Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O PAPEL ACEITA TUDO, MAS O AUTOR É RESPONSÁVEL


Pertenço a um gênero de portugueses / que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho (...)”, escreveu Fernando Pessoa (1888-1935) no poema “Opiário” e isto se aplica também a mim. Daí que encontrar uma segunda opção profissional, fiz-me historiador. Para isto, além de uma formação acadêmica, li e pesquisei, escrevi bastante e publiquei pouco. Historiador é aquele que escreve textos históricos. História vem do grego histos ou histeron, passado. Nós historiadores, nos colocamos como testemunhas do passado. Ocupamos esta posição, por que nem sempre os que participam como protagonistas ativos da história, conseguem perceber realmente o que está acontecendo.
Só como exemplo, retiro do Diário de Leonid Ilitch Brejnev (1906-1982), Secretário-Geral do PC da URSS a sua descrição do dia quatro de junho de 1977:

Não fui a nenhum lugar, não telefonei a ninguém e ninguém me telefonou. Lavaram-me a cabeça e me fizeram a barba”.

Há regras claras para se escrever História. Não usamos a criatividade como os romancistas e os poetas, criatividade para o historiador é encontrar novas fontes, além das já tradicionais e retirar delas o máximo de informações para a construção de seu texto. O historiador Jerry Dávila descobriu a exclusão dos professores negros na docência carioca ao analisar fotografias reunidas pela prefeitura local. Cuide de sua linguagem gramatical, escreva simples, sem rodeios ou neologismos. Seja o autor (responsável), mesmo com o risco da censura, escreva o que você concluiu e não o que está concluído pelos outros. Parece banal, mas confira as datas, a grafia correta dos nomes próprios e nunca use a frase alheia como sua, pois você estará sendo auditado por toda a vida, uma vez publicado o seu texto ele fará parte de você e você será sempre cobrado por seus erros e acertos.
A profissão de historiador é perigosa, e eu não penso no diabetes que acomete os sedentários, mas na reação de alguns leitores contrariados; o historiador argentino José Ignácio Garcia Hamilton, por ter afirmado que o general San Martín (1778-1850) era de origem indígena, foi espancado várias vezes e terminou violentado em Mendoza no ano 2000. Outras vezes o historiador não resiste a verdade encontrada, como a americana Iris Chang (1968-2004), que ao pesquisar o massacre japonês perpetrado em Nanking, atormentada pela descoberta macabra, suicidou-se. Mesmo com todos estes perigos nada se compara ao prazer de se ver autor de um texto, que o levará sempre para um futuro desconhecido, neste processo de restauração do mundo (tikkun olam).

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