atribuídas esta origem.
A mais conhecida é a da destronada Casa Real da Etiópia cujo último monarca Hailé Selassié (1892 – 1975), o “Leão da Tribo de Judá”, que se apresentava como 124º descendente de Belkis, a Rainha de Sabá e Salomão, este filho de David. A outra linhagem reinou na Geórgia, são os Bagrationi.
No mundo judaico são muitas famílias que reivindicam esta origem familiar.
A mais documentada delas é a família Dayan, que viveu em Alepo (hoje Síria) até o século XX cujos registros levam sem interrupção até os Exilarcas (Príncipes do Exílio) em Babilônia e daí até o rei David. Há membros desta família vivendo em S. Paulo onde dirigem o Banco Daycoval.
Outro grupo familiar, bem documentado, é o formado pelos descendentes do Rabino Schlomo Yitshak (1040 - 1105), que apesar de não possuir documentação escrita desta origem, sempre foi reputado desta origem. Os descendentes de RASHI são inúmeros.
Há genealogias publicadas sobre esta descendência, onde se destaca gente como Karl Marx (1818 – 1883), o barão David René James de Rothschild (1942) e principalmente os Lubavitchers Rebbes, uma dinastia rabínica cujos seguidores acreditavam que o 7º deles, Rabino Menachem Mendel Schneersohn (1902 – 1994) seria o Maschiach tão esperado.
Os Abravanel apesar de reivindicar a origem davídica não se ligam a nenhuma destas famílias mencionadas. É deles que vamos conhecer a história nos próximos parágrafos.

ORIGENS PRÓXIMAS

A linhagem Abravanel surgiu na Península Ibérica e o primeiro deles a ter destaque foi o Judah Abravanel, de Córdoba e depois de Sevilha, que no final do século XIII, foi tesoureiro e coletor de impostos de Sancho IV e Fernando IV. No século seguinte, Samuel Abravanel foi tesoureiro real de Castela e durante os distúrbios anti-semitas de 1391, converteu-se ao Catolicismo, adotando o nome de Juan Sánchez de Sevilha.
O apelido Abravanel tem várias possibilidades de interpretação, porém o mais aceito é que seja o diminutivo de Abrahão. Apesar da origem ibérica, com a Expulsão eles partiram para outras paragens, e cada nova perseguição, a cada novo endereço ele tomou muitas formas. Eis algumas delas coletadas durante a pesquisa: Abarbanel, Abrabanel, Barabanel, Barbanel, Barbinel, Barbanelsky, Abarbarchuk, etc.
Ele ligou-se de forma tão visceral ao Sefaradismo (Judaísmo Ibérico), que tornou-se sinônimo deste Judaísmo, a ponto do autor anti-semita Álvaro de Brito Pestana (1432? – 1500) usá-lo numa sátira aos criptojudeus portugueses:

Sam marranos os que marram / nossa fé, mui infiéis /bautizados / que na Lei Velhas´amarram / dos negros Abravanéis / doutrinados

O missionário protestante inglês George Borrow (1803 – 1881), um dos primeiros a registrar a presença de cristãos-novos judaizantes em terras ibéricas, a duas léguas de Talavera de la Reina na Espanha encontrou um misterioso cristão-novo que disse chamar-se Abarbanel.
Porém a figura mais destacada desta família é Isaac, filho de Judá Abravanel, nascido em Lisboa e falecido em Veneza (1437 – 1508). Ele foi um hábil financista, ministro do rei português Afonso V, fornecedor das tropas castelhanas que venceram Granada. Foi um filósofo que comentou a Bíblia com grande sucesso, onde combinava o racionalismo filosófico com a ortodoxia cabalística.

PRIMEIRO ABRAVANEL NO BRASIL

O primeiro Abravanel a viver no Brasil foi um personagem graúdo: David Abrabanel, que chamou-se Manuel Martinez Dormido como cristão-novo na Espanha, onde teria sido tesoureiro real. Em 1632 ele fugiu para Bordéus e dali para Amsterdã onde fixou-se residência integrando-se a comunidade judaica local. Os seus filhos, Daniel (ou Luís) e Salomão (Antonio) Abrabanel Dormido negociaram no Recife- holandês. Entre os parentes próximos estava o rabino Manasseh Ben Israel (1604-1657), nascido na Ilha da Madeira, cuja esposa seria bisneta do grande Isaac Abravanel.
Aqui talvez esteja a solução de um problema genealógico que vem até os nossos dias, a identidade verdadeira do filho de Judah Abravanel, o Leone Ebreo, seqüestrado pelo rei português como uma vingança aos Abravanéis que tantos serviços prestaram ao rei anterior e que se meteram numa das lutas palacianas. Filho desaparecido chorado plangentemente no poema “Telunah” (Lamentação contra o tempo):

“(...) e foi raptado aquele que era as delícias da minha alma / e foi mudado o seu nome bom que é o mesmo da rocha de minha origem (...)”.

São duas as hipóteses. A primeira delas e também a mais aceita é que este filho, chamado no poema de Isaac, seria depois o pai de Judá o fundador do ramo salonicense. Alguns estudiosos portugueses, como o capitão Barros Basto, defendiam que Isaac seria o poeta Bernardim Ribeiro (1482? – 1552?), autor do livro Menina e Moça, uma espécie de livro cifrado onde se biografa coletivamente os cristãos-novos portugueses. Fica o registro.
Outra hipótese que lanço começa com a pergunta:
Se Rachel Abravanel, esposa do rabino Menasseh Ben Israel foi bisneta do grande Isaac Abravanel, quem foi o seu avô paterno?
Sabendo-se que ela era filha do médico Joseph Abravanel, chamado anteriormente como Luís Gomes de Medeiros, quando vivia em Guimarães, Portugal. As possibilidades dela entroncar-se na vetusta árvore davídica são de duas formas: uma através de Yossef b. Schmuel e outra através do Leone Ebreo e seu filho raptado.
Os Abravanel holandeses ainda registram outros ramos, um deles que também passou a Inglaterra como os anteriores, tendo como descendente mais importante David Abarbanel Lindo (1772-1852), o mohel que circuncidou a Benjamin Disraeli, de quem era aparentado, pois era casado com uma tia do futuro ministro inglês. A filha de David, Abigail Lindo (1803-1848) foi uma hebraísta de altos méritos.
Além destas famílias há também outro ramo inglês, vindo da Europa central e que descendem de um líder da comunidade judaica de Praga chamado Trietsch. Pertence a esta linhagem, o Barão Barnett of Liverpool (e seu filho, Dr. Lionel David Barnett, 1871-1960, Curador do Department of Oriental Printed Books and Manuscripts, do Museu Britânico e o neto, Richard David Barnett, 1909-1986, Presidente da Jewish Historical Society).

SALONICA

Salonica é uma bela cidade grega e um porto importante que pertenceu ao Império Otomano. Muitos judeus expulsos de Espanha e Portugal foram para aquela cidade. O que vai atrair anos depois cristãos-novos que conseguiam escapar dos terrores inquisitoriais. No começo do século vinte metade de sua população era de origem judaica, fundamentalmente sefardita (de origem ibérica). Havia muitos Abravanel em Salonica, tanto ricos, como Jacques Joseph Abravanel (1906-1993), diretor do Banco Otomano e da Ford turca, que tinha nacionalidade portuguesa; médios e pobres. Todos se consideravam parentes, apesar de não saber precisar o grau de parentesco entre eles. A frase era dita em ladino: “Basta mi nombre que es Abravanel”.
Em 1913, um deles, Don (eles faziam questão do tratamento espanhol) Sabetai Haim David Abravanel consultou o Grão-rabino Jacob Meir (1856 – 1939) que afirmou ser um Judah Abravanel o primeiro Abravanel na cidade, mas ... neto de Judah Abravanel, o Leone Ebreo e de Samuel Abravanel, que teria sido o primeiro a viver na cidade, onde estudava com o Rabino Joseph Fasi, que tinha sido aluno do rabino Yitshak Aboab em Castela.
A crise que levou a queda do Império Otomano foi um dos motivos para a saída dos judeus locais. Muitos migraram para a França ou para as Américas. Os filhos de Doundon Bendavid e Senor Abram Abravanel seguiram o padrão, a filha Sara casou-se com um americano e estabeleceu-se nos EUA e o filho Alberto foi para França daí para o Rio de Janeiro, onde casou-se com uma izmirlia (natural de Esmirna) Rebeca Caro e tiveram seis filhos.
O mais famoso deles, Senor, mesmo nome do avô paterno conforme a tradição sefardita, com o nome Silvio Santos construiu uma brilhante carreira de entertainer e gênio financeiro, administrando várias loterias criadas a partir do seu talento como locutor e apresentador de TV, transformando uma delas, o Baú da Felicidade num grupo empresarial controlador de emissoras de TVs, banco (Panamericano), seguradora, lojas de varejo, dentre tanto outros empreendimentos que lhe dão a posição de oitava fortuna brasileira, algo em torno de um bilhão e meio de dólares.


AONDE LEVASSE O VENTO...”

O grande Isaac Abravanel narrando a expulsão dos judeus das terras espanholas escreveu que eles saíram e caminharam para “aonde levasse o vento” tal a insegurança e incerteza de acolhimento destes refugiados. Examinado a genealogia e biografia destas Abravanel temos a confirmação desta assertiva, pois eles aparecem nos lugares mais insólitos. Numa conferencia de Yitzhak Navon, ex-presidente de Israel, foi apresentado um piloto israelense, descendente de um Abravanel francês que acompanhou o exército napoleônico e ficou em Kovno na Lituânia. Mas ele não é o único ramo do mundo ashkenase (oriundo da Europa não-ibérica), pois consultando o Beider eles são encontrados em Orsha, Kiev, Tiraspol, Vinnitsa, Siedlce, Wlodawa, Pulawy e Varsóvia. Assim não é inverossímil a reivindicação da ascendência aos Abravanel feita tanto por Boris Pasternak (1890 – 1960), autor do romance Doutor Jivago e premiado com o Premio Nobel de Literatura (1958), quanto pelo escritor sionista Max Nordau (1849 – 1923), que inclusive usava o brasão dos Abravanel.


CONCLUSÃO

Toda genealogia é uma obra aberta pronta receber novas colaborações. No caso deste trabalho em vários momentos ela é uma hipótese de genealogia, indicativo do que já temos e onde podemos chegar. Por maior que tenha sido o nosso esforço não conseguimos completá-la. Agradeço a Freddy Abravanel de Atenas pelos contatos fornecidos, a Allan R. Abravanel, editor do boletim The Abravanel Family Newsletter de Portland, Leon Abravanel Jr. de S. Paulo e principalmente ao Coronel Harry Edward Stein de Tucson, que forneceu a conexão entre o ramo brasileiro e seus primos americanos.

BIBLIOGRAFIA

BEIDER, Alexander.
BENAYAHU, Meir. “The House of Abravanel in Saloniki”. Em: Sefunot. Annual for Research on the Jewish Communities in the East. Volume 12. Jerusalem; Ben-Zvi Institute for Research on the Jewish Communities in the East, 1971-8.
DAYAN, Mitchell. “Dayan Family of Aleppo: Direct Descendants of King David”. Em: AVOTAYNU, volume XX, number 2, summer 2004, pp. 31-7.
DINES, Alberto. O baú de Abravanel. Uma crônica de sete séculos até Silvio Santos. S. Paulo: Cia das Letras, 1990.
EINSIEDLER, David. “Descent From King David – Part II”. Em: AVOTAYNU, volume IX, number 2, summer 1993, pp. 34-6.
GRIFFI, Filena Patroni. “Documenti Inediti Sulle Attivitá Economiche Degli Abravanel in Itália Meridionale (1492-1543)”. Em: La Rassegna Mensile de Israel, vol. LXIII, nº 2, maggio-agosto 1997.
SILVA, Arlindo. A fantástica história de Silvio Santos. S. Paulo: Editora do Brasil, 2000.
SILVA, Arlindo. A vida espetacular de Silvio Santos. S. Paulo: L. Oren Editora, 1972.
THE ABRAVANEL FAMILY NEWSLETTER, Portland, Oregon, (november 1987 – june 1998).

7 comentários:

  1. gostaria de saber mais sobre os descendentes de Davi!

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  2. Olá gostaria de compartilhar com vcs uma informação interessante, que parece um mistério...
    Em um site de ancestrais americano:
    http://www.rootsweb.ancestry.com/~pacambr2/WHHS/WHHS6301.html

    o primeiro é:Asher Don Abravanel
    muiiiito parecido com o "leo santos":
    http://2.bp.blogspot.com/-xzhS0P4X8pU/T96D0pMLt2I/AAAAAAAAChE/7sWXHOReIA4/s400/leonab.jpg

    Seria a mesma pessoa?
    ou parentes?





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  3. lembrando, don teria sido o nome de silvio, que ao inves de senor seria don!!!

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  4. lembrando, don teria sido o nome de silvio, que ao inves de senor seria don!!!

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  5. Olá gostaria de compartilhar com vcs uma informação interessante, que parece um mistério...
    Em um site de ancestrais americano:
    http://www.rootsweb.ancestry.com/~pacambr2/WHHS/WHHS6301.html

    o primeiro é:Asher Don Abravanel
    muiiiito parecido com o "leo santos":
    http://2.bp.blogspot.com/-xzhS0P4X8pU/T96D0pMLt2I/AAAAAAAAChE/7sWXHOReIA4/s400/leonab.jpg

    Seria a mesma pessoa?
    ou parentes?





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