Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

domingo, 26 de setembro de 2010

SOMOS LIVRES PARA ESCOLHERMOS A IDENTIDADE ÉTNICA?



“(...) És tu efraimita? E dizendo ele; Não. Então lhe diziam: Dize, pois, Chibolete; porém ele dizia: Sibolete, porque o não podia pronunciar assim bem: então pegavam dele, e degolavam nos vaus do Jordão; e caíram de Efraim naquele tempo quarenta e dois mil” (JUIZES; 12:5-6).

Por força dos sobrenomes, hoje eles dividem o ostracismo, causado pelo tempo, no mesmo volume das enciclopédias. Além destas coincidências onomásticas, eles que tiveram carreiras tão diferentes, mas também tiveram pontos em comum. São filhos da cultura germânica, suas obras giraram em torno do sangue e pelo sangue ancestral tiveram que fazer uma opção, uma escolha que sepultada nos velhos registros, nos permitiu reuni-los para discutir o que é identidade étnica. Pois um dia, estas duas personalidades defrontaram-se com a questão e fizeram suas opções através de cartas publicadas que transcrevemos sem fazer nenhum juízo de valor.
O primeiro deles é o generaloberst Alexander Adolf August Karl von Linsigen (1850-1935). Ele era o próprio estereótipo do general prussiano: era um dos von Linsigen, nascera na Prússia e ostentava um cartel vitorioso. Comandara divisões importantes, combatera na batalha de Czartorysk e dirigira a ofensiva à Ucrânia. Foi governador militar de Brandenburgo, presidente do Clube Militar Alemão entre 1919 e 1933, quando descobriram que ele tinha mãe judia. Enquadrado nas Leis Raciais foi excluído de seus quadros. Imediatamente ele pediu a sua inclusão na Federação de Soldados Veteranos Judeus da Alemanha. O teor da sua carta é o seguinte:
Estimados camaradas: o governo atual de Berlim promoveu-me a judeu. Queiram-me conceder a honra de admitir-me na sua agremiação. Com as saudações de velho soldado. (a) von Linsigen, coronel-general" (in “Os judeus te contemplam – fatos referentes a questão judaica”, de Erich Frankel, pp. 137-8).
A segunda carta é do vienense Karl Landsteiner (1868-1943), filho de pais judeus. Landsteiner durante a I Guerra Mundial passou aos EUA, onde desenvolveu uma brilhante carreira de pesquisador, descobrindo o fator RH e recebendo por seus trabalhos o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1930. Ele proibiu que seu nome fosse incluído no “Who´s Who in American Jewry”, através de uma carta.
Seria prejudicial para mim ver publicamente enfatizada a religião de meus antepassados: em primeiro lugar, por motivos de conveniência; e, em segundo, porque não quero consentir em nada que possa, ainda de modo insignificante, causar qualquer angústia, dor ou sofrimento mental a qualquer pessoa de minha família. Meu filho [o futuro físico Ernst Karl Landsteiner] tem agora 19 anos e não alimenta a menor suspeita de que qualquer de seus antepassados tenha ido judeu. Sei, como fato positivo, que se meu filho visse o livro que está para ser publicado, a descoberta de meu nome seria para ele um choque e poderia submetê-lo a humilhação" (in “O judeu nos tempos modernos”, de Howard M. Sachar, p. 288).
Após observarmos estes três episódios, o bíblico e os dois contemporâneos, podemos perguntar: será que somos livres para escolhermos a identidade étnica?

Um comentário:

  1. A historiadora Zilma Ferreira Pinto diz ; Assim como o indivíduo,
    Faz se necessário o conhecimento de si mesmo. Ter a consciência
    De suas verdadeiras origens e ancestralidade. ( A saga dos Cristãos
    Novos na Paraíba ).
    E a Cátedra Anita Novinsky ; Nós somos nossos ancestrais ( colóquio
    Nacional – UFRPE ).
    O que eu sou,eu sou , declara Odmar Braga Poeta Marrano ( Fé na
    Lembrança – Nathan Wachtel ).
    O Nordeste Semita – Caesa Sobeira .
    Meu Pai me disse um dia meu filho somos Gente da Nação – Onildo
    Moreno .

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