Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

GENEALOGIA CRISTÃ-NOVA (I): ALEJANDRO MARIA AGUADO



O antropólogo espanhol Julio Caro Baroja (1914-1995) em “Los judíos en la España Moderna y Contemporánea”, III (Madrid: Istmo, 1986) reservou um capítulo para descrever a ação dos descendentes de cristãos-novos durante o século XIX. Escolheu os mais visíveis, mas se detém em dois deles, o financista Aguado e o político Mendizábal.
No texto “Figuras judias: El banquero Aguado” (pp. 196-9) ele traçou o perfil biográfico deste financista espanhol que foi banqueiro de Fernando VII (1734-1833) e amigo do general argentino San Martín (1778-1850). O autor repete o que era voz corrente no seu tempo – ele era de origem judaica e a sua entrada na aristocracia deveu-se a imensa fortuna amealhada pelos seus ancestrais na América.
No livro de Julio Caro Baroja não há a genealogia do banqueiro Aguado. Como tenho algumas informações genealógicas sobre ele resolvi começar esta seção genealógica publicando apenas a sua árvore de costado. Sem interpretações – elas virão ao seu tempo.

1. ALEJANDRO MARÍA AGUADO Y REMIREZ DE ESTENOZ, ANGULO Y HERRERA, Marquês de las Marismas del Guadalquivir, nasceu em Sevilla e m. em Gijón (29/06/1784 – 14/04/1842).


PAIS:
2. ALEJANDRO IGNACIO AGUADO Y ANGULO, 2º Conde de Montelírios e Visconde de Casa Aguado, nasceu em Cádiz (27/02/1754). Comerciante.
3. MARIA DE LA LUZ ANA REMÍREZ DE ESTENOZ Y HERRERA, nasceu em Caracas (24/11/1757).


AVÓS:
4. ANTONIO AGUADO Y DELGADO, 1º Conde de Montelírios, nasceu em Corella, Navarra (27/04/1714). Comerciante. Fortuna na América.
5. SEBASTIANA JOSEFA ANGULO DE LA PAZ Y BRAVO, nasceu em Havana (31/01/1727).
6. FELIPE REMÍREZ DE ESTENOZ Y SOTO, Capitão-mór de Caracas, nasceu em Melazo, Sicilia (29/05/1704).
7. TOMASA MARÍA DE HERRERA Y CHACÓN nasceu em Havana (01/07/1730).


BISAVÓS:
8. ANTONIO AGUADO, natural de Corella, Navarro – filho de Juan Aguado e Vicenta Sanz. Ele descenderia do casal Andrés González, natural de Quiroga e Dominga Alvarez Aguado, natural de Valdemagraz. Nas Justificações eles afirmam que os documentos foram perdidos nas invasões estrangeiras.
9. ANTONIA DELGADO – filha de Juan Delgado e María López.
10. DOMINGO JOSÉ ANGULO Y AJIAR, natural de Havana, advogado e consultor da Inquisição.
11. ANA DE LA PAZ Y BRAVO – filho de Diego Santiago de La Paz e Dorotea Bravo.
12. FRANCISCO REMIREZ DE ESTENOZ, nasceu em Estella, Navarra – filho de Gaspar e Sebastiana Remírez.
13. FLORA DEL SOTO Y PANTOJA – filha de Silvestre e Mencia Del Soto, natural de Palermo.
14. GONZALO LUÍS GERMÁN DE HERRERA Y BERRIO, Marquês de Villalba, natural de Cartagena de Indias (21/01/1704) – filho de Martín Francisco de Herrera e Mariana Estefania de Berrio y Quero. Grande proprietário rural em Cuba.
15. MARÍA CATARINA CHACÓN Y TORRES nasceu em Havana (25/08/1704).

sábado, 26 de dezembro de 2009

VOCÊ VOTA EM MIM PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA?


Encontrei-me inesperadamente com ele na Praça Tiradentes, no centro do Rio, quando caminhava para tomar o metrô na Estação Carioca e acompanhar o lançamento do precioso livro para os cinéfilos: “As Grandes Personagens da História do Cinema Brasileiro, 1970-1979” (Rio de Janeiro: Fraiha, 2006), volume 3, 200 páginas, de Eduardo Giffoni Florido e Flávio Leandro de Souza. Após os rituais de reconhecimento mútuo, ele disparou a pergunta:
- “Você vota em para Presidente da República (portuguesa)?
Repetiu por mais três vezes a mesma pergunta, ansioso pela resposta, como esta lhe pudesse salvar a vida. Eu lhe pedi a sua plataforma política e recebi um texto de sua lavra, misto de convite para churrasco (que não aconteceu) e anotação sobre o cotidiano fluminense, sem aparente ligação com Portugal.
Eis um pouco deste manifesto:
“(...) Dêem 150% de aumento aos meus queridos senhores polícias (sic) ... este aumento não sairá dos cofres públicos...tenho um projeto da minha protetora Santa Edwiges para resolver este problema”. “Meus queridos fazendeiros ... me mandem um boi vivo para mim, para que eu possa fazer um churrasco em todas as favelas do Rio”. “Prefeita Aparecida Parrincê, por favor, renuncie para o bem do meu querido povo de S. Gonçalo, já vai tarde, vá lavar roupa que talvez o faça com mais prazer (...)’.
E aí prossegue a sua preocupação com os problemas comunitários. Despedi-me de JOSÉ ALVES DE MOURA, natural de Rio Tinto em Portugal, conhecido como “Beijoqueiro” (por beijar personalidades masculinas na década de oitenta), sem dizer nem que sim, nem que não. Mesmo assim ele deu-me o último recado;
-“Patrício, fale na Terra que não sou veado. Eu gosto mesmo é de mulher”.
Da fantasia da vida segui para a fantasia do cinema – no SESC FLAMENGO. Fui ao lançamento do livro mencionado, que foi precedido da exibição do belíssimo filme “Marcelinho Zona Sul” (1969). Percebi que o filme não envelheceu, o personagem é um pícaro, da mesma linhagem de João Grilo. O livro pertence a uma coleção dirigida pelo produtor Leonardo Esteves. São 84 personagens escolhidos sem nenhum preconceito entre atores e atrizes, diretores, produtores, enfim, gente do cinema. Ele vai de Adriana Prieto a Zezé Motta. Assim pude rever no papel a tímida Isabel Ribeiro (1941-1990) que conheci em Jundiaí. É um álbum luxuoso, papel de primeira qualidade e belas fotografias, com um texto generoso sobre a carreira cinematográfica de cada personagem. É recomendado aos estudiosos da cultura brasileira e quem deseja fruir o prazer de rever o nosso cinema. Por eu ter sido visto conversando com alguns cineastas de prestígio, uma coadjuvante em novelas da Globo que me “reconheceu” (sic) como de sua direção,fez-me distribuir cartões com o meu endereço matuto. Resultado: já recebi o primeiro currículo de uma aspirante a fama.

LEMBRANÇAS DO LADRÃO MORTO




No ano de 2006 voltei a dias mais recuados de minha vida. A primeira incursão para este passado foi concreta. Estive no primeiro endereço que eu vagamente recordava e depois graças a um livro recém-adquirido, “Cidades dos vivos: arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do Estado de S. Paulo” (S. Paulo, Anablume, 2002), de Renato Cymbalista, lembrei-me de um personagem cuja morte marcou-me bastante à época, final da década de sessenta do século passado.
Quando um amigo, aliás, quem me ensinou a fazer este blog, o historiador Ângelo Emílio da Silva Pessoa tornou-se professor na UFMS – hoje ele está na UFPB. Outro amigo, Edson Joaquim Santos e eu fomos a sua posse em Nova Andradina (MS). Na volta passamos em Jafa, interior paulista, meu primeiro endereço quando criança. Ali ainda resistem as velhas casas de tábuas, onde morei numa delas. Foi lá que peguei uma coral com as mãos nuas e mostrei para a minha mãe o “bicho” capturado. Eu só conhecia serpentes na Bíblia (que não era ilustrada). Foi lá também que tive um coelho branco de olhos vermelhos, devorador de incontáveis molhos de capim marmelo orvalhados. Ele foi o responsável pela imagem misteriosa de nossa família, pois um vizinho, sem saber quem fazia barulho durante as noites, já que o coelho corria em volta das paredes, espalhou que recebíamos o “demo” todas as noites em casa. De Jafa nos mudamos para as proximidades, um sítio ermo em Garça, onde cuidávamos de gado vacum e vivi o segundo episódio gerado neste relato.

No livro mencionado lá atrás, na página 190 há uma rápida menção “um morto venerado de Marília”, o ladrão Pé –de-Veludo (Guaracy Marques Pinto. Soube o seu nome verdadeiro pelo livro), sepultado no cemitério local. Só isto está escrito no livro, mas foi a madeleine que me levou ao passado evocado.
Era uma tarde indistinguível de outras, quando ouvimos muitos tiros de armas de fogo, que parecia vir de um taboal a oeste de casa. Soubemos depois ter sido a execução deste ladrão pela polícia mariliense. Educado pela Bíblia, ao saber do episódio, atemorizado entrei em prostração e crise espiritual. Como estes homens que representavam a Lei e nos representavam, violavam o mandamento bíblico: LO TIRTSACH (Não assassine)? Eu também não seria responsável por esta morte? Como eu responderia a pergunta: “onde está Abel, teu irmão?
Passaram-se os anos, troquei tanto de cenários e camisas, que hoje vejo o menino Papa, meu nome na época e o seu espanto ao sair do mundo familiar como outra pessoa. Quantas pessoas seremos até o Fim dos Tempos? A pergunta refere-se não apenas ao nosso fim corpóreo, mas também a visão que os outros no futuro terão de nós. “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoeta / As sensações renascem de si mesmos sem repouso (...)”, escreveu Mário de Andrade (1893-1945). Concordo.

"DOENÇA DE MACHADO-JOSEPH": O TAY-SACHS CRISTÃO-NOVO ?

Há várias doenças transmitidas de forma hereditária e algumas atingem basicamente apenas um determinado grupo humano ou etnia. Entre os judeus há o caso da “doença de Tay-Sachs (TSD)” (Amaurotic Familial Idiocy), identificada por Warren Tay (1843-1927) e Bernard Sachs (1858-1944). No final do século XIX. A doença causa cegueira e paralisia, mata os seus portadores no terceiro ou quarto ano de vida e, em 90% dos casos ocorre em famílias ashkenazim, originárias de Grodno, Suwalki, Vilna e Kaunas. Entre os cristãos-novos de origem portuguesa há uma doença semelhante. Trata-se da “Doença de Machado-Joseph”, cujos pesquisadores já rotulam como difundida neste grupo étnico.
A “doença de Machado-Joseph (MJD)” leva o nome de duas famílias açorianas radicadas nos EUA atingidas por este mal. Ela foi descrita pela primeira vez em 1972, na família Machado, oriunda da Ilha de S. Miguel e moradora em Massachusetts. Quatro anos mais tarde, encontraram-se os mesmos sintomas na família Joseph, o que levou os pesquisadores a denominar esta doença de forma composta, substituindo o antigo nome de “doença açoriana” (sic).
A MJD é uma doença degenerativa do sistema nervoso central, transmitida geneticamente e de modo autossômico dominante, que se manifesta nos pacientes entre os trinta e quarenta anos. O quadro clínico é de ataxia (descoordenação motora), dificuldade na articulação da fala e alterações na visão. Ela leva da cadeira de rodas a morte em uma dezena de anos.
O cientista português Jorge Siqueiros, da Universidade do Porto, que começou a investigar esta doença após estudar as genealogias de seus pacientes, formulou algumas conjecturas sobre a origem da MJD. Baseado na grande incidência desta moléstia entre açorianos e seus descendentes, e na distante origem trasmontana e beiroa das famílias atingidas e em outras características sociais, como profissão, aparência física, onomástica e até uma confissão de criptojudaísmo, reconheceu nela um marcador genético de migrações cristãs-novas, mas não a considerou uma doença étnica. Isto porque ela teria surgido no “marrano country” (região fronteiriça a Espanha e povoada por descendentes dos judeus convertidos no séc. XV) e se propagado pelo mundo, mas não se restringiu apenas ao grupo cristão-novo. Curiosamente, identificou-se um paciente judeu iemenita, sem ascendência ibérica, de sobrenome Yoseph, originário da aldeia de Ta´izz, sofrendo de MJD.
A família mais conhecida das duas que deram o nome a doença e a que possui as características listas por Sequeiros, é a família Joseph, originária de santa Cruz, na Ilha das Flores. O seu patriarca foi ANTÓNIO JACINTO BASTIANA (1815-1870), que emigrou para os EUA num baleeiro, onde abandonou o navio em San Francisco. Sob o nome de Antone (sic) Joseph ele tomou parte na “corrida do ouro”, deixando naquele país descendência estimada em seiscentas almas. O seu sobrenome original não devia ser Bastiana – um matronímico tirado de sua bisavó paterna, Sebastiana Pimentel, mas Valadares, de seu trisavó na linha masculina, Francisco Valadares (casado com Maria Furtado).
Sheri Bashor, de Montagne (Califórnia), quarta neta do patriarca António Jacinto Bastiana (Antone Joseph para os americanos), é uma militante na investigação sobre a cura e a origem desta doença. Ela possui razões fortes para isto, pois perdeu o pai e hoje uma de suas irmãs sofre de MJD. Dedicando-se a esta causa ela administra a INTERNACIONAL JOSEPH DISEASES FOUNDATION (IJDF), que possui um sítio na WEB para a divulgação da “doença de Machado-Joseph” (http://www.shasta.com/bastiana/). Desta forma ela visa reunir mais informações sobre este mal, chegando até a sua cura e erradicação.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

BRIZOLA DÁ ADEUS AO RIO DE JANEIRO


Não tenho diário. Mas ainda me lembro de algumas coisas que vi durante o ano de 2004. Uma delas foi a última viagem do engenheiro Leonel de Moura Brizola (1922-2004) para a sua querência no Sul (23/06). Dia claro e limpo na verdadeira capital brasileira. O povo velou o seu caudilho durante toda a noite. Na manhã começou a viagem. Saiu do palácio, visitou um CIEP e começou lentamente atravessar a cidade, indo da Zona Sul para o Castelo. Nas sacadas, velhinhas acenavam com os lenços para o último adeus. A bandeira nacional praticamente em tudo – em broches, de papel e na versão oficial em tecido. Paulistas estranhavam alguns versos do Hino Nacional. Na sala envidraçada do SBRJ (Aeroporto Santos Dumont em linguagem aeronáutica) onde estamos, a cada minuto, vai se protelando a chegada. Ele chega as dez, não, as onze, antes do meio dia nem pensar... repórteres, repórteres, a mocinha da Globo se desespera em sotaque mineiro, a alemã da RBS come um lanche, outros continuam na faina. Bete Carvalho fala de sua ligação com o morto. Um ou dois caciques pedetistas de paletó e gravata ficam incomodados por não serem reconhecidos por ninguém (principalmente pelos repórteres). Os pedetistas da base nem estão aí. Os olhos avermelhados, punhos fechados, estão em transe. “Guerreiro Brizola, guerreiro Brizola, guerreiro Brizola”. Gritam & choram. Chegou o caudilho, ninguém se entende mais, todos gritam. O ambiente é uma mistura de umbanda e sebastianismo. O prefixo do aviãozinho branco fica visível; PT-LJK. Os pedetistas reclamam do azar. Carregar as iniciais dos inimigos é literalmente um castigo dos céus. Ele abandona o estacionamento, toma a pista, sai da posição da Barcas e na direção do pão de açúcar, toma altura para nunca mais ... Agora a sala é como um naufrágio, todos aqueles personagens machadianos estão sem fôlego e saem dela para finalmente se afogarem no mar do cotidiano. Logo em frente da Rua Primeiro de Março (antiga Direita) um camelô vende limonada a cinqüenta centavos.

O PAPEL ACEITA TUDO, MAS O AUTOR É RESPONSÁVEL


Pertenço a um gênero de portugueses / que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho (...)”, escreveu Fernando Pessoa (1888-1935) no poema “Opiário” e isto se aplica também a mim. Daí que encontrar uma segunda opção profissional, fiz-me historiador. Para isto, além de uma formação acadêmica, li e pesquisei, escrevi bastante e publiquei pouco. Historiador é aquele que escreve textos históricos. História vem do grego histos ou histeron, passado. Nós historiadores, nos colocamos como testemunhas do passado. Ocupamos esta posição, por que nem sempre os que participam como protagonistas ativos da história, conseguem perceber realmente o que está acontecendo.
Só como exemplo, retiro do Diário de Leonid Ilitch Brejnev (1906-1982), Secretário-Geral do PC da URSS a sua descrição do dia quatro de junho de 1977:

Não fui a nenhum lugar, não telefonei a ninguém e ninguém me telefonou. Lavaram-me a cabeça e me fizeram a barba”.

Há regras claras para se escrever História. Não usamos a criatividade como os romancistas e os poetas, criatividade para o historiador é encontrar novas fontes, além das já tradicionais e retirar delas o máximo de informações para a construção de seu texto. O historiador Jerry Dávila descobriu a exclusão dos professores negros na docência carioca ao analisar fotografias reunidas pela prefeitura local. Cuide de sua linguagem gramatical, escreva simples, sem rodeios ou neologismos. Seja o autor (responsável), mesmo com o risco da censura, escreva o que você concluiu e não o que está concluído pelos outros. Parece banal, mas confira as datas, a grafia correta dos nomes próprios e nunca use a frase alheia como sua, pois você estará sendo auditado por toda a vida, uma vez publicado o seu texto ele fará parte de você e você será sempre cobrado por seus erros e acertos.
A profissão de historiador é perigosa, e eu não penso no diabetes que acomete os sedentários, mas na reação de alguns leitores contrariados; o historiador argentino José Ignácio Garcia Hamilton, por ter afirmado que o general San Martín (1778-1850) era de origem indígena, foi espancado várias vezes e terminou violentado em Mendoza no ano 2000. Outras vezes o historiador não resiste a verdade encontrada, como a americana Iris Chang (1968-2004), que ao pesquisar o massacre japonês perpetrado em Nanking, atormentada pela descoberta macabra, suicidou-se. Mesmo com todos estes perigos nada se compara ao prazer de se ver autor de um texto, que o levará sempre para um futuro desconhecido, neste processo de restauração do mundo (tikkun olam).

'OH RAYAH (OH EMIGRANTE) / AONDE VOCÊ VAI / SE UM DIA TERÁ DE VOLTAR ..."


Música árabe se gosta ou detesta. Não há meio termo. Eu gosto e tenho ouvido bastante nos últimos dias. É o suficiente para eu destacar uma grande canção desta origem, tanto pela sua beleza e crueza do poema e o significado dela para os emigrantes. Ela se chama “Ya Rayah” e foi composta pelo argelino Dahmane El Harrach (Abdelrrahamane Amrani, 1925-1980), o filho do muezim (cantor) da Grande Mesquita da Argélia. Um chauí (nome de sua tribo) que emigrou para a França em 1949. O seu desencanto com a esta experiência inspirou-lhe a canção, que desde que foi composta é cantada pelos principais cantores árabes na diáspora européia, gravada por judeus, como Enrico Macias, ou, muçulmanos como Rachid Taha. A dor da perda da terra natal é igual para todos.
Ela se enquadra no gênero chaabi (popular) do Maghreb (Poente). Apesar de sua origem árabe ela possui elementos ocidentais. Tem algo de andaluz e transmite uma mensagem moral. Normalmente é executada por um cantor e uma orquestra, com destaque para as cordas, violinos, alaúdes, rabab (uma espécie de cavaquinho) e o quanun (espécie de harpa deitada nos joelhos). A abertura da música é feita longamente por um taqsim (banjo) e depois entra o cantor. Não se deve estranhar a longa apresentação. É uma forma de valorizar a orquestra e introduzir o ouvinte musical do cantor. A canção clássica “Inte Omri” (Você é minha vida), cantada pela egípcia Oum Kalthoum (1904-1975) tem sete minutos de introdução. Isto serve para prepará-lo para o poema cantado, com as sílabas tônicas finais.
Em nosso caso, também é assim:
Ya rayah win msafar trouh taaya wa twali / Chhal nadmou laabad El ghaflin qablak ou qabli (bis) / Oh emigrante, / aonde você vai / se um dia terá de voltar / quanta gente se lamentou antes de você e eu / quantas cidades anônimas e quantos desertos você já viu? / quanto tempo você já perdeu? / quanto você ainda vai perder ? / Oh emigrante no país que é dos outros / sabes o que está passando aqui e ali ? / o destino e o tempo seguem os seus cursos, mas você ignora / por que você está tão triste ? / Por que te sentes tão miserável ? / esgotarás os teus dias sem haver aprendido nada / os dias se vão com a nossa juventude / Oh pobre que desperdiçou a sua oportunidade, como eu desperdicei a minha / Oh viajante te dou um conselho, que deves seguir hoje mesmo / estuda o que convém, antes de vender ou comprar / Oh sonhador, chegou notícias tuas e o que lhe passou, ocorreu também a mim / Assim regressará a sua alma ao Criador”.

Quem desejar ouvi-la, pode se recorrer ao Youtube, na interpretação do autor:
http://www.youtube.com/watch?v=9j0L57HJkm4.

Desculpe as imperfeições desta tradução (traição). Só desejei introduzi-lo neste rico universo musical desconhecido para muitos.

VÁRZEA DA OVELHA: UMA ALDEIA BRANCA ATRÁS DO MAR


Vossas Excelências velam o Amigo João?” – perguntou o que parecia ser o chefe do grupo. Escuro, cabelos grudados na testa pelo suor e um incrível blusão de couro preto, incompatível com a sua idade. Soube-se depois que o seu nome era Ti Domingos e tinha uma oficina no Encantado. A malta não era muito diferente do mandão. Homens amourados, rostos duros e já com as coroas de frades nas cabeças. Seis ou sete cavalheiros muito diferentes da seleta platéia que velava o defunto. Um velhote que finara na tarde, cujos filhos eram mercadores anônimos pela cidade, os netos, professores e advogados relativamente conhecidos.
Eles souberam da morte do irmão feito no “Conte Grande” e vieram lhe dar a saideira. Relatavam as façanhas de sua mocidade:

O Amigo João montava bem. Quando ele perseguiu o tourinho do Senhor Morgado, derribou a fera pelo rabo, lá pela azinheira, mas arrebentou-se todo, rasgou parte de sua língua, quebrou-se lhe os ossos, porém segurou o bicho até os forcados chegarem”.

A medida que a madrugada ia avançando, a friagem ocupava a sala e dissolvia a geografia, todos voltavam a sua aldeia, que ali se tornava apenas uma só. Foi quando notou-se que um deles carregava uma guitarra. O Senhor Armandinho, porteiro de um hotel na Rua da Carioca, fez aparecer o canjirão de um vinhozito que ajudou a romper os protocolos. O Velho Luís com os olhos fechados dedilhava o instrumento e acordava o fado de todos; “a rês desgarrada pertence a quem?”.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

UM "PORTUGA" NA SELEÇÃO BRASILEIRA: CASEMIRO AMARAL





O primeiro jogo de futebol com regras oficiais no Brasil foi em 1895, mas com a difusão do esporte, não demorou-se muito, pois já em 1914 reuniu-se a primeira Seleção Brasileira de Futebol. Hoje ela é a mais bem sucedida instituição nacional, reconhecida no país e no exterior, por seus resultados e principalmente por sua identidade construída nestes anos todos, o que significou, entre outras coisas, a exclusão de estrangeiros em seus quadros.
Já passou das centenas o número de jogadores que vestiram a camisa amarela da seleção brasileira. Deles, apenas o avançado Sidney Pullen (1895 - ?), nascido na Inglaterra e o guarda-redes Casemiro do Amaral, nascido em Lisboa, convocados nos anos de formação desta esquadra.
Casemiro do Amaral nasceu em Lisboa e morreu em S. Paulo (14/09/1892 – 08/10/1939). Ele jogou durante o amadorismo. Foi guarda-redes em quatro clubes brasileiros. Com certeza ele chegou criança por aqui. Começou no América carioca em 1911, no ano seguinte passou ao Germânia em S. Paulo, foi para o Corinthians em 1913 onde encerrou a carreira em 1920. Entre 1915 e 1917, depois de brigar no Corinthians, defendeu o Mackenzie. Neste período foi convocado para a Seleção Brasileira.
Na seleção ele jogou seis partidas (1 vitória, 1 empate e 4 derrotas). Disputou dois campeonatos sul-americanos. O primeiro disputado em Buenos Aires: Brasil 1 x Argentina 1 (10/07/1916) e Brasil 1 x Uruguai 2 (12/07/1916). O segundo em Montevidéu: Brasil 2 x Argentina 4 (03/10/1917), Brasil 0 x Uruguai 4 (07/10/1917), Brasil 5 x Chile 0 (12/10/1917) e Brasil 1 x Uruguai 3 (16/10/1917). Nestes jogos ele substituiu o aristocrático Marcos Claudio Philippe Carneiro de Mendonça (1894-1988), que se tornaria um historiador especialista no período pombalino.
Não se sabe mais de Casemiro do Amaral. Ele é o terceiro em pé na foto. Tem se a data de sua morte precoce e mais nada.