Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O QUE É UM MIRMILÃO? CHARLES ASTOR RESPONDE


Adolescência, quando eu saia do ghetto, época do dinheiro curto, comprei numa banca de jornais em Valinhos, um livrinho de contos de um escritor chamado Charles Astor, intitulado Estórias Rudes (Rio de Janeiro: Biblioteca Universal Popular, 1965), volume nº 51 desta coleção. Edição bem fuleira, apesar da capa feita por Eugênio Hirsch (1923-2001), papel jornal, mas com conteúdo inesperadamente original, tanto os contos, quanto a biografia do autor inscrita no inicio do volume. Nela se diz que Charles Astor vivera nos cenários dos contos, lutara sete anos na Legião Estrangeira, trabalhara como trapezista em circos, introduzira o pára-quedismo no Brasil e no momento da publicação era o Chefe das Obras Raras da Livraria Civilização Brasileira. Apeguei-me tanto a este exemplar, que ele me acompanha no meu percurso de Ahasverus até como um “amuleto intelectual”.
Não conheço nenhum dicionário que registre o autor e a sua obra. Ele é mais um daqueles personagens que provavelmente só ressurgirão num trabalho acadêmico, explorando as suas múltiplas atividades. Poucas fontes, por hora, estão disponíveis sobre ele. Que eu conheça, só há um artigo em revista extinta (Visão, setembro de 1962, “Astor é de sete instrumentos”), a apresentação do livrinho por Paulo Ronai e citações esparsas na WEB. Nelas descobre-se que o seu nome verdadeiro era Achile Garcia Charles Astor (a ordem onomástica não me parece correta), nascera na Argélia francesa, filho de espanhóis (28/08/1900), instrutor de pára-quedismo da Aeronáutica brasileira por longos anos – foi o segundo homem a saltar de pára-quedas no país (S. Paulo, 1931). Teria perseguido através da aviação o grupo do bandido Lampião (1898-1938). No Rio de Janeiro, além de cultivar o ambiente militar por décadas, é também reconhecido no mundo literário onde teve relações de amizade com Paulo Ronai (1907-1992), Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) e Rubem Braga (1913-1990), dentre outros intelectuais cariocas. Charles Astor morreu em Barbacena (MG) em 1972.
São sete pequenos contos que se passam em cenários e épocas diferentes. O ponto comum entre eles é uma situação que se repete: um homem solitário num confronto contra um adversário superior, físico ou espiritual, recorrendo ao que Astor chama de “energia do desespero” para superá-lo. Eles são narrados de forma simples, sem contraponto, como se fosse uma conversa no vestiário esportivo ou na caserna. Os personagens centrais são um soldado da Legião Estrangeira, magoado com os camaradas, um pugilista bronco, um tenista apaixonado, diversas modalidades de lutadores romanos (mirmilões, lanistas, reciários, etc), o goleiro mexicano que era um animal, artistas de circo e para-quedismo.
O universo esportivo real é sempre uma referência na sua ficção: Firpo, Dempsey, Kopa, Pelé, Maspoli, Ramallets, Gilmar, Zamora e Williams passam por suas páginas. Este livro não é nenhum clássico, mas é a garantia de duas horas (um pouco mais ou um pouco menos) de entretenimento puro, uma “sessão da tarde" impressa. Para mim foi a chance do menino pobre, sem dinheiro para entrar numa livraria (nem havia livraria em valinhos), encontrar um livro que coubesse no seu orçamento medido em centavos. De qualquer forma, uso como minha definição, confesso que até exagerada, para este livrinho, o título usado por uma série de crítica literária publicada na revista Manchete: Estórias Rudes é uma das “obras primas que poucos leram”.

4 comentários:

  1. Caro Paulo

    Agradeço a informação sobre o Charles Astor que faz parte do meu imaginário de infância. Os meus pais foram amigos dele e da Colette Duval, no Rio de Janeiro e sempre ouvi histórias sobre eles. Hoje vendo algumas fotografias resolvi fazer uma pesquisa e encontrei o seu blog. Um abraço Ana Moraes

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  2. Respostas
    1. Sim. Sem nenhuma dúvida. É um bandido. No começo da carreira ele vingou a morte de familiares; depois tornou-se um serial killer vulgar.

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