Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

domingo, 10 de janeiro de 2010

PARA A FOME DO LOBO E DO LEÃO: A "CULINÁRIA DO NÃO"


Na década de noventa (?) troquei correspondência com o grande etnógrafo pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001) sobre culinária, onde eu tentava responder a pergunta: há uma culinária cristã-nova brasileira?
Passaram-se os anos, eu já tinha esquecido o tema, mas provocado pela editora Carla Milano busquei entre os meus papéis este material e não os encontrei. Assim procurei reconstruir este trabalho com as anotações que sobreviveram num velha caderneta de campo.
Os cristãos-novos espanhóis e portugueses, descendentes dos judeus sefarditas (cujos animais totêmicos são o lobo e o leão) convertidos à força no século XV, vinham de uma tradição culinária que muitas vezes entrava em choque com a ibérica-católica. Ao entrar para o mundo cristão eles foram obrigados a esquecer este passado gastronômico e comer o que antes repudiavam, principalmente o porco. Como eles estavam sob a fiscalização do Santo Ofício (Inquisição) e vigiados pelos vizinhos, que podiam denunciá-los como judaizantes, eles faziam de tudo para escapar desta desconfiança, inclusive comer o proibido anteriormente em público.
No Rio de Janeiro colonial, o padre Manuel da Nóbrega (o segundo do nome) percebendo que era vítima dos boatos que o nomeavam como cristão-novo, para evitar a maledicência de sua paróquia, ele deu um banquete onde o convidado foi o Bispo e o prato principal, o delicioso ou repugnante (dependendo da tradição alimentar do comensal) suíno. Ninguém disse nada, mas todos os olhos fitavam o sacerdote, até que chegou o momento esperado. O padre Nóbrega pegou um naco da leitoazinha (...) mas não conseguiu engoli-la. Como era no Brasil, venceu a esculhambação: ele recebeu o apelido de “Arrevessa Toucinho” e assim entrou para a gastronomia nacional.
O tabu contra o porco alcançou o século XX. O poeta Aragão, descendente de uma destas famílias, escolhendo o prato é um exemplo disto:
“(...) Quando o criado lhe apresentou o cardápio, ele protestou: - Para que diabo é esse papelão? Quero lá sabê de iscuiê versidade de cumida! Traga o que tive! Traga a janta que eu como (...) Eu não sou biquero não. SÓ NÃO ME TRAGA COMIDA COM GORDURA DE PORCO, CARNE DE CAPADO, NEM CARNE DE CRIAÇÃO QUE É CARREGADO (meus grifos).(...)”. Conforme o relato de Mauro Motta (1911-1984).
Inventariando a cozinha deste grupo etnocultural percebe-se que eles não criaram novos pratos, com a exceção das alheiras trasmontanas á base da carne de vitelo e das aves domésticas, e os pães “asmos” (sem fermento) em Portugal. Não se criou nada, além disto. Estacionaram nas proibições bíblicas. Muitos ainda NÃO conhecem o sabor da puruca ou do toicinho. NÃO comem chouriço (por ironia há um prato mineiro chamado “judeu”, que é a galinha ao molho pardo). NÃO manducam o muçum ou o surubim, tanto que Augusto de Lima Junior (1889-1970), que estudou os costumes mineiros, encontrou durante a Colônia e o Império, a importação de muito bacalhau para a alimentação local, apesar de sua riqueza piscícola, a que ele atribui a influência cristã-nova nos hábitos alimentares da região. Outros NÃO misturam carne e leite. NÃO caçavam (que viam como atividade bárbara). É a “culinária do não”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário