Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

domingo, 10 de janeiro de 2010

ASCENDÊNCIA NEGRA DO POETA RUSSO A. S. PUCHKIN


Foi sucesso em Israel na belíssima voz do grande cantor sefardita (judeu ibérico) Yehoram Gaon a canção em hebraico “Eyfo Hen Habachurot” (de J. Gamzu / S. Paikov), onde numa de suas estrofes o compositor lembra-se romanticamente das mulheres pioneiras de Israel:


“(...) que sabiam ler Puchkin sobre o feno, jovens vestidas de maneira simples (...)”


O poeta russo Puchkin é uma referência de alta cultura para os que viveram em algum momento sob a cultura russa. Ele, que a partir de sua escrita tornou-se padrão desta literatura, como Dante, Goethe e Camões para as suas literaturas. Curioso é que nem todos os ancestrais do escritor pertenciam ao povo russo, tendo até um inesperado africano entre os seus ancestrais, que através dele chegaram à alta nobreza.
Aleksandr Sergueievitch Puchkin nasceu em Moscou e morreu num duelo a pistola em S. Petersburgo (1799-1837). Ele vinha de uma família aristocrática russa com ancestrais alemães e um bisavô etíope. Pelo lado paterno descendia de I.M. Golovin, morto em 1738, comandante da esquadra naval. Apesar da nobre ascendência que lhe rendeu uma função do Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi o seu ancestral africano o que mais chamou atenção, até dele mesmo, a ponto de escrever o romance “Arap Petra Velikogo” (O negro de Pedro o Grande, 1837) sobre a sua extraordinária história.
Abram Petrovitch Hannibal (1696-1781), antes chamou-se simplesmente Ibrahim e nasceu livre na Etiópia, mas foi capturado por caçadores de escravos e vendido para o sultão turco. Por sorte de Hannibal ele foi presenteado ao czar Pedro o Grande (1672-1725), que afeiçôo-se ao novo companheiro, protegendo-lhe na Corte Imperial. Mandou-o depois a Ecole d´Artillerie de La Fere na França para estudar a arte militar. Era o caminho para a nobreza. Dali seguiu para a Espanha onde lutou como capitão na Guerra da Sucessão. Retornou a Rússia, onde casou-se e teve descendência na aristocracia. Ele foi avô da mãe do poeta, Nadezda Ossipovna Hannibala, ascendência perceptível na aparência do poeta.
A filha do poeta, Natalia Alexandrovna Puchkin (1832-1913) casou-se com um aristocrata da família Nassau e teve três filhos, uma delas, Sophia von Merenberg (1868-1927) casou-se com um neto do czar Nicolau I (1796-1855) e teve três filhos. A primeira, de nome Anastasia de Torby (1892-1977) casou-se com o major-general Sir Augustus Wernher (1893-1973) e teve dois filhos: George Michael Alexander e Georgina. De Georgina, nasceram Alexandra Anastasia Phillips (que casou-se com o Marquês de Hamilton) e Natalia Ayesha Phillips (casada com o 6º duque de Westminster). A segunda filha de Sophia von Neremberg, Nadejda de Torby (1896-1963) casou-se com o príncipe George Louis Victor Henry Serge de Battenberg (1892-1938), tendo descendência inscrita entre os herdeiros da Coroa Britânica.
Escrevi este artigo provocado por uma resposta do sambista e escritor Nei Lopes: “Nunca vi negros bem na imprensa e isso me incomodava. Então quando aparecia uma matéria, eu recortava e guardava”. Porém ficou-me a pergunta: o que aconteceria aos descendentes de A. P. Hannibal se este tivesse sido vendido no Brasil?

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