Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

VÁRZEA DA OVELHA: UMA ALDEIA BRANCA ATRÁS DO MAR


Vossas Excelências velam o Amigo João?” – perguntou o que parecia ser o chefe do grupo. Escuro, cabelos grudados na testa pelo suor e um incrível blusão de couro preto, incompatível com a sua idade. Soube-se depois que o seu nome era Ti Domingos e tinha uma oficina no Encantado. A malta não era muito diferente do mandão. Homens amourados, rostos duros e já com as coroas de frades nas cabeças. Seis ou sete cavalheiros muito diferentes da seleta platéia que velava o defunto. Um velhote que finara na tarde, cujos filhos eram mercadores anônimos pela cidade, os netos, professores e advogados relativamente conhecidos.
Eles souberam da morte do irmão feito no “Conte Grande” e vieram lhe dar a saideira. Relatavam as façanhas de sua mocidade:

O Amigo João montava bem. Quando ele perseguiu o tourinho do Senhor Morgado, derribou a fera pelo rabo, lá pela azinheira, mas arrebentou-se todo, rasgou parte de sua língua, quebrou-se lhe os ossos, porém segurou o bicho até os forcados chegarem”.

A medida que a madrugada ia avançando, a friagem ocupava a sala e dissolvia a geografia, todos voltavam a sua aldeia, que ali se tornava apenas uma só. Foi quando notou-se que um deles carregava uma guitarra. O Senhor Armandinho, porteiro de um hotel na Rua da Carioca, fez aparecer o canjirão de um vinhozito que ajudou a romper os protocolos. O Velho Luís com os olhos fechados dedilhava o instrumento e acordava o fado de todos; “a rês desgarrada pertence a quem?”.

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