Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

domingo, 31 de janeiro de 2010

A CAPELA DE RUBI DE BRACAMONTE, ÁVILA, ESPANHA

O Senhor é um dos nossos?” Até o século XVIII, quando havia a repressão estatal aos descendentes dos judeus convertidos à força que mantivessem traços culturais de sua antiga origem, esta pergunta falsamente inocente se feita a pessoa errada podia levá-la a fogueira. Como defesa a este perigo os praticantes ocultos da fé reprimida, criaram sinais secretos que facilitavam o reconhecimento entre os membros desconhecidos desta comunidade dispersa. Os maçons, membros de uma sociedade secreta no seu auge político, também tiveram os seus sinais de reconhecimento (passes).
Na Espanha há um caso singular, onde um descendente de cristão-novo (é o que se crê) construiu uma capela em Ávila para registrar e anunciar a sua condição de maçon importante. Ávila é uma pequena cidade encravada ao norte de Castela. No passado a repressão anti-semita organizada pelo Santo Ofício, encontrou nela algumas vítimas de sua voracidade.
A passagem hebraica por Ávila deu-se em duas formas: as marcas que a cidade deixou nos judeus (na forma de sobrenome) e os cristãos-novos que deixaram marcas na cidade. A principal vítima foi o cristão-novo José Franco, queimado em 1491, após uma farsa judicial (o Caso Santo Niño de la Guardia). Também nasceram em Ávila dois santos católicos: São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, ambos de origem cristã-nova. E finalmente, um momento singular na história da arquitetura religiosa, a Igreja de Nuestra Señora de la Anunciación, a chamada Capela de Mosén Rubi, por ter sido edificada para ele.
Mosén (título catalão de segunda categoria equivalente a “Meu Senhor”) Rubi de Bracamonte, Senhor de Fuente El Sol e de Cepedesoa, Comendador de Villarubia na Ordem de Calatrava, filho de Diego de Bracamonte Dávila e Beatriz de Zuñiga, o segundo do nome, trineto do francês que fundou a família em terras espanholas, pertencia a um grupo familiar da alta nobreza espanhola, mas ao mesmo tempo, a família era vista como “indudablemente de origen judío”, origem que podia ter vindo tanto pelos Bracamonte, quanto pelos Dávila. Pois este Mosén Rubi está ligado a uma capela vista como um símbolo da influência maçônica na Espanha.
A Igreja de Nuestra Señora de la Anunciación começou a ser construída em 1516, ao que parece por uma tia do fidalgo em homenagem a família Bracamonte. Quando a Inquisição percebeu que dali estava saindo qualquer coisa, mais uma loja escocesa e menos um templo católico, interditou o seu acabamento quatorze anos depois. Mesmo assim ficou gravado o testemunho maçônico atribuído a Mosén Rubi de Bracamonte. Para os estudiosos do funcionamento de sociedades secretas ela é a primeira prova da existência da maçonaria na Espanha. Juan Martin Carramolino, Francisco Espinar Lafuente e Nicolas Diaz Pérez inventariaram as provas que confirmariam esta afirmativa. São os sinais deixados na construção da capela.
O primeiro sinal é a forma interna de polígono perfeito, característica das lojas escocesas com duas colunas à entrada para o seu interior. Nos vitrais da capela emblemas maçônicos de 3º e 4º graus; assim como há nas escoras, contrafortes, pilares e colunas, símbolos de 1º e 2º graus. Havia um púlpito de forma pentagonal, sustentado por uma coluna triangular, onde apareciam o compasso e o esquadro. Enfeitando o camarote principal, uma esfera ou globo terrestre atravessado por um punhal brandido por uma mão. Outro sinal seria os três primeiros degraus da escada (a de Jacob?) que liga a torre, cortados em forma triangular. Rematando tudo, estátuas do mecenas e da esposa: a do primeiro na atitude de desnudar uma espada com a mão esquerda (símbolo do Cavaleiro Kadosh, grau 30) e da segunda, com a mão direita sobre o antebraço esquerdo e o semblante em ato de meditação. Esta é a Capela de Mosén Rubi de Bracamonte que congelou para posteridade o seu gesto, fazendo dela uma forma de anunciar (daí o seu nome canônico “Senhora da Anunciação”) a sua condição de maçon aos outros Irm.: (Irmãos em linguagem cifrada) de seu tempo e do futuro. Condição em que ele talvez tenha iniciado os seus descendentes, pois há em suas lápides sepulcrais o martelo e o compasso, símbolos desta fraternidade multinacional.

2 comentários:

  1. Estive recentemente nessa capela e logo me causou forte impressão de não estar num templo como os demais.
    Tenho pena de não ter acedido a estas informações antes de visitá-la.
    Para conhecer com mais pormenor a história do templo, veja-se http://arssecreta.com/?p=497

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