Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A CAMELA QUE NÃO VIU O MAR

Convidado por Alpedrinha para ver uma tal “dança da abelha” na noite de Beirute, recusei polidamente, com a desculpa do excesso de consumo do charuto de repolho e sozinho fui ouvir Abdelrahman, o Califa de Fez, o Rouxinol do Magreb, o melhor interprete do cancioneiro do norte da áfrica (não confundi-lo com os cantores de Raí, como Cheb Khaled).
Lá chegando e quando as luzes se acenderam, tomou posse do palco um rapaz moreno de pele azeitonada, cabelos pretos, vestido á ocidental como um policial a paisana ou um cigano feliz; camisa colorida, uma profusão de azuis, amarelos e vermelhos, um relógio japonês de aço inoxidável no pulso que ele chacoalhava a toda hora, quando então voltava a arregaçar a manga da camisa. A sua frente uma típica orquestra árabe.
Música árabe, ou você gosta ou odeia. Eu gosto. Assim passei a ouvir os floreados de Abdelrahman, parábolas e as “folhas secas” vocais, serras e planícies. Durante uma hora e meia ele encantou a platéia com um repertório que falava diretamente ao coração. Porém de todas as canções, uma delas ficou no meu ouvido, a da “camela que não viu o mar” e que Koriscosso verteu do árabe para o francês, e eu do francês para o português. Evidente que nestas passagens, ela perdeu as aliterações, os trocadilhos, as vogais alongadas no final. Mas ficou o sentido.
Eis o poema cantado por Abdelrahman, apenas as palavras, sem os desenhos vocais do cantor, um autêntico “muxarabe’, que na sua simplicidaderetrata o ethos árabe.

Ela esteve em muitas caravanas,
Que percorreram muitas
Rotas de viagem.
Da Rota da seda chegou a Lahore,
Em busca do mar.
Ela dormiu no armazém de Fusfus,
Quando esteve em Alepo,
Mas lá não viu o mar.
O sol lhe feriu os olhos em Damasco,
Mas lá não viu o mar.
Com a caravana de Habib
Atravessou as seteiras de Jerusalém,
Mas lá não viu o mar.
No Ramadã chegou a Meca,
Onde fez a peregrinação,
Mas lá não viu o mar.
Sua sorte pareceu mudar,
Quando seu dono
Alistou-se no exército de Tarik,
Porém na viagem ela morreu de fadiga,
E não viu o mar.

Lá fora, o luar branco de Beirute escorria como mais fino ioguste turco, enquanto eu acreditava que tinha encontrado assunto para mais um artigo a ser escrito para o “The Sentinel of Punjab”.

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