Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

domingo, 31 de janeiro de 2010

A CAPELA DE RUBI DE BRACAMONTE, ÁVILA, ESPANHA

O Senhor é um dos nossos?” Até o século XVIII, quando havia a repressão estatal aos descendentes dos judeus convertidos à força que mantivessem traços culturais de sua antiga origem, esta pergunta falsamente inocente se feita a pessoa errada podia levá-la a fogueira. Como defesa a este perigo os praticantes ocultos da fé reprimida, criaram sinais secretos que facilitavam o reconhecimento entre os membros desconhecidos desta comunidade dispersa. Os maçons, membros de uma sociedade secreta no seu auge político, também tiveram os seus sinais de reconhecimento (passes).
Na Espanha há um caso singular, onde um descendente de cristão-novo (é o que se crê) construiu uma capela em Ávila para registrar e anunciar a sua condição de maçon importante. Ávila é uma pequena cidade encravada ao norte de Castela. No passado a repressão anti-semita organizada pelo Santo Ofício, encontrou nela algumas vítimas de sua voracidade.
A passagem hebraica por Ávila deu-se em duas formas: as marcas que a cidade deixou nos judeus (na forma de sobrenome) e os cristãos-novos que deixaram marcas na cidade. A principal vítima foi o cristão-novo José Franco, queimado em 1491, após uma farsa judicial (o Caso Santo Niño de la Guardia). Também nasceram em Ávila dois santos católicos: São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, ambos de origem cristã-nova. E finalmente, um momento singular na história da arquitetura religiosa, a Igreja de Nuestra Señora de la Anunciación, a chamada Capela de Mosén Rubi, por ter sido edificada para ele.
Mosén (título catalão de segunda categoria equivalente a “Meu Senhor”) Rubi de Bracamonte, Senhor de Fuente El Sol e de Cepedesoa, Comendador de Villarubia na Ordem de Calatrava, filho de Diego de Bracamonte Dávila e Beatriz de Zuñiga, o segundo do nome, trineto do francês que fundou a família em terras espanholas, pertencia a um grupo familiar da alta nobreza espanhola, mas ao mesmo tempo, a família era vista como “indudablemente de origen judío”, origem que podia ter vindo tanto pelos Bracamonte, quanto pelos Dávila. Pois este Mosén Rubi está ligado a uma capela vista como um símbolo da influência maçônica na Espanha.
A Igreja de Nuestra Señora de la Anunciación começou a ser construída em 1516, ao que parece por uma tia do fidalgo em homenagem a família Bracamonte. Quando a Inquisição percebeu que dali estava saindo qualquer coisa, mais uma loja escocesa e menos um templo católico, interditou o seu acabamento quatorze anos depois. Mesmo assim ficou gravado o testemunho maçônico atribuído a Mosén Rubi de Bracamonte. Para os estudiosos do funcionamento de sociedades secretas ela é a primeira prova da existência da maçonaria na Espanha. Juan Martin Carramolino, Francisco Espinar Lafuente e Nicolas Diaz Pérez inventariaram as provas que confirmariam esta afirmativa. São os sinais deixados na construção da capela.
O primeiro sinal é a forma interna de polígono perfeito, característica das lojas escocesas com duas colunas à entrada para o seu interior. Nos vitrais da capela emblemas maçônicos de 3º e 4º graus; assim como há nas escoras, contrafortes, pilares e colunas, símbolos de 1º e 2º graus. Havia um púlpito de forma pentagonal, sustentado por uma coluna triangular, onde apareciam o compasso e o esquadro. Enfeitando o camarote principal, uma esfera ou globo terrestre atravessado por um punhal brandido por uma mão. Outro sinal seria os três primeiros degraus da escada (a de Jacob?) que liga a torre, cortados em forma triangular. Rematando tudo, estátuas do mecenas e da esposa: a do primeiro na atitude de desnudar uma espada com a mão esquerda (símbolo do Cavaleiro Kadosh, grau 30) e da segunda, com a mão direita sobre o antebraço esquerdo e o semblante em ato de meditação. Esta é a Capela de Mosén Rubi de Bracamonte que congelou para posteridade o seu gesto, fazendo dela uma forma de anunciar (daí o seu nome canônico “Senhora da Anunciação”) a sua condição de maçon aos outros Irm.: (Irmãos em linguagem cifrada) de seu tempo e do futuro. Condição em que ele talvez tenha iniciado os seus descendentes, pois há em suas lápides sepulcrais o martelo e o compasso, símbolos desta fraternidade multinacional.

DICIONÁRIO DE CELEBRIDADES ESPORTIVAS (FRAGMENTOS)


PICHICHI (Rafael Maria Miguel Moreno Aranzadi). Jogador espanhol de futebol, n. em Bilbao e m. ao comer ostras estragadas (23/05/1892 - 01/03/1922). Primo do filósofo Miguel de Unamuno (1864-1936). Atacante. Athletic de Bilbao. Campeão espanhol (14, 15, 16 e 21). Seleção espanhola (1920, 5 partidas, 1 gol): medalha olímpica de prata (20). É considerado o símbolo do artilheiro espanhol. O seu nome foi dado ao troféu dado ao goleador espanhol (foto).
PIENAAR, Jacobus François. Jogador e treinador sulafricano de rugby, n. em Vereeniging (02/01/1967). Jogou na seleção nacional (Springbokke) entre 1993 a 1996. Capitão na decisão Rugby World Cup (24/06/1995, República Sulafricana 15 x Nova Zelândia 12). Partida que marca simbolicamente a derrota do apartheid e deu origem ao filme Invictus (2009), de Clint Eastwood.
PIENDIBENE (Jose Antonio Piendibene Ferrari). Jogador uruguaio de futebol, n. em Pocitos (05/06/1890 - 12/11/1969). Atacante. Peñarol (1908-28, 506 partidas, 253 gols). Campeão uruguaio (11, 21, 24 e 26). Seleção Uruguaia (1909-22, 40 partidas, 21 gols).
PIETRA, Minervino José Lopes. Jogador português de futebol, n. em Lisboa (0103/1954). Lateral direito. Benfica (1976-86, 314 partidas, 26 gols) e Belenenses. Campeão português (76, 80, 82 e 83). Seleção portuguesa (1973-83, 28 partidas, 1 gol).
PÍNDARO de Carvalho Rodrigues (v. Carvalho, Píndaro).
PÍNDARO Possidente Marconi. Jogador brasileiro de futebol, n. em Pádua e m. no Rio de Janeiro (12/03/1925 – 07/08/2008). Lateral direito. Fluminense (1948-55, 256 partidas). Campeão carioca (51).
PINGA I (José Lázaro Robles). Jogador brasileiro de futebol, n. em S. Paulo e m. em Campinas (11/02/1924 - 08/05/1996). Irmão do atacante Pinga II (Arnaldo Robles, 1921), Portuguesa Desportos e pai do ponta esquerda Ziza, Atlético Mineiro. Ponta esquerda. Juventus, Portuguesa (1944-52, 316 partidas, 284 gols, recordista) e Vasco da Gama (1952-61, 466 partidas, 250 gols). Campeão carioca (56 e 58). Seleção Brasileira (1950-5, 17 partidas, 10 gols).
PINGUELA (João Paulo de Oliveira). Jogador e treinador brasileiro de futebol, n. em Ponte Nova e m. em Salvador (24/06/1928 – 13/05/2006). Zagueiro. Bangu, Fluminense, Vitória, Bahia, Náutico e Itabuna. Seleção brasileira (1957, 2 partidas).
PINHEIRO, João Carlos Batista. Jogador e treinador brasileiro de futebol, n. em Campos (13/01/1932). Zagueiro. Americano, Fluminense (1948-61, 604 partidas) e Bahia. Campeão carioca (51 e 59). Eleito para "o melhor Fluminense de todos os tempos" (Placar). Seleção Brasileira (1952-5, 17 partidas, 1 gol).
PINTO BASTO, Guilherme Ferreira. Esportista português, n. em Lisboa (01/02/1864 – 26/07/1957). Nascido numa família de grandes comerciantes portugueses, com ancestrais ingleses (Nicholson, Custance, Allen e Stevenson). Praticou a patinação, hóquei no gelo, ciclismo, corridas de cavalos, bandarilheiro, vela, remo, automobilismo, golfe, futebol e tênis. Chamado o “pai do futebol português”, pois ao lado dos irmãos Eduardo (1869-1944) e Frederico Tomás (1872-1939) trouxeram bolas da Inglaterra onde estudaram para a prática do esporte. Os três estiveram no primeiro jogo do país (22/01/1889).

sábado, 16 de janeiro de 2010

CANTOR, NEGRO, JUDEU ... E NÃO ESTAMOS FALANDO DE SAMMY DAVIS JR.

No final da década de sessenta a revista brasileira Realidade publicou um artigo sobre judeus. O objetivo do artigo era apresentar aos cristãos brasileiros quem eram os judeus, partindo de um título provocativo, mostrando esta minoria etnoreligiosa como de diversas procedências nacionais, até para quebrar o estereotipo racial. Um exemplo desta variedade de origens mostrada era Benny Yonga (sic) apresentado assim: “(...) é negro, filho de judeu da Etiópia e mãe hindu, professor de inglês e cantor popular. Está no Brasil há dez anos (...)”
Ele fugia de qualquer comparação com os judeus brasileiros, era negro, numa população exclusivamente branca e vinha de uma região com poucas relações com o Brasil (Índia? Nigéria?). Isto me estimulou a procurar mais informações para compor um pequeno perfil dele. Porém sem outras informações, procurei gente que conhecia o bairro do Bom Retiro, mas quase ninguém lembrava-se dele. Um memorialista judeu, M.F., lembrou-se de um judeu, negro e homossexual, que andava de turbante roxo pelo bairro. Outro entrevistado, Mireille Barki, que trabalhou na Sinagoga Beit Yaacov, lembra-se dele recebendo auxílio daquela instituição. Mas não sabia mais nada deste personagem. Assim ele ficou no meu caderno de pendências aguardando novas informações para prosseguir a pesquisa biográfica.
Anos depois, conversando com Mendel Lust, que trabalhava numa avaliação dos discos pertencentes ao AHJB, ele mostrou-me um compacto gravado pelo cantor brasileiro Benny Yanga – este era o seu sobrenome verdadeiro e não Yonga, como escrito na revista. O título do disco era Two songs to your heart, assim mesmo em inglês, com duas canções: John Kennedy, um fox e The city of Jerusalem, esta última definida como uma “canção oriental em hebraico”, ambas com letra e música suas. Os arranjos e a orquestra foram do maestro Gomes Costa.
Era uma época em que muitos cantores brasileiros adotavam pseudônimos ingleses e gravavam canções no idioma de Elvis Presley. Surgiram nesta leva muita gente, alguns até com sucesso mundial, como o do também judeu Morris Albert (Maurício Alberto Kaiserman), autor de Feelings (1976). Apesar desta opção lingüística, Benny Yanga teve carreira mais modesta, não conseguiu freqüentar as paradas de sucessos, nem tornou-se um cantor de colônia, como muitos fizeram. Talvez o seu perfil extremamente diferente da comunidade judaica local não tenha permitido que fosse mais solicitado.
Já com o seu nome plenamente identificado, busquei nova fonte, a Chevra Kadisha paulistana, que é extremamente bem organizada, e lá tinha o registro dele entre os sepultados no Cemitério Israelita do Butantã (Cemitério Israelita do Butantã, 396 R 54). Os documentos mantidos pela sociedade e a leitura da lápide, permitiram que eu acrescentasse um pouco mais de informações a sua biografia.
Benny Yanga, cujo nome judaico era Benny ben Patel, nasceu em 13 de abril de 1928 e faleceu em S. Paulo, 27 de outubro de 2000.


VIDEO ONDE APARECE BENNY YANGA: http://www.youtube.com/watch?v=OQHH5-uSCGs&feature=related

A FAMÍLIA MILÃO EM MOVIMENTO: "armado ando com as armas de Adonai"

A cena no conjunto de azulejos coloniais é familiar para qualquer judeu, mas é improvável um católico decifrá-lo a primeira vista, apesar dela já estar secularmente na parte interna do Convento Franciscano de Nossa Senhora das Neves em Olinda. É uma criança deitada na almofada, entre a sua família e os convidados, enquanto aguardam o início do ofício, a cerimônia do berith milah (circuncisão) da divindade cristã. Curiosamente a imagem escapou a fúria antissemita que varreu a presença judaica do cotidiano lusitano depois da Grande Conversão em 1497, quando foram destruídas lápides sepulcrais, telas que retratavam judeus, sinagogas transformadas em igrejas, esquecidos os velhos nomes e principalmente os cristãos-novos amedrontados pela repressão católica se refugiaram na discrição, raramente deixando escapar os traços de sua biculturalidade. Nesta Olinda, combinação lusotropical de morro e praia, viveram alguns membros da família cristã-nova portuguesa Milão no final do século XVI. Não se sabe com precisão a origem do sobrenome, nem que foi o primeiro a utilizá-lo nesta família. A historiadora Maria José Tavares Ferro encontrou um Milão em Barcelos antes da Grande Conversão. Eles não são estrangeiros, pois os ancestrais dos olindenses estão em Santa Comba Dão e na Covilhã há algumas gerações. A primeira análise é que seja um sobrenome toponímico – ele identifica um oriundo por nascimento ou que esteve a negócios em Milão. Mas qual Milão? A cidade italiana ou um tópos português desconhecido, quinta ou aldeia? Não poderia ser também um fóssil onomástico, a milah (circuncisão) que guardaram simbolicamente no nome e no interior, porque não puderam conservar nos seus corpos. É uma hipótese arrojada, mas que será fortalecida quando desvendarmos o raciocínio que conduziu a aquisição de sobrenome hebraico que alguns deles usaram em Hamburgo.

O PATRIARCA “ANRIQUE” E OS MILÃO

Henrique Dias Milão (1528-1609) nasceu em Santa Comba Dão, entre Viseu e Coimbra, filho de Manuel Lopes e Leonor de Cáceres, neto paterno de António Lopes e Branca (ou Beatriz) Dias, três gerações nascidas na mesma localidade. Curiosamente nem seus pais, nem avós, se chamam Milão, porém ele é casado com Guiomar Gomes (Lisboa, 1549 – Altona, 1613), filha de Francisco Rodrigues Milão e Beatriz Gomes, neta paterna de Jorge Rodrigues e Guiomar Gomes, e neta materna do médico Gomes Dias e Serena Dias, ambos os casais naturais da Covilhã. É mais um enigma familiar, seria ele um parente distante ou alguém que adotou o sobrenome do sogro – ramos mais importantes que o seu.
Henrique Dias Milão teve com Guiomar Gomes nove filhos: Manuel Cardoso Milão; Gomes Rodrigues Milão; Fernão Lopes Milão; Antonio Dias Milão, Paulo de Milão, Ana de Milão, Beatriz Henriques Milão, Leonor Henriques e a caçula Isabel de Santiago. A família por nascimento e casamentos inseria-se na alta camada econômica dos cristãos-novos. Fazia parte de um grupo solidamente aparentado a grandes comerciantes internacionais, principalmente ao asentista Rodrigo de Andrade, casado com Ana de Milão, irmã de Guiomar, a esposa de Henrique Dias Milão. Rodrigo de Andrade além de muito poderoso economicamente, era um dos representantes dos cristãos-novos portugueses. O respeito de Henrique Dias Milão pelo concunhado era tanto, que nomeou uma filha com o mesmo nome da tia, Ana de Milão (que por conveniência genealógica chamamos a Segunda).

NA RUA DA SERRALHEIRA, OLINDA

O Brasil produzia uma mercadoria de grande procura no mercado internacional, o açúcar. Para colocá-lo a disposição da clientela européia necessitava-se de um comprador de confiança no Brasil e vendedores do mesmo jaez na Europa. Os cristãos-novos de alta extração econômica aproveitaram-se disto, já que suas famílias estavam espalhadas pelo mundo. Isto gerou e fortaleceu as chamadas redes comerciais, que antes de tudo eram redes genealógicas, pois os atores estavam ligados por parentesco agnático e cognático – a maioria deles é descendente ou casado com descendente do último Grão-rabino de Castela, Abraham Senior.
Os Milão são uma destas redes genético-mercantís envolvidas no comércio do açúcar. Eles tiveram gente de si, do México a Madras ou Cabo Verde, de Veneza a Hamburgo. Só para se ter noção da ação global do clã, basta ver a biografia de uma serviçal da família, Violante Dias. Nascida na China, ela foi batizada no Japão e vendida como escrava em Goa para Henrique Dias Milão, que a alforriou. Ela trabalhou na casa dos Milão na Rua do Barão em Lisboa, foi processada como judaizante com os patrões, acompanhou a família quando expatriou-se e está sepultada no Cemitério Judaico de Hamburgo. Percorra num mapa a trajetória desta senhora lembrando-se sempre das precariedades dos transportes naqueles dias.
Dentre os criados ou agregados sob a chefia do patriarca Henrique Dias Milão, havia também um escravo negro de nome Manuel, o inglês Thomas, gente da cidade da Guarda como Branca Rodrigues e João Lopes como criados e os parentes distantes Francisco Barbosa, que fazia a escrituração contábil e a sua irmã Violante Barbosa.
Pois o negociante Henrique Dias Milão montou uma destas redes, mandando os filhos para Pernambuco, para fazer o negócio do açúcar e do pau brasil. Ele mandou o primogênito Manuel Cardoso Milão para abrir a “empresa”. Vieram depois os irmãos mais jovens, Gomes Rodrigues Milão e Paulo de Milão para o treinamento mercantil. Gomes foi tesoureiro e feitor nos negócios do irmão mais velho. A terceira ponta do triângulo estava em Hamburgo com o genro Álvaro Dinis casado com a sua filha Beatriz Henriques. Outra filha de Henrique, Ana de Milão, também viveu em Olinda, já que era casada com o primo Manuel Nunes de Matos, membro da rede genético-mercantil dos Ximenes. Integrava também a rede o seu irmão António Dias Cáceres baseado no México, negociando prata e ouro - que já havia negociado escravos.
Manuel Cardoso Milão morou por décadas na Rua da Serralheira (hoje Prudente de Morais) em Olinda. Ele é contemporâneo de outros cristãos-novos importantes, como o grande comerciante João Nunes Correia que morava na Rua Nova; de Gabriel da Costa, na Rua da Rocha; de Belchior da Rosa, na Ladeira da Matriz; Bento Teixeira, poeta e de Branca Dias, na Rua de Palhaes, “mitificada” depois na literatura brasileira como vítima da Inquisição. Havia relações de crença entre muitos destes cristãos-novos, tanto que se dizia que nos feriados judaicos, o alfaiate Thomás Lopes, apelidado “Maniquete”, saia por Olinda com um lenço amarrado no pé para avisar discretamente a coletividade da reunião religiosa. Diziam que fazia-se “esnoga” na casa de Milão, onde aparecia até o futuro magnata Duarte Saraiva (David Senior Coronel, 1570-1650), a quem muitos anos depois o rabino Menasseh Ben Israel (Manuel Dias Soeiro, 1604-1657) dedicaria o livro “Conciliador”.
Os Milão viveram por décadas em Olinda negociando açúcar e pau brasil. Nos primeiros anos de 1600 retornaram a Lisboa quando então foram colhidos pela Inquisição. Era o desfecho de uma história que fora armada nos bastidores, resultado de uma luta surda entre a poderosa instituição e os seus oponentes.

O MAIS CRUEL DOS MESES, ABRIL DE 1609


Guiomar Gomes, esposa de Henrique Dias Milão, tinha os irmãos: Gomes Rodrigues de Milão (o primeiro do nome), casado com Ana Dias de Leão, proprietário em Cabo Verde e Ana de Milão (a primeira deste nome) casada com o riquíssimo asientista Rodrigo de Andrade, filho de André Rodrigues de Évora (ou de Andrade) e Branca Lopes, descendente pelo costado paterno do último Rabino-chefe de Castela, Dom Abraham Senior (Fernán Pérez Coronel, 1412-1493, ao converter-se ao Catolicismo).
Rodrigo de Andrade, além das atividades econômicas, foi ao lado de Heitor Nunes de Brito, conhecido como o “Pai dos Afligidos”; Jorge Rodrigues Solís, Manuel Gomes de Elvas, Jerônimo Duarte Ximenes, Tomás Ximenes, João Nunes Correia e Manuel de Palácios, um dos procuradores dos cristãos-novos portugueses escolhidos para negociar o “Perdão Geral”. Uma anistia para os cristãos-novos portugueses da repressão inquisitorial. Eles seriam uma espécie de deputados ou “príncipes” desta minoria etnocultural. A negociação começou em 1591 e foi fechada em 23 de agosto de 1604, sob o compromisso dos cristãos-novos portugueses levantarem 1.700.000 Cruzados. Em 1605 foram soltos 410 presos cristãos-novos em razão do “Perdão Geral”. Gaspar Rodrigues Nunes (Joseph Ben Israel), pai do rabino Menasseh Ben Israel foi um destes libertados.
A represália inquisitorial não tardou. As famílias próximas aos líderes foram cruelmente atingidas. A esposa de Rodrigo de Andrade já estava presa em 1598. Acostumado a lutar, Rodrigo de Andrade fora até Roma onde conseguiu que o Papa Clemente VIII suspendesse este processo em 4 de junho de 1602. O revide a eles foi pesado. Eles se voltaram para os Milão e no dia 28 de outubro de 1606 denunciado por um frade espanhol, Gaspar de Ayala, foram presos Henrique Dias de Milão e seus filhos.
Eles foram presos quando se preparavam para a fuga do país. Já estavam no cais da Madeira – ao longe a fragata que levou o poeta Fernão Álvares de Melo (David Abenatar Melo) a liberdade em Amsterdã, os aguardava. É possível que a Inquisição não só tivesse conhecimento da fuga, como também estivesse infiltrada na estrutura que preparou tudo. Pois nada funcionou direito – o barco que ia fazer a passagem para o navio maior os recusou, os guarda-costas fortemente armados não reagiram e a eles só restaram serem aprisionados.
A estratégia de investigação inquisitorial para agarrá-los, além das denúncias de religiosos e testemunhos de alguém que soubera de segunda fonte, claramente dirigidos pela instituição, cercaram-se das “culpas” encontradas nos processos da esposa e dos filhos, Ana, Fernão, Gomes e Isabel; da sobrinha Beatriz Rodrigues e das criadas Branca Rodrigues e Vitória Dias. Mesmo assim as acusações eram tênues: ele guardava o sábado, não freqüentava a igreja e principalmente não comia porco e peixes sem escamas. Praticava a “culinária do não” para manter a sua identidade etnocultural. Dizia que aprendera um pouco do ritual judaico quando vivera em Goa. Pelo menos era o que ele dizia. Era cauteloso nas afirmações. Disse também que freqüentara como judaizante a casa do Dr. Felipe Montalto (1567-1616), futuro médico de Maria de Médicis, no bairro de Santa Justa.
Ele era uma das vítimas escolhidas para atingir os negociantes do “Perdão Geral”, ser um cristão-novo importante socialmente, foi uma vítima escolhida a dedo para amedrontar os cristãos-novos e servir de exemplo para quem ousasse enfrentar a Inquisição, desarticulando a resistência cristã-nova. Mesmo com todas as evidências de que era indiferente a religião, ele foi relaxado (queimado) em 8 de abril de 1609 e ainda pagou as custas do processo: 4531 reais. O resultado disto foi a expatriação da família, que retornou ao judaísmo rabínico em outros rincões, contribuindo para deixar acéfala a liderança dos cristãos-novos em Portugal, já que os outros mais relevantes socialmente também procuraram terras menos intolerantes.

CONCLUSÃO

A trajetória da família Milão, tirando o seu poder econômico, é a mesma de centenas de outras famílias cristã-novas portuguesas. O seu percurso é o mesmo de tantas outras desta origem etnocultural. Primeiro a conversão de jure (pela lei) em 1497, algumas gerações depois alguém da família foi preso ou assassinado num Auto da Fé, segue-se a isto a expatriação dos aparentados para outro lugar mais tolerante, Hamburgo, Amsterdã, Livorno ou Veneza, Londres, Bordéus...
A passagem dos Milão por Pernambuco também deixou marcas importantes na família. Dois membros da família, Gomes e Paulo de Milão que tinham vivido em Recife, ao adotarem um novo apelido familiar, de aparência mais judaica, para nomearem as linhagens fundadas por eles no estrangeiro, deram o testemunho deste apego à cidade brasileira onde viveram por décadas. Adotaram o sobrenome hebraico Abensur – filho do rochedo (ou recife) para si e para os seus descendentes. O mesmo nome que a comunidade judaica recifense tomaria mais tarde, em 1631, como nome canônico, Tsur Israel.
Serão estes Milão os mesmo Milanos da Itália? Esta foi a pergunta que fiz quando procurei informações de uma e de outra família. Não tenho ainda uma resposta concreta a esta pergunta. Temos vários indícios que sugerem esta ligação. O espaço italiano era conhecido por eles. Manuel Cardoso Milão, primogênito de Henrique Dias Milão, viveu por dois anos em Veneza e os seus descendentes usaram o sobrenome Milan. O seu primo distante, o comerciante Duarte Esteves de Pina adotou o nome de Isaac Milano em 1618. É possível então uma ligação genealógica entre uma e outra família, pois os indícios documentados são consistentes. É necessário apenas aprofundar estas pesquisas.


§1
MILÃO DE LISBOA, OLINDA E HAMBURGO

I – ANTÓNIO LOPES, de Santa Comba Dão, casou-se com BRANCA (ou Beatriz) DIAS e tiveram a:
II – MANUEL LOPES, “contador”, de Santa Comba Dão, que se casou com LEONOR DE CÁCERES e tiveram aos filhos:

1 (III) – ANTÓNIO DIAS CÁCERES, tratante, viveu no México (Índias de Castela) e no Peru, onde foi casado com a peruana CATARINA, que veio para Santa Comba Dão. Representou o irmão Henrique numa negociação na Inglaterra onde tiveram um navio apresado. Ele negociava ouro, prata e escravos. É possível que António fosse casado uma primeira vez com uma LEONOR...
2 (III) – DIOGO DIAS, assassinado em Lisboa.
3 (III) – FRANCISCO LOPES, viveu em Goa e morreu em Cochim.
4 (III) – GUIOMAR MANUEL casada com PEDRO RODRIGUES, “lavrador” . Viviam em Santa Comba Dão. Uma filha do casal, Beatriz Rodrigues casou-se com o primo Gomes Rodrigues de Milão (Daniel Abensur), com geração conhecida até os nossos dias.
5 (III) – BRANCA GOMES casada com Gabriel Gomes, viviam em Santa Comba Dão.
6 (III) – HENRIQUE DIAS DE MILÃO, que segue.

III – HENRIQUE DIAS DE MILÃO nasceu em Santa Comba Dão e morreu queimado pelas acusações de “judaísmo” (1528 – 08 de abril de 1609). Casou-se com GUIOMAR GOMES (Lisboa, 1549 – Altona, 1613), filha de Francisco Rodrigues de Milão e Beatriz Gomes, neta paterna de Jorge Rodrigues e Guiomar Gomes, neta materna do médico Gomes Dias e Serena Lopes. Ele foi condenado: “confisco de bens, excomunhão maior, relaxado à justiça secular”. Ela foi presa em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em 5 de abril de 1609; “confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, instrução na fé católica, penitências espirituais” (Processo nº 6671). São os pais de:

1 (IV) – MANUEL CARDOSO MILÃO, que segue.
2 (IV) – GOMES RODRIGUES MILÃO, que segue.
3 (IV) – FERNÃO LOPES MILÃO, que segue.
4 (IV) – ANTÓNIO DIAS MILÃO, que segue.
5 (IV) – PAULO DE MILÃO, que segue.
6 (IV) – ANA DE MILÃO, que segue.
7 (IV) – BEATRIZ HENRIQUES, que segue.
8 (IV) - LEONOR HENRIQUES, que segue.
9 (IV) – ISABEL DE SANTIAGO, que segue.

IV – MANUEL CARDOSO MILÃO (1571-1644), “contratador de pao do Brasil” e exportador de açúcar. Viveu em Olinda. Expatriou-se para Veneza entre 1607 a 1608. Foi depois para Amsterdã. Casado com SARAH DE CÁCERES, filha de Gabriel e Branca Gomes. Um filho, Gabriel Milan (1631-1689), foi casado com a filha do médico e cabalista Benjamin Musaphia, irmão de Álvaro Dinis, com descendência Milan.
IV – GOMES RODRIGUES MILÃO nasceu em Lisboa (1573). “Mercador”. Expatriado adotou o nome DANIEL ABENSUR. Casado com BEATRIZ RODRIGUES, filha de Pedro Rodrigues e Guiomar Manuel. Preso em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, degredo por 5 anos para as galés, instruído na fé católica, penitencias espirituais” (Processo nº 2499). Ascendente da família contemporânea Heymann, Austrália, dentre outras.
IV – FERNÃO LOPES MILÃO nasceu em 1575. Representou o pai em Madrid onde trabalhou como banqueiro – emprestava a juros menores para nobres, como a mulher do Conde da Calheta , a Lúis Mendes de Vasconcelos, dentre outros.
IV – ANTÓNIO DIAS MILÃO nasceu em Lisboa (1581). “Mercador”. Preso em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo, instrução na fé católica, penitências espirituais” (Processo nº 2523).
IV – PAULO DE MILÃO (Lisboa, 1584 – Hamburgo, 1665) adotou vários nomes: MOSES ABENSUR e PAUL DIRICHSEN. Viveu em Olinda. Preso em 28 de outubro de 1606 e saiu no Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, penitencias espirituais”. Casado com LEA DE ANDRADE e depois com ABIGAIL DINIS.
IV – ANA DE MILÃO (1586). Presa em 28 de outubro de 1606 e saiu na Auto da Fé em cinco de abril de 1609: “confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito perpetuo sem remissão, instrução na fé católica” (Processo nº 279). Casada com o primo MANUEL NUNES DE MATOS (+1621), mercador, senhor de engenho na Bahia, arrendatário da cobrança dos dízimos do açúcar na Paraíba e o segundo maior exportador de açúcar no Brasil. Ele foi condenado em 14 de março de 1627: “que seus ossos sejam queimados, relaxado à justiça secular” (Processo nº 10600), porém conseguiu fugir para Amsterdã, onde a sua esposa foi reencontrá-lo. Viveram em Olinda e Amsterdã.
IV – BEATRIZ HENRIQUES (Lisboa, 1573 – Hamburgo, 1633). Casada com ALVARO DINIS (SAMUEL JACHIA ou ALBERTO DENIS, Braga, 1565 – Amsterdã, 1652), filho de Salomon Marco (Felipe de Nis), importador de açúcar em Hamburgo e Glueckstadt (Dinamarca). Foi pregador na sinagoga de Amsterdam. António Ribeiro dos Santos registrou uma obra dele: Trinta discursos ou darazos, apropriados para os dias solemnes: da contrição e jejuns fundados na Sancta Lei. Ano 5389.
IV – LEONOR HENRIQUES casada com o primo HENRIQUE RODRIGUES, médico. O futuro marido foi a Roma buscar a “dispensa de parentesco”. A noiva não freqüentava a igreja porque ficou grávida antes do casamento e podia dar escândalo.
IV – ISABEL DE SANTIAGO (ou HENRIQUES) nascida em Lisboa (1590).

BIBLIOGRAFIA

1. FONTES MANUSCRITAS / ELETRÔNICAS


Processo nº 279, Inquisição de Lisboa, Ana de Milão, II.
Processo nº 2.499, Inquisição de Lisboa, Gomes Rodrigues de Milão.
Processo nº 3.331, Inquisição de Lisboa, Vitória Dias.
Processo nº 3.338, Inquisição de Lisboa, Paulo de Milão.
Processo nº 6.671, Inquisição de Lisboa, Guiomar Gomes.
Processo nº 6.677, Inquisição de Lisboa, Henrique Dias de Milão.
Processo nº 6.984, Inquisição de Lisboa, Isabel Henriques.
Processo nº 9.389, Inquisição de Lisboa, Leonor Henriques.
Processo nº 10.600, Inquisição de Lisboa, Manuel Nunes de Matos.
Processo nº 14.409, Inquisição de Lisboa, Ana de Milão, I.

2. FONTES IMPRESSAS / ELETRÔNICAS

BOYAJIAN, James C. Portuguese bankers at Court of Spain, 1626-1650. New Brunswick: Rutgers University, 1983.
COELHO, Antonio Borges. “Política, dinheiro e fé: cristãos-novos e judeus portugueses no Tempo dos Filipes”, em Cadernos de Estudos Sefarditas. Ciclo de conferências 2000, nº 1, 2001, PP. 101-130.
FAINGOLD, Reuven. “A busca pela identidade. O julgamento do cristão-novo português Vicente Furtado: 1605-1615” (Chipus achar Sehut Mischpato schel He’anus Haportugali Vicente Furtado 1605-1615, in: Pe’Amin nº. 46-47 (1991), pp. 242-246)
FRADE, Florbela Veiga. “Formas de vida e religiosidade na Diáspora. As esnogas ou casas de culto: Antuérpia, Roterdão e Hamburgo (séculos XVI-XVII)”.
FRADE, Florbela Veiga. As relações econômicas e sociais das comunidades sefarditas portuguesas. O trato e a família. 1532-1632. Tese de Doutoramento. Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras / Departamento de História, 2006.
HEYMANN FAMILY WEB SITE (http://www.heymannfamily.com/index.html). Consultado em 02/11/2009.
MELLO, José António Gonsalves de. Gente da Nação. Cristãos-novos e judeus em Pernambuco 1524-1654. Recife: Massangana, 1989.
RIBEIRO DOS SANTOS, Antonio. “Da literatura sagrada dos Judeus Portugueses no século XVII”, em Memórias de litteratura portugueza publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, Lisboa, 1792, tomo III.
RICARDO, Silvia Carvalho. As redes mercantis no final do século XVI e a figura do mercador João Nunes Correia. Dissertação de Mestrado. USP/FFLCH/DH, 2006.
SILVA, Janaína Guimarães da Fonseca e. Modos de pensar, maneiras de viver; cristãos-novos em Pernambuco no século XVI. Dissertação de mestrado.
VALADARES, Paulo. “Para a fome do lobo e do leão: a “culinária do não””. O Boêmio (Matão), 14/12/2007, p. 7.
VALADARES, Paulo. A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX. Fortaleza: Fundação Ana Lima, 2007.
WOLFF, Egon e Frieda. “Judeus em Amsterdã, seu relacionamento com o Brasil”. Rio de Janeiro: IHGB, 1989.

DE ABRAVANEL A ZADEH: PRIMEIROS JUDEUS EM S. PAULO. SEFARDITAS NO CEMITÉRIO ISRAELITA DE VILA MARIANA, S. PAULO (1923-2008)

“Isso ficará como um memorial entre vós. Quando vossos filhos vos perguntarem um dia: que significam essas pedras?" (JOSUÉ, 4:6).


A formação de uma comunidade judaica exige, além de outros equipamentos sociais, um cemitério exclusivo para os seus membros. O primeiro cemitério judaico de S. Paulo só foi inaugurado em 1923. É o Cemitério Israelita de Vila Mariana, iniciado como um anexo separado por um muro, do cemitério municipal do bairro. Para administrá-lo foi criada a Sociedade Cemitério Israelita de S. Paulo que ao transcorrer dos anos passou por várias modificações até chegar à forma atual. Reflexo da comunidade, tanto a sua direção, quanto os sepultados são em sua maioria ashkenazim, essencialmente bessarábios.
Esta comunicação pretende mostrar que apesar de estatisticamente pequena há uma importante presença sefardita neste cemitério. Ao identificar todos os túmulos de sefaraditas no Cemitério Israelita de Vila Mariana, identificamos os primeiros judeus desta origem que viveram de forma comunitária em S. Paulo.
Antes de se avançar no tema é necessário conceituar o que será entendido como sefardita neste trabalho. A definição clássica é que sefardita é o judeu originário da Península Ibérica – a esta definição que usaremos de forma expandida, acrescentamos, como faz o Grão-rabinato israelense, os judeus autóctones do mundo árabe e também italianos, anteriores a I Guerra Mundial. Com esta identificação ampliada selecionamos os que reuniam estas características e eliminamos os “falsos positivos” que surgiram em nossa lista, como os originários de casamentos mistos (entre judeu e não-judeu de origem ibérica), utentes de sobrenomes ibéricos por extra-ibéricos no Brasil (Prado, Cardoso) ou sefarditas já aclimatados no mundo ashkenazim (famílias Portugheis, Caro), etc. É possível que tenham escapado alguns, descartados involuntariamente nesta seleção onomástica. Mesmo assim cremos que falamos de todos (ou de sua maioria), de A a Z, dos nobres e ibéricos Abravanel aos silenciosos Zadeh.
Num universo de 5396 lápides existentes no CIVM encontrei 247 que identifiquei como desta origem. São 4,57% dos inumados. A lousa sefardita é discreta e silenciosa. Cala-se na maioria das vezes quanto ao local de nascimento e também o hierônimo (nome religioso). Por ela conseguimos levantar estas informações para este trabalho:

1. O primeiro sepultamento foi de Rebecca Donio em 17 de agosto de 1923, mas foram transladados outros que tinham sido sepultados anteriormente em cemitérios municipais, o caso mais antigo é o de Isaac Cohen Sawaya falecido em 1916.
2. Os mais velhos sepultados lá são: David Cattan, David Danon e Samuel Salem (avô do historiador Boris Fausto), os três nascidos em 1855.
3. Apenas 70 declinaram a origem geográfica e destes 18 nasceram em Esmirna (ismirlis), 4 em Beirute e 3 em Livorno. Os restantes estão divididos por várias cidades ou países.
4. Não há nenhuma inscrição em árabe, mas, surpreendentemente Samuel Franco a tem em... íidiche!
5. Quanto aos proeminentes, listamos alguns: Hugo Piazza, “marechal de artilharia do Exército Italiano”; Vittorio Funaro, “Piloto aviador na Grande Guerra”; Alexandre Hakim (avô da advogada Clara Kochen), dono de restaurante oriental; Menahem Politi, profundo conhecedor do judaísmo; Erminio Pincherle (avô da atriz Nidia Lícia), importador italiano de café; Isaac Abuhab (avô do ativista Simon Abuhab), comerciante de sedas; Isaac Lazar Albahary, Oficial da Legião de Honra; Marcos Martins Lopes, comerciante; Habib Memran, fundador da Sinagoga da União Israelita Paulista; José Simantob, colchoeiro; David Nahum, dono do Bar e Café Juca Pato e Café do Centro; Nelson Faldini, industrial, Samuel Politi, economista e professor e Nassim Elias Nigri, presidente da União Israelita Paulista.
6. O primeiro dirigente da Chevra Kadisha desta origem foi o comerciante Morad (Mário) Amar (1902-1990), natural de Sfat, na década de sessenta.



CONCLUSÃO

O CIVM foi um dos poucos espaços de socialização entre os judeus de origens diferentes em S. Paulo durante a formação da comunidade, pois até pela geografia urbana eles estavam separados: os ashkenazim no Bom Retiro e os sefarditas na Mooca. Ali eles se encontravam num ambiente comum e podiam se apresentar um ao outro, mesmo que fosse um encontro “permeado de uma estranheza” (FAUSTO: 183), afastando a desconfiança que havia sobre a identidade do outro.

BIBLIOGRAFIA


FAUSTO, Boris. Negócios e ócios. Histórias da imigração. S. Paulo: Companhia das Letras, 1997.
MIZRAHI, Rachel. Imigrantes judeus do Oriente Médio: S. Paulo e Rio de Janeiro. S. Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
VALADARES, Paulo; FAIGUENBOIM, Guilherme; ANDREAS, Niels. Os primeiros judeus de S. Paulo – Uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana. S. Paulo: Fraiha, 2009.


ANEXO
LISTA DOS SEFARDITAS SEPULTADOS NO CEMITÉRIO ISRAELITA DE VILA MARIANA

Abensur, Abrahão Hermes (Amazonia, 1900 – 1944)*Abitboll, David (+1944)*Abravanel, Aimée (1889-1939)*Abuhab, Isaac (Seida, 1874-1944)*Abuhab,Sara (1883-1968)*Adisse, natimorto (+1941)*Adissi, Adele (+1934)*Adissi, Carlos (Beirute, 1903-1949)*Adissi, Haim Simão (Beirute, 1882-1947)*Adissi, Nazira (Beirute, 1907-1978)*Adissi, Rachel (1936-2000)*Adissi, Taufic (1917-1925)*Adoni, Raul (+1943)*Aflalo, Rachel Haziza (1866-1941)*Alalu, Jacob (+1944)*Alalu, Merkada (1871-1947)*Albahary, Isaac Lazar Lionel (1885-1947)*Albahary, Maria A. P. (1894-1945)*Alboucreck, Esther (1952)*Alfasso, Giuseppe (1892-1944)*Algranti, José (+1980)*Algranti, Matilde (+1951)*Algranti, Matilde Levy de (+1980)*Algranti, Nissim (+1953)*Alkaim, Judith (Belém905-1925)*Alkaim, Esther (Salvador, 1871-1921)*Alvo, natimorto (+1947)*Alvo, Rrebeca (+1947)*Alvo, Riqueta (1927-1933)*Amar, Isaac (Safed, 1897-1928)*Amar, Isaac (+1939)*Amar, Moisés (1935-1943)*Ammar, Abrahão (1919-1998)*Anau, Leone Leonardo (Ancona, 1864-1943)*Angel, Jack (1913-1998)*Anidjar, Salomon (+2000)*Antebi, Ezra (Safed, 1885-1943)*Antebi, Rebecca (+1950)*Arditti, Moïse (Esmirna, 1868-1942)*Arias, Mayer Cohen (Esmirna, 1872-1926)*Ascoli, Carlo (Ancona, 1871-1945)*Assa, Mathilde Mazaltov Behar (Plovdiv, 1885-1953)*Assa, Samuel (1888-1933).
*Balassiano, Jacob (+1952)*Baruel, Jayme (+1945)*Bassani, Simão (+1951)*Behar, Fortunée Pinto (+1994)*Behar, Juda Leon (1913-1950)*Behar, Ramon (+1950)*Behar, Rebecca (Andrinople, 1885-1945)*Behar, Victor (+1993)*Ben Jair, Isaac (*Jerusalém + 1940)*Benaron, Fortunée (1873-1941)*Beniacar, Leone (1914-1999)*Beniste, Faride (+1936)*Bitran, Luna Behora (*Esmirna+1942)*Bondi, Davide de Elia (Roma, 1866-1977).
*Calabi (Segre), Claudia (Roma, 1882-1950)*Calderón, Vida (+1949)*Campeas, Alexandre (Esmirna, 1900-1931)*Campeas, Leão (Esmirna, 1871-1946)*Carmona, Efraim Tchelebi (*Esmirna+1945)*Carmona, Marcos (+1946)*Carmona, Meri (*1924)*Carmona, Mordekai (*Esmirna+1936)*Castelfranchi, Dirce Fontanella (+1951)*Castelfranchi, Ugo (+1953)*Castro Nahum, natimorto (+1956)*Cattan, Clara (1894-1936)*Cattan, David (1855-1933)*Cattan, Gabriel (1881-1943)*Celeste, José (+1925)*Celeste, Rachel (+1923)*Chebabo, Jacob (1894-1951)*Chebabo, Alberto Abraham (1889-1943)*Chebabo, Mercedes (1932-1949)*Chebabo, Rachel (+1946)*Chirazi, Mário (+1931)*Coen, Eduardo (1875-1947)*Coen, Giuditta Piazza (1877-1963)*Cohen Tawil, Moysés Eli (+1945)*Cohen, Nasle (+1929)*Cohen, Jamile (+1931)*Cohenca, Juan Yehuda Menechen (1892-1948)*Colombo, Ricardo (1973-1999)*Colombo, Rosa (+1939)*Couriel, Perola (*Itália, 1877-1935)*Crespin, Haim Joussef (1903-1985)*Crespin, Jeanette (1927-1942)*Crespin, Meriam (1904-1987).
*Danon, David (Cassaba, 1855-1931)*Danon, Roberto Rabenu David (1892-1947)*Darsa, Jacob (1931-1998)*Donio, David (+1947)*Donio, Haim (1858-1938)*Donio, Jacques (+1929)*Donio, Rebecca (+1923)*Duek, Zaquia (+1945)*Dueke, Moysés (Alexandreta, 1915-1951)*Duer, Thereza (+1953).
Efraim, Nazle (1880-1953)*Efraim, Salim (+1933)*Especulante, natimorto (+1999)*Esquinasi, Latif (1906-1999).
*Faes, Victoria (1907-1926)*Faez, Moysés (1879-1953)*Faldini, Nelson (Livorno, 1910-1975)*Fausto (Salem), Eva (1901-1938)*Forte, Haim Asslan (1875-1939)*Franco, Regina (1881-1939)*Franco, Caden Danon (+1939)*Franco, Fernando (1942-1999)*Franco, Haim (Magnesia, 1877-1952)*Franco, Isaac (1905-1953)*Franco, Paulo (1906-1971)*Franco, Regina (1886-1972)*Franco, Samuel (!904-1933)*Franco, Sultana (Italia, 1868-1947)*Funaro, Vittorio (Livorno, 1895-1934)*Furlanetto, Elvira Levy Morterra (Trieste, 1862-1940).
*Gentili, Dorina Ghiron (Casale Monferrato, 1880-1971)*Gentili, Raffaele (Daniele Del Friuli, 1876-1952)*Graziani, David Moysés (Espanha, 1882-1929).
*Hodara, Salomão (1914-1948)*Hadid, Nancy (+1935)*Hadid, Salem (+1931)*Hakim, Alexandre (Cairo, 1866-1941)*Hakim, Clara (*Esmirna+1935)*Hasson, Isaac Aron (Istambul, 1876-1932)*Hasson, Joseph (Rodes, 1859-1937)*Hasson, Rosa Coen (Rodes, 1864-1942)*Hodara, Sarah (*Esmirna+1949)*Homsi, Isidoro Isaac (1888-1951).
*Iantevi, Mandel (+1953).
*Jesi, Clotilde Russi (+1943)*Jesi, Giuseppe (+1947)*Jessourum, Victoria Rebecca (1922-1923).
*Kalili, Nissim (+1964)*Kalili, Sara (+1953).
*Lagnado, Renée Vita (1911-1998)*Lereah, Alexandre Bohor (Esmirna, 1874-1951)*Lereah, Haim (Esmirna, 1877—1941)*Lereah, Rachel (Esmirna, 1882-1949)*Levi, Nedda Tedesco (Verona, 1890-1946)*Levis, Leon Menahem (*Volos+1953).
*Mandolfo, Amalia Jagli (1875-1950)*Mandolfo, Giulia Cohen (1919-1939)*Mansur, Carlos (1929-1950)*Martins Lopes, Marcos (Constantinopla, 1889-1948)*Massarani, Giuliano (1869-1949)*Mazzini, David (+1927)*Memran, Faride (+1949)*Memran, Habib (Beirute, 1889-1953)*Memran, Mário (+1933)*Mendes, Alea (1897-1987)*Mendes, Aron (+1945)*Mendes, Elvira Del Cos (Zulpas, 1871-1951)*Mendes, Felicidade (Lisboa, 1905-1937)*Mesquita, Estella (+1947)*Mizrahi, Nair (+1930)*Mizrahi, Elvira (1908-1942)*Mograbi, David Chaia (+1952)*Mondolfo, Amedeo (1875-1947)*Musatti, Elena Sacerdoti (1884-1945)*Musatti, Giacomo Helio (1880-1950).
*Nahum, David (*Esmirna+1959)*Nahum, Perla (+1949)*Namias, Esther (1857-1932)*Nefussi, Nissim (1883-1952)*Nefussi, Luiz (1925-1933)*Nigri, natimorto (+1934)*Nigri, Maria(1908-1993)*Nigri, Milton (+1938)*Nigri, Miriam Cohen (+1952)*Nigri, Myrna (+1935)*Nigri, Nassin Elias (1897-1989).
*Pavia, Cesare (Turim, 1888-1951)*Pavia, Claudio Roberto Saul (1957-1957)*Pavia, Ida Cohen Sacerdote (Biella, 1893-1958)*Peres, Jacques (+1941)*Perez, Emilio (Siria, 1905-1935)*Piazza, Carolina Boccara (Livorno, 1858-1942)*Piazza, Hugo (+1928)*Pincherle, Emma Luzzatto (Trieste, 1868-1951)*Pincherle, Erminio (Gorizia, 1866-1942)*Pinto, Estrea (1890-1975)*Pinto, Samuel (1881-1953)*Politi, Isaac (1871-1946)*Politi, Mayer (1887-1953)*Politi, Menahem (Siria, 1870-1942)*Politi, Samuel Marino (Manissa, 1902-1977)*Politi, Sarah (+1933).
*Russi, Bruno (Veneza, 1898-1957)*Russi, Emma Panzieri (Florença, 1874-1947).
*Salem, natimorta (+1926)*Salem, Rachel (1863-1935)*Salem, Samuel (1855-1941)*Salmoni, Ada Clara Serena (+1940)*Salmoni, Clara (1883-1951)*Saraf, Fortuna (+1924)*Sardas, Esther (Esmirna, 1922-1948)*Sarfati, Estrea (+1938)*Sarraf, Judit (1926-1949)*Sarraf, simão (Belém, 1872-1952)*Sasson, Miguel (1940-1951)*Sasson, Victoria (+1950)*Sawaya, Isaac Cohen (+1916)*Sayeg, natimorto (+1941)*Sayeg, Salomão (+1926)*Sayeg, Victor (1924-1938)*Sereno, Bella (*Esmirna+1931)*Sereno, Isaac (1890-1950)*Sereno, Violeta (1934-1950)*Serul, Rubens (+1943)*Serur, Jamile (+1951)*Serur, Simão (+1947)* Setton, Marcos (+1936)*Setton, Mourad Azar (+1949)*Sidi, Jacques (+1928)*Sidi, Leon (esmirna, 1882-1951)*Sidi, Mois (=1941)*Sidi, natimorta (+1944)*Simantob, José (Sidon, 1883-1953)*Simantob, Rachel (1924-1926)*Simantob, Raphael (+1934)*Simantob, Rebecca (1916-1943)*Simantob, Victor Moysés (+1938)*Simantob, Yvonne (+1936)* Skinazi, Albert (1907-1999)*Srur, Fortuna (+1942)* Srur, Sara (+1940)*Suarés, Marcelle Lieto Bekhor Dayan (1910-1999).
*Tagliacozzo, Ugo (1885-1953)*Tarab, Smita Faiz (1877-1951)*Tawil, Alberto (+1933)*Tawil, Victor (+1953)*Telio, David Mourad (+1952)*Telio, Esther (+1946)*Telio, Marco (+1941)*Telio, Sarina Nigri (1901-1987).
Vaena, Moysés (*Esmirna+1937)*Vaena, Rebecca (*Esmirna+1937).
Zadeh, Ibrahim Achtar (Odessa, 1891-1953)*Zangrande, Livia Calabi (Verona, 1915-1954)*Zeitune, Esther (+1928)*

O PRISIONEIRO ATLÂNTICO OU O DEMÔNIO NA VARA DE PORCOS

A notícia chegou na sala de Júpiter como uma bomba de detefon entre formigas. Tonteou. O ácido Professor Bloch de Colonial, que chamara uma universidade campestre de "agência de publicidade bem sucedida", estava com uma virose e não participaria da banca examinadora que julgaria o Concurso para o Provimento de Docentes. O placar estava 3 x 2 para o sucesso do candidato favorito da casa. Com a saída de Bloch o receio é que o resultado poderia ser alterado.
O Concurso atraira 15 candidatos. O favorito era um aluno de Júpiter, de nome Almeida "a Prazo", lembrança universitária nada sutil ao avô da 25 de Março (rua do comércio árabe em S. Paulo), para quem pendia a casa. A sua adversária mais forte era uma gaúcha oriunda de Católica, que desmontara a ação da Inquisição na Bahia usando a interpretação marxista. Corria por fora, no caso de enfraquecimento dos dois, um judeu cinqüentão com um doutorado sobre o Barroco no Acre defendida em Louvain, que ninguém lera. Os restantes eram pára-quedistas que apenas aumentavam a receita da universidade, pagando as taxas e prolongando o tempo do concurso.
Assim que o Departamento abriu vaga para Colonial começou a circular emails e telefonemas entre interessados, nossa fonte para este trabalho. Mas era consenso no Departamento que a vaga pertencia a Júpiter...se este tivesse competência para dirigir o processo. Logo que ele soube da vaga pôs-se em campo para montar a banca examinadora: passou noites lendo quase inutilmente dezenas de Currículos Lattes - ele conhecia bem este universo. Quem orientou quem e o que publicara. Que favores fulano devia a sicrano; o silêncio numa dissertação mal orientada, a publicação de artigo ou livro, a bolsa de um aluno. Até encontrar os examinadores ideais. Agora era a hora da fatura. Para sacramentar o seu delfim com plena legalidade trouxera dois desafetos, ou pelo menos indiferentes, na vida acadêmica. Não podia deixar chegar ao escândalo do Concurso de Letras anos atrás, quando a encenação terminou em confronto físico e uma nota da Congregação lamentando o charivari.
- Como eu não pensei nisto antes? Perguntava Júpiter para si, dentro de um bem cortado paletó azul e rabo de cavalo, herança de sua juventude nos anos sessenta, quando afrontara a Ditadura. Ele acordara tarde por ter sido orador numa manifestação pedindo ética na política. Fazer o que? Bloch, pica-grossa, era fiel, nunca lhe sugeriu que o palmito de um "cebolinha" (comerciante chinês no jargão paulistano) colocaria em xeque dez anos de engenharia concursal. Entre encontrar um bom aluno, de estirpe, que pudesse lhe suceder, montar uma banca conveniente. Tudo isto podia ser perdido por este palmito fora de hora. Não lhe valia neste momento os livros que escrevera, os 80 artigos científicos, se não colocasse como sucessor o seu delfim.
Um concurso de Docentes é um relógio atômico. Não existe nenhuma peça gratuita em seu maquinário. Tudo tem a sua função por mais inocente que pareça. Não há surpresas - aliás a sua função é provocar surpresa num resultado já esperado pela banca, legitimando esta escolha anterior. Conegliaro de Moderna, alto e ruivo, com tiques de uranista contrariado, dirigia a coleção da editora que publicara o trabalho de Almeida "a Prazo" e presidia a Banca. Bruna, a desmazelada, fora orientanda de um aluno de Júpiter, não era do Departamento, mas vivia como pesquisadora no Instituto, catalogando a correspondência passiva do Dr. Sérgio, a espera de uma vaga já carimbada. Era suficientemente esperta para acompanhar a manada. O trabalho de Bloch, Conegliaro e Bruna era neutralizar os dois metecos convidados, tanto o Litorâneo, quanto o Mineiro. Como sempre se decidiria a vaga no exame dos memoriais e na aula prática. Nada era combinado com Júpiter, mas este sabia a reação de cada um quando escolhera para a banca examinadora. O suplente de Bloch era Cardosinho, seu apagado protegido, oriundo do baixo-clero.
Cardosinho era sério, porém fora personagem de um incidente desagradável que colara a sua biografia, deixando-o a mercê das piadas acadêmicas. Um ex-aluno promissor se propusera a escrever uma tese chamada A punhalada de Caravaggio e fora para a Itália com polpuda bolsa-sanduíche, recolher material, voltara um ano depois apenas com o fichamento de algumas revistas de arte já encontráveis na biblioteca e a cara de pau de afirmar que fizera um pouco de história oral, para justificar a queima da verba em agitada temporada nas saunas locais. Por muito pouco Cardosinho não tivera que repor este dinheiro a agência fomentadora de pesquisa, porém a conta não lhe foi cobrada, mas ainda era obrigado a suportar pelas costas os gestos cômicos de punhais ou alusões entrecortadas sobre armas brancas em seus cursos na pós-graduação.
No segundo dia do Concurso descobriram que Cardosinho existia. Ele dirigiu-se zombeteiramente ao candidato de Júpiter como "o nosso glabro Braudel... porém mais ambicioso". No almoço emitiu sinais do seu desprezo pelo candidato escolhido. Bruna alarmada falou a Conegliaro, que falou a Júpiter das más intenções do colega de Departamento. O Professor Cardoso de Metodologia odiava o delfim de Júpiter. E o pior, com motivos e pretendia vingar-se do candidato, a quem referia-se nada academicamente como aquele "pleiboizinho viado". Só de vê-lo com as bem passadas camisas de manga comprida sentia inveja de Caim.
Foi o Litorâneo que descobriu o motivo do ódio de Cardosinho. Numa daquelas datas redondas do Padre Vieira ele enviara para o Caderno Cultural um ensaio sobre as imagens bíblicas usadas pelo pregador baiano. Quem recebeu foi o subeditor, o já conhecido Almeida, que protocolarmente ligou para o autor:

"Caro Professor. Recebi o seu notável ensaio sobre o nosso Padre Vieira. É uma interpretação muito arguta e ainda não estudada deste tema. Porém, permita-lhe dizer que há três datas equivocadas, ou que podem provocar discussão, mais alguns erros de digitação. Posso, Professor, fazer o copidesque e retornar ao Sr. para o reexame e depois publicá-lo?".

Cardosinho concordou com o copidesque e estranhou a demora. Mas não passou recibo. Esperou os originais copidescados até ver nas bancas o número especial do Padre Vieira com artigos dos seus maiores interpretes - numero que virou referência segundo Júpiter - mas sem o seu trabalho "sumido" pelo subeditor. A partir daquele momento o delfim de Júpiter ganhou o aposto comercial e entrou na lista dos seus desafetos.
Avisado pelos seus pares, Júpiter que preparava o simpósio O Prisioneiro Atlântico para o próximo mês, descolocou-se de sua sala no Prédio da Graduação para a Secretaria de Pós-Graduação e no corredor encontrou-se com o trio do Departamento. Junto ao guardinha da Universidade, o Litorâneo via de longe o trio da banca e o velho de paletó azul que conversavam próximo ao bebedouro, mas ele procurava um táxi e queria saber se Guarulhos ficava muito distante. O Mineiro disfarçadamente olhava os livros expostos no mostruário da Faculdade, onde estava a produção dos seus grandes mestres e precocemente o livro de Almeida "a Prazo", uma aposta no futuro, como decretara Bruna no exame dos memoriais.
Júpiter fingiu surpresa: Nem vou perguntar como vai o Concurso. Tenho certeza do caráter e da vidência dos colegas. Estava de passagem, vim assinar uns papéis na secretaria e soube que vocês estavam aqui e assim aproveitei para dar um alô para vocês, nos meus últimos dias de Universidade... e aproveito para lhes dar uma palavra de um mestre que está no fim....(pausa). Vocês estão com o futuro da Universidade nas mãos. A escolha de vocês é séria. É uma disciplina, que excluindo o meu caso - Bruna berrou um não apoiado - sempre teve grandes mestres, a partir do Dr. Sérgio. Não pode ser escolhido alguém muito velho (pontapé no judeu) porque o pesquisador precisa é de tempo, ouso dizer também que há entre os candidatos gente destas faculdades de beira de estrada, um resultado dos desmandos daquele animal híbrido. Temos que ser rigorosos. Não podemos nos entusiasmar por utopias anacrônicas (rodou a gaúcha). Mas eu confio que vocês farão o seu trabalho. Pelo menos a Universidade acredita nisto. Mas isto não é mais assunto meu, são de vocês que são jovens... Parabéns, Professor Cardoso, soube da Professora Maura que ela está escrevendo o parecer de um aluno seu para uma bolsa-sanduíche em Sevilha. Parece que aquele infeliz incidente foi superado. Inclusive falei com o Professor Furtado, que devíamos pensar no seu Pósdoc, o Sr. já pensou na Sorbonne?

Anotação em caneta azul

Não sei por que escrevi este capítulo, já sabendo das regras de nosso Departamento. Texto sem footnotes não se publica. Nisto nós somos bem rigorosos. Não abrimos mão de nosso rigor acadêmico por nada.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

UM POEMA: "CANÇÃO" (II), RAFAEL ALBERTI

Hoje as nuvens me trouxeram,
voando, o mapa da Espanha.
Tão pequeno sobre o rio
e tão grande sobre o pasto
a sombra projetada.
Eu montado nesta sombra
busquei minha aldeia e casa.
Entrei no pátio onde um dia
existira uma fonte com água.
Embora ali não estivesse a fonte,
a fonte sempre soava,
e a água que não escoava,
voltou para me dar água.

RAFAEL ALBERTI (Puerto de Santa Maria, 1902 – idem, 1999), poeta espanhol.
Tradução de P. V.

UM POEMA: "ANGINA PECTORIS" (I), NAZIM HIKMET

Se metade do meu coração está aqui,
Doutor, a outra metade está na China
com o exército que flui em direção
ao Rio Amarelo.
E, toda manhã, Doutor,
todo amanhecer o meu coração
é golpeado na Grécia. E toda noite, Doutor,
quando os prisioneiros estão adormecidos
e a enfermaria está deserta, meu coração vai
para uma cansada casa velha em Istambul.
E então depois de uma década tudo o que
tenho para oferecer ao meu pobre povo
é a maçã na minha mão, Doutor, uma maçã
vermelha : meu coração.
É isto, Doutor, a razão para esta angina pectoris,
não é nicotina, prisão ou arteriosclerose.
Eu olho a noite através das grades
e desprezo o peso no meu peito.
Meu coração bate tranqüilo
Com as mais distantes estrelas.

NAZIM HIKMET (Salônica, 1901 – Moscou, 1963), poeta turco.
Tradução de P. V.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O QUE É UM MIRMILÃO? CHARLES ASTOR RESPONDE


Adolescência, quando eu saia do ghetto, época do dinheiro curto, comprei numa banca de jornais em Valinhos, um livrinho de contos de um escritor chamado Charles Astor, intitulado Estórias Rudes (Rio de Janeiro: Biblioteca Universal Popular, 1965), volume nº 51 desta coleção. Edição bem fuleira, apesar da capa feita por Eugênio Hirsch (1923-2001), papel jornal, mas com conteúdo inesperadamente original, tanto os contos, quanto a biografia do autor inscrita no inicio do volume. Nela se diz que Charles Astor vivera nos cenários dos contos, lutara sete anos na Legião Estrangeira, trabalhara como trapezista em circos, introduzira o pára-quedismo no Brasil e no momento da publicação era o Chefe das Obras Raras da Livraria Civilização Brasileira. Apeguei-me tanto a este exemplar, que ele me acompanha no meu percurso de Ahasverus até como um “amuleto intelectual”.
Não conheço nenhum dicionário que registre o autor e a sua obra. Ele é mais um daqueles personagens que provavelmente só ressurgirão num trabalho acadêmico, explorando as suas múltiplas atividades. Poucas fontes, por hora, estão disponíveis sobre ele. Que eu conheça, só há um artigo em revista extinta (Visão, setembro de 1962, “Astor é de sete instrumentos”), a apresentação do livrinho por Paulo Ronai e citações esparsas na WEB. Nelas descobre-se que o seu nome verdadeiro era Achile Garcia Charles Astor (a ordem onomástica não me parece correta), nascera na Argélia francesa, filho de espanhóis (28/08/1900), instrutor de pára-quedismo da Aeronáutica brasileira por longos anos – foi o segundo homem a saltar de pára-quedas no país (S. Paulo, 1931). Teria perseguido através da aviação o grupo do bandido Lampião (1898-1938). No Rio de Janeiro, além de cultivar o ambiente militar por décadas, é também reconhecido no mundo literário onde teve relações de amizade com Paulo Ronai (1907-1992), Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) e Rubem Braga (1913-1990), dentre outros intelectuais cariocas. Charles Astor morreu em Barbacena (MG) em 1972.
São sete pequenos contos que se passam em cenários e épocas diferentes. O ponto comum entre eles é uma situação que se repete: um homem solitário num confronto contra um adversário superior, físico ou espiritual, recorrendo ao que Astor chama de “energia do desespero” para superá-lo. Eles são narrados de forma simples, sem contraponto, como se fosse uma conversa no vestiário esportivo ou na caserna. Os personagens centrais são um soldado da Legião Estrangeira, magoado com os camaradas, um pugilista bronco, um tenista apaixonado, diversas modalidades de lutadores romanos (mirmilões, lanistas, reciários, etc), o goleiro mexicano que era um animal, artistas de circo e para-quedismo.
O universo esportivo real é sempre uma referência na sua ficção: Firpo, Dempsey, Kopa, Pelé, Maspoli, Ramallets, Gilmar, Zamora e Williams passam por suas páginas. Este livro não é nenhum clássico, mas é a garantia de duas horas (um pouco mais ou um pouco menos) de entretenimento puro, uma “sessão da tarde" impressa. Para mim foi a chance do menino pobre, sem dinheiro para entrar numa livraria (nem havia livraria em valinhos), encontrar um livro que coubesse no seu orçamento medido em centavos. De qualquer forma, uso como minha definição, confesso que até exagerada, para este livrinho, o título usado por uma série de crítica literária publicada na revista Manchete: Estórias Rudes é uma das “obras primas que poucos leram”.

ASCENDÊNCIA NEGRA DO POETA RUSSO A. S. PUCHKIN


Foi sucesso em Israel na belíssima voz do grande cantor sefardita (judeu ibérico) Yehoram Gaon a canção em hebraico “Eyfo Hen Habachurot” (de J. Gamzu / S. Paikov), onde numa de suas estrofes o compositor lembra-se romanticamente das mulheres pioneiras de Israel:


“(...) que sabiam ler Puchkin sobre o feno, jovens vestidas de maneira simples (...)”


O poeta russo Puchkin é uma referência de alta cultura para os que viveram em algum momento sob a cultura russa. Ele, que a partir de sua escrita tornou-se padrão desta literatura, como Dante, Goethe e Camões para as suas literaturas. Curioso é que nem todos os ancestrais do escritor pertenciam ao povo russo, tendo até um inesperado africano entre os seus ancestrais, que através dele chegaram à alta nobreza.
Aleksandr Sergueievitch Puchkin nasceu em Moscou e morreu num duelo a pistola em S. Petersburgo (1799-1837). Ele vinha de uma família aristocrática russa com ancestrais alemães e um bisavô etíope. Pelo lado paterno descendia de I.M. Golovin, morto em 1738, comandante da esquadra naval. Apesar da nobre ascendência que lhe rendeu uma função do Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi o seu ancestral africano o que mais chamou atenção, até dele mesmo, a ponto de escrever o romance “Arap Petra Velikogo” (O negro de Pedro o Grande, 1837) sobre a sua extraordinária história.
Abram Petrovitch Hannibal (1696-1781), antes chamou-se simplesmente Ibrahim e nasceu livre na Etiópia, mas foi capturado por caçadores de escravos e vendido para o sultão turco. Por sorte de Hannibal ele foi presenteado ao czar Pedro o Grande (1672-1725), que afeiçôo-se ao novo companheiro, protegendo-lhe na Corte Imperial. Mandou-o depois a Ecole d´Artillerie de La Fere na França para estudar a arte militar. Era o caminho para a nobreza. Dali seguiu para a Espanha onde lutou como capitão na Guerra da Sucessão. Retornou a Rússia, onde casou-se e teve descendência na aristocracia. Ele foi avô da mãe do poeta, Nadezda Ossipovna Hannibala, ascendência perceptível na aparência do poeta.
A filha do poeta, Natalia Alexandrovna Puchkin (1832-1913) casou-se com um aristocrata da família Nassau e teve três filhos, uma delas, Sophia von Merenberg (1868-1927) casou-se com um neto do czar Nicolau I (1796-1855) e teve três filhos. A primeira, de nome Anastasia de Torby (1892-1977) casou-se com o major-general Sir Augustus Wernher (1893-1973) e teve dois filhos: George Michael Alexander e Georgina. De Georgina, nasceram Alexandra Anastasia Phillips (que casou-se com o Marquês de Hamilton) e Natalia Ayesha Phillips (casada com o 6º duque de Westminster). A segunda filha de Sophia von Neremberg, Nadejda de Torby (1896-1963) casou-se com o príncipe George Louis Victor Henry Serge de Battenberg (1892-1938), tendo descendência inscrita entre os herdeiros da Coroa Britânica.
Escrevi este artigo provocado por uma resposta do sambista e escritor Nei Lopes: “Nunca vi negros bem na imprensa e isso me incomodava. Então quando aparecia uma matéria, eu recortava e guardava”. Porém ficou-me a pergunta: o que aconteceria aos descendentes de A. P. Hannibal se este tivesse sido vendido no Brasil?

ONOMÁSTICA POVEIRA - PÓVOA DE VARZIM



Póvoa de Varzim fica no litoral português. É uma terra de pescadores. Os Poveiros formaram um grupo com identidade definida dentro da população portuguesa. O etnógrafo António dos Santos Graça (1882-1956) escreveu um importante volume, “Poveiros. Usos, costumes, tradições, lendas” (Póvoa do Varzim: edição do autor, 1932) sobre as origens, costumes e comportamento dos Poveiros. Como o autor descendia desta gente é um trabalho que descobre minúcias que um pesquisador externo não conseguiria descobrir. Dentro da imensa quantidade de informações coletadas por ele, há um capítulo sobre a Onomástica Poveira. Cada linhagem ao fragmentar-se em famílias conjugais recebia uma denominação popular pela qual se tornava conhecida.
O meu trabalho foi organizar as linhagens, os seus nomes por qual são conhecidos dentro da comunidade, em ordem alfabética. Para os genealogistas é mais uma informação a ser utilizada quando pesquisar-se esta gente.

ARTEIRO, Francisco (os Lambuscos e os Sedões).
ARTEIRO, Francisco /
GONÇALVES DE CASTRO (os Currôtos).
BAPTISTA DE LIMA (os Salsas).
BENTA, Francisco Nunes da (os Peidadão).
BERNARDO (os Come Pilados).
CARDOSO, José (os Feiteiras).
CARVALHO, Filipe de / COSTA MARQUES (os Pinheiras).
CASTRO CANTINHA (os Dibós)
CASTRO LOPES (os Sabidos).
CASTRO, Bernardo de (os Malgas)
CASTRO, Fernando de (os Lazeras).
CORREIA NOVO (os Ándóras, os Biátas)
CORREIA, Vicente (os Casacas).
COSTA CASTANHO (os Bonifácios)
COSTA JORGE (os Pintassilgos).
COSTA MARQUES (os Carvalhidos, os Lavradeiras, os da Madrinha, os da Neta, os Parentes, os Pelados, os Russo, os Gordas).
COSTA MOIRO (os Cucas).
COSTA NOVO (os da Russa)
COUTO, Bernardo do (os Troinas)
CRAVEIRO (os Cholas)
CRISTELO, Antonio (os Famas)
CUCÊLO, Francisco (os Pescadas).
CUNHA, Francisco da (os Arôcas, os Porra-Alta).
CUNHA, Francisco da / CORREIA NOVO / FERNANDES BRAGA (os Feliças).
DENIS (os Capelões).
DIAS DA SILVA (os Canastreiros).
DIAS FERRADEIRA (os Lagosteiros).
DOURADO, António (os do Rico Senhor)
DOURADO, José (os Catraios).
FANGUEIRO DA SILVA (os Saramagos).
FEITEIRA, Caetano (os Bravos, os Regoiças e os Simões)
FERNANDES ABREU / COSTA BRANCO (os Carriços).
FERNANDES AREIAS (os Nócas, os Fornecas e os Nogueiras).
FERNANDES BRAGA (os Chascos).
FERNANDES CADILHE (os Beiças, os Juliões, os Melões, os Reixas).
FERNANDES CASEIRA (os Poupados).
FERNANDES DA SILVA (os Fuzelas, os Mortes).
FERNANDES MOÇA / MARTINS MOREIRA (os Maiatos).
FERNANDES MOÇA / RODRIGUES DA COSTA (os Leonoras).
FERNANDES TORRÃO (os Caras, os Celigatos).
FERNANDES TROINA (os Cadecos, os Fome-Negras).
FERNANDES TROINA / RODRIGUES MAIO (os Sangue-Ruim).
FERREIRA FESTAS / CORREIA PINTO (os Pochos).
FERREIRA FESTAS / RODRIGUES MAIO (Os Galos).
FERREIRA GRAÇA (os Guias).
FERREIRA MARAVALHAS (os Pintados).
FERREIRA MOREIRA (os Ferreiras, os Tabôjos e os Maranhos).
FERREIRA, António (os Lagoas, os Liqueiros)
FRASCO, Francisco (os Patrões e os Ruins).
FRASCO, Francisco / FERREIRA NOVO (os Ratos).
GAVINA, Francisco Arteiro (os Frutuosos).
GOMES ARTEIRO (os Relicas).
GOMES DA CRUZ (os Caixas, os Elênas, os Folhetas e os Récas).
GOMES DA VINHA (os Alexandres).
GOMES DOS SANTOS (os Sanchas).
GOMES LEITE (os Guimarãis).
GOMES MADALENA (os Liberatas e os Penas).
GOMES MARAFONA (OS Monêtas).
GOMES SAPUDO (os Grandes).
GONÇALVES DE CASTRO (os Esgueiras, os Graças, os Netos, os Quilores, os Vidralhos).
GONÇALVES DE CASTRO / CASTRO, Francisco de (os Penedas).
GONÇALVES FABIÃO (os Viçosos).
GONÇALVES GAVINA (os Serras).
GONÇALVES GOMES (os Chichões).
GONÇALVES MARQUES (os Moirinhos).
GONÇALVES NETO (os Ilhas e os Moucos).
GONÇALVES REGUFE (os Figueiras).
GONÇALVES REGUFE / MARQUES, Francisco (os Chabões).
GRAÇA, Francisco Santos (os Fernandes).
LOPES GAVINA (os Vasques).
LOPES MACIEIRA (os do Rei).
LOPES MACIEIRA / LOURENÇO (os da Hora).
LOUREIRO, José (os Canetas).
MAIO, Francisco (os Fangueiros).
MANUEL (os Milhazes).
MARQUES DA MATA (os Chênas, os Mata e os Putões).
MARQUES DO COUTO (os Coutos).
MARQUES PINHÃO (os Graixas).
MARQUES PINTO (os Dabánas).
MARQUES, Francisco (os Nicolaus, os do Negócio, os da Rosa, os Rio d`Ave e os Torres).
MARQUES, Joaquim / BONITO DOS SANTOS (os Reinas).
MARQUES, Marcelino (os Turras).
MARTINS AREIAS (os Alagados, os Sérgios e os Farrecas).
MARTINS AREIAS / TERROSO, Antonio (os Duartes).
MARTINS DA NOVA (os Trunfos).
MARTINS DOS SANTOS (os Piolhos).
MARTINS LEITE (os Chibanías).
MARTINS MOREIRA (os Limas e os Vilelas).
MARTINS MOREIRA / MOITA, Francisco (os Serguilhas).
MARTINS NEVES (os Caças, os Loureiros, os Angeiras, os Izambas).
MARTINS, Bernardo (os São Braz, os do Vau)
MATA NOVO (os Mariquinhas).
MENDES GUIMARÃES (os Tinocos).
MILHAZES (os Balés).
MILHAZES, José (os do Sol).
MOITA, Francisco (os Sedas, os Salvadores e os Três Noites).
MONTE NOVO (os Pragas).
MOREIRA DE CASTRO (os Lianças, os Russos dos Caralhais, os da Trunfa).
MOREIRA MACIEL (os Pilotos).
MOREIRA MAIA (os Micharros).
MOREIRA RIBEIRO (os Sofias).
MORREIRA ALEXANDRE (os Bronzes e os Chicarros).
NEVES, Francisco (os Chaves, os Preus, os do Heitor, os Tremoceiros).
NEVES, Francisco / PEREIRA MARQUES (os Agulhas).
NOGUEIRA, Francisco / FANGUEIRO, Francisco (os Pataratas).
NOVA, José da / LOPES MACIEIRA (os Poças).
NOVA, Leocádio da (os Quadros).
NUNES (os da Benta).
NUNES DA SILVA (os Papilos).
NUNES, Domingos (os Ladinhos, os Patacos e os Vigueiras).
NUNES, Filipe (os Catritas).
NUNES, Francisco (os Aindas, os Valentes e os Zagarelhas).
PEDREIRA (os Tamancos).
PENTIEIROS, José (os da Venda).
PEREIRA CAMPOS (os Patas e os Sanas).
PEREIRA DA SILVA (os Larachas, os Mulatos, os Pimpões, os Quartilhos, os Bragas, os Baetas, os Canários, os Cáragos, os Caquês, os Landinhas e os da Reitora).
PEREIRA MARQUES (os Caramelhos, os Calçadas e os Piçorricos).
PEREIRA MARQUES / RIBEIRO PONTES (os Beb´Águas).
PEREIRA MARQUES / RODRIGUES MARQUES / TROCADO, Francisco (os Tambucos).
PEREIRA RAJÃO (os Vigos).
PEREIRA RAJÃO / CASANOVA (os Barruis).
PINHEIRO CADILHE (os Respeitos).
PINHEIRO, Francisco / RODRIGUES CÔCELO (os Cantinhas).
PIRES / GONÇALVES DA VINHA (os Cangueiros).
POSTIGA (os Locaias).
POSTIGA, Luis (os Chinelos, os Hábitos, os Léles, os Reis da Marta).
POSTIGA, Luis / BAPTISTA DA SILVA (os Saitas).
RAJÃO (os Rafaéis).
RAJÃO, António (os Mólinhos).
RAJÃO, Custódio (os Rélas).
RAJÃO, Félix / RODRIGUES MAIO (os Canejos).
RAJÃO, Francisco (os Vilas).
RAMOS, Filipe (os Esquecidos, os Jacós e os Mitras).
REGUFE / MARTINS DOS SANTOS (os Fogageiras).
REGUFE NOVO (os Ingrés).
RIBEIRO DA COSTA (os Chinchas).
RIBEIRO PONTES (os Côcas, os Lapa, os Lopes, os Nitos e os Pernas).
RIBEIRO PONTES / SILVA, Carlos da (os Caurrétes).
RIBEIRO PONTES / TERROSO NOVO (os Anjinhos).
RIBEIRO, Francisco (os Versos).
RODRIGUES CAMPOS (os Covas).
RODRIGUES DA CUNHA (os Tristes).
RODRIGUES DA SILVA (os Cavalheiras, os Facadas, os Chanchas, os Patuléia, os Sarrões).
RODRIGUES DA SILVA / MARQUES, Francisco (os Moiros).
RODRIGUES MAIO (os Cégo do Maio, os Cobiões, os Gieteiras, os Mourilhes, os Melros, os Negrinhos, os Sás, os Garrilhas e os Turras).
RODRIGUES MAIO / FANGUEIRO DA SILVA (os Maragatos).
RODRIGUES MAIO / GONÇALVES DE CASTRO (os Pitas).
RODRIGUES MAIO / NEVES, Francisco (os Soisas).
RODRIGUES MARQUES (os Risotes).
RODRIGUES MATEUS (os Grilas).
RODRIGUES PEREIRA (os Espadas e os Varandas).
SANTOS (os Andrés e os Belezas).
SANTOS CONSTANTINO (os Rosmaninhos).
SANTOS GRAÇA / CUNHA, Francisco (os Rigôres).
SANTOS JR., Francisco (os Cascarra da Pita).
SANTOS LOURENÇO (os Giras).
SANTOS PAROLEIRO (os Caga-Libras e os Elias).
SANTOS VIANA (os Janeiras).
SANTOS, Francisco dos / MARTINS AREIAS (os Canhotas).
SILVA BRAGA (os Cochêchas, os Fonas, os Laganças, os Piroqueiros, os Vilões e os Avanças).
SILVA FANGUEIRO (os Magáres).
SILVA LARANJA / RIBEIRO PONTES (os Cantadeiras).
SILVA MARQUES / SANTOS, José dos (os Padeiras).
SILVA NUNES (os Cotovias e os Potricos).
SILVA SENCADAS (os Liros).
SILVA, José da / GRAÇA, Francisco (os Parranas).
TEIXEIRA (os Pastôras).
TERROSO, Antonio (os Picos e os Ramos).
TROCADO (os Raças).
TROCADO, Francisco (os Melaços).
TROCADO, Luís / Francisco / Manuel (os Feras).

PARA A FOME DO LOBO E DO LEÃO: A "CULINÁRIA DO NÃO"


Na década de noventa (?) troquei correspondência com o grande etnógrafo pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001) sobre culinária, onde eu tentava responder a pergunta: há uma culinária cristã-nova brasileira?
Passaram-se os anos, eu já tinha esquecido o tema, mas provocado pela editora Carla Milano busquei entre os meus papéis este material e não os encontrei. Assim procurei reconstruir este trabalho com as anotações que sobreviveram num velha caderneta de campo.
Os cristãos-novos espanhóis e portugueses, descendentes dos judeus sefarditas (cujos animais totêmicos são o lobo e o leão) convertidos à força no século XV, vinham de uma tradição culinária que muitas vezes entrava em choque com a ibérica-católica. Ao entrar para o mundo cristão eles foram obrigados a esquecer este passado gastronômico e comer o que antes repudiavam, principalmente o porco. Como eles estavam sob a fiscalização do Santo Ofício (Inquisição) e vigiados pelos vizinhos, que podiam denunciá-los como judaizantes, eles faziam de tudo para escapar desta desconfiança, inclusive comer o proibido anteriormente em público.
No Rio de Janeiro colonial, o padre Manuel da Nóbrega (o segundo do nome) percebendo que era vítima dos boatos que o nomeavam como cristão-novo, para evitar a maledicência de sua paróquia, ele deu um banquete onde o convidado foi o Bispo e o prato principal, o delicioso ou repugnante (dependendo da tradição alimentar do comensal) suíno. Ninguém disse nada, mas todos os olhos fitavam o sacerdote, até que chegou o momento esperado. O padre Nóbrega pegou um naco da leitoazinha (...) mas não conseguiu engoli-la. Como era no Brasil, venceu a esculhambação: ele recebeu o apelido de “Arrevessa Toucinho” e assim entrou para a gastronomia nacional.
O tabu contra o porco alcançou o século XX. O poeta Aragão, descendente de uma destas famílias, escolhendo o prato é um exemplo disto:
“(...) Quando o criado lhe apresentou o cardápio, ele protestou: - Para que diabo é esse papelão? Quero lá sabê de iscuiê versidade de cumida! Traga o que tive! Traga a janta que eu como (...) Eu não sou biquero não. SÓ NÃO ME TRAGA COMIDA COM GORDURA DE PORCO, CARNE DE CAPADO, NEM CARNE DE CRIAÇÃO QUE É CARREGADO (meus grifos).(...)”. Conforme o relato de Mauro Motta (1911-1984).
Inventariando a cozinha deste grupo etnocultural percebe-se que eles não criaram novos pratos, com a exceção das alheiras trasmontanas á base da carne de vitelo e das aves domésticas, e os pães “asmos” (sem fermento) em Portugal. Não se criou nada, além disto. Estacionaram nas proibições bíblicas. Muitos ainda NÃO conhecem o sabor da puruca ou do toicinho. NÃO comem chouriço (por ironia há um prato mineiro chamado “judeu”, que é a galinha ao molho pardo). NÃO manducam o muçum ou o surubim, tanto que Augusto de Lima Junior (1889-1970), que estudou os costumes mineiros, encontrou durante a Colônia e o Império, a importação de muito bacalhau para a alimentação local, apesar de sua riqueza piscícola, a que ele atribui a influência cristã-nova nos hábitos alimentares da região. Outros NÃO misturam carne e leite. NÃO caçavam (que viam como atividade bárbara). É a “culinária do não”.

OS PRIMEIROS JUDEUS DE S. PAULO. UMA BREVE HISTÓRIA CONTADA ATRAVÉS DO CEMITÉRIO ISRAELITA DE VILA MARIANA




Os Primeiros Judeus de S. Paulo. Uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana.
De Paulo Valadares, Guilherme Faiguenboim e Niels Andreas.
Rio de Janeiro: Fraiha, 2009, 336 páginas.
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Pertenço a um grupo de genealogistas que estuda genealogia judaica desde os anos noventa. O nosso primeiro trabalho publicado foi o Dicionário Sefaradi de Sobrenomes (2003) foi premiado como o melhor livro de referência pela Association of Jewish Libraries (EUA).
Continuando o nosso trabalho buscamos algo mais concreto para a genealogia judaica paulistana. Para isto levantamos a bibliografia sobre o tema e percebemos que havia pouca informação sobre os troncos que deram origem às atuais famílias da comunidade judaica paulista.
Quem foram os pioneiros?
Surgiu uma questão metodológica: que fontes usar para esta pesquisa?
A dificuldade de encontrar nos documentos de imigração a entrada dos judeus no país, já que o étimo “judeu” não é uma nacionalidade expressa em passaporte e nem todos os documentos identificam a religião do seu portador, obrigou-nos a procurar outras fontes. Ora, como uma característica judaica, é sepultar os seus mortos em cemitérios próprios por que não ir ao cemitério judaico mais antigo na cidade? Chegamos assim ao Cemitério Israelita de Vila Mariana, inaugurado em 1923.
Novas questões surgiram:
Por que um cemitério israelita exatamente na Vila Mariana?
Porque somente neste ano eles construíram o cemitério se havia judeus em S. Paulo desde o final do século XIX?
Quem eram eles?
De onde tinham vindo?
Assim durante três anos, em todos os domingos permitidos pela religião judaica, pesquisamos esse cemitério. Levantamos a documentação relativa ao tema existente na Prefeitura e Câmara Municipal paulistana e pela Chevra Kadisha, sociedade mantenedora do CIVM. Pesquisamos a literatura já publicada sobre outros cemitérios, livros, artigos em jornais e revistas, teses acadêmicas e depois fizemos o trabalho de campo anotando e traduzindo (do hebraico ou do iídiche para o português) cada lápide do CIVM, que transformamos em verbete biográfico e Niels Andreas – autor de “Sinagogas do Brasil” (2005) - fotografou-as.