Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

BRIZOLA DÁ ADEUS AO RIO DE JANEIRO


Não tenho diário. Mas ainda me lembro de algumas coisas que vi durante o ano de 2004. Uma delas foi a última viagem do engenheiro Leonel de Moura Brizola (1922-2004) para a sua querência no Sul (23/06). Dia claro e limpo na verdadeira capital brasileira. O povo velou o seu caudilho durante toda a noite. Na manhã começou a viagem. Saiu do palácio, visitou um CIEP e começou lentamente atravessar a cidade, indo da Zona Sul para o Castelo. Nas sacadas, velhinhas acenavam com os lenços para o último adeus. A bandeira nacional praticamente em tudo – em broches, de papel e na versão oficial em tecido. Paulistas estranhavam alguns versos do Hino Nacional. Na sala envidraçada do SBRJ (Aeroporto Santos Dumont em linguagem aeronáutica) onde estamos, a cada minuto, vai se protelando a chegada. Ele chega as dez, não, as onze, antes do meio dia nem pensar... repórteres, repórteres, a mocinha da Globo se desespera em sotaque mineiro, a alemã da RBS come um lanche, outros continuam na faina. Bete Carvalho fala de sua ligação com o morto. Um ou dois caciques pedetistas de paletó e gravata ficam incomodados por não serem reconhecidos por ninguém (principalmente pelos repórteres). Os pedetistas da base nem estão aí. Os olhos avermelhados, punhos fechados, estão em transe. “Guerreiro Brizola, guerreiro Brizola, guerreiro Brizola”. Gritam & choram. Chegou o caudilho, ninguém se entende mais, todos gritam. O ambiente é uma mistura de umbanda e sebastianismo. O prefixo do aviãozinho branco fica visível; PT-LJK. Os pedetistas reclamam do azar. Carregar as iniciais dos inimigos é literalmente um castigo dos céus. Ele abandona o estacionamento, toma a pista, sai da posição da Barcas e na direção do pão de açúcar, toma altura para nunca mais ... Agora a sala é como um naufrágio, todos aqueles personagens machadianos estão sem fôlego e saem dela para finalmente se afogarem no mar do cotidiano. Logo em frente da Rua Primeiro de Março (antiga Direita) um camelô vende limonada a cinqüenta centavos.

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