Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A COSTELA JUDAICA DE SALAZAR

António de Oliveira Salazar, que sob o título de Presidente do Conselho de Ministros dirigiu Portugal entre 1932 e 1968, nasceu em Vimieiro, Santa Comba Dão e morreu em Lisboa (1889-1970). Era filho de António d´Oliveira e Maria do Resgate, neto paterno de Manuel d´Oliveira e Teresa Paes d´Andrade, neto materno de José de Lemos Salazar e Felicidade Violante da Trindade. São ancestrais de origem camponesa, sobressaindo-se apenas o seu trisavô materno, o capitão João de Lemos Salazar e Abreu (Santa Comba Dão, 1728 – Tondela, 1754).

O celibatário Salazar teve formação jesuítica e governou aliado a Igreja, tanto que os seus adversários apelidaram-no de “fradalhão de Santa Comba Dão”. Mesmo assim ele foi sempre reconhecido como tendo origem judaica. Vários autores escreveram sobre esta possível origem. Para João Paulo Freire ele seria “judeu cristão-novo por dupla costela: paterna pelos Salazares de Castela e materna pelos Oliveiras da Beira”. Mascarenhas Barreto analisando a influência hebraica na heráldica ibérica destacou no escudo dos “cristãos-novos Salazar (de Castela-Vieja)”, a imagem do braço, que seria a representação de umme lamed.

Na Biblioteca Nacional de Lisboa há um manuscrito de três páginas chamado “A vera genealogia do ditador Salazar: copiada de um papel intitulado Inquérito genealógico à cristãonovice, concubinato e outros defeitos de sangue na ascendência de Salazar”, assinado pelo genealogista Luis de Bivar Guerra (1904-1979) e copiado por José Campos e Sousa, escrito em 1947. O manuscrito é mais um “tição’ da vida portuguesa. Ele foi escrito para inabilitar politicamente o personagem central levantando a sua bastardia e origem judaica. O paradoxal é que o autor Bivar Guerra, além da ascendência cristã-nova, sempre escreveu em prol desta minoria etnocultural.

O documento identificou como sendo de origem judaica alguns ramos da árvore genealógica de Salazar. O principal deles é o de sua sexta avó por linha materna, Catarina Salazar, natural de Coimbra, ali residente na rua Corpo de Deus, na freguesia de São Tiago. Ela que viveu no século XVII, era filha de um padre e de uma cristã-nova. No manuscrito há a seguinte observação:

Havia no Porto uma família de x.x.n.n. de apelido Lopes e por alcunha os Crespos os quais tinham os seus parentes em Castela, x.x.n.n. também, do mesmo apelido e que eram alcunhadas de Salazares. É muito provável que esta mulher, mãe de Catarina, seja desta gente”

Bivar Guerra nomeia ainda como cristãos-novos os seus ancestrais paternos, os Andrades, originários da freguesia da Tábua. “Os Andrades do Distrito da Guarda são quase todos x.n. e em Carniçaes era todos, sem excepção”. Outra família cristã-nova, já por nossa identificação, é dos Gaspar, que chegou a participar da “Obra do resgate”, liderada pelo capitão Barros Basto (1887-1961), nas décadas de vinte e trinta.

O próprio Salazar conhecia esta origem. Na década de cinqüenta, recebendo o empresário e rabino americano de origem sefardita, Albert Jean Amateau (1889-1996), lhe falou desta origem cristã-nova de forma enfática:

He pulled up the sleeve of his jacket and shirt, pointed to his bare arm, saying through the arteries flows the blood of my Jewish ancestors” (in From my Portuguese Diary, 08/10/1955).

Um pouco antes deste encontro, funcionou em Lisboa, uma sinagoga como minian (quorum religioso) de ascendência conversa, a Kehilat Israel Bené Anussim Belisboa (Comunidade Judeo-marana de Lisboa), onde Salazar era o patrono. Além de conhecedor desta origem Salazar possuía traços psicológicos de um verdadeiro cristão-novo. Basta ouvir o que ele disse para justificar o seu comportamento reservado.

pessoas que desconhecem que pode haver na alma dos outros coisas inolvidáveis e sagradas, que a gente esconde cuidadosamente das vistas dos tolos e dos maus, porque não podem compreende-las nem são capazes de senti-las

Apesar disto tudo, Salazar não era judeu, nem cristão-novo, mas como muitos portugueses, tanto a Esquerda, quanto a Direita, possuía a sua costela judaica.

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