Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 13 de novembro de 2010

ALCEU VALENÇA: A LUZ QUE INCENDEIA O SEU OFÍCIO

Isaac de Valença, “natural do Porto, da idade de 35 anos”, foi um judeu que viveu em Pernambuco durante a ocupação holandesa e com a expulsão tornou-se credor da Coroa Portuguesa em 2509 florins. Já um seu parente, Estevão de Valença não teve muita sorte com a Inquisição, pois quando preso em 1729, ela lhe tomou os poucos bens que possuía: “três cavalos, um castanho e dois ruços que valeriam quinze mil réis cada um, uma espada com punho de prata, que tinha custado dez mil réis, uma espingarda que valeria cinco mil réis, uma sela bastarda com estribos de latão e um freio que tudo valeria doze mil réis e que tinha a roupa de seu uso e era pouca e a trouxe consigo”. Ele era natural e residente no Engenho Velho, termo da cidade da Paraíba. No auto-da-fé em que se seguiu a sua condenação a “cárcere e hábito perpétuo” em 17 de junho de 1731, ele foi acompanhado por duas mulheres de seu clã: Guiomar e Maria de Valença.
Passaram as gerações da perseguição inquisitorial e nasceu na mesma zona fisiográfica, dentre outros, Alceu Paiva Valença a 1º de julho de 1946, que apesar da distância temporal dos patriarcas ainda prosseguiam, nas palavras de Alceu:

“(...) no itinerário típico dos cristãos-novos: se estabeleceram num canto, casavam entre eles, tinham seu próprio jornal e viviam da atividade pastoril numa espécie de clã em S. Bento do Uma. E para o interior, culturalmente eram muito avançados, evoluídos. Mas era difícil conviver com outras comunidades (...)”.

A primeira Câmara instalada em S. Bento do Una (1860), de sete vereadores, dois são Valença e entre 1925 e 1968, nove Valença tiveram onze mandatos de prefeito da cidade.
Por esse medo do conflito a cultura cristã-nova buscou refúgio na agrafia e teve que sobreviver no mundo oral. A música foi uma desta formas de sobrevivência, através de sua estética e em alguns casos até temática. Para Alceu esta origem semítica é clara:

“(...) lá ficou esta marca, das violas (imita a melopéia mourisca), das rabecas que cantam, que tocam parecido (...).

Ouvindo estes sons através desta educação popular é que:

“(...) foi formada por estas pessoas do povo mesmo, na forma anônima também, na medida que conhecia Mário Jacó (...)”.

A personalidade artística de Alceu Valença que viria compor a obra de arte mais importante desta cultura cristã-nova, a canção messiãnica “Anunciação”.
“Anunciação” é a segunda música do lado A do LP “Anjo Avesso” (Ariola, 1983), onde Alceu se propõe a compor um auto retratando “ a cidade de Olinda com o seu mistério, sua magia, suas manifestações culturais e musicais”. Tudo nela pulsa o marranismo, a começar pelo título, além de identificar a origem do autor, ele reafirma a crença na vida do messias ou como traduz a sua biógrafa Anamélia Maciel “esperança na vinda de um libertador”. É o mesmo nome da capela proibida de Mosén Rubi em Ávila, Igreja de Nuestra Señora de la Anunciación e que servia para identificar as origens etnosociais de seu patrono, levando a inquisição a interditá-la (v. neste sítio esta história).
Como na família de Mosén Rubí, a casa senhorial da Fazenda Riachão pertencente aos Valença tem no alto da porta, como marca, dois triângulos sobrepostos, abertos na base, que tanto pode ser a Estrela de David ou os compassos dos pedreiros livres (Maçons). Assim também e a “Anunciação” de Alceu Valença que nela “anuncia” a chegada de um messias, que poderá redimir o Mundo. É uma canção que traz claramente os ecos do Oriente, tanto na música, quanto na letra, cujo poema transcrevo.

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro / Tu vens chegando para brincar no meu quintal. / No teu cavalo peito nu cabelo ao vento / E o sol quarando nossas roupas no varal / Tu vens, tu vens / Eu já escuto os teus sinais /A voz do anjo sussurou no meu ouvido / e eu não duvido já escuto os teus sinais / Que tu virias numa manhã de domingo / Eu te anuncio nos sinos das catedrais

Como um tabelião em final de lavratura, nada mais a acrescentar. Ouçam não só a “Anunciação’, mas todo o trabalho musical de Alceu Valença, pois ele é um dos mais importantes criadores do mundo ibérico-contemporâneo e além do mais, um dos nossos, pois das fogueiras inquisitoriais é que saiu a luz que incendiou o seu ofício.

BIBLIOGRAFIA:

DINIZ, Henrique e KOIFMAN, Henrique. “Alceu Valença. Um ateu comovido em busca de fé”. Em: ELE ELA nº 254, agosto de 1990.
FARO, Fernando. “Ensaio – Alceu Valença”. Programa de TV, TV Cultura, Canal 2, visto em S. Paulo 08/12/1990.
MACIEL, Anamelia. Alceu Valença em frente e verso. Recife: edição do autor, 1989.
NOVINSKY, Anita. Inquisição. Inventários de bens confiscados a cristãos-novos. Fontes para a história de Portugal e do Brasil. Brasil, século XVIII, 1976.

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