Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 14 de agosto de 2010

GILBERTO FREYRE, UM ANTISSEMITA?


Estimulado por um artigo elogioso do Dr. Roberto Romano (UNICAMP) sobre uma obra recém-lançada que revelaria o antissemitismo do escritor Gilberto Freyre (1900-1987), autor dentre outras coisas de Casa-Grande & Senzala (1933), resolvi comprar e ler o livro indicado. Leio Freyre desde a adolescência e não percebera este preconceito no seu trabalho e principalmente na sua vida. Foi tenso que comecei a leitura, receoso de ter sido enganado este tempo todo pelo sociólogo pernambucano.
O livro chama-se Tempos de Casa-Grande, 1930-1940 (S. Paulo: Perspectiva, 2010), de Silvia Cortez Silva, que já foi uma tese de Doutoramento defendida na FFLCH-USP. São duas centenas de páginas para provar o racismo de G.F. A autora usou como material para provar esta hipótese excertos de sua obra. Apesar do objetivo do ataque ser Gilberto Freyre, sem distinção entre autor e obra, ela não trouxe notícia de nenhum ataque do escritor a sinagoga ou algum judeu pelas ruas de Recife. Ufa!..
Depois de lido não encontrei com o que preocupar-se. Não há hostilidade de Freyre aos judeus. As acusações basearam-se em apenas citações truncadas, retiradas de seu contexto original, lidas maliciosamente e muitas vezes ela traz exemplos que a desmente: G. F. orgulhava-se de ter sido discípulo do judeu-alemão Franz Boas; a família Freyre declara ter origem judaica; foi preso por denunciado Nazistas no país; a revista segundo a autora, antissemita, Fronteira, tinha como principal alvo a G.F.; e em muitos momentos há elogios dele aos judeus. Se levarmos a sério as acusações da autora, o “herói sem escrúpulo”, que tinha um “ideário antissemita” foi um antissemita dos mais originais.
No mesmo livro outros autores também são mimoseados com o adjetivo antissemita. Um caso é cômico. O historiador Solidônio Leite é rotulado como antissemita. Surpreendente, pois ele era homenageado nos anos cinqüenta, pela revista judaica Aonde Vamos? por seu pioneirismo no estudo dos judeus no Brasil, que influenciaria a obra do primeiro historiador judeu brasileiro Jacob Nachbin. A autora não leu nada de Solidônio. Ele não consta de sua bibliografia – mas mesmo assim achou-se no direito de julgá-lo antissemita. Deve tê-lo rotulado negativamente por este ter participado da coletânea: Por que ser anti-semita? Título ambíguo, mas que em 1933, foi o que melhor se fez para defender os judeus. Tempo em que os judeus perdiam os seus direitos civis em alguns países da Europa. Pois ele esteve entre os intelectuais que se postaram na defesa dos judeus. Imagino que a sua participação no tal livro, tenha enganado autora pelo título e rendido a acusação ao historiador.
Há outro documento que desmente esta pecha a Gilberto Freyre. No Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB) há uma fotografia onde aparece no Teatro de Santa Isabel, G. F. sendo homenageado na comemoração dos seus oitenta anos ... pela Comunidade Judaica de Pernambuco, através do seu presidente, prof. Salomão Jaroslavsky, pelo presidente da Bnei Brith local (entidade judaica de combate ao Racismo), Isaac Posternak; pelo embaixador de Israel, Moshe Erell e o governador Roberto Magalhães. Será que estes homens tão qualificados e experientes foram enganados pelo escritor pernambucano?
O trabalho da Srª Silva me lembrou uma antiga história que circula no mundo político. Um político chamado, digamos Gilberto, passa por um local, onde um ladrão assalta uma velhinha. Ele consegue aprisionar o ladrão e o fato é noticiado. Algum tempo depois, alguém ouve falar no tal Gilberto e pergunta quem é? Alguém que ouvira a notícia no rádio, mas não se lembrava bem dos detalhes responde: “É um cara que esteve envolvido num assalto a uma velhinha”. É o caso deste livro onde os exemplos recolhidas pela autora são contrários a sua conclusão. Infelizmente quem ficar somente no barulho causado por ele acreditará nesta besteira – de que G. F. era antissemita.

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