Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

MALÊS: TUDO ACABOU EM SAMBA

Há tempos li um artigo de Luis Carlos Lisboa onde ele lembrava um xeque muçulmano carioca, ao que parece um modesto quitandeiro, mestre Adriano, que era consultado por gente que vinha de muito longe para ouvi-lo. O personagem singular despertou minha atenção, pois o Islamismo só passou a ter importância no Brasil partir de 1980. Assim eu comecei a reunir material sobre o tema, o suficiente para descobrir os Malês brasileiros e sua bela, mas quase ignorada história.

Os Malês foram africanos, oriundos da região sudanesa, que chegaram ao Brasil no começo do século XIX, como escravos vendidos ao serem derrotados em guerras por motivos religiosos. São muçulmanos e que tudo indica, ligados ao Sufismo, iniciados na Fraternidade Qadirya. Aqui eles tiveram que converter-se ao Catolicismo Romano, porém muitos continuaram ocultamente a manter a antiga crença, pois em 1835 articularam uma revolta contra os seus senhores, tendo como objetivo estabelecer um califado islâmico na Bahia.

O historiador João José Reis tem um livro sobre o episódio: Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835 (2003), que vale a pena ser lido.

O curioso foi descobrir posteriormente que os Malês não se acabaram com a repressão ao seu levante, apenas se tornaram mais discretos e mesmo perdendo bastante de sua identidade, mantiveram alguns elementos essenciais de sua cultura. Sobraram algumas regras alimentares, regras, um pouco do idioma árabe, suficiente para uma inscrição na lápide fúnebre ou compreensão do Alcorão. Uma livraria carioca chegou a vender cem exemplares manuscritos do Livro por ano no século XIX. A cada jovem que terminava o seu estudo fazia-se uma festa discreta no subúrbio, onde o homenageado desfilava num cavalo enfeitado. No começo do século XX ainda viviam estes seres de vida dupla: católicos em público e Malês na vida privada.

Há uma fotografia tirada em 1942 na cidade de Salvador, publicada no livro Notas sobre negros malês na Bahia (1987), de Antonio Monteiro que mostra alguns destes remanescentes, irmãos devotos na Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário no Pelourinho, mas que também compartilhavam o segredo ancestral. São os carpinteiros Tibúrcio Luís Souto (1873-1955) e José Maria Mendonça, ambos ex-priores da Irmandade e o pedreiro Manoel do Nascimento Santos Silva, conhecido como Gibirilo (deformação de Gibrail, Gabriel).

Já no Rio de Janeiro onde muitos pousaram fugidos da repressão à revolta Malê, eles se misturaram a outros grupos negros, de formação animista, desaparecendo entre eles. Restou apenas destes personagens um samba de Aniceto do Império (Aniceto de Menezes e Silva Junior, 1912-1993):

Assumano, Alabá, Abaca, Tio Sani / E Abedé me batizaram na lei de Mussurumi / Como vêem tenho o corpo cruzado e fechado / Carrego axé na língua, não morro envenenado / Viajei semana e meia daqui pro Rio Jordão / Lugar em que fui batizado com uma vela em cada mão / Cinco macota d´Angola me prepararam de berço / Enquanto Hilário Jovino me cruzou com sete terços / Mesmo assim, me considero um insigne mirim / Filho de cuemba não cai Ogum, Xangô, Alafim”.

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