Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A FAMÍLIA MILÃO EM MOVIMENTO: "armado ando com as armas de Adonai"

A cena no conjunto de azulejos coloniais é familiar para qualquer judeu, mas é improvável um católico decifrá-lo a primeira vista, apesar dela já estar secularmente na parte interna do Convento Franciscano de Nossa Senhora das Neves em Olinda. É uma criança deitada na almofada, entre a sua família e os convidados, enquanto aguardam o início do ofício, a cerimônia do berith milah (circuncisão) da divindade cristã. Curiosamente a imagem escapou a fúria antissemita que varreu a presença judaica do cotidiano lusitano depois da Grande Conversão em 1497, quando foram destruídas lápides sepulcrais, telas que retratavam judeus, sinagogas transformadas em igrejas, esquecidos os velhos nomes e principalmente os cristãos-novos amedrontados pela repressão católica se refugiaram na discrição, raramente deixando escapar os traços de sua biculturalidade. Nesta Olinda, combinação lusotropical de morro e praia, viveram alguns membros da família cristã-nova portuguesa Milão no final do século XVI. Não se sabe com precisão a origem do sobrenome, nem que foi o primeiro a utilizá-lo nesta família. A historiadora Maria José Tavares Ferro encontrou um Milão em Barcelos antes da Grande Conversão. Eles não são estrangeiros, pois os ancestrais dos olindenses estão em Santa Comba Dão e na Covilhã há algumas gerações. A primeira análise é que seja um sobrenome toponímico – ele identifica um oriundo por nascimento ou que esteve a negócios em Milão. Mas qual Milão? A cidade italiana ou um tópos português desconhecido, quinta ou aldeia? Não poderia ser também um fóssil onomástico, a milah (circuncisão) que guardaram simbolicamente no nome e no interior, porque não puderam conservar nos seus corpos. É uma hipótese arrojada, mas que será fortalecida quando desvendarmos o raciocínio que conduziu a aquisição de sobrenome hebraico que alguns deles usaram em Hamburgo.

O PATRIARCA “ANRIQUE” E OS MILÃO

Henrique Dias Milão (1528-1609) nasceu em Santa Comba Dão, entre Viseu e Coimbra, filho de Manuel Lopes e Leonor de Cáceres, neto paterno de António Lopes e Branca (ou Beatriz) Dias, três gerações nascidas na mesma localidade. Curiosamente nem seus pais, nem avós, se chamam Milão, porém ele é casado com Guiomar Gomes (Lisboa, 1549 – Altona, 1613), filha de Francisco Rodrigues Milão e Beatriz Gomes, neta paterna de Jorge Rodrigues e Guiomar Gomes, e neta materna do médico Gomes Dias e Serena Dias, ambos os casais naturais da Covilhã. É mais um enigma familiar, seria ele um parente distante ou alguém que adotou o sobrenome do sogro – ramos mais importantes que o seu.
Henrique Dias Milão teve com Guiomar Gomes nove filhos: Manuel Cardoso Milão; Gomes Rodrigues Milão; Fernão Lopes Milão; Antonio Dias Milão, Paulo de Milão, Ana de Milão, Beatriz Henriques Milão, Leonor Henriques e a caçula Isabel de Santiago. A família por nascimento e casamentos inseria-se na alta camada econômica dos cristãos-novos. Fazia parte de um grupo solidamente aparentado a grandes comerciantes internacionais, principalmente ao asentista Rodrigo de Andrade, casado com Ana de Milão, irmã de Guiomar, a esposa de Henrique Dias Milão. Rodrigo de Andrade além de muito poderoso economicamente, era um dos representantes dos cristãos-novos portugueses. O respeito de Henrique Dias Milão pelo concunhado era tanto, que nomeou uma filha com o mesmo nome da tia, Ana de Milão (que por conveniência genealógica chamamos a Segunda).

NA RUA DA SERRALHEIRA, OLINDA

O Brasil produzia uma mercadoria de grande procura no mercado internacional, o açúcar. Para colocá-lo a disposição da clientela européia necessitava-se de um comprador de confiança no Brasil e vendedores do mesmo jaez na Europa. Os cristãos-novos de alta extração econômica aproveitaram-se disto, já que suas famílias estavam espalhadas pelo mundo. Isto gerou e fortaleceu as chamadas redes comerciais, que antes de tudo eram redes genealógicas, pois os atores estavam ligados por parentesco agnático e cognático – a maioria deles é descendente ou casado com descendente do último Grão-rabino de Castela, Abraham Senior.
Os Milão são uma destas redes genético-mercantís envolvidas no comércio do açúcar. Eles tiveram gente de si, do México a Madras ou Cabo Verde, de Veneza a Hamburgo. Só para se ter noção da ação global do clã, basta ver a biografia de uma serviçal da família, Violante Dias. Nascida na China, ela foi batizada no Japão e vendida como escrava em Goa para Henrique Dias Milão, que a alforriou. Ela trabalhou na casa dos Milão na Rua do Barão em Lisboa, foi processada como judaizante com os patrões, acompanhou a família quando expatriou-se e está sepultada no Cemitério Judaico de Hamburgo. Percorra num mapa a trajetória desta senhora lembrando-se sempre das precariedades dos transportes naqueles dias.
Dentre os criados ou agregados sob a chefia do patriarca Henrique Dias Milão, havia também um escravo negro de nome Manuel, o inglês Thomas, gente da cidade da Guarda como Branca Rodrigues e João Lopes como criados e os parentes distantes Francisco Barbosa, que fazia a escrituração contábil e a sua irmã Violante Barbosa.
Pois o negociante Henrique Dias Milão montou uma destas redes, mandando os filhos para Pernambuco, para fazer o negócio do açúcar e do pau brasil. Ele mandou o primogênito Manuel Cardoso Milão para abrir a “empresa”. Vieram depois os irmãos mais jovens, Gomes Rodrigues Milão e Paulo de Milão para o treinamento mercantil. Gomes foi tesoureiro e feitor nos negócios do irmão mais velho. A terceira ponta do triângulo estava em Hamburgo com o genro Álvaro Dinis casado com a sua filha Beatriz Henriques. Outra filha de Henrique, Ana de Milão, também viveu em Olinda, já que era casada com o primo Manuel Nunes de Matos, membro da rede genético-mercantil dos Ximenes. Integrava também a rede o seu irmão António Dias Cáceres baseado no México, negociando prata e ouro - que já havia negociado escravos.
Manuel Cardoso Milão morou por décadas na Rua da Serralheira (hoje Prudente de Morais) em Olinda. Ele é contemporâneo de outros cristãos-novos importantes, como o grande comerciante João Nunes Correia que morava na Rua Nova; de Gabriel da Costa, na Rua da Rocha; de Belchior da Rosa, na Ladeira da Matriz; Bento Teixeira, poeta e de Branca Dias, na Rua de Palhaes, “mitificada” depois na literatura brasileira como vítima da Inquisição. Havia relações de crença entre muitos destes cristãos-novos, tanto que se dizia que nos feriados judaicos, o alfaiate Thomás Lopes, apelidado “Maniquete”, saia por Olinda com um lenço amarrado no pé para avisar discretamente a coletividade da reunião religiosa. Diziam que fazia-se “esnoga” na casa de Milão, onde aparecia até o futuro magnata Duarte Saraiva (David Senior Coronel, 1570-1650), a quem muitos anos depois o rabino Menasseh Ben Israel (Manuel Dias Soeiro, 1604-1657) dedicaria o livro “Conciliador”.
Os Milão viveram por décadas em Olinda negociando açúcar e pau brasil. Nos primeiros anos de 1600 retornaram a Lisboa quando então foram colhidos pela Inquisição. Era o desfecho de uma história que fora armada nos bastidores, resultado de uma luta surda entre a poderosa instituição e os seus oponentes.

O MAIS CRUEL DOS MESES, ABRIL DE 1609


Guiomar Gomes, esposa de Henrique Dias Milão, tinha os irmãos: Gomes Rodrigues de Milão (o primeiro do nome), casado com Ana Dias de Leão, proprietário em Cabo Verde e Ana de Milão (a primeira deste nome) casada com o riquíssimo asientista Rodrigo de Andrade, filho de André Rodrigues de Évora (ou de Andrade) e Branca Lopes, descendente pelo costado paterno do último Rabino-chefe de Castela, Dom Abraham Senior (Fernán Pérez Coronel, 1412-1493, ao converter-se ao Catolicismo).
Rodrigo de Andrade, além das atividades econômicas, foi ao lado de Heitor Nunes de Brito, conhecido como o “Pai dos Afligidos”; Jorge Rodrigues Solís, Manuel Gomes de Elvas, Jerônimo Duarte Ximenes, Tomás Ximenes, João Nunes Correia e Manuel de Palácios, um dos procuradores dos cristãos-novos portugueses escolhidos para negociar o “Perdão Geral”. Uma anistia para os cristãos-novos portugueses da repressão inquisitorial. Eles seriam uma espécie de deputados ou “príncipes” desta minoria etnocultural. A negociação começou em 1591 e foi fechada em 23 de agosto de 1604, sob o compromisso dos cristãos-novos portugueses levantarem 1.700.000 Cruzados. Em 1605 foram soltos 410 presos cristãos-novos em razão do “Perdão Geral”. Gaspar Rodrigues Nunes (Joseph Ben Israel), pai do rabino Menasseh Ben Israel foi um destes libertados.
A represália inquisitorial não tardou. As famílias próximas aos líderes foram cruelmente atingidas. A esposa de Rodrigo de Andrade já estava presa em 1598. Acostumado a lutar, Rodrigo de Andrade fora até Roma onde conseguiu que o Papa Clemente VIII suspendesse este processo em 4 de junho de 1602. O revide a eles foi pesado. Eles se voltaram para os Milão e no dia 28 de outubro de 1606 denunciado por um frade espanhol, Gaspar de Ayala, foram presos Henrique Dias de Milão e seus filhos.
Eles foram presos quando se preparavam para a fuga do país. Já estavam no cais da Madeira – ao longe a fragata que levou o poeta Fernão Álvares de Melo (David Abenatar Melo) a liberdade em Amsterdã, os aguardava. É possível que a Inquisição não só tivesse conhecimento da fuga, como também estivesse infiltrada na estrutura que preparou tudo. Pois nada funcionou direito – o barco que ia fazer a passagem para o navio maior os recusou, os guarda-costas fortemente armados não reagiram e a eles só restaram serem aprisionados.
A estratégia de investigação inquisitorial para agarrá-los, além das denúncias de religiosos e testemunhos de alguém que soubera de segunda fonte, claramente dirigidos pela instituição, cercaram-se das “culpas” encontradas nos processos da esposa e dos filhos, Ana, Fernão, Gomes e Isabel; da sobrinha Beatriz Rodrigues e das criadas Branca Rodrigues e Vitória Dias. Mesmo assim as acusações eram tênues: ele guardava o sábado, não freqüentava a igreja e principalmente não comia porco e peixes sem escamas. Praticava a “culinária do não” para manter a sua identidade etnocultural. Dizia que aprendera um pouco do ritual judaico quando vivera em Goa. Pelo menos era o que ele dizia. Era cauteloso nas afirmações. Disse também que freqüentara como judaizante a casa do Dr. Felipe Montalto (1567-1616), futuro médico de Maria de Médicis, no bairro de Santa Justa.
Ele era uma das vítimas escolhidas para atingir os negociantes do “Perdão Geral”, ser um cristão-novo importante socialmente, foi uma vítima escolhida a dedo para amedrontar os cristãos-novos e servir de exemplo para quem ousasse enfrentar a Inquisição, desarticulando a resistência cristã-nova. Mesmo com todas as evidências de que era indiferente a religião, ele foi relaxado (queimado) em 8 de abril de 1609 e ainda pagou as custas do processo: 4531 reais. O resultado disto foi a expatriação da família, que retornou ao judaísmo rabínico em outros rincões, contribuindo para deixar acéfala a liderança dos cristãos-novos em Portugal, já que os outros mais relevantes socialmente também procuraram terras menos intolerantes.

CONCLUSÃO

A trajetória da família Milão, tirando o seu poder econômico, é a mesma de centenas de outras famílias cristã-novas portuguesas. O seu percurso é o mesmo de tantas outras desta origem etnocultural. Primeiro a conversão de jure (pela lei) em 1497, algumas gerações depois alguém da família foi preso ou assassinado num Auto da Fé, segue-se a isto a expatriação dos aparentados para outro lugar mais tolerante, Hamburgo, Amsterdã, Livorno ou Veneza, Londres, Bordéus...
A passagem dos Milão por Pernambuco também deixou marcas importantes na família. Dois membros da família, Gomes e Paulo de Milão que tinham vivido em Recife, ao adotarem um novo apelido familiar, de aparência mais judaica, para nomearem as linhagens fundadas por eles no estrangeiro, deram o testemunho deste apego à cidade brasileira onde viveram por décadas. Adotaram o sobrenome hebraico Abensur – filho do rochedo (ou recife) para si e para os seus descendentes. O mesmo nome que a comunidade judaica recifense tomaria mais tarde, em 1631, como nome canônico, Tsur Israel.
Serão estes Milão os mesmo Milanos da Itália? Esta foi a pergunta que fiz quando procurei informações de uma e de outra família. Não tenho ainda uma resposta concreta a esta pergunta. Temos vários indícios que sugerem esta ligação. O espaço italiano era conhecido por eles. Manuel Cardoso Milão, primogênito de Henrique Dias Milão, viveu por dois anos em Veneza e os seus descendentes usaram o sobrenome Milan. O seu primo distante, o comerciante Duarte Esteves de Pina adotou o nome de Isaac Milano em 1618. É possível então uma ligação genealógica entre uma e outra família, pois os indícios documentados são consistentes. É necessário apenas aprofundar estas pesquisas.


§1
MILÃO DE LISBOA, OLINDA E HAMBURGO

I – ANTÓNIO LOPES, de Santa Comba Dão, casou-se com BRANCA (ou Beatriz) DIAS e tiveram a:
II – MANUEL LOPES, “contador”, de Santa Comba Dão, que se casou com LEONOR DE CÁCERES e tiveram aos filhos:

1 (III) – ANTÓNIO DIAS CÁCERES, tratante, viveu no México (Índias de Castela) e no Peru, onde foi casado com a peruana CATARINA, que veio para Santa Comba Dão. Representou o irmão Henrique numa negociação na Inglaterra onde tiveram um navio apresado. Ele negociava ouro, prata e escravos. É possível que António fosse casado uma primeira vez com uma LEONOR...
2 (III) – DIOGO DIAS, assassinado em Lisboa.
3 (III) – FRANCISCO LOPES, viveu em Goa e morreu em Cochim.
4 (III) – GUIOMAR MANUEL casada com PEDRO RODRIGUES, “lavrador” . Viviam em Santa Comba Dão. Uma filha do casal, Beatriz Rodrigues casou-se com o primo Gomes Rodrigues de Milão (Daniel Abensur), com geração conhecida até os nossos dias.
5 (III) – BRANCA GOMES casada com Gabriel Gomes, viviam em Santa Comba Dão.
6 (III) – HENRIQUE DIAS DE MILÃO, que segue.

III – HENRIQUE DIAS DE MILÃO nasceu em Santa Comba Dão e morreu queimado pelas acusações de “judaísmo” (1528 – 08 de abril de 1609). Casou-se com GUIOMAR GOMES (Lisboa, 1549 – Altona, 1613), filha de Francisco Rodrigues de Milão e Beatriz Gomes, neta paterna de Jorge Rodrigues e Guiomar Gomes, neta materna do médico Gomes Dias e Serena Lopes. Ele foi condenado: “confisco de bens, excomunhão maior, relaxado à justiça secular”. Ela foi presa em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em 5 de abril de 1609; “confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, instrução na fé católica, penitências espirituais” (Processo nº 6671). São os pais de:

1 (IV) – MANUEL CARDOSO MILÃO, que segue.
2 (IV) – GOMES RODRIGUES MILÃO, que segue.
3 (IV) – FERNÃO LOPES MILÃO, que segue.
4 (IV) – ANTÓNIO DIAS MILÃO, que segue.
5 (IV) – PAULO DE MILÃO, que segue.
6 (IV) – ANA DE MILÃO, que segue.
7 (IV) – BEATRIZ HENRIQUES, que segue.
8 (IV) - LEONOR HENRIQUES, que segue.
9 (IV) – ISABEL DE SANTIAGO, que segue.

IV – MANUEL CARDOSO MILÃO (1571-1644), “contratador de pao do Brasil” e exportador de açúcar. Viveu em Olinda. Expatriou-se para Veneza entre 1607 a 1608. Foi depois para Amsterdã. Casado com SARAH DE CÁCERES, filha de Gabriel e Branca Gomes. Um filho, Gabriel Milan (1631-1689), foi casado com a filha do médico e cabalista Benjamin Musaphia, irmão de Álvaro Dinis, com descendência Milan.
IV – GOMES RODRIGUES MILÃO nasceu em Lisboa (1573). “Mercador”. Expatriado adotou o nome DANIEL ABENSUR. Casado com BEATRIZ RODRIGUES, filha de Pedro Rodrigues e Guiomar Manuel. Preso em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, degredo por 5 anos para as galés, instruído na fé católica, penitencias espirituais” (Processo nº 2499). Ascendente da família contemporânea Heymann, Austrália, dentre outras.
IV – FERNÃO LOPES MILÃO nasceu em 1575. Representou o pai em Madrid onde trabalhou como banqueiro – emprestava a juros menores para nobres, como a mulher do Conde da Calheta , a Lúis Mendes de Vasconcelos, dentre outros.
IV – ANTÓNIO DIAS MILÃO nasceu em Lisboa (1581). “Mercador”. Preso em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo, instrução na fé católica, penitências espirituais” (Processo nº 2523).
IV – PAULO DE MILÃO (Lisboa, 1584 – Hamburgo, 1665) adotou vários nomes: MOSES ABENSUR e PAUL DIRICHSEN. Viveu em Olinda. Preso em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, penitencias espirituais”. Casado com LEA DE ANDRADE e depois com ABIGAIL DINIS.
IV – ANA DE MILÃO (1586). Presa em 28 de outubro de 1606 e saiu na Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito perpetuo sem remissão, instrução na fé católica” (Processo nº 279). Casada com o primo MANUEL NUNES DE MATOS (+1621), mercador, senhor de engenho na Bahia, arrendatário da cobrança dos dízimos do açúcar na Paraíba e o segundo maior exportador de açúcar no Brasil. Ele foi condenado em 14 de março de 1627: “que seus ossos sejam queimados, relaxado à justiça secular” (Processo nº 10600), porém conseguiu fugir para Amsterdã, onde a sua esposa foi reencontrá-lo. Viveram em Olinda e Amsterdã.
IV – BEATRIZ HENRIQUES (Lisboa, 1573 – Hamburgo, 1633). Casada com ALVARO DINIS (SAMUEL JACHIA ou ALBERTO DENIS, Braga, 1565 – Amsterdã, 1652), filho de Salomon Marco (Felipe de Nis), importador de açúcar em Hamburgo e Glueckstadt (Dinamarca). Foi pregador na sinagoga de Amsterdam. António Ribeiro dos Santos registrou uma obra dele: Trinta discursos ou darazos, apropriados para os dias solemnes: da contrição e jejuns fundados na Sancta Lei. Ano 5389.
IV – LEONOR HENRIQUES casada com o primo HENRIQUE RODRIGUES, médico. O futuro marido foi a Roma buscar a “dispensa de parentesco”. A noiva não freqüentava a igreja porque ficou grávida antes do casamento e podia dar escândalo.
IV – ISABEL DE SANTIAGO (ou HENRIQUES) nascida em Lisboa (1590).

BIBLIOGRAFIA

1. FONTES MANUSCRITAS / ELETRÔNICAS


Processo nº 279, Inquisição de Lisboa, Ana de Milão, II.
Processo nº 2.499, Inquisição de Lisboa, Gomes Rodrigues de Milão.
Processo nº 3.331, Inquisição de Lisboa, Vitória Dias.
Processo nº 3.338, Inquisição de Lisboa, Paulo de Milão.
Processo nº 6.671, Inquisição de Lisboa, Guiomar Gomes.
Processo nº 6.677, Inquisição de Lisboa, Henrique Dias de Milão.
Processo nº 6.984, Inquisição de Lisboa, Isabel Henriques.
Processo nº 9.389, Inquisição de Lisboa, Leonor Henriques.
Processo nº 10.600, Inquisição de Lisboa, Manuel Nunes de Matos.
Processo nº 14.409, Inquisição de Lisboa, Ana de Milão, I.

2. FONTES IMPRESSAS / ELETRÔNICAS

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COELHO, Antonio Borges. “Política, dinheiro e fé: cristãos-novos e judeus portugueses no Tempo dos Filipes”, em Cadernos de Estudos Sefarditas. Ciclo de conferências 2000, nº 1, 2001, PP. 101-130.
FAINGOLD, Reuven. “A busca pela identidade. O julgamento do cristão-novo português Vicente Furtado: 1605-1615” (Chipus achar Sehut Mischpato schel He’anus Haportugali Vicente Furtado 1605-1615, in: Pe’Amin nº. 46-47 (1991), pp. 242-246)
FRADE, Florbela Veiga. “Formas de vida e religiosidade na Diáspora. As esnogas ou casas de culto: Antuérpia, Roterdão e Hamburgo (séculos XVI-XVII)”.
FRADE, Florbela Veiga. As relações econômicas e sociais das comunidades sefarditas portuguesas. O trato e a família. 1532-1632. Tese de Doutoramento. Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras / Departamento de História, 2006.
HEYMANN FAMILY WEB SITE (http://www.heymannfamily.com/index.html). Consultado em 02/11/2009.
MELLO, José António Gonsalves de. Gente da Nação. Cristãos-novos e judeus em Pernambuco 1524-1654. Recife: Massangana, 1989.
RIBEIRO DOS SANTOS, Antonio. “Da literatura sagrada dos Judeus Portugueses no século XVII”, em Memórias de litteratura portugueza publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, Lisboa, 1792, tomo III.
RICARDO, Silvia Carvalho. As redes mercantis no final do século XVI e a figura do mercador João Nunes Correia. Dissertação de Mestrado. USP/FFLCH/DH, 2006.
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VALADARES, Paulo. “Para a fome do lobo e do leão: a “culinária do não””. O Boêmio (Matão), 14/12/2007, p. 7.
VALADARES, Paulo. A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX. Fortaleza: Fundação Ana Lima, 2007.
WOLFF, Egon e Frieda. “Judeus em Amsterdã, seu relacionamento com o Brasil”. Rio de Janeiro: IHGB, 1989.

Um comentário:

  1. Excelente Artigo Sr. Valadares, sabe dizer algo sobre a conexão da Família Dinis com os Fellipe Denis da Paz que viveu em Pernambuco, no princípio do século XVI, sendo senhor do Eng Suassuna, que passa a João de Barros Correia, seu sobrinho, por não deixar geração?

    Nobiliarquia Pernambucana vol. 2 pag. 407.

    Cordial Abraço

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