Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

OBITUÁRIO: RASHID M. KAPLANOV (1949 - 2007)) e PAUL ARMONY (1932 - 2008)


O ofício de genealogista tem me dado oportunidade de conhecer gente extraordinária, que eu não teria a mínima chance de conhece-las, se não o fosse. Pelo meu interesse em genealogia dos descendentes de cristãos-novos consegui estabelecer uma rede de relações muito ampla. Foi assim que conheci o historiador russo Dr. Kaplanov e também o engenheiro argentino Paul Armony. Kaplanov por causa do médico beirão Ribeiro Sanches (1699-1783), que viveu na Rússia por mais de vinte anos, onde foi médico de Catarina a Grande, e no qual o estudioso russo era especialista e considerava "o primeiro intelectual judeu na Russia". Já Armony, como editor de um revista de genealogia judaica na Argentina, Toldot, pediu-me artigos sobre o tema que eu pesquisava e assim trocávamos experiências. O moscovita Rashid Muradovich Kaplanov (19/01/1949 - 27/11/2007), neto de um príncipe descendente de Maomé (Rashid Khan), mas de família judia e presidente da European Association of Jewish Studies, veio a S. Paulo em agosto de 1998, a convite da Federação Israelita do Estado de S. Paulo para fazer uma conferência na Folha de S. Paulo e aproveitou para visitar a SGJ/Br (antigo nome do Núcleo de Genealogia do AHJB). Ele falava 36 línguas, entre elas o português (e sua variante, o mirandês). Aqui ele conversou com Guilherme Faiguenboim, que me passou o seu endereço eletrônico e assim durante algum tempo troquei mensagens eletrônicas com ele sobre nossa interesse comum, o Ribeiro Sanches. A correspondência cessou algum tempo depois, mas, creio que com proveito para ambos.
Com Paul Armony (1932- 24/10/2008), fundador e presidente da Asociación de Genealogía Judía de la Argentina, a relação foi mais longa. Além dos artigos que publiquei na sua revista, trocávamos informações sobre genealogia judaica e principalmente sobre os cemitérios judaicos argentinos. Ele indicava a mim consulentes que procuravam informações no Brasil e eu fazia o mesmo para o lado argentino. Foi numa destas trocas de consultas que encontrei o descendente de um figurão da Zwi Migdal, que nos trouxe informações novas sobre o tema.Pesquisando na WEB encontrei a notícia da morte de ambos. Kaplanov em 2007 e Armony em 2008. Sei que é um pouco tarde. Mas em homenagem a eles o Núcleo de Genealogia do AHJB recorda os dois pesquisadores com saudade.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A LISTA DE RAJA GABAGLIA (JUDEUS NO COLÉGIO PEDRO II, RJ, 1940)

A LISTA DE RAJA GABAGLIA (JUDEUS NO COLÉGIO PEDRO II, RJ, 1940), pp. 6-7.
SCHNEERSOHN: ASCENDÊNCIA PORTUGUESA NUMA DINASTIA CHASSÍDICA, pp. 11-4.
(OS DOIS ARTIGOS NÃO ESTÃO REVISADOS)

Artigo publicado no boletim GERAÇÕES / BRASIL, Sociedade Genealógica Judaica do Brasil, fevereiro 2004 (não foi publicado)
http://www.ahjb.com.br/pdf/jornal_feb04.pdf

O MISTÉRIO DO PADRE SANCTOS SARAIVA, UM "JUDAIZANTE" NA CORTE DE D. PEDRO II

O MISTÉRIO DO PADRE SANCTOS SARAIVA, UM ‘JUDAIZANTE’ NA CORTE DE D. PEDRO II, pp. 7-10.
AMÍLCAR PAULO (1929-1983), P. 23.

Artigos publicados no boletim GERAÇÕES / BRASIL, Sociedade Genealógica Judaica do Brasil, Junho 2001.
http://www.ahjb.com.br/pdf/jornal_jun01.pdf

UM LIVRO COM A CARA DO BRASIL - DICIONÁRIO DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS

UM DESCENDENTE ILUSTRE DE BRANCA DIAS: CIRO GOMES, pp. 12-13.
UM LIVRO COM A CARA DO BRASIL – DICIONÁRIO DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS, de Carlos Eduardo Barata e Cunha Bueno, pp. 16-7.

Artigos publicados no boletim GERAÇÕES / BRASIL, Sociedade Genealógica Judaica do Brasil, Maio 2000
http://www.ahjb.com.br/pdf/jornal_may00.pdf

UMA TEIA FAMILIAR: CRISTÃOS-NOVOS PORTUGUESES NOBILITADOS NO SÉCULO PASSADO

UMA TEIA FAMILIAR: CRISTÃOS-NOVOS PORTUGUESES NOBILITADOS NO SÉCULO PASSADO, pp. 6-11.
O CAPITÃO ARTUR ELIAS DA COSTA (1894-1956), p. 16.

Artigos publicados no boletim GERAÇÕES / BRASIL, Sociedade Genealógica Judaica do Brasil, Maio 1999
http://www.ahjb.com.br/pdf/jornal_may99.pdf

OS MESQUITAS DE CAMPINAS E S. PAULO - DINASTIA CENTENÁRIA DE JORNALISTAS (1891-1997)

OS MESQUITAS DE CAMPINAS E S. PAULO – DINASTIA CENTENÁRIA DE JORNALISTAS (1891-1997), pp. 4-10.

Artigo publicado no boletim GERAÇÕES / BRASIL, Sociedade Genealógica Judaica do Brasil, Junho 1998
http://www.ahjb.com.br/pdf/jornal_jan98.pdf

D. PEDRO II, LUÍS DE BIVAR GUERRA E JOSÉ MARIA ABECASSIS

UM CHAPÉU AMARELO PARA O REI DE PORTUGAL, pp. 4-5
GENEALOGISTAS PORTUGUESES: BIVAR E ABECASSIS, pp. 12 (Errata: As data corretas de nascimento e morte de Bivar são: 14/05/1904 – 14/03/1979).

Artigos publicados no boletim GERAÇÕES / BRASIL, Sociedade Genealógica Judaica do Brasil. Maio 1996:
http://www.ahjb.com.br/pdf/jornal_may96.pdf

FERNANDO PESSOA: UM "CRISTÃO-NOVO" NO SÉCULO XX (EXCERTO GENEALÓGICO)



1.FERNANDO ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA.

Pais:
2. JOAQUIM DE SEABRA PESSOA (Lisboa, 1850 – idem, 1893), funcionário público e critico musical.
3. MARIA MADALENA PINHEIRO NOGUEIRA (Angra do Heroísmo, 1861 – Lisboa, 1925).

Avós:
4. General JOAQUIM ANTÓNIO DE ARAÚJO PESSOA (Tavira, 1813 – Lisboa, 1885).
5. DIONISIA ROSA ESTRELA DE SEABRA (Lisboa, 1823 – idem, 1907).
6. Conselheiro Dr. LUIS ANTONIO NOGUEIRA [CUNHA] (Angra do Heroísmo, 1832 – Lisboa, 1884). Director-geral do Ministério do Reino.
7.MADALENA AMÁLIA XAVIER PINHEIRO (Velas, 1836 – Angra do Heroísmo, 1898).

Bisavós:
8.Dr. DANIEL PESSOA E CUNHA (Serpa, 1780 – 1822), médico militar.
9.JOANA JOAQUINA XAVIER PEREIRA DE ARAÚJO (Faro, 1788 – Tavira, 1837).
10. JOSÉ MARIA DE SEABRA (* Faro).
11. ANA ROSA ESTRELA.
12. ABÍLIO PONCIANO NOGUEIRA (Angra do Heroísmo, 1807 – idem, 1859).
13. MARIA DA LUZ REBELO (Angra do Heroísmo, 1805 – idem, 1885).
14. Capitão INACIO JOSÉ PINHEIRO (Terceira, 1799 – 1870).
15. ANA MARIA XAVIER (*c. 1800).

Trisavôs:
16. GASPAR PESSOA DA CUNHA (*Fundão).
17. PERPÉTUA CONSTANÇA [LOPES CHAVES]. *Bragança. É possível que ela seja descendente do casal.....
18. Major JOSÉ ANTÓNIO PEREIRA DE ARAÚJO E SOUSA (*Fermedo, 1746). Fidalgo de Cota de Armas: Pereiras, Camisões, Sousas do Prado e Araújos.
19. BÁRBARA JOAQUINA DE SEQUEIRA MIMOSO (*Faro, 1754). Oriunda de uma varonia cristã-nova cujo trisavô o sapateiro Diogo Dias Fernandes (*Serpa, 1619) foi queimado como judaizante (ANTT, Inquisição de Évora, processo nº 11518).
20. MANUEL FÉLIX LOBO DE FIGUEIREDO (*Lisboa, 1724). Escrivão proprietário da Alfândega de Faro.
21. DIONÍSIA MARIA RITA OLIVEIRA DE SEABRA (*Faro), filha de João de Oliveira Delgado e Guiomar Filipa de Sarre. Ele, Familiar do Santo Oficio, era Fidalgo de Cota de Armas: Oliveiras, Delgados, Rochas e Seabras.
22. FRANCISCO FERREIRA ESTRELA (*Alhandra).
23. JOAQUINA ROSA DE ASSUNÇÃO (*Lisboa, 1761).
24-31. Ancestrais açorianos ainda por identificar.

Ancestrais Cristãos-novos Através dos Processos Inquisitoriais
(É uma relação dos ancestrais já identificados pela perseguição do Santo Ofício)

19.BÁRBARA JOAQUINA DE SEQUEIRA MIMOSO, nasceu em Faro (1754).
32.GABRIEL TAVARES PESSOA DE AMORIM
33.LEONOR PEREIRA DA SILVA
38.Dr. ANTÓNIO RODRIGUES NOGUEIRA MIMOSO, nasceu e morreu em Faro (1721-1769), médico formado em Coimbra.
39.MARIA BÁRBARA TERESA DA ENCARNAÇÃO, nascida em Faro (1723 - ?). Prima do seu marido o Dr. António Mimoso.
64.SANCHO PESSOA DA CUNHA E AMORIM, nasceu em Montemor-o-Velho (1666).
65.BRANCA MARIA (NUNES)
66.GASPAR MENDES PEREIRA
67.FILIPA NUNES
76.MANUEL RODRIGUES NOGUEIRA, natural de Loulé, soldado e alfaiate, casado com Joana Mimoso.
78.JOSÉ RODRIGUES CALADO, nasceu em Faro (1718), marinheiro. Casado com Bárbara dos Santos.
128.CUSTÓDIO DA CUNHA E OLIVEIRA (1632- ? ), seareiro, tratante de lãs e vendedor de tabacos em Celorico. Preso pelo Santo Ofício (13 de maio de 1669).
130.MANUEL MENDES TAVARES
131.BRANCA NUNES
132.GASPAR MENDES PEREIRA, Sr.
133. ANA MARIA PEREIRA
134.DUARTE DA COSTA
135.LEONOR MENDES
152.DIOGO FERNANDES, queimado numa fogueira inquisitorial.
153.CATARINA GOMES, natural de Loulé
156.MIGUEL RODRIGUES
256.MARTINHO DE OLIVEIRA (?)
257.JULIANA DA CUNHA
264.TOMÉ DA SILVA
265.MARIA NUNES
266.SIMÃO RODRIGUES NUNES
267.LEONOR PEREIRA MENDES
304.MANUEL RODRIGUES
305.JACINTA MARTINS
306.MANUEL JORDÃO.
307.CATARINA NOGUEIRA.
312.DIOGO DIAS FERNANDES, nasceu em Serpa (1619), ex-marinheiro. Preso pela Inquisição (Processo nº 5289, Évora). Casado com Inês Rodrigues.
514.MIGUEL HENRIQUES FALCÃO, nasceu em Alcaide. Feitor Geral da Comarca da Beira, dos Portos Secos e Alfândega.
515.BEATRIZ DA CUNHA, nasceu em Alfaiates. Presa pelo Santo Ofício (28 de novembro de 1621).
528.GASPAR DE SEQUEIRA
529.GRACIA MENDES
530.GASPAR MENDES, o "Bulhinhas"
531.MÉCIA RODRIGUES/MENDES
534.MANUEL LOPES
535.MÉCIA PEREIRA
624.MANUEL DIAS, nasceu em Serpa, sapateiro.
625.FRANCISCA GOMES, natural de Serpa.
1028.HENRIQUE FERNANDES. Jurista.
1029.JÚLIA FALCÃO
1030.RODRIGO DA CUNHA, natural de Alfaiates (1546). Oficial da Alfândega de Penamacor e Rendeiro das rendas do Priorado de Alcaide. Cavaleiro Fidalgo. Preso pelo Santo Ofício (28 de novembro de 1621).
1031.MARIA HENRIQUES BRANDÃO.
1060.MANUEL RODRIGUES, "o Bulhinhas"
1061.VIOLANTE NUNES
1068.MANUEL LOPES
1069.BRITES ANTUNES
1070.DIOGO PEREIRA
1071.LEONOR PEREIRA
1248.MANUEL DIAS.
1249.CATARINA GOMES.
1250.DIOGO FERNANDES BACALHAU, nasceu em Serpa (1557), ferreiro. Preso pela Inquisição (Processo nº 9478, Évora).
1251.ANA LOPES
2056.MESTRE PEDRO.
2057.HELENA FERNANDES.
2058.PEDRO...........
2059.BERNARDINA DE SALAZAR.
2061.BRITES DE MERCADO.
2062.MANUEL RODRIGUES, advogado em Castelo Branco.
2063.BEATRIZ DE SANTILLANA
2500.RUI FERNANDES. Ferreiro.
2501.ISABEL FERNANDES, nasceu em Serpa (1527). Saiu em auto de fé (Évora, Processo nº 2055).
2502.ANTÓNIO FERNANDES, "o Sono", natural de Serpa, sapateiro.
2503.ISABEL FERNANDES
4122.LUIS DE MERCADO. Cavaleiro Fidalgo da Casa Real. Segundo o genealogista inglês Julian Kemper, Luis de Mercado seria Samuel Abravanel.
4126.FILIPE RODRIGUES, irmão do médico judeu Amato Lusitano e avô do médico e polemista anti-cristão Eliau Montalto. Casado com a cristã-nova Brízida Gomes.

BENJAMIN NATHAN CARDOZO (1870-1938), segundo judeu na Suprema Corte Americana


1. BENJAMIN NATHAN CARDOZO (1870-1938). A.B. Columbia, 1889; A.M. 1890; LL.D., 1915; LL.D, Yale, 1921; New York University, 1922; Michigan, 1923; Harvard, 1927; St. John´s College, 1928; St. Lawrence, Williams, Princeton e Pennsylvania, 1932; Brown e Chicago, 1933, Londres, 1936; L.H.D., Yeshiva University, 1935. Juiz na Suprema Corte de Nova York e Chief Judge da Corte de Apelações de Nova York. Ele foi indicado pelo Presidente Herbert Hoover (1874-1964) para substituir o Justice Oliver Wendell Holmes (1841-1935) em 15 de fevereiro de 1932. A sua indicação foi confirmada no Senado por unanimidade. Naquela corte desenvolveu um trabalho tão original através de decisões com profundo humanismo e alta qualidade literária, que tornou-se referência para os operadores do Direito. Foi o segundo judeu a chegar a tal função honrosa.


PAIS:

2. ALBERT JACOB CARDOZO (1828-1886). Juiz.
3. REBECCA WASHINGTON NATHAN (1879-1979).

AVÓS

4. MICHAEL HART CARDOZO (1800-1865).
5. ELLEN HART (1802-1865)
6. ISAAC MENDEZ SEIXAS NATHAN (1785-1852)
7. SARAH MENDEZ SEIXAS (1791-1834)

BISAVÓS

8. ISAAC NUNES CARDOZO (1751-1852). Alfaiate e soldado na Revolução Americana.
9. SARAH HART (1763-1823)
10. ABRAHAM HART (1766-1849).
12. SIMON NATHAN (1746 - 1822). Comerciante. Dirigente da Congregação Shearith Israel.
13. GRACE MENDEZ SEIXAS
14. BENJAMIN MENDEZ SEIXAS (1748-1817). Fundador da Bolsa de Valores (NYC).
15. ZIPPORAH LEVY (1760-1832)

OUTROS ASCENDENTES ....

16. AARON NUNES CARDOZO. Comerciante em Londres. Chegou aos EUA (1752).
17. SARAH NUNES NAVARRO
18/20. MEYER HART DE SHIRA (era um português chamado Teixeira).
19/21. RACHEL DE LYON (1734-1792)
24. JUDAH NATHAN.
26/28. ISAAC MENDES SEIXAS (1708-1780)
27/29. RACHEL LEVY
30. HAYMAN LEVY
31. SLOE MYERS
32. JACOB NUNES CARDOZO
33. SARA NUNES NAVARRO
34. ISAAC NUNES NAVARRO
35. REBECCA CARDOZO
38/42. “ABRAHAM” DE LEÃO. Introdutor da viticultura (uvas) nos EUA.
39/43.TERESA EUGÉNIA DA VEIGA (ESTHER NUNEZ).
52/56. ABRAHAM MENDES SEIXAS.
54/58. MOSES LEVY (1665-1728)
55/59. RICHEA ASHER.
64. ISAAC NUNEZ CARDOZO
65. JUDITH RODRIGUEZ LEON
66/68. JACOB NUNEZ NAVARRO
78/86. DR. DIOGO NUNES RIBEIRO (SAMUEL NUNEZ, 1668-1744). Médico.
79/87. GRACIA CAETANA DA VEIGA (REBECCA NUNEZ)
110/118. RACHEL LEVY
128. DAVID NUNEZ CARDOZO
130. ISAAC RODRIGUEZ LEON
156/172. MANUEL HENRIQUES LUCENA
157/173. MARIA NUNES RIBEIRO.
158/174. ANDRÉ DE SEQUEIRA
159/175. ISABEL MARIA DA VEIGA
220/236. BENJAMIN LEVY (? - 1693). Hazan, shohet e bodek em Recife.
312/344. DIOGO GOMES HENRIQUES
313/345. ISABEL HENRIQUES
314/346. DR. LUIS LOPES
315/347. MARIA NUNES RIBEIRO
316/348. GASPAR VAZ DE SEQUEIRA
317/349. MONICA NOGUEIRA.
318/350. DR. ANDRÉ SOARES DE SEQUEIRA. Médico.
319/351. GRACIA DA VEIGA
624/688. DIOGO VAZ
625/689. CLARA GOMES
626/690. DIOGO DE LUCENA
627/691. BRANCA RODRIGUES
630/694. ANTONIO RODRIGUES
631/695. ANA NUNES RIBEIRO
632/696/636/700. DR. RODRIGO DE SEQUEIRA. Médico.
633/697/637/701. BRANCA SOARES
638/702. DR. RUI LOPES DA VEIGA. Juiz.
639. INÊS GOMES CHUMACEIRA
1254/1382. GONÇALO VAZ
1255/1383. JOANA RODRIGUES
1264/1392/1272/1400. FRANCISCO DE SEQUEIRA
1265/1393/1273/1401. BRITES SOARES
1266/1394/1274/1402. GASPAR VAZ PEREIRA
1267/1395/1275/1403. BRITES SOARES
1276/1404. DR.TOMÁS RODRIGUES DA VEIGA (1513-1571). Médico.
2552/2808. MESTRE RODRIGO DA VEIGA. Médico do rei D. Manuel I de Portugal.
5104/5616. MESTRE TOMÁS DA VEIGA. Médico do "Reis Católicos".
5105/5617. CONSTANÇA CORONEL
20420/22468. RABINO ABRAHAM SENIOR (FERNÁN PÉREZ CORONEL, 1412-1493). ABD Segovia e Grão-Rabino de Castela.

CASAR-SE COM QUEM? - UM PROBLEMA DA FAMÍLIA DE D. JOÃO VI

CASAR-SE COM QUEM? – UM PROBLEMA DA FAMÍLIA D. JOÃO VI

Artigo publicado na CARTA MENSAL DO COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA nº 98, pp. 3-5:

http://www.cbg.org.br/cartamensal/CM98.pdf

AS GENEALOGIAS DO CAPITÃO BARROS BASTO, O "GUIA DOS MARANOS"

AS GENEALOGIAS DO CAPITÃO BARROS BASTO, O “GUIA DOS MARANOS”

Artigo publicado nos CADERNOS DE ESTUDOS SEFARDITAS:

http://www.catedra-alberto-benveniste.org/_fich/15/Pagina_299-312.pdf

ISABEL MÚÑOZ, UM RETORNO TARDIO AO JUDAÍSMO

ISABEL MÚÑOZ, UM RETORNO TARDIO AO JUDAÍSMO
Artigo publicado na WebMosaica:
http://www.seer.ufrgs.br/index.php/webmosaica/article/viewFile/11988/7129

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Os Irmãos Karamabloch. Ascensão e queda de um império familiar



"Os Irmãos Karamabloch. Ascensão e queda de um império familiar" (S. Paulo: Companhia das Letras, 2008), de Arnaldo Bloch.
Adolpho Bloch foi um extraordinário empresário brasileiro. O seu empreendimento mais visível foi a revista semanal e a emissora de televisão Manchete. Expoente de uma família patriarcal giraram em sua volta inúmeros parentes, contra-parentes, agregados e empregados. Ele deixou um livro de memórias onde não explicou muito quem foi, porém ajuda a manter o seu dramatis persona que utilizou na vida empresarial, o schlimazel, o coitadinho sem sorte das aldeias judaicas da Europa Oriental. Agora o seu sobrinho-neto, o repórter de O Globo e autor de outros livros, Arnaldo Bloch, nos traz "Os irmãos Karamabloch. Ascensão e queda de um império familiar" (S. Paulo: Companhia das Letras, 339 páginas) sobre as relações familiares do clã Bloch, que tem figuras como o teatrólogo Pedro e os atores Jonas e Débora Bloch, além do já citado Adolpho.
Os Bloch são um clã judaico originário de Jitomir na Ucrânia, descendentes do empresário gráfico Joseph P. Bloch (1869-1953), de seus irmãos e irmãs, que vieram para o Brasil em 1922, logo depois da revolução comunista. O sobrenome Bloch é segundo o onomasta Alexander Beider, de origem polonesa, e significa "italiano". Isto pode ajudar a recuperar as deambulações anteriores desta linhagem.
O livro traz a história dos Bloch nos últimos duzentos anos. O autor utiliza recursos de romancista e também a sua experiência de repórter para reconstruir todo este passado distante e próximo da melhor forma possível. Em alguns momentos se aproxima muito do realismo mágico: Onde colocar as cabeças degoladas que falam ou mesmo o primo que desce escadas com cédulas de cinqüenta dólares envoltas no membro para seduzir as secretárias? Como se percebe ele escarafuncha e expõe com muita franqueza os armários familiares. Não se deve esquecer que ele é neto de um "Karamabloch" (sic) e foi por algum tempo o pretendente a delfim do reino Manchete. O resultado deste trabalho é muito agradável para a leitura.
Estas memórias autobiográficas começam com os seus ancestrais aldeões, porém o fio condutor de toda história é Adolpho Bloch (1908-1995) e suas relações conflituosas com os irmãos Boris (1905-1959) e Arnaldo Bloch (1906-1957), daí os Irmãos Karamabloch, apelido dado pelo jornalista Otto Lara Rezende (1922-1992), aos contendentes e também seus patrões. Longe dos atormentados russos dostoievisquianos, estes não brigavam por maldade intrínseca, mas como novos "Três Patetas" que perderam ou não adquiriram a linguagem oral. Jogar um lustre no irmão era uma forma de dizer não e subir na móvel hierarquia fraterna encontrada por eles.
Há uma passagem lindíssima que marca o começo do futuro patriarca. É a descrição do seu inusitado bar-mitzvá, cerimônia que marca a maioridade do menino judeu aos 13 anos, feito durante a evasão da União Soviética, na Turquia:

"Adolpho, que de hebraico nada sabe, ouve a história com respeitosa ignorância, enquanto lá atrás, Moisés se despede do povo sem pisar em Canaã, e, lá na frente, Joseph e os seus aguardam a hora de partir rumo a uma outra terra de promissões, e de promissórias" (p. 87).

Nesta única frase, Arnaldo Bloch relembra um dos mitos fundadores do povo hebreu que propositadamente se confunde com o do clã Manchete. Ele cita a parashá, texto bíblico lido naquele dia que fala da entrada do Povo de Israel em Canaã, sem o seu chefe, a falta de instrução religiosa do menino e o clã que o espera, para um dia redimi-los, nem que fosse a punho de muitas promissórias. A partir deste momento é a narração de como foi construído o seu reino no mundo tropical. Como o autor é bem humorado, isto é uma de suas estratégias para driblar os perigos de tal narrativa: "ao escrever, procurei guardar ânimo crítico e humor suficientes para fugir ao laudatório. e a admiração bastante para não cair na vã maledicência" (p. 9), corre-se o risco de subestimar a capacidade empreendedora de Adolpho Bloch.
Não se deve esquecer que num país onde se desperdiça gente, imagine quantas famílias ele alimentou e deu futuro decente, colocando-os como personagens mesmo que incidentais de seus sonhos. Alguém cuja estratégia empresarial foi provocar o acaso e explorá-lo com total ousadia. Ele não tinha um projeto para fazer uma revista e fez a Manchete. Ele não tinha um projeto para erguer uma emissora de televisão, mas fez. E assim sucessivamente em outros momentos de sua vida. Foi um pós-capitalista metafísico gestado pela esperteza em sobreviver no gueto e no coletivismo soviético. Não foi preciso moeda física para construir o seu reino: "meu problema é arrumar dinheiro para comprar estampilhas para as promissórias" (p. 204).
Mesmo com todo o sucesso que o clã Bloch conseguiu, eles continuaram angustiados, como se fossem herdeiros de Jó e a qualquer momento perderiam tudo. Percebe-se pela leitura do livro que os anos em que a família permaneceu em Jitomir entre a revolução de outubro até a evasão da pátria madrasta, ficou como o timbre espiritual desta geração. O relógio parou para os irmãos Karamabloch, que não superaram estes anos, restando a angústia de perder tudo de uma hora para outra. Eles que se salvaram por acaso estatístico, passam a buscar o conforto no jogo de azar e no sexo, sempre retornando a velha angústia, até nos momentos de sucesso familiar:

"Sem piedade, Bóris aproveitou a crise para acordar o Zeide aos socos na porta.
"Teu filhinho vai nos levar ao fosso!"
Já vinha, desde a ascensão nazista na Europa, cuidando sistematicamente de instalar o pânico no coração do patriarca.
"O governo vai tomar tudo pápe!"
Já era 1942, mas ainda estavam frescas as cicatrizes da aproximação entre Vargas, e todos se viam muito preocupados. Mina, que se mudara com Auffsey da casa em Copacabana para um sobrado no Flamengo, ligava todo dia.
"Estão mandando matar judeus no Catete!"
(...)" (p. 148/9).

Ou:

"Quando tudo acabar, vamos sentar aqui, puxar os pedestres pela camisa e dizer: Senhor! senhor! um dia isto foi meu!" (Arnaldo ao irmão Adolpho vendo o prédio que tinham construído, p. 22).

Um dia tudo acabou mesmo. Restou o livro desta "grande aventura" (p.9), como definiu o autor. As poucas ressalvas que podem ser feitas ao livro são a sonegação das datas vitais - nascimento e morte dos seus personagens e lá pelo meio, afirmar-se que os Bentes remontam ao "século do descobrimento" (p. 262). Não, eles chegaram por aqui no final do Segundo Império. Mas isto não é nada em relação ao prazer e volume de informações que ele trouxe sobre este notável clã Bloch que tanto enriquece o nosso país.

sábado, 13 de novembro de 2010

Armadilha em Gaza por Jorge Zaverucha


O AVÔ DOS MOREIRA SALLES, VILELLA, PAULA MACHADO, FREI BETTO, etc.


Na década de quarenta um genealogista publicou a genealogia parcial da dinastia de pastores presbiterianos Cerqueira Leite, onde ouvindo a história da família traçou o perfil biográfico do tronco familiar, que era:


“(...) um judeu português por nome Richion (da Costa Lima?), vindo para o Brasil já como “cristão-novo” [final do século XVIII], aqui morrendo desgostoso por ter perdido o seu barco mercante numa tempestade. Dizem que terminou seus dias, vagueando sem rumo, pelas praias desertas, como se esperasse vislumbrar no horizonte interminável, a qualquer momento, a embarcação que nunca mais chegaria (...)” (TEIXEIRA, Fausto. “A família Cerqueira Leite”, Revista Genealógica Brasileira nº 13, primeiro semestre de 1946, PP. 111-124).


Muitos anos depois este personagem nebuloso foi plenamente identificado. Trata-se do português Francisco da Costa Pereira Requião (1743-1791), que adotara como sobrenome a sua aldeia natal de São Silvestre de Requião, Braga, negociante, que viveu em S. Paulo e morreu em Santana do Sapucaí (MG).
É possível que ele fosse de origem cristã-nova. Os ramos mais ligados a ele afirmam isto. Quando foi possível romper com o Catolicismo alguns de seus descendentes tornaram-se Presbiterianos e geraram uma série de Esther, Raquel, Samuel, dentre outros nomes bíblicos.
Porém o melhor é ver os seus descendentes mais proeminentes: os banqueiros WALTER MOREIRA SALLES (1912-2001, UNIBANCO), EUDORO VILELLA (1907-2001, ITAÚ), alguns PAULA MACHADO da nova geração (EX-BOAVISTA) e surpreendentemente, FREI BETO.

ALCEU VALENÇA: A LUZ QUE INCENDEIA O SEU OFÍCIO

Isaac de Valença, “natural do Porto, da idade de 35 anos”, foi um judeu que viveu em Pernambuco durante a ocupação holandesa e com a expulsão tornou-se credor da Coroa Portuguesa em 2509 florins. Já um seu parente, Estevão de Valença não teve muita sorte com a Inquisição, pois quando preso em 1729, ela lhe tomou os poucos bens que possuía: “três cavalos, um castanho e dois ruços que valeriam quinze mil réis cada um, uma espada com punho de prata, que tinha custado dez mil réis, uma espingarda que valeria cinco mil réis, uma sela bastarda com estribos de latão e um freio que tudo valeria doze mil réis e que tinha a roupa de seu uso e era pouca e a trouxe consigo”. Ele era natural e residente no Engenho Velho, termo da cidade da Paraíba. No auto-da-fé em que se seguiu a sua condenação a “cárcere e hábito perpétuo” em 17 de junho de 1731, ele foi acompanhado por duas mulheres de seu clã: Guiomar e Maria de Valença.
Passaram as gerações da perseguição inquisitorial e nasceu na mesma zona fisiográfica, dentre outros, Alceu Paiva Valença a 1º de julho de 1946, que apesar da distância temporal dos patriarcas ainda prosseguiam, nas palavras de Alceu:

“(...) no itinerário típico dos cristãos-novos: se estabeleceram num canto, casavam entre eles, tinham seu próprio jornal e viviam da atividade pastoril numa espécie de clã em S. Bento do Uma. E para o interior, culturalmente eram muito avançados, evoluídos. Mas era difícil conviver com outras comunidades (...)”.

A primeira Câmara instalada em S. Bento do Una (1860), de sete vereadores, dois são Valença e entre 1925 e 1968, nove Valença tiveram onze mandatos de prefeito da cidade.
Por esse medo do conflito a cultura cristã-nova buscou refúgio na agrafia e teve que sobreviver no mundo oral. A música foi uma desta formas de sobrevivência, através de sua estética e em alguns casos até temática. Para Alceu esta origem semítica é clara:

“(...) lá ficou esta marca, das violas (imita a melopéia mourisca), das rabecas que cantam, que tocam parecido (...).

Ouvindo estes sons através desta educação popular é que:

“(...) foi formada por estas pessoas do povo mesmo, na forma anônima também, na medida que conhecia Mário Jacó (...)”.

A personalidade artística de Alceu Valença que viria compor a obra de arte mais importante desta cultura cristã-nova, a canção messiãnica “Anunciação”.
“Anunciação” é a segunda música do lado A do LP “Anjo Avesso” (Ariola, 1983), onde Alceu se propõe a compor um auto retratando “ a cidade de Olinda com o seu mistério, sua magia, suas manifestações culturais e musicais”. Tudo nela pulsa o marranismo, a começar pelo título, além de identificar a origem do autor, ele reafirma a crença na vida do messias ou como traduz a sua biógrafa Anamélia Maciel “esperança na vinda de um libertador”. É o mesmo nome da capela proibida de Mosén Rubi em Ávila, Igreja de Nuestra Señora de la Anunciación e que servia para identificar as origens etnosociais de seu patrono, levando a inquisição a interditá-la (v. neste sítio esta história).
Como na família de Mosén Rubí, a casa senhorial da Fazenda Riachão pertencente aos Valença tem no alto da porta, como marca, dois triângulos sobrepostos, abertos na base, que tanto pode ser a Estrela de David ou os compassos dos pedreiros livres (Maçons). Assim também e a “Anunciação” de Alceu Valença que nela “anuncia” a chegada de um messias, que poderá redimir o Mundo. É uma canção que traz claramente os ecos do Oriente, tanto na música, quanto na letra, cujo poema transcrevo.

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro / Tu vens chegando para brincar no meu quintal. / No teu cavalo peito nu cabelo ao vento / E o sol quarando nossas roupas no varal / Tu vens, tu vens / Eu já escuto os teus sinais /A voz do anjo sussurou no meu ouvido / e eu não duvido já escuto os teus sinais / Que tu virias numa manhã de domingo / Eu te anuncio nos sinos das catedrais

Como um tabelião em final de lavratura, nada mais a acrescentar. Ouçam não só a “Anunciação’, mas todo o trabalho musical de Alceu Valença, pois ele é um dos mais importantes criadores do mundo ibérico-contemporâneo e além do mais, um dos nossos, pois das fogueiras inquisitoriais é que saiu a luz que incendiou o seu ofício.

BIBLIOGRAFIA:

DINIZ, Henrique e KOIFMAN, Henrique. “Alceu Valença. Um ateu comovido em busca de fé”. Em: ELE ELA nº 254, agosto de 1990.
FARO, Fernando. “Ensaio – Alceu Valença”. Programa de TV, TV Cultura, Canal 2, visto em S. Paulo 08/12/1990.
MACIEL, Anamelia. Alceu Valença em frente e verso. Recife: edição do autor, 1989.
NOVINSKY, Anita. Inquisição. Inventários de bens confiscados a cristãos-novos. Fontes para a história de Portugal e do Brasil. Brasil, século XVIII, 1976.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

MALÊS: TUDO ACABOU EM SAMBA

Há tempos li um artigo de Luis Carlos Lisboa onde ele lembrava um xeque muçulmano carioca, ao que parece um modesto quitandeiro, mestre Adriano, que era consultado por gente que vinha de muito longe para ouvi-lo. O personagem singular despertou minha atenção, pois o Islamismo só passou a ter importância no Brasil partir de 1980. Assim eu comecei a reunir material sobre o tema, o suficiente para descobrir os Malês brasileiros e sua bela, mas quase ignorada história.

Os Malês foram africanos, oriundos da região sudanesa, que chegaram ao Brasil no começo do século XIX, como escravos vendidos ao serem derrotados em guerras por motivos religiosos. São muçulmanos e que tudo indica, ligados ao Sufismo, iniciados na Fraternidade Qadirya. Aqui eles tiveram que converter-se ao Catolicismo Romano, porém muitos continuaram ocultamente a manter a antiga crença, pois em 1835 articularam uma revolta contra os seus senhores, tendo como objetivo estabelecer um califado islâmico na Bahia.

O historiador João José Reis tem um livro sobre o episódio: Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835 (2003), que vale a pena ser lido.

O curioso foi descobrir posteriormente que os Malês não se acabaram com a repressão ao seu levante, apenas se tornaram mais discretos e mesmo perdendo bastante de sua identidade, mantiveram alguns elementos essenciais de sua cultura. Sobraram algumas regras alimentares, regras, um pouco do idioma árabe, suficiente para uma inscrição na lápide fúnebre ou compreensão do Alcorão. Uma livraria carioca chegou a vender cem exemplares manuscritos do Livro por ano no século XIX. A cada jovem que terminava o seu estudo fazia-se uma festa discreta no subúrbio, onde o homenageado desfilava num cavalo enfeitado. No começo do século XX ainda viviam estes seres de vida dupla: católicos em público e Malês na vida privada.

Há uma fotografia tirada em 1942 na cidade de Salvador, publicada no livro Notas sobre negros malês na Bahia (1987), de Antonio Monteiro que mostra alguns destes remanescentes, irmãos devotos na Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário no Pelourinho, mas que também compartilhavam o segredo ancestral. São os carpinteiros Tibúrcio Luís Souto (1873-1955) e José Maria Mendonça, ambos ex-priores da Irmandade e o pedreiro Manoel do Nascimento Santos Silva, conhecido como Gibirilo (deformação de Gibrail, Gabriel).

Já no Rio de Janeiro onde muitos pousaram fugidos da repressão à revolta Malê, eles se misturaram a outros grupos negros, de formação animista, desaparecendo entre eles. Restou apenas destes personagens um samba de Aniceto do Império (Aniceto de Menezes e Silva Junior, 1912-1993):

Assumano, Alabá, Abaca, Tio Sani / E Abedé me batizaram na lei de Mussurumi / Como vêem tenho o corpo cruzado e fechado / Carrego axé na língua, não morro envenenado / Viajei semana e meia daqui pro Rio Jordão / Lugar em que fui batizado com uma vela em cada mão / Cinco macota d´Angola me prepararam de berço / Enquanto Hilário Jovino me cruzou com sete terços / Mesmo assim, me considero um insigne mirim / Filho de cuemba não cai Ogum, Xangô, Alafim”.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A COSTELA JUDAICA DE SALAZAR

António de Oliveira Salazar, que sob o título de Presidente do Conselho de Ministros dirigiu Portugal entre 1932 e 1968, nasceu em Vimieiro, Santa Comba Dão e morreu em Lisboa (1889-1970). Era filho de António d´Oliveira e Maria do Resgate, neto paterno de Manuel d´Oliveira e Teresa Paes d´Andrade, neto materno de José de Lemos Salazar e Felicidade Violante da Trindade. São ancestrais de origem camponesa, sobressaindo-se apenas o seu trisavô materno, o capitão João de Lemos Salazar e Abreu (Santa Comba Dão, 1728 – Tondela, 1754).

O celibatário Salazar teve formação jesuítica e governou aliado a Igreja, tanto que os seus adversários apelidaram-no de “fradalhão de Santa Comba Dão”. Mesmo assim ele foi sempre reconhecido como tendo origem judaica. Vários autores escreveram sobre esta possível origem. Para João Paulo Freire ele seria “judeu cristão-novo por dupla costela: paterna pelos Salazares de Castela e materna pelos Oliveiras da Beira”. Mascarenhas Barreto analisando a influência hebraica na heráldica ibérica destacou no escudo dos “cristãos-novos Salazar (de Castela-Vieja)”, a imagem do braço, que seria a representação de umme lamed.

Na Biblioteca Nacional de Lisboa há um manuscrito de três páginas chamado “A vera genealogia do ditador Salazar: copiada de um papel intitulado Inquérito genealógico à cristãonovice, concubinato e outros defeitos de sangue na ascendência de Salazar”, assinado pelo genealogista Luis de Bivar Guerra (1904-1979) e copiado por José Campos e Sousa, escrito em 1947. O manuscrito é mais um “tição’ da vida portuguesa. Ele foi escrito para inabilitar politicamente o personagem central levantando a sua bastardia e origem judaica. O paradoxal é que o autor Bivar Guerra, além da ascendência cristã-nova, sempre escreveu em prol desta minoria etnocultural.

O documento identificou como sendo de origem judaica alguns ramos da árvore genealógica de Salazar. O principal deles é o de sua sexta avó por linha materna, Catarina Salazar, natural de Coimbra, ali residente na rua Corpo de Deus, na freguesia de São Tiago. Ela que viveu no século XVII, era filha de um padre e de uma cristã-nova. No manuscrito há a seguinte observação:

Havia no Porto uma família de x.x.n.n. de apelido Lopes e por alcunha os Crespos os quais tinham os seus parentes em Castela, x.x.n.n. também, do mesmo apelido e que eram alcunhadas de Salazares. É muito provável que esta mulher, mãe de Catarina, seja desta gente”

Bivar Guerra nomeia ainda como cristãos-novos os seus ancestrais paternos, os Andrades, originários da freguesia da Tábua. “Os Andrades do Distrito da Guarda são quase todos x.n. e em Carniçaes era todos, sem excepção”. Outra família cristã-nova, já por nossa identificação, é dos Gaspar, que chegou a participar da “Obra do resgate”, liderada pelo capitão Barros Basto (1887-1961), nas décadas de vinte e trinta.

O próprio Salazar conhecia esta origem. Na década de cinqüenta, recebendo o empresário e rabino americano de origem sefardita, Albert Jean Amateau (1889-1996), lhe falou desta origem cristã-nova de forma enfática:

He pulled up the sleeve of his jacket and shirt, pointed to his bare arm, saying through the arteries flows the blood of my Jewish ancestors” (in From my Portuguese Diary, 08/10/1955).

Um pouco antes deste encontro, funcionou em Lisboa, uma sinagoga como minian (quorum religioso) de ascendência conversa, a Kehilat Israel Bené Anussim Belisboa (Comunidade Judeo-marana de Lisboa), onde Salazar era o patrono. Além de conhecedor desta origem Salazar possuía traços psicológicos de um verdadeiro cristão-novo. Basta ouvir o que ele disse para justificar o seu comportamento reservado.

pessoas que desconhecem que pode haver na alma dos outros coisas inolvidáveis e sagradas, que a gente esconde cuidadosamente das vistas dos tolos e dos maus, porque não podem compreende-las nem são capazes de senti-las

Apesar disto tudo, Salazar não era judeu, nem cristão-novo, mas como muitos portugueses, tanto a Esquerda, quanto a Direita, possuía a sua costela judaica.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A CAMELA QUE NÃO VIU O MAR

Convidado por Alpedrinha para ver uma tal “dança da abelha” na noite de Beirute, recusei polidamente, com a desculpa do excesso de consumo do charuto de repolho e sozinho fui ouvir Abdelrahman, o Califa de Fez, o Rouxinol do Magreb, o melhor interprete do cancioneiro do norte da áfrica (não confundi-lo com os cantores de Raí, como Cheb Khaled).
Lá chegando e quando as luzes se acenderam, tomou posse do palco um rapaz moreno de pele azeitonada, cabelos pretos, vestido á ocidental como um policial a paisana ou um cigano feliz; camisa colorida, uma profusão de azuis, amarelos e vermelhos, um relógio japonês de aço inoxidável no pulso que ele chacoalhava a toda hora, quando então voltava a arregaçar a manga da camisa. A sua frente uma típica orquestra árabe.
Música árabe, ou você gosta ou odeia. Eu gosto. Assim passei a ouvir os floreados de Abdelrahman, parábolas e as “folhas secas” vocais, serras e planícies. Durante uma hora e meia ele encantou a platéia com um repertório que falava diretamente ao coração. Porém de todas as canções, uma delas ficou no meu ouvido, a da “camela que não viu o mar” e que Koriscosso verteu do árabe para o francês, e eu do francês para o português. Evidente que nestas passagens, ela perdeu as aliterações, os trocadilhos, as vogais alongadas no final. Mas ficou o sentido.
Eis o poema cantado por Abdelrahman, apenas as palavras, sem os desenhos vocais do cantor, um autêntico “muxarabe’, que na sua simplicidaderetrata o ethos árabe.

Ela esteve em muitas caravanas,
Que percorreram muitas
Rotas de viagem.
Da Rota da seda chegou a Lahore,
Em busca do mar.
Ela dormiu no armazém de Fusfus,
Quando esteve em Alepo,
Mas lá não viu o mar.
O sol lhe feriu os olhos em Damasco,
Mas lá não viu o mar.
Com a caravana de Habib
Atravessou as seteiras de Jerusalém,
Mas lá não viu o mar.
No Ramadã chegou a Meca,
Onde fez a peregrinação,
Mas lá não viu o mar.
Sua sorte pareceu mudar,
Quando seu dono
Alistou-se no exército de Tarik,
Porém na viagem ela morreu de fadiga,
E não viu o mar.

Lá fora, o luar branco de Beirute escorria como mais fino ioguste turco, enquanto eu acreditava que tinha encontrado assunto para mais um artigo a ser escrito para o “The Sentinel of Punjab”.