Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

CANTOR, NEGRO, JUDEU ... E NÃO ESTAMOS FALANDO DE SAMMY DAVIS JR.

No final da década de sessenta a revista brasileira Realidade publicou um artigo sobre judeus. O objetivo do artigo era apresentar aos cristãos brasileiros quem eram os judeus, partindo de um título provocativo, mostrando esta minoria etnoreligiosa como de diversas procedências nacionais, até para quebrar o estereotipo racial. Um exemplo desta variedade de origens mostrada era Benny Yonga (sic) apresentado assim: “(...) é negro, filho de judeu da Etiópia e mãe hindu, professor de inglês e cantor popular. Está no Brasil há dez anos (...)”
Ele fugia de qualquer comparação com os judeus brasileiros, era negro, numa população exclusivamente branca e vinha de uma região com poucas relações com o Brasil (Índia? Nigéria?). Isto me estimulou a procurar mais informações para compor um pequeno perfil dele. Porém sem outras informações, procurei gente que conhecia o bairro do Bom Retiro, mas quase ninguém lembrava-se dele. Um memorialista judeu, M.F., lembrou-se de um judeu, negro e homossexual, que andava de turbante roxo pelo bairro. Outro entrevistado, Mireille Barki, que trabalhou na Sinagoga Beit Yaacov, lembra-se dele recebendo auxílio daquela instituição. Mas não sabia mais nada deste personagem. Assim ele ficou no meu caderno de pendências aguardando novas informações para prosseguir a pesquisa biográfica.
Anos depois, conversando com Mendel Lust, que trabalhava numa avaliação dos discos pertencentes ao AHJB, ele mostrou-me um compacto gravado pelo cantor brasileiro Benny Yanga – este era o seu sobrenome verdadeiro e não Yonga, como escrito na revista. O título do disco era Two songs to your heart, assim mesmo em inglês, com duas canções: John Kennedy, um fox e The city of Jerusalem, esta última definida como uma “canção oriental em hebraico”, ambas com letra e música suas. Os arranjos e a orquestra foram do maestro Gomes Costa.
Era uma época em que muitos cantores brasileiros adotavam pseudônimos ingleses e gravavam canções no idioma de Elvis Presley. Surgiram nesta leva muita gente, alguns até com sucesso mundial, como o do também judeu Morris Albert (Maurício Alberto Kaiserman), autor de Feelings (1976). Apesar desta opção lingüística, Benny Yanga teve carreira mais modesta, não conseguiu freqüentar as paradas de sucessos, nem tornou-se um cantor de colônia, como muitos fizeram. Talvez o seu perfil extremamente diferente da comunidade judaica local não tenha permitido que fosse mais solicitado.
Já com o seu nome plenamente identificado, busquei nova fonte, a Chevra Kadisha paulistana, que é extremamente bem organizada, e lá tinha o registro dele entre os sepultados no Cemitério Israelita do Butantã (Cemitério Israelita do Butantã, 396 R 54). Os documentos mantidos pela sociedade e a leitura da lápide, permitiram que eu acrescentasse um pouco mais de informações a sua biografia.
Benny Yanga, cujo nome judaico era Benny ben Patel, nasceu em 13 de abril de 1928 e faleceu em S. Paulo, 27 de outubro de 2000.


VIDEO ONDE APARECE BENNY YANGA: http://www.youtube.com/watch?v=OQHH5-uSCGs&feature=related

13 comentários:

  1. Shalom!
    Conheci Benny quando eu era criança. Ele foi professor de inglês do meu pai. Tenho esse disco ainda hoje, mas perdi um burrico de plástico que ele me deu (desses que abria a boca quando se aproximava uma espiga de milho com um ímã, lembra disso?). Já procurei muito por Benny na Internet, lembro dele com muito carinho. Agradeço pelo seu post.

    Se me permite, você sabe alguma coisa sobre o Dr. Moisés Deutch, da Rua Três Rios, Bom Retiro?

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  2. Caro Branco Leone,

    Logo quando publiquei a história do Benny, ligou-me um empresário musical, dizendo que conviveu com ele.

    Falando de sua inteligência e até de um irmão rabino. Tentei marcar uma entrevista com ele, mas ele sumiu.

    Agora você também leu o post e deu o seu testemunho.

    Muitos aqui de S. Paulo não crêem que o B. Y. existiu, acham que é ficção...

    Não desisti dele e um dia escrevo algo mais substancial.

    Estes são meus personagens favoritos – agora mesmo estou levantando dados sobre o Dr. Salustiano Ferreira Souto, baiano, preto, médico de Castro Alves e quem emprestou dinheiro para Ruy Barbosa ir a Corte e apresentou a mulher que se casaria com ele....pois este Salustiano, irmão de padre, era chefe de uma mesquita clandestina em Salvador...

    No final de janeiro rumo para Salvador para procurar os seus rastros - gasto o que acumulei em 2010.

    Quanto ao Dr. Moysés, safdieh (nascido em Sfat, Israel, 1913-2007) estamos preparando para a Revista do AHJB (Arquivo Histórico Judaico do Brasil), um artigo sobre os médicos judeus de S. Paulo. Ele está na lista...

    Quem agradece sou eu,

    Paulo Valadares

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  3. Grato pela resposta, Paulo. Vamos conversar por email? Não quero deixar o endereço aqui por causa dos robôs-spammers catadores de endereços, mas peço que junte as palavras do meu nome (sem ponto nem nada entre elas) e adicione gmail.com. Pode ser?
    abraço

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  4. Caro Paulo Valadares,

    É uma pena que não tenhamos mais informações sobre a história de Benny Yanga, conhecido no Bom Retiro como Mister Benny.
    Tenho curiosidade de saber porque escolheu São Paulo para viver.
    Conversei algumas vezes com ele, e nunca me passou pela cabeça perguntar. Agora é tarde.
    Achei engraçado saber que existem pessoas que acham que ele não teria existido, e que você tenha conseguido tão poucos testemunhos sobre ele. Era uma figura muito conhecida no bairro.
    A minha lembrança mais antiga dele é de 1962, quando fui com meu pai ao modesto cômodo em que morava na Rua da Graça, quase esquina com a Silva Pinto. Meu pai queria saber se ele poderia ensinar as rezas para o meu Bar Mitzva, que se aproximava. Modestamente, respondeu que não tinha conhecimento suficiente para isso.
    A última vez que vi Mister Benny foi em 1990 em um dos corredores do Hospital Albert Einstein, onde meu pai estava internado após ter sofrido um derrame. Ele perguntou se poderia ir ao quarto fazer uma reza, com o que concordei, ainda que descrente dessas coisas.
    Meu pai não se recuperou, mas fiquei contente que tenha recebido uma benção de Mister Benny antes de falecer.
    Sua vida daria um filme !
    Onde você conseguiu a bela foto colorida dele ?
    Um abraço,

    Arden

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  5. Curioso mesmo a historia do Mr Benny. Eu li primeiro a respeito no arquivo judaico (site). E lendo um pouco mais aqui cheguei a conclusão que eu o via la na rua da Graça mais especificamente no Acropoles. Via aquela figura de turbante indiano e pensava que que seria algum tipo de marketing ou algo do tipo..
    Condordo com o amigo acima, pena se saber pouco a seu respeito.

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    1. Boa tarde, Sudclaudio.
      Fiz uma pesquisa no Arquivo Nacional e encontrei documentação sobre Mr. Beny. No próximo número do BOLETIM DO AHJB publicarei uma biografia mais completa deste rico personagem.
      Obrigado pela visita

      pv

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  6. Ele existiu e ficou na minha memória
    Lembro-me dele da década de 70.
    Andava sempre pelas rua do Bom Retiro com livros embaixo do braço.
    Falaram que cantava algumas rezas na sinagoga azul da Rua da Graça.
    Voltei ao tempo
    uma figura exótica !

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Recentemente publiquei um livro de contos pela Amazon. O título é: Um kadish para Mister Benny. Para mais detalhes, acessar:

    http://www.amazon.com.br/UM-KADISH-PARA-MISTER-BENNY-ebook/dp/B014VK25JS/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1441553694&sr=8-1&keywords=um+kadish+para+mister+benny

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  9. Recentemente publiquei um livro de contos pela Amazon. O título é: Um kadish para Mister Benny. Para mais detalhes, acessar:

    http://www.amazon.com.br/UM-KADISH-PARA-MISTER-BENNY-ebook/dp/B014VK25JS/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1441553694&sr=8-1&keywords=um+kadish+para+mister+benny

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  10. Recentemente publiquei um livro de contos pela Amazon. O título é: Um kadish para Mister Benny. Para mais detalhes, acessar:

    http://www.amazon.com.br/UM-KADISH-PARA-MISTER-BENNY-ebook/dp/B014VK25JS/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1441553694&sr=8-1&keywords=um+kadish+para+mister+benny

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  11. Olá, fui aluno de Mister Benny no Bom Retiro, e esses dias falei dele a um amigo, daí a curiosidade de pesquisa-lo, achei incrível encontrar essa postagem. Curiosamente, apesar de ter estudado cerca de seis mês com ele, pude ouvir algumas boas histórias como a de que havia escrito a música tema de abertura do programa Silvio Santos antigo, (nunca parei para constatar) , bem como havia morado na Inglaterra por vinte anos, e que á noite era assombra por fantasmas,lecionou aula na escola Cultura Inglesa, que havia sido professor de inglês de alguns famosos, lembro me apenas de um nome, o da atriz Zezé Mota (que inclusive me mostrou foto com ela), visto que eu tinha apenas 18 anos na época. fico feliz por alguém se interessar por ele.
    Agradecido.

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  12. A versão pdf do meu livro que contém o conto sobre Mister Benny pode ser baixada gratuitamente no link:

    http://www.elivros-gratis.net/livros-gratis-contos.asp

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