Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Os Irmãos Karamabloch. Ascensão e queda de um império familiar



"Os Irmãos Karamabloch. Ascensão e queda de um império familiar" (S. Paulo: Companhia das Letras, 2008), de Arnaldo Bloch.
Adolpho Bloch foi um extraordinário empresário brasileiro. O seu empreendimento mais visível foi a revista semanal e a emissora de televisão Manchete. Expoente de uma família patriarcal giraram em sua volta inúmeros parentes, contra-parentes, agregados e empregados. Ele deixou um livro de memórias onde não explicou muito quem foi, porém ajuda a manter o seu dramatis persona que utilizou na vida empresarial, o schlimazel, o coitadinho sem sorte das aldeias judaicas da Europa Oriental. Agora o seu sobrinho-neto, o repórter de O Globo e autor de outros livros, Arnaldo Bloch, nos traz "Os irmãos Karamabloch. Ascensão e queda de um império familiar" (S. Paulo: Companhia das Letras, 339 páginas) sobre as relações familiares do clã Bloch, que tem figuras como o teatrólogo Pedro e os atores Jonas e Débora Bloch, além do já citado Adolpho.
Os Bloch são um clã judaico originário de Jitomir na Ucrânia, descendentes do empresário gráfico Joseph P. Bloch (1869-1953), de seus irmãos e irmãs, que vieram para o Brasil em 1922, logo depois da revolução comunista. O sobrenome Bloch é segundo o onomasta Alexander Beider, de origem polonesa, e significa "italiano". Isto pode ajudar a recuperar as deambulações anteriores desta linhagem.
O livro traz a história dos Bloch nos últimos duzentos anos. O autor utiliza recursos de romancista e também a sua experiência de repórter para reconstruir todo este passado distante e próximo da melhor forma possível. Em alguns momentos se aproxima muito do realismo mágico: Onde colocar as cabeças degoladas que falam ou mesmo o primo que desce escadas com cédulas de cinqüenta dólares envoltas no membro para seduzir as secretárias? Como se percebe ele escarafuncha e expõe com muita franqueza os armários familiares. Não se deve esquecer que ele é neto de um "Karamabloch" (sic) e foi por algum tempo o pretendente a delfim do reino Manchete. O resultado deste trabalho é muito agradável para a leitura.
Estas memórias autobiográficas começam com os seus ancestrais aldeões, porém o fio condutor de toda história é Adolpho Bloch (1908-1995) e suas relações conflituosas com os irmãos Boris (1905-1959) e Arnaldo Bloch (1906-1957), daí os Irmãos Karamabloch, apelido dado pelo jornalista Otto Lara Rezende (1922-1992), aos contendentes e também seus patrões. Longe dos atormentados russos dostoievisquianos, estes não brigavam por maldade intrínseca, mas como novos "Três Patetas" que perderam ou não adquiriram a linguagem oral. Jogar um lustre no irmão era uma forma de dizer não e subir na móvel hierarquia fraterna encontrada por eles.
Há uma passagem lindíssima que marca o começo do futuro patriarca. É a descrição do seu inusitado bar-mitzvá, cerimônia que marca a maioridade do menino judeu aos 13 anos, feito durante a evasão da União Soviética, na Turquia:

"Adolpho, que de hebraico nada sabe, ouve a história com respeitosa ignorância, enquanto lá atrás, Moisés se despede do povo sem pisar em Canaã, e, lá na frente, Joseph e os seus aguardam a hora de partir rumo a uma outra terra de promissões, e de promissórias" (p. 87).

Nesta única frase, Arnaldo Bloch relembra um dos mitos fundadores do povo hebreu que propositadamente se confunde com o do clã Manchete. Ele cita a parashá, texto bíblico lido naquele dia que fala da entrada do Povo de Israel em Canaã, sem o seu chefe, a falta de instrução religiosa do menino e o clã que o espera, para um dia redimi-los, nem que fosse a punho de muitas promissórias. A partir deste momento é a narração de como foi construído o seu reino no mundo tropical. Como o autor é bem humorado, isto é uma de suas estratégias para driblar os perigos de tal narrativa: "ao escrever, procurei guardar ânimo crítico e humor suficientes para fugir ao laudatório. e a admiração bastante para não cair na vã maledicência" (p. 9), corre-se o risco de subestimar a capacidade empreendedora de Adolpho Bloch.
Não se deve esquecer que num país onde se desperdiça gente, imagine quantas famílias ele alimentou e deu futuro decente, colocando-os como personagens mesmo que incidentais de seus sonhos. Alguém cuja estratégia empresarial foi provocar o acaso e explorá-lo com total ousadia. Ele não tinha um projeto para fazer uma revista e fez a Manchete. Ele não tinha um projeto para erguer uma emissora de televisão, mas fez. E assim sucessivamente em outros momentos de sua vida. Foi um pós-capitalista metafísico gestado pela esperteza em sobreviver no gueto e no coletivismo soviético. Não foi preciso moeda física para construir o seu reino: "meu problema é arrumar dinheiro para comprar estampilhas para as promissórias" (p. 204).
Mesmo com todo o sucesso que o clã Bloch conseguiu, eles continuaram angustiados, como se fossem herdeiros de Jó e a qualquer momento perderiam tudo. Percebe-se pela leitura do livro que os anos em que a família permaneceu em Jitomir entre a revolução de outubro até a evasão da pátria madrasta, ficou como o timbre espiritual desta geração. O relógio parou para os irmãos Karamabloch, que não superaram estes anos, restando a angústia de perder tudo de uma hora para outra. Eles que se salvaram por acaso estatístico, passam a buscar o conforto no jogo de azar e no sexo, sempre retornando a velha angústia, até nos momentos de sucesso familiar:

"Sem piedade, Bóris aproveitou a crise para acordar o Zeide aos socos na porta.
"Teu filhinho vai nos levar ao fosso!"
Já vinha, desde a ascensão nazista na Europa, cuidando sistematicamente de instalar o pânico no coração do patriarca.
"O governo vai tomar tudo pápe!"
Já era 1942, mas ainda estavam frescas as cicatrizes da aproximação entre Vargas, e todos se viam muito preocupados. Mina, que se mudara com Auffsey da casa em Copacabana para um sobrado no Flamengo, ligava todo dia.
"Estão mandando matar judeus no Catete!"
(...)" (p. 148/9).

Ou:

"Quando tudo acabar, vamos sentar aqui, puxar os pedestres pela camisa e dizer: Senhor! senhor! um dia isto foi meu!" (Arnaldo ao irmão Adolpho vendo o prédio que tinham construído, p. 22).

Um dia tudo acabou mesmo. Restou o livro desta "grande aventura" (p.9), como definiu o autor. As poucas ressalvas que podem ser feitas ao livro são a sonegação das datas vitais - nascimento e morte dos seus personagens e lá pelo meio, afirmar-se que os Bentes remontam ao "século do descobrimento" (p. 262). Não, eles chegaram por aqui no final do Segundo Império. Mas isto não é nada em relação ao prazer e volume de informações que ele trouxe sobre este notável clã Bloch que tanto enriquece o nosso país.

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