Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O PRISIONEIRO ATLÂNTICO OU O DEMÔNIO NA VARA DE PORCOS

A notícia chegou na sala de Júpiter como uma bomba de detefon entre formigas. Tonteou. O ácido Professor Bloch de Colonial, que chamara uma universidade campestre de "agência de publicidade bem sucedida", estava com uma virose e não participaria da banca examinadora que julgaria o Concurso para o Provimento de Docentes. O placar estava 3 x 2 para o sucesso do candidato favorito da casa. Com a saída de Bloch o receio é que o resultado poderia ser alterado.
O Concurso atraira 15 candidatos. O favorito era um aluno de Júpiter, de nome Almeida "a Prazo", lembrança universitária nada sutil ao avô da 25 de Março (rua do comércio árabe em S. Paulo), para quem pendia a casa. A sua adversária mais forte era uma gaúcha oriunda de Católica, que desmontara a ação da Inquisição na Bahia usando a interpretação marxista. Corria por fora, no caso de enfraquecimento dos dois, um judeu cinqüentão com um doutorado sobre o Barroco no Acre defendida em Louvain, que ninguém lera. Os restantes eram pára-quedistas que apenas aumentavam a receita da universidade, pagando as taxas e prolongando o tempo do concurso.
Assim que o Departamento abriu vaga para Colonial começou a circular emails e telefonemas entre interessados, nossa fonte para este trabalho. Mas era consenso no Departamento que a vaga pertencia a Júpiter...se este tivesse competência para dirigir o processo. Logo que ele soube da vaga pôs-se em campo para montar a banca examinadora: passou noites lendo quase inutilmente dezenas de Currículos Lattes - ele conhecia bem este universo. Quem orientou quem e o que publicara. Que favores fulano devia a sicrano; o silêncio numa dissertação mal orientada, a publicação de artigo ou livro, a bolsa de um aluno. Até encontrar os examinadores ideais. Agora era a hora da fatura. Para sacramentar o seu delfim com plena legalidade trouxera dois desafetos, ou pelo menos indiferentes, na vida acadêmica. Não podia deixar chegar ao escândalo do Concurso de Letras anos atrás, quando a encenação terminou em confronto físico e uma nota da Congregação lamentando o charivari.
- Como eu não pensei nisto antes? Perguntava Júpiter para si, dentro de um bem cortado paletó azul e rabo de cavalo, herança de sua juventude nos anos sessenta, quando afrontara a Ditadura. Ele acordara tarde por ter sido orador numa manifestação pedindo ética na política. Fazer o que? Bloch, pica-grossa, era fiel, nunca lhe sugeriu que o palmito de um "cebolinha" (comerciante chinês no jargão paulistano) colocaria em xeque dez anos de engenharia concursal. Entre encontrar um bom aluno, de estirpe, que pudesse lhe suceder, montar uma banca conveniente. Tudo isto podia ser perdido por este palmito fora de hora. Não lhe valia neste momento os livros que escrevera, os 80 artigos científicos, se não colocasse como sucessor o seu delfim.
Um concurso de Docentes é um relógio atômico. Não existe nenhuma peça gratuita em seu maquinário. Tudo tem a sua função por mais inocente que pareça. Não há surpresas - aliás a sua função é provocar surpresa num resultado já esperado pela banca, legitimando esta escolha anterior. Conegliaro de Moderna, alto e ruivo, com tiques de uranista contrariado, dirigia a coleção da editora que publicara o trabalho de Almeida "a Prazo" e presidia a Banca. Bruna, a desmazelada, fora orientanda de um aluno de Júpiter, não era do Departamento, mas vivia como pesquisadora no Instituto, catalogando a correspondência passiva do Dr. Sérgio, a espera de uma vaga já carimbada. Era suficientemente esperta para acompanhar a manada. O trabalho de Bloch, Conegliaro e Bruna era neutralizar os dois metecos convidados, tanto o Litorâneo, quanto o Mineiro. Como sempre se decidiria a vaga no exame dos memoriais e na aula prática. Nada era combinado com Júpiter, mas este sabia a reação de cada um quando escolhera para a banca examinadora. O suplente de Bloch era Cardosinho, seu apagado protegido, oriundo do baixo-clero.
Cardosinho era sério, porém fora personagem de um incidente desagradável que colara a sua biografia, deixando-o a mercê das piadas acadêmicas. Um ex-aluno promissor se propusera a escrever uma tese chamada A punhalada de Caravaggio e fora para a Itália com polpuda bolsa-sanduíche, recolher material, voltara um ano depois apenas com o fichamento de algumas revistas de arte já encontráveis na biblioteca e a cara de pau de afirmar que fizera um pouco de história oral, para justificar a queima da verba em agitada temporada nas saunas locais. Por muito pouco Cardosinho não tivera que repor este dinheiro a agência fomentadora de pesquisa, porém a conta não lhe foi cobrada, mas ainda era obrigado a suportar pelas costas os gestos cômicos de punhais ou alusões entrecortadas sobre armas brancas em seus cursos na pós-graduação.
No segundo dia do Concurso descobriram que Cardosinho existia. Ele dirigiu-se zombeteiramente ao candidato de Júpiter como "o nosso glabro Braudel... porém mais ambicioso". No almoço emitiu sinais do seu desprezo pelo candidato escolhido. Bruna alarmada falou a Conegliaro, que falou a Júpiter das más intenções do colega de Departamento. O Professor Cardoso de Metodologia odiava o delfim de Júpiter. E o pior, com motivos e pretendia vingar-se do candidato, a quem referia-se nada academicamente como aquele "pleiboizinho viado". Só de vê-lo com as bem passadas camisas de manga comprida sentia inveja de Caim.
Foi o Litorâneo que descobriu o motivo do ódio de Cardosinho. Numa daquelas datas redondas do Padre Vieira ele enviara para o Caderno Cultural um ensaio sobre as imagens bíblicas usadas pelo pregador baiano. Quem recebeu foi o subeditor, o já conhecido Almeida, que protocolarmente ligou para o autor:

"Caro Professor. Recebi o seu notável ensaio sobre o nosso Padre Vieira. É uma interpretação muito arguta e ainda não estudada deste tema. Porém, permita-lhe dizer que há três datas equivocadas, ou que podem provocar discussão, mais alguns erros de digitação. Posso, Professor, fazer o copidesque e retornar ao Sr. para o reexame e depois publicá-lo?".

Cardosinho concordou com o copidesque e estranhou a demora. Mas não passou recibo. Esperou os originais copidescados até ver nas bancas o número especial do Padre Vieira com artigos dos seus maiores interpretes - numero que virou referência segundo Júpiter - mas sem o seu trabalho "sumido" pelo subeditor. A partir daquele momento o delfim de Júpiter ganhou o aposto comercial e entrou na lista dos seus desafetos.
Avisado pelos seus pares, Júpiter que preparava o simpósio O Prisioneiro Atlântico para o próximo mês, descolocou-se de sua sala no Prédio da Graduação para a Secretaria de Pós-Graduação e no corredor encontrou-se com o trio do Departamento. Junto ao guardinha da Universidade, o Litorâneo via de longe o trio da banca e o velho de paletó azul que conversavam próximo ao bebedouro, mas ele procurava um táxi e queria saber se Guarulhos ficava muito distante. O Mineiro disfarçadamente olhava os livros expostos no mostruário da Faculdade, onde estava a produção dos seus grandes mestres e precocemente o livro de Almeida "a Prazo", uma aposta no futuro, como decretara Bruna no exame dos memoriais.
Júpiter fingiu surpresa: Nem vou perguntar como vai o Concurso. Tenho certeza do caráter e da vidência dos colegas. Estava de passagem, vim assinar uns papéis na secretaria e soube que vocês estavam aqui e assim aproveitei para dar um alô para vocês, nos meus últimos dias de Universidade... e aproveito para lhes dar uma palavra de um mestre que está no fim....(pausa). Vocês estão com o futuro da Universidade nas mãos. A escolha de vocês é séria. É uma disciplina, que excluindo o meu caso - Bruna berrou um não apoiado - sempre teve grandes mestres, a partir do Dr. Sérgio. Não pode ser escolhido alguém muito velho (pontapé no judeu) porque o pesquisador precisa é de tempo, ouso dizer também que há entre os candidatos gente destas faculdades de beira de estrada, um resultado dos desmandos daquele animal híbrido. Temos que ser rigorosos. Não podemos nos entusiasmar por utopias anacrônicas (rodou a gaúcha). Mas eu confio que vocês farão o seu trabalho. Pelo menos a Universidade acredita nisto. Mas isto não é mais assunto meu, são de vocês que são jovens... Parabéns, Professor Cardoso, soube da Professora Maura que ela está escrevendo o parecer de um aluno seu para uma bolsa-sanduíche em Sevilha. Parece que aquele infeliz incidente foi superado. Inclusive falei com o Professor Furtado, que devíamos pensar no seu Pósdoc, o Sr. já pensou na Sorbonne?

Anotação em caneta azul

Não sei por que escrevi este capítulo, já sabendo das regras de nosso Departamento. Texto sem footnotes não se publica. Nisto nós somos bem rigorosos. Não abrimos mão de nosso rigor acadêmico por nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário