Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

sábado, 26 de dezembro de 2009

LEMBRANÇAS DO LADRÃO MORTO




No ano de 2006 voltei a dias mais recuados de minha vida. A primeira incursão para este passado foi concreta. Estive no primeiro endereço que eu vagamente recordava e depois graças a um livro recém-adquirido, “Cidades dos vivos: arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do Estado de S. Paulo” (S. Paulo, Anablume, 2002), de Renato Cymbalista, lembrei-me de um personagem cuja morte marcou-me bastante à época, final da década de sessenta do século passado.
Quando um amigo, aliás, quem me ensinou a fazer este blog, o historiador Ângelo Emílio da Silva Pessoa tornou-se professor na UFMS – hoje ele está na UFPB. Outro amigo, Edson Joaquim Santos e eu fomos a sua posse em Nova Andradina (MS). Na volta passamos em Jafa, interior paulista, meu primeiro endereço quando criança. Ali ainda resistem as velhas casas de tábuas, onde morei numa delas. Foi lá que peguei uma coral com as mãos nuas e mostrei para a minha mãe o “bicho” capturado. Eu só conhecia serpentes na Bíblia (que não era ilustrada). Foi lá também que tive um coelho branco de olhos vermelhos, devorador de incontáveis molhos de capim marmelo orvalhados. Ele foi o responsável pela imagem misteriosa de nossa família, pois um vizinho, sem saber quem fazia barulho durante as noites, já que o coelho corria em volta das paredes, espalhou que recebíamos o “demo” todas as noites em casa. De Jafa nos mudamos para as proximidades, um sítio ermo em Garça, onde cuidávamos de gado vacum e vivi o segundo episódio gerado neste relato.

No livro mencionado lá atrás, na página 190 há uma rápida menção “um morto venerado de Marília”, o ladrão Pé –de-Veludo (Guaracy Marques Pinto. Soube o seu nome verdadeiro pelo livro), sepultado no cemitério local. Só isto está escrito no livro, mas foi a madeleine que me levou ao passado evocado.
Era uma tarde indistinguível de outras, quando ouvimos muitos tiros de armas de fogo, que parecia vir de um taboal a oeste de casa. Soubemos depois ter sido a execução deste ladrão pela polícia mariliense. Educado pela Bíblia, ao saber do episódio, atemorizado entrei em prostração e crise espiritual. Como estes homens que representavam a Lei e nos representavam, violavam o mandamento bíblico: LO TIRTSACH (Não assassine)? Eu também não seria responsável por esta morte? Como eu responderia a pergunta: “onde está Abel, teu irmão?
Passaram-se os anos, troquei tanto de cenários e camisas, que hoje vejo o menino Papa, meu nome na época e o seu espanto ao sair do mundo familiar como outra pessoa. Quantas pessoas seremos até o Fim dos Tempos? A pergunta refere-se não apenas ao nosso fim corpóreo, mas também a visão que os outros no futuro terão de nós. “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoeta / As sensações renascem de si mesmos sem repouso (...)”, escreveu Mário de Andrade (1893-1945). Concordo.

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