Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

JOSÉ MINDLIN: VISITA AO HOMEM QUE MORA NUMA BIBLIOTECA


O casal José Ephim e Guita Mindlin é admirável. Um caso de sucesso familiar e empresarial. Eles geraram filhos decentes num momento extremamente complicado da Humanidade. Administraram uma das empresas mais modernas do país (a Metal Leve). Construíram a mais valiosa biblioteca particular do Brasil (e talvez do mundo). Assim quando recebi o convite de Marília Levi Freidenson, uma das organizadoras do belo livro Passagem para a América. Relatos da imigração judaica em S. Paulo (S. Paulo, 2003) para visitá-los e por extensão, conhecer a sua biblioteca, alegrei-me bastante. Realizaria um dos múltiplos desejos do letrado provinciano que sou.
Comecei a ler muito cedo. Entre os três e quatro anos passei a dominar o alfabeto latino. Isto deu-me o caminho de minha vida. Tornei-me o que sou hoje, essencialmente um leitor. Cultivei sonhos. Já que não era possível visitar a biblioteca de Alexandria, passei a ter como objetivo participar um dia de um sabadoyle (encontros intelectuais na casa do bibliófilo Plínio Doyle, 1906-2000) ou folhear os livros da biblioteca Mindlin. Até o convite de Marília o máximo de glamour intelectual que eu usufruíra foi estar numa mesma fila de xerox, na Biblioteca Mário de Andrade (S. Paulo) atrás do tradutor e poeta concretista Augusto de Campos, olhando o seu toutiço.
Assim, Marília e eu, nos reunimos ao engenheiro e professor baiano Carlos Kertesz, que também acalentava o mesmo sonho. Conhecer a biblioteca. Nas suas palavras: “há treze anos espero por isto”. Rumamos para uma tranqüila rua do Brooklin onde fomos recebidos pelo casal. Conversamos sobre alguns temas de interesse comum já na ala doméstica da biblioteca. A Srª Guita é da família Kauffmann de Campinas, sobre quem falamos. O Sr. Mindlin perguntou-me “o que eu era do Clarival (do Prado Valadares, 1918-1983, historiador de arte)?” – “Somos primos”, respondi.
Logo somos apresentados a sua biblioteca, que é também a sua casa. O Sr. Mindlin sabe a história de cada volume, a biografia do autor, as circunstâncias em que o livro foi publicado, a trajetória daquele exemplar e como ele foi adquirido. Ele diz todas estas informações em voz baixa, sempre com um sorriso, mostrando o prazer sensorial e espiritual que ele tira de cada um deles. O seu motto (divisa) é uma frase: “je ne fai rien sans gaieté (não faço nada sem prazer)”, de Michel de Montaigne (1533-1592). Ele nos mostra primeiro, um exemplar envernizado de “Direito Bancário”, que a um melhor exame se mostra um banquinho de madeira ou descanso para os pés. È uma brincadeira que o então acadêmico de Direito fez com a sua caloura, ambos alunos do Largo de S. Francisco. Foi o começo do namoro entre os dois.
Sob o olhar severo de uma figura cusqueña que vive num quadro ao fundo da sala vamos ouvindo o anfitrião. Emociono-me ao ter em mãos um livro do rabino Menasseh Ben Israel (Manuel Dias Soeiro, 1604-1657). Mas não tenho tempo para curtir o sentimento de elevação espiritual. Temos outros livros para examinarmos, é um volume do século XV. E outro, com mais uma história saborosa. Este é um exemplar do Triunfo Eucarístico, que descreve a maior procissão católica no Brasil, ocorrida no século XVIII e que valeu a Mindlin a condição de Irmão de uma das Ordens Terceiras da Igreja do Pilar em Ouro Preto (MG). A tarde passa tão rápido, que logo tenho em mãos manuscritos de Gilberto Freyre (1900-1987), de Graciliano Ramos (1892-1953) e de Guimarães Rosa (1908-1967).
Termina a visita. Saio dali com a convicção do privilégio de ter conhecido uma lenda viva positiva. Um homem que enfrentou silenciosamente com extrema coragem e dignidade momentos conturbados, como a xenofobia e os episódios autoritários das décadas de trinta e quarenta, mais o consulado militar nos anos setenta. Geriu empresas. Porém em nenhum momento perdeu o sonho do sonho do menino que procurava catálogos de livros raros para comprá-los e construiu esta monumental biblioteca. É esse menino que nos recebeu, com a sua polidez de nobre e o carinho de um parente mais velho, para termos, como amantes dos livros, uma de nossas melhores tardes de nossa vida. Assim quando ultrapassei o umbral de sua porta saí com a consciência de ter conhecido um dos últimos príncipes (o primeiro de seus pares) de nosso tempo.