Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ARIANO SUASSUNA: SOB PELE DE OVELHA

Dom Dinis (1261-1325), filho de Afonso III e de Dona Beatriz de Castela, conhecido como o “o Lavrador”, talvez tenha sido o mais importante Rei de Portugal, por sua capacidade administrativa, sua tolerância com as minorias, dentre outras qualidades. Ele reinou por 46 anos. O seu rastro ou a sua memória sobrevive não apenas nos pinheiros que foram plantados pelo país durante o seu governo, mas também nas veias populares, pois através de um filho ilegítimo, mas leal ao pai, descendem dele, dentre outras famílias, os Cavalcanti de Albuquerque, uma das famílias fundadoras da nacionalidade brasileira e a mais importante e prolífica família do Nordeste.
Um dos ramos desta família brasileira, durante o rompimento com o Império Português, tomou como sobrenome o indígena Suassuna (veado negro), nome de um engenho da família, substituindo assim o apelido luso-brasileiro. Muitos anos depois, João Urbano Pessoa de Vasconcelos (governador da Paraíba entre 1924 e 1928) casou-se com Rita de Cássia Dantas Villar. Eles tiveram na cidade de Nossa Senhora das Neves da Paraíba do Norte, a 16 de junho de 1927, o filho Ariano Villar Suassuna, escritor e político sertanejo, autor de várias peças de teatro, romances e poemas, sempre escritos numa linguagem, “armorial”. Mesmo nos seus momentos mais plebeus, Suassuna mantém um vocabulário solene, oriundo do cartório e das Sagradas Escrituras.
Na produção literária de Suassuna, nos chamou a atenção o poema SOB PELE DE OVELHA, publicado na FOLHA DE S. PAULO, onde encontramos traços que permitem identificar o retrato é o retrato psicológico de um cristão-novo. Dialogamos com o autor e este artigo é o resultado destas leituras recíprocas.
Eis o poema, que é um soneto:

ABERTURA “SOB PELE DE OVELHA”
Falso Profeta, insone, Extraviado, / Vivo Cego, a sondar o Indecifrável / E, jaguar da Sibila – inevitável, / Meu Sangue traça a rota deste Fado. / Eu forçado a ascender, eu, Mutilado, / Busco a Estrela que chama inapelável / E a Pulsação do Ser, Fera indomável, / Arde ao sol do meu Pasto incendiado / Por sobre a Dor, a Sarça do Espinheiro / que acende o estranho Sol, sangue do ser, / transforma o sangue em Candelabro e Veiro / Porisso não vou nunca envelhecer / Com meu Cantar, supero o desespero, / Sou contra a Morte e nunca hei de morrer”.

Quase todas as figuras usadas no poema, com a exceção do jaguar da Sibila, são de origem bíblica do Velho Testamento. Fazem parte do cenário poético: a pele de ovelha, usada para assumir nova identidade (Jacó, o tronco da família e de seu Povo, utilizou a pele de um cabrito). A Sarça do Espinheiro que atraiu e mudou a vida de Moisés. O candelabro e a estrela, brasões israelitas, signos étnicos e religiosos, identificadores do monoteísmo judaico.
Usando todas estas metáforas, o narrador mostrou a sua aproximação com a Divindade, num clima cabalístico, contando a sua angústia frente as misérias humanas e revelando, até inconscientemente a sua condição etnocultural. O resultado é um retrato psicológico do cristão-novo, do descendente dos Conversos, o extraviado do seu caminho original e o Mutilado de sua herança ancestral. A sua ação mística é herdada dos seus antepassados. Ele pertence a uma religião tribal, pois é o meu sangue [que] traça a rota deste Fado.

O Sr. concorda com esta exegese?
ARIANO SUASSUNA - Até onde sei, não sou judeu, se bem que simpatizo muito com os judeus, como você notou. A presença da linguagem metafórica no meu soneto – como aliás, em tudo que eu escrevo – vem do meu cristianismo e da minha convivência, desde menino, com os grandes profetas judeus, principalmente Ezequiel, Isaías e Daniel. A Estrela é, portanto, uma imagem na qual procuro sempre fundir a Estrela de David com a Estrela da Manhã, a Sofia e a Mulher Vestida de Sol. O Candelabro origina-se, também, de uma identificação de Cabala, que faço entre a menorá e duas formas que existem numa pedra insculpida na região agreste da Paraíba. Nessa pedra, existem duas formas em baixo relevo, que lembram a menorá. Amas têm 9 braços e não 7. Um amigo meu, judeu de Israel que, por indicação minha, foi a Paraíba ver essa Pedra, disse que a menorá às vezes é representada com 9 braços. Uso a primeira como insígnia da Verdade e a segunda como insígnia da Beleza (aliás, a meu ver, os escultores rupestres que a fizeram, partiram da forma da flor do mandacaru). Sou então, como vê, um cristão fiel (talvez mais fiel do que os outros) ao que o Cristianismo tem do Judaísmo”.

Pedro Diniz Quaderna, o seu personagem do cotoco judaico-sertanejo, me cutuca e mostra um recorte de jornal paulistano, onde Mestre Suassuna explicou a sua adesão pelo Catolicismo, explicando que o “processo de Conversão foi longo e tem outras influências, como a literatura de Unamuno e Dostoiewsky. Também fiquei sensibilizado pela fé religiosa de minha mulher, que me despertou simpatia pelo catolicismo”. Pouco resta a acrescentar ao que foi escrito. Não é todo dia que o especulador tira as dúvidas diretamente com a fonte.

GENEALOGIA BRASILEIRA (II): ARIANO SUASSUNA

1. ARIANO VILLAR SUASSUNA nasceu no Palácio da Redenção (Obrigado pela correção, Martinho Jr.), N. Srª das Neves (hoje João Pessoa), 16/06/1927, filho de João Urbano e Rita de Cássia. Advogado, professor e escritor. Membro da Academia Brasileira de Letras

PAIS:
2. JOÃO URBANO PESSOA DE VASCONCELOS SUASSUNA, morreu assassinado no Rio de Janeiro, 19/01/1886 – 09/10/1930, filho de Alexandrino e Joana Francisca, juiz em Umbuzeiro e Monteiro, procurador da Fazenda Nacional, deputado e governador da Paraíba.
3. RITA DE CÁSSIA DANTAS VILLAR, nasceu em Taperoá e morreu em Recife, 21/02/1896 – 26/04/1990, filha de Gabriel e Afra.

AVÓS:
4. ALEXANDRINO FELÍCIO SUASSUNA, “Pai Didido”, nasceu em Martins, RN e morreu em Catolé do Rocha, grande proprietário rural.
5. JOANA FRANCISCA PESSOA DE VASCONCELOS, “Mãe Joaninha”, 1852 – 07/10/1938, filha de Bevenuto José e Ana Francisca.
6. GABRIEL DE ARAÚJO VILLAR, + 1904, filho de Adeodato e Olímpia Josefa.
7. AFRA DANTAS DE VASCONCELLOS, 1873-1917, filha de Antonio e Rita de Cássia.

BISAVÓS:
8. RAIMUNDO FRANCISCO DE SALES SUASSUNA, “Raimundo Doido”, nascido em Pernambuco, primo de um governador do RN, proprietário rural.
9. MARIA FELÍCIA ..................., nascida em Martins, RN.
10. BEVENUTO JOSÉ PESSOA DE VASCONCELOS, filho do Padre Felipe e Maria Sancha, proprietário rural.
11. ANA FRANCISCA XAVIER DE FIGUEIREDO, “Mãe Dondon”, filha de Manoel de Cristo.
12. ADEODATO VILLAR DE ARAÚJO
13. OLIMPIA JOSEFINA............................
14. ANTONIO DANTAS DE GÓIS MONTEIRO, 1849-1888, filho de José e Isabel Rita, proprietário rural na Serra do Teixeira.
15. RITA DE CÁSSIA PESSOA DE MELLO, 1851-1877

OUTROS ANCESTRAIS:
20. PADRE FELIPE JOSÉ PESSOA DE VASCONCELOS, natural de Goiana, sacerdote em Catolé do Rocha.
21. MARIA SANCHA BENIGNA, “Didinha”, morreu em 1846.
22. MANOEL DE CRISTO GRANGEIRO E MELO, músico pernambucano, compositor sacro, fundou em Areia, a primeira banda de música local. È o avô paterno do pintor PEDRO AMÉRICO.
28. JOSÉ DANTAS CORREIA DE GÓIS, 1798-1879, filho do Capitão Anta e Josefa Francisca, proprietário rural, agricultura e pecuária, no Jabre.
29. ISABEL RITA CAETANA, “Belinha”, filha de Manuel e Maria de Jesus.
56. ANTONIO DANTAS CORREIA DE GÓIS, “Capitão Anta”, filho de José e Teresa, grande proprietário rural, fundador da cidade de Teixeira. “Gostava muito de andar de espada”. Familiar do Santo Ofício, FSO (1804).
57. JOSEFA FRANCISCA DE ARAÚJO E ALMEIDA, filha de João e Maria Francisca, natural de Nossa Senhora dos Milagres, de s. João do Cariri.
58. MANUEL PEREIRA MONTEIRO, 3º, 1771-1861, filho de Manuel e Joana, proprietário rural no Rio Grande do Norte.
59. MARIA DE JESUS JOSÉ DA ROCHA, 1785-1854, natural de S. Lourenço da Mata, Pernambuco, proprietária do Engenho Pindobal em Paudalho, filha de Bernardo e Maria Rita.
112. JOSÉ DANTAS CORREIA FILHO, filho de José e Isabel, fixou-se na cidade da Paraíba.
113. TERESA DE GÓIS E VASCONCELOS, filha de Lourenço e Joana.
114. JOÃO DE ARAÚJO E ALMEIDA, Cavaleiro da Ordem de Cristo, COC, natural de Braga, Portugal.
115. MARIA FRANCISCA BENEDITA, filha de Manuel e Ana.
116. CAPITÃO MANUEL PEREIRA MONTEIRO, 2º, filho de Manuel e Tereza. Em 1761 os Pereira Monteiro recebem do governador Francisco Xavier de Miranda Henriques a autorização para explorarem a agricultura na serra do Teixeira, PB.
117. JOANA TAVARES DE JESUS
118. BERNARDO JOSÉ LOPES DE MORAIS, português, Senhor dos Engenhos Pindobal e Ramos, em Paudalho, Pernambuco.
119. MARIA RITA CAETANA DA SILVEIRA
224. SARGENTO-MÓR JOSÉ DANTAS CORREIA, nasceu em Barcelos, Portugal,1684. Senhor do Engenho Fragoso em Olinda.
225. ISABEL DA ROCHA MEIRELES, portuguesa.
226. TENENTE-CORONEL LOURENÇO GÓIS E VASCONCELOS, português, (mesma família do Barão de Icó).
227. JOANA ......................................
230. MANUEL RODRIGUES PIQUET, português e residente na cidade da Paraíba.
231. ANA COELHO BARRETO
232. MANUEL PEREIRA MONTEIRO, em 1726 chegou ao Seridó para receber a doação de terras de seu tio Manuel Barbosa de Freitas, cunhado dos Oliveira Ledo.
233. TERESA TAVARES DE JESUS

GENEALOGIA BRASILEIRA (I): GILBERTO FREYRE

1. GILBERTO DE MELLO FREYRE nasceu e morreu em Recife (15 de março de 1900 – 18 de julho de 1987). Sociólogo.

PAIS:
2. ALFREDO ALVES DA SILVA FREIRE nasceu em Água Preta (1874 – 12 de agosto de 1961). Juiz, professor e tradutor.
3. FRANCISCA TEIXEIRA DE MELLO morreu em 1943.

AVÓS:
4. ALFREDO ALVES DA SILVA FREIRE. Senhor dos Engenhos Trombetas e Mascatinho.
5. MARIA RAYMUNDA DA ROCHA WANDERLEY
6. ULYSSES PERNAMBUCANO DE MELLO
7. FRANCISCA BARRADAS DA CUNHA TEIXEIRA morreu em 1909.

BISAVÓS:
8. JOSÉ ALVES DA SILVA FREIRE. Senhor de Engenho e Juiz de Orfãos e Municipal. Assassinado em Santo Antão (1835).
9. ..............................................
10. CORONEL MANOEL DA ROCHA WANDERLEY. Descendente dos Nieuhof Van Der Ley.
11. FELICIANA DE PAULA DA ROCHA WANDERLEY
12. JOSÉ ANTONIO GONSALVES DE MELLO. É avô do historiador José Antonio Gonsalves de Mello (1916-2002), autor de Gente da Nação (1990), principal obra sobre os judeus e cristãos-novos em Pernambuco.
13. TERESA CORDOLINA FONSECA GALVÃO. São aparentados aos “Sete Macabeus” de Alagoas, ao qual pertenceu o Marechal Deodoro, que se consideram aparentados ao Rabino Isaac Aboab.
14. FELIX DA CUNHA TEIXEIRA
15. MARIA SEBASTIANA BARRADAS.

sábado, 14 de agosto de 2010

GILBERTO FREYRE, UM ANTISSEMITA?


Estimulado por um artigo elogioso do Dr. Roberto Romano (UNICAMP) sobre uma obra recém-lançada que revelaria o antissemitismo do escritor Gilberto Freyre (1900-1987), autor dentre outras coisas de Casa-Grande & Senzala (1933), resolvi comprar e ler o livro indicado. Leio Freyre desde a adolescência e não percebera este preconceito no seu trabalho e principalmente na sua vida. Foi tenso que comecei a leitura, receoso de ter sido enganado este tempo todo pelo sociólogo pernambucano.
O livro chama-se Tempos de Casa-Grande, 1930-1940 (S. Paulo: Perspectiva, 2010), de Silvia Cortez Silva, que já foi uma tese de Doutoramento defendida na FFLCH-USP. São duas centenas de páginas para provar o racismo de G.F. A autora usou como material para provar esta hipótese excertos de sua obra. Apesar do objetivo do ataque ser Gilberto Freyre, sem distinção entre autor e obra, ela não trouxe notícia de nenhum ataque do escritor a sinagoga ou algum judeu pelas ruas de Recife. Ufa!..
Depois de lido não encontrei com o que preocupar-se. Não há hostilidade de Freyre aos judeus. As acusações basearam-se em apenas citações truncadas, retiradas de seu contexto original, lidas maliciosamente e muitas vezes ela traz exemplos que a desmente: G. F. orgulhava-se de ter sido discípulo do judeu-alemão Franz Boas; a família Freyre declara ter origem judaica; foi preso por denunciado Nazistas no país; a revista segundo a autora, antissemita, Fronteira, tinha como principal alvo a G.F.; e em muitos momentos há elogios dele aos judeus. Se levarmos a sério as acusações da autora, o “herói sem escrúpulo”, que tinha um “ideário antissemita” foi um antissemita dos mais originais.
No mesmo livro outros autores também são mimoseados com o adjetivo antissemita. Um caso é cômico. O historiador Solidônio Leite é rotulado como antissemita. Surpreendente, pois ele era homenageado nos anos cinqüenta, pela revista judaica Aonde Vamos? por seu pioneirismo no estudo dos judeus no Brasil, que influenciaria a obra do primeiro historiador judeu brasileiro Jacob Nachbin. A autora não leu nada de Solidônio. Ele não consta de sua bibliografia – mas mesmo assim achou-se no direito de julgá-lo antissemita. Deve tê-lo rotulado negativamente por este ter participado da coletânea: Por que ser anti-semita? Título ambíguo, mas que em 1933, foi o que melhor se fez para defender os judeus. Tempo em que os judeus perdiam os seus direitos civis em alguns países da Europa. Pois ele esteve entre os intelectuais que se postaram na defesa dos judeus. Imagino que a sua participação no tal livro, tenha enganado autora pelo título e rendido a acusação ao historiador.
Há outro documento que desmente esta pecha a Gilberto Freyre. No Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB) há uma fotografia onde aparece no Teatro de Santa Isabel, G. F. sendo homenageado na comemoração dos seus oitenta anos ... pela Comunidade Judaica de Pernambuco, através do seu presidente, prof. Salomão Jaroslavsky, pelo presidente da Bnei Brith local (entidade judaica de combate ao Racismo), Isaac Posternak; pelo embaixador de Israel, Moshe Erell e o governador Roberto Magalhães. Será que estes homens tão qualificados e experientes foram enganados pelo escritor pernambucano?
O trabalho da Srª Silva me lembrou uma antiga história que circula no mundo político. Um político chamado, digamos Gilberto, passa por um local, onde um ladrão assalta uma velhinha. Ele consegue aprisionar o ladrão e o fato é noticiado. Algum tempo depois, alguém ouve falar no tal Gilberto e pergunta quem é? Alguém que ouvira a notícia no rádio, mas não se lembrava bem dos detalhes responde: “É um cara que esteve envolvido num assalto a uma velhinha”. É o caso deste livro onde os exemplos recolhidas pela autora são contrários a sua conclusão. Infelizmente quem ficar somente no barulho causado por ele acreditará nesta besteira – de que G. F. era antissemita.